22 agosto 2011

Discreta Serenata Rural: O DIÁFANO VÉU

Não era de esperar um outro desenlace!
Quando a viúva, que nem propriamente isso era, desmaiou em pleno cemitério, os papeis inverteram-se e o morto que, aguardava balouçando dentro do caixão suspenso sobre a cova em duas cordas, foi passado para um plano secundário.
Aproximadamente seis vizinhas transportaram-na nos pretos braços para a mercearia, não longe, e depositaram-na sobre três fardos de bacalhau, onde ela prosseguiu as convulsões iniciadas no cemitério e interrompidas durante o trajecto.
“Afastem-se todos, deixem-na respirar!”, exclamou, brandindo uma couve-coração, uma cliente a quem a sogra também desmaiara numa missa de sétimo dia e que assistira à chegada do médico.
Mas não foi preciso, desta vez, chamar o clínico: desperta, quem sabe, pelas emanações salinas que de sob ela se vaporizavam, a viúva, reconhecendo o local e constando do livro de fiados do estabelecimento, implorou que a reconduzissem ao cemitério.
Enquanto toda a comitiva acorrera à mercearia, ficaram junto à sepultura apenas o coveiro, o sacristão e o padre, que se exasperava, pois aquele funeral arrastava-se por sendas de mau presságio.
"Perdoa-me, Senhor, se fui de menos lisura para com o Teu rebanho", requereu o padre, tentando levitar acima dos resmungos do coveiro, que ameaçava exigir, não importando a quem, um suplemento pela interrupção dos trabalhos.
“... e uma garrafa de bagaço. O bagaço é bom para desinfectar, melhor que a tintura; quem me garante a mim que não estamos também a ser contagiados?” O padre sabia o que se escondia por trás daquele 'também'. O morto era um suicida e o odor do remédio do escaravelho, misturado com o da estearina e o das roupas molhadas, tornara a noite do velório inesquecível. Cautelosamente, deixou escorregar o braço e espreitou o relógio. Seis menos vinte! Dentro de minutos a noite ia tombar, surda, como um torrão sobre o envernizado de um esquife.
"Uma noite é muito tempo", constatava o pároco amargurado, pensando na noite da vela, e os boatos, as calhandrices, tinham sido refinadas, apaladadas e badaladas por todo o concelho numa propagação que nem o sino teria igualado. Talvez tivesse sido melhor dar ordens para tocar o sino quando soube do óbito... Mas, que diabo, era um suicida, não devia, em princípio, beneficiar como qualquer cristão das facilidades e confortos que o Céu concede aos seus na hora derradeira! No entanto, talvez, mesmo a Lei de Deus, até porque redigida pela fraca textura humana, necessitasse interpretação, adaptações circunstanciais... E ele não o fizera, não mandara tocar a finados... O rebanho conspirara nas horas de treva e o velório desenrolara-se como um amotinamento.
À meia-noite, os menos exaltados, sussurravam pormenores sobre aquela mulher que, por ser abastada, se suicidara e tivera, apesar disso, direito a um naipe completo de rituais: sino, missa de corpo-presente, água-benta, dois padres no jazigo.
Às três da manhã, chegou um irmão do falecido (chamado à pressa de França) que, ao atirar-se, uivando, sobre o caixão, activou no cadáver uma indignação volátil de cheiro sui generis, expelida pelas imperfeitas costuras da autópsia.
Foi talvez nesses momentos que, os mais exaltados, se lembraram de associar a morte do rapaz à perversidade e à negligência do padre.
Ele matara-se porque ele não os quisera casar ("não era verdade: dissera-lhes que os casaria, mas só depois de os preparar para o matrimónio") e ela prenha de sete meses! ("mais uma razão para que se fizesse uma preparação conveniente e reforçada"). Com o desgosto ela parira um nado-morto, cuja alma azeda invocava, dos estofos incómodos do Purgatório, os vivos a uma justiça terrena.
Toda esta maquinação fora revelada ao padre no dia do enterro. Acordara pesado, como se de uma sesta após um cozido à portuguesa. A manhã de Inverno, cor de estanho, revolvia o céu até à terra, mantendo-o rente por presilhas de névoa - ia ter enxaqueca!
Adivinhou o rancor nos olhos do irmão francês, que o esperava à porta da igreja e se recusou a ultrapassar a soleira.
“O senhor faz o funeral, ou temos que o fazer tout seuls?”
"Que se passaria?". Precisava falar com o sacristão, com quem costumava medir opiniões em situações delicadas, por isso enviesou:
“A que horas pensais enterrá-lo? Já apalavrastes o coveiro?”
“A partir deste momento o funeral pode ser realizado”, cortara ele, despedindo-se e dando as costas de um modo ímpio.
“Que se passa?”, perguntou mal entrou na sacristia.
Sem despregar os olhos das galhetas, o velho Faria começou:
“A coisa está feia, senhor padre...”
E contara-lhe tudo, numa confissão sem confessionário em que a penitência coube ao padre:
“Enterre o morto, senhor padre, para que se ponha uma pedra sobre o assunto...”
Já era noite cerrada, as luzes nas casas convidavam ao abandono daquele frio insensato, quando o cortejo regressou ao cemitério.
Cada um ocupou com exactidão o seu lugar pré-convulsão, excepto a viúva, que, alquebrada e triunfante, se apoiou no braço do cunhado francês.
"Se não estás comigo, és contra mim", resignou-se o padre, benzendo o caixão e dirigindo aos presentes "umas breves palavras sobre este nosso irmão que no Assento Etéreo já...", prédica que reconciliou o pastor com o seu rebanho e fez com que a paz do Senhor de novo se instalasse, qual diáfano véu, sobre aquele pacato burgo onde nada acontecia.
   
© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Lisboa, 2010; (2) Porto, 2011.