16 maio 2010

Discreta Serenata Rural: REMÉDIO SANTO

Acordou com a campainha da porta a ser premida com insistência. Ao abrir os olhos percebeu de imediato do que se tratava pelos jactos de luz azul que, intermitentemente, eram projectados no tecto através dos interstícios nas persianas.
A seu lado, alertada pelo choro que se iniciara no quarto ao lado, a mulher, ainda de olhos cerrados, gemeu estremunhada:
“Que foi, quem toca assim...? A Teresinha está a chorar...”
“Deixa, é a GNR; é para mim. Deixa-te ficar, eu vou à menina...”
Sem acender a luz, vestiu-se à pressa; depois entreabriu a janela e acenou para baixo, a avisar que estava em marcha. Correu ao quarto ao lado. A filha, sentada na cama, choramingava no escuro. Sentou-se na borda e abraçou-a. Ela quis saber o que se estava a passar, aquele barulho todo.
“São os senhores da ambulância, querida, é para o papá... Vá, dorme.”
Perguntou ainda se era um menino que tinha ficado doente por ter comido sobremesa a mais.
“Não, Teresinha, não é um menino, a esta hora os meninos estão todos a dormir nas suas caminhas. Deve ser algum senhor grande que está muito doente. Vá, dorme.”
No armário da entrada tirou a bolsa onde guardava a lanterna, o espelho de bolso, as pinças dentadas e as luvas cirúrgicas; desceu as escadas duas a duas e, antes de se aventurar no exterior, entalou o cachecol no pescoço e olhou o relógio. Eram 6.35 e estava noite cerrada. Novembro, o mês mais cruel.
No pátio de acesso à entrada do prédio o jipe da GNR gorgolejava, paciente, o farol do tejadilho desferindo golpes de luz azul pelas paredes e pelos álamos que hibernavam na madrugada. Uma porta abriu-se para ele entrar.
O comandante da GNR arrancou e em abençoado silêncio para o seu estado estremunhado, guiou sem tugir até ao lado de lá do tabuleiro da ponte sobre o Tâmega. Depois, como se tivessem entrado noutro país ou noutra era, disparou:
“Pois é, senhor doutor, lá se foi mais um...”
O delegado de saúde encolheu-se contra o assento. A leste começava a clarear e esquadrões de névoa despejavam-se das montanhas. Perguntou:
“O que é desta vez?”
O comandante da GNR não respondeu logo, apresentou-lhe o passageiro que seguia no banco de trás, sentado ao lado do cabo Pimentel:
“Acho que já conhece o Sr. Valadares, o regedor de Canedo. Veio por aí abaixo no jipe da guarda-florestal, saiu de lá às três da manhã e volta connosco, coitado... 
“O caminho está mau, caiu um nevão ontem ao anoitecer...”, explicou o Sr. Valadares como se pedisse desculpa pelos incómodos  causados pela sua freguesia.
O comandante da GNR ignorou o comentário, voltou ao assunto principal:
“Uma mulher, sessenta-e-três-anos. O marido deu com ela quando chegou a casa, da tasca. Diz ele que estendida na cama, morta, e com ar de quem passou os derradeiros momentos num sofrimento... Segundo aqui o Valadares, parece que o povo já anda por lá a dizer que fora ele que a matara, que na véspera lhe dera uma valente zurzidela com uma tranca.
A hipótese de homicídio passou, fugaz e dolorosa, pela mente do delegado de saúde.
“E por que razão ele lhe daria a coça? Ou era costume?”
“Dizem por lá, ao que parece, que eles ontem à noite tiveram uma discussão, coisa brava, por causa da mãe dele. Ele dá-se muito com a mãe, uma velha tesa, e parece que a velha não apreciava a nora... Ouve-se que a velha lhe fazia a vida negra...”
E caíram em silêncio. Tinham passado Santo Aleixo de Além Tâmega, a estrada asfaltada acabara abruptamente e o comandante da GNR guiava em total concentração, adaptando-se ao novo terreno, aos solavancos e aos barrancos da estrada florestal, uma estreita língua de saibro, cheia de covas e de pedregulhos, que todos os anos era refeita no Verão e desfeita pelo Inverno.
“Já ali arrombei o carter uma vez”, recordou o comandante da GNR apontando o queixo para a curva que se aproximava subindo e descendo do lado de lá do vidro da frente do jipe.
Canedo era a freguesia mais a norte do concelho. Uns escassos 20 km a separavam da sede do concelho, mas percorrê-los demorava mais de duas horas e só carros de bois ou jipes se aventuravam naquela estrada, pouco mais do que um trilho de cabras, serpeando entre pinheirais intocados e flancos de serrania.
O delegado de saúde já por lá estivera duas ou três vezes, a acompanhar a equipa de vacinação ou em visita à extensão do centro de saúde que ali estava a ser construída. Um buraco, era como ir a lugar nenhum! Cada vez que passava por ali sentia-se tentado a dar razão ao Agostinho, o técnico sanitário, que sempre costumava dizer quando se deslocavam a lugarejos semelhantes:
“Mas como é que há gente que lhe passa pela cabeça construir e viver em tal sitio?! Gente atrasada, porra!”
Olhou o relógio. Oito e dez da manhã e ele em jejum absoluto. Se a viagem ia demorar tanto como a do regedor só lá chegariam por volta das 9:30... Limpou o vidro embaciado com o cotovelo e olhou o céu. A manhã estava instalada, mas o céu tinha a cor do mar em dias de cerração profunda, o mesmo cinzento espesso e mudo. Dali só podia sair mais neve, pois já tinham subido acima da altitude em que o granizo é provável.
“O senhor doutor quer parar em Ceirós para rilhar qualquer coisa?”, interrompeu o comandante as suas considerações metereológicas.
“Querer, queria, mas onde!?”, exclamou, pois era homem que acreditava em cafés e restaurantes e Ceirós era um buraco ainda mais pequeno, mais perdido, do que Canedo. Uma ruela, pavimentada a tojo e caruma, futuro estrume para os campos pedregosos, ladeada de uma dezena de soturnas casas de granito.
O Comandante deu uma gargalhadinha e, pelo retrovisor, olhou o banco de trás, num silencioso pedido de indulgência ao regedor pela falta de conhecimento e sensibilidade daquele estrangeiro. Depois disse:
“Há-de haver sempre quem nos ofereça uma fatia de presunto e um naco de broa...”
“Nem me fale em presunto, que já estou aqui a salivar só de pensar em poder deitar-lhe as mãos...”, emendou o delegado de saúde, usando o humor como bandeja para se desculpar.
E todos se riram muito. 


"Que maravilha”, pensava o médico menos de uma hora mais tarde, agora confortavelmente instalado no banco do jipe e sentindo um torpor agradável tomar conta de si. A broa ainda estava morna do forno e a gordura do presunto, tão alva como a neve mas de brilho mais caloroso, combinava com ela como ouro sobre azul. A rematar, engolira um cálice de bagaço, tão forte que lhe encheu os olhos de lágrimas, e de riso os dos seus companheiros de missão.
“Oh, c’um grandessíssimo carago! Valha-nos Deus!” 
O delegado de saúde, que escorregava para uma sonolência, abriu os olhos de repente, sobressaltado pela travagem brusca e pela imprecação do comandante da GNR, de habitual um homem pacífico e de linguagem comedida.
Entre o quase negro dos troncos molhados dos pinheiros, sobre o tapete alvo da neve que cobria o chão, a menos de quinze metros, um lobo encarava o jipe tranquilamente. Apesar da distância, da segurança de estar encerrado entre chapas de metal, o médico sentiu todos os pelos do corpo serem arrepiados por um estremecimento profundo. Aquele animal no meio da estrada, apesar do tamanho e do formato serem semelhantes, não tinha a mínima parecença com um cão. Mais do que o hirsuto da pelagem, era a pose altiva, a aura de solidão auto-suficiente e, sobretudo, o fogo selvagem dos olhos, que faziam dele uma outra espécie. 
Como se assistissem a um milagre, ali se quedaram, uns eternos segundos mirando-se em silêncio, até que o lobo deu de costas vagarosamente e desapareceu no meio do bosque.

Constatou, mais uma vez, que em casos de morte violenta não é preciso indagar onde fica a residência da vítima. Tinham chegado, uma porção de vizinhos escabichava rente às janelas da casa. Alguns homens, onde sobressaía o viúvo – pouco à vontade no estigma dos rumores, mas principalmente mulheres, num luto que nas novas era recente e nas velhas se eternizara sob as contíguas mortes de familiares, compadres e vizinhos.
O comandante da GNR caminhou resoluto para a multidão, em busca de informações de última hora. O delegado de saúde, amalgamando a intrusão com a espera, dirigiu-se ao viúvo em voz discreta:
“Então como foi isto, amigo?”
O viúvo repetiu a história que o Sr. Valadares contara ao comandante e que o comandante lhe contara a ele mal tinham cruzado o Tâmega: chegara da taberna, chamara por ela, ela não respondera... Reservou apenas o direito íntimo de não misturar a mãe na tragédia. Soluçou:
“Dizem que lhe bati ontem, mas não é verdade. Bati-lhe muitas vezes, mas ontem não...”
O comandante da GNR aproximou-se e, fechado no cumprimento das funções, sussurrou:
“Quando o senhor doutor quiser...”
O delegado de saúde tartamudeou na direção do viúvo e cruzou a soleira.
Uma só divisão. Construção recente, a casa era feita de blocos de cimento sem nenhum revestimento ou pintura no interior. Na borra imperfeita de cimento que transbordava da aposição dos blocos, pregos penduravam objectos que mudavam de categoria em cada um dos cantos da casa: cebolas entrançadas, duas chouriças, na cozinha; um Cristo na sala; um terço e um Souvenir de Bordeaux no quarto de dormir. Frio, desolado, não havia sequer ainda uma camada decente de negro-de-fumo na chaminé de cimento.
O cadáver parecia mais novo do que 63 anos. Uma mulher grande, ainda sem o ar tranquilo da velhice, uma espuma rósea escorrendo dos cantos da boca a desacreditar a mansidão do repouso.
Debruçando-se, o delegado de saúde iniciou a observação pelo toque da face inchada do cadáver (aquele frio invulgar era característico de um fenómeno tão semelhante à petrificação como o é a morte), apercebendo pelo chiar ritmado das botas a aproximação do comandante da GNR.
“Procedemos a buscas e não encontrámos nada que pareça suspeito; nem aqui dentro, nem no quintal.”
Ao saírem comunicaram ao viúvo, à indiferença lenta dos espectadores, que o assunto iria ser levado ao conhecimento do senhor Delegado do Procurador da República. Era nas mãos dele que estava a determinação do dia e da hora do funeral.
“O senhor doutor que acha?, perguntou o comandante da GNR.”
O médico subiu o vidro da janela e falou por sobre o barulho do jipe:
“O que lhe posso dizer é que não foi a pancada que a matou. Não há nenhuns sinais disso, os indícios são outros.”

O tribunal marcou a autópsia para as 11 horas da manhã, da manhã seguinte.
Por absoluta falta de condições em Canedo e por ausência de instalações adequadas no centro de saúde, o cadáver foi depositado na capela de Santo Aleixo, um meio caminho, um compromisso, entre o local da morte e a sede do concelho. Contrariado, o pároco cedera as instalações da capela, mas não comparecera e mandara retirar todos os objectos sagrados e consagrantes. Era uma morte ainda não clarificada e seria pouco sensato participar nela desde já.
O delegado de saúde teve que aguardar que os homens do tribunal do concelho vizinho (o concelho não possuía comarca própria) chegassem com os ferros, os frascos de mercearia adaptados a contentores de vísceras, e os observadores oficiais. Entretanto, fora pedindo a vizinhas pressurosas e ardentes em reportarem as alterações de forma, cor e volume do cadáver, bacias com água, sabão, duas ou três toalhas. Esperava, batendo os pés no chão de granito para afugentar o frio e o silêncio.
Às duas da tarde sentiu fome e o alívio de ter, finalmente, abandonado os maus humores da morte, chocantes na sua semelhança com os odores que diariamente estimulam as narinas e a salivação dos carnívoros humanos.
Oficiosamente, o mistério estava desvendado. Ao rasgar-se o estômago do cadáver, evolara-se deste um intenso hálito de benzina e uma quantidade brutal de um invasor líquido, branco como o leite, ondulava no seu interior.
O comandante da GNR mostrava-se satisfeito, uma preocupação estava em vias de extinção.
“Remédio do escaravelho, hem?! E que quantidade, senhor doutor! E onde terá o raio da mulher escondido o frasco?! É formidável, olhe que não demos com ele!”
O médico evidenciava também uma felicidade loquaz:
“Porque terá ela feito aquilo? Terá querido incriminar o marido?”
“Não tenho dúvida. Deve ter pensado: olhas mais para o que diz a tua mãe do que para o que eu digo e qualquer dia hei-de tramar-te. (Uma vizinha ouviu-a dizer uma vez: ‘qualquer dia arrependes-te’ – ela, para o marido). Domingo era um bom dia: ele tinha-lhe zupado na véspera, ela deixa-o sair para a taberna e zás, toma o veneno. Ele volta, encontra-a já cadáver, e o povo desata a mirambolar que foi a pancada que a vitimou...” 
E o comandante da GNR apertava o volante na segurança de que o iluminara a descoberta da sua análise dos factos. Continuou:
“As coisas mudam, senhor doutor. Antigamente enforcavam-se, agora, remédio do escaravelho. A região é de muita batata, chegaram os pesticidas: dá muito menos canseira e é remédio santo, morte assegurada.”
Nesta conversa tinham chegado à vila. O comandante estacionou o jipe à porta do posto, desligou a ignição e virou-se para o delegado de saúde:
“O senhor doutor não quer vir daí comer qualquer coisita lá a casa? São mais que horas de almoço...”


(escrito em 2010 sobre factos ocorridos em 1981/1983)



Primeira fotografia: © Pedro Serrano, 2009. Fotografia acima: © Per Hjortdahl, Ribeira de Pena, 2008.