26 agosto 2012

Discreta Serenata Rural: A REGA


O comandante da GNR galgou, com determinação e esforço, a ladeira, atapetada de verde graças à humidade omnipresente do local.
Ao cimo do quintal, numa zona já invadida pelo restolho dos eucaliptos da mata contígua, o tanque do acidente, os familiares, e os vizinhos aos cachos.
O tanque, de rega, era grande: uns seis metros por quatro, calculou o delegado de saúde. Uma espécie de piscina que aproveitava a inclinação do terreno, o que fazia com que a água da sua metade sul lambesse o nível do solo relvado e a metade norte se erguesse a mais de um metro deste.
O homem caíra, ou deslizara, para as águas pela metade sul e jazia de borco, flutuando imperfeitamente na superfície parcialmente caramelizada pela geada, uma corcunda de ar enfunava-lhe as costas do casaco.
Cá fora, deitada de perfil sobre a erva gelada, uma mulher gemia alheada dos presentes, anuviada de dor. Era a filha e fora quem encontrara o pai: ao estranhar a demora (ele costumava regressar a casa a meio da manhã, para o café e o bagaço), saíra, depois de cruzar um xaile - que a manhã estava fria, procurando-o.
“Aquilo caiu, não andava muito certo. Queixava-se de tonturas, faltava-lhe a vista”, dizia, a quem o queria ouvir, o genro, olhando de través a Autoridade; como que a explicar que ali não havia nada a investigar...
Mas o comandante da GNR não parecia da mesma opinião. Era forçoso ouvir as testemunhas, interrogar a filha. Dado que uma explicação deve anteceder o seu entendimento, só depois, e nunca antes de o cadáver ser examinado, se poderia concluir que não havia suspeita de crime.
O delegado de saúde pediu que retirassem o corpo da água e a filha gemeu mais alto no leito de ervas.
O cadáver não apresentava particularidades de nenhuma espécie: ainda não estava macerado, nem sequer inchado pela submersão. Na testa, esbranquiçada pelo fumo da água, uma artéria deformava a pele, sinuosa e colada às têmporas como uma osga numa parede ao sol. Era bem possível que ele tivesse tonturas (assim o dissera o genro), que lhe faltasse a vista na borrasca luminosa do sangue contra os baixios da esclerose.
“Não há sinais de luta”, comunicou ao comandante da GNR, que o ditou ao guarda que tomava notas:
“Não há indícios de confronto físico...”
“Tem poucas horas...”
“Está cadáver há relativamente poucas horas”, traduziu o comandante.
A audiência maravilhava-se, até a órfã no gramado, ante a eficiência daquela equipa legal, perante aquele mágico que sacava, como quem descobre ovos no nariz de um espectador solícito, informações a defuntos!
Finda a observação do habito externo, o comandante da GNR iniciou o interrogatório e achou por bem fazê-lo abarcando todos os presentes:
“Então quem é que encontrou o corpo...?”
Todos mantiveram o silêncio, mas, como se não o pudessem evitar, os olhares convergiram na mulher com pastagem aos pés. O comandante aproximou-se e, mirando-a de cima, inquiriu:
“Foi você que encontrou o seu pai?”
Ela acenou com dificuldade, pois mantinha a cabeça deitada.
“A que horas? Quem é que estava consigo? Que medidas é que você tomou?”
E como ela não colaborasse (falando), aguçou a penetração da abordagem:
“Você chorou ou gritou quando deu com ele?”
“Saiba que não senhor”, falou a mulher pela primeira vez.
O comandante disfarçou um sorriso:
“Então você encontra o seu pai afogado e não chora? Não dá sequer um grito?!”
Subitamente desperta e preocupada com o rumo que as coisas estavam a tomar, ela afirmou que sim, que dera um grito, que ninguém o ouvira por não haver ninguém por perto, e que, em seguida, caíra ali, como que fulminada. E sublinhou a confissão com um traço de choro.
Quinze a vinte minutos mais tarde o comandante da GNR, depois de trocar um olhar consternado com o médico, desistia de espremer a mulher. Por muito que se esgravatasse, ali não havia suspeita de crime.
© Fotografia de Pedro Serrano: Kerala (Índia), 2012.