23 agosto 2012

Discreta Serenata Rural: A CAÇA



Um dia é da caça, o outro do caçador.
Provérbio
Terceiro domingo de Agosto.
O marasmo habitual do concelho rebenta pelas costuras, de há um mês para cá, sob a vaga humana e electrodoméstica dos emigrantes.
Sete e meia da tarde: um jipe percorre a velocidade moderada a estrada nacional.
“Ela, o marido, e uma filha. Única. Dantes viviam lá os pais dele, mas já faleceram.”
“Que idade tinha ela?”, inquiriu o delegado de saúde.
“Andava em cinquenta. Coitada, parece que era uma mulher muito doente...”
“Doente de quê?”, o delegado de saúde estranhara a inflexão da voz do comandante da GNR ao pronunciar a palavra doente. O comandante levou o dedo à careca:
“Nervos. Parece que até esteve internada várias vezes num hospital especializado.”
E o comandante embrenhou-se numa narrativa complexa das particularidades dos internamentos da falecida, demonstrando um conhecimento paraprofissional do caso. O delegado de saúde mergulhou na reunião das peças soltas:
Quarenta e nove anos de idade, casada, uma filha (única). Alguns internamentos psiquiátricos. Domingo, seis da tarde: o marido e a filha saem para a missa (ela tinha ficado em casa, pois andava arredada dos padres e da religião). Pega numa espingarda-caçadeira, dois canos - dissera o comandante, encosta-a ao peito e trás!.
A casa espetava-se à borda da estrada, uma varanda de madeira, a todo o comprimento da fachada, pejada de vultos negros, uns debruçados, outros crocitando em cabisbaixos ajuntamentos.
Quando a porta do jipe bateu, silenciosas rezas anunciaram a todas as dependências que a lei dos homens chegara para tirar as medidas à morte.
O médico atravessou a fila humana, distribuindo uma saudação elástica que não o obrigava sequer a mover os lábios e foi recolhendo as boas-noites, indiferentes, lamuriosas, ou desconfiadas, que lhe eram dirigidas. Mais vultos no hall, estes sentados, sem parar pelo corredor até ao quarto ao fundo, à esquerda, cuja porta estava fechada.
Uma figura atarracada e vermelhusca, a quem o preto ainda ficava mal, destacou-se da massa de sombras do corredor.
“É aqui...”
A morta estava deitada de costas na cama de casal, tapada com um lençol, transformado em bandeira japonesa por uma enorme nódoa vermelha na região do peito.
“Foi ali”, disse o viúvo apontando o canto atrás da porta, “mas trouxemo-la para a cama.., pensámos que talvez não houvesse mal... Estar para ali assim...”
E choramingou.
No canto, tapado pela porta a quem entrava, a parede do quarto, de si amarelada, fora borrada com longos laivos vermelhos, de aspecto pegajoso. No rodapé e no soalho adjacente, uma poça viscosa onde se enlameava o cano duplo de uma espingarda. Duas chinelas divergentes, de flanela axadrezada, imitavam barcos ancorados num poente vermelho.
O comandante da GNR acocorou-se com audácia e pescou a caçadeira cuidadosamente. Examinou-a com lentidão, desarticulou-a, cheirou-a, piscou um olho aos canos.
“Só foi disparado um cartucho, senhor doutor. Mas, inicialmente, foi carregada com dois.”
O delegado de saúde destapou a morta: uma face inexpressiva de há muitos anos (a morte era mais recente, com toda a certeza), uma madeixa grisalha sobre a testa, uma cratera no meio do peito. A explosão fora tão violenta que destruíra a ténue ingenuidade de que para o coração é preciso mirar à esquerda. Um imenso buraco para onde eram sugados os bordos esfarrapados de um avental às risquinhas verticais, abotoado à frente.
Perto da janela, agarrando-se aos últimos raios de luz da tarde, o comandante da GNR e o viúvo reconstituíam o suicídio. O delegado de saúde, cansado de procurar indícios no lodo sangrento, juntou-se-lhes.
“Soube que esteve internada várias vezes; o que é que tinha?”
“Nervos, senhor doutor. Deu de entristecer, entristecer... Dias seguidos sem dizer uma palavra... Até que os médicos acharam melhor que estivera internada.”
O comandante da GNR interrompeu para citar o próprio viúvo e dizer que, "segundo aqui o marido", parecia haver uma certa ligação entre o início da moléstia e a partida dos incómodos. O viúvo confirmava, silencioso.
“Segundo aqui o marido, continuou o comandante da GNR, ela já ameaçara fazer isto (apontou o cadáver) várias vezes. Até que desta vez fê-lo mesmo... É formidável...”
Os três vultos já deixavam reflexo nas vidraças da janela. O delegado de saúde explicava que, provavelmente, o gatilho fora premido com um dedo do pé (na autópsia examinar-se-iam os pés com minúcia) e lamentava que o viúvo não recordasse se ela já tinha as chinelas calçadas quando ele saíra para a missa. O viúvo desculpava-se:
“Se eu soubesse.., se eu soubesse tinha reparado.”
Quando passaram pela sala havia velas acesas e uma velha tombava adormecida numa cadeira, ensaiando o velório. O viúvo reteve um momento o médico para, às escondidas, lhe perguntar para que horas é que poderia combinar o funeral com o padre.
“Isso não depende de nós, amigo, vamos ter de aguardar a decisão do tribunal.”
“E, senhor doutor, haverá mal em lhe pôr um lenço com bagaço? Bem vê, o tempo vai quente..., amanhã já deve cheirar...”
O médico não respondeu, mas pousou uma mão concordante no ombro do viúvo.
Como em outras situações semelhantes, o delegado de saúde jantou essa noite em casa do comandante da GNR, onde escutou um novo episódio das façanhas de caça da perdigueira ("olhe que só lhe falta o dom da palavra, senhor doutor") daquele pacífico funcionário, a quem a ironia da função atribuíra a ingrata missão de ter que reprimir o acto venatório nos períodos não estipulados para o efeito.
© Fotografias de Pedro Serrano: (1) e (3) Buçaco; (2) Queirã (Viseu), Agosto 2012.