28 agosto 2012

Discreta Serenata Rural: A SEMENTEIRA


”Isto é que foi um dia!”, interpelou o comandante da GNR ao entrar na sala, esfregando as mãos.
“É verdade...”, voltou-se o delegado de saúde, que se entretinha a dispor as mãos sobre a grelha do aquecedor a gás.
Ao nascer da manhã tinham sido chamados ao viveiro dos Serviços Florestais, na encosta da serra. Um homem, já com o à vontade da aguardente, caíra da caixa de uma camioneta e a cabeça fora esmagada pelo rodado traseiro do camião onde se encarrapitava.
Jazia sob um cobertor, tristemente manchado de gasóleo, o pescoço desfolhado em pétalas curtas de osso esquirolado. Pelo chão, num raio de alguns metros, nos pneus duplos do veículo, na sola nauseada dos sapatos do primeiro a socorrê-lo, os miolos dispunham-se numa aflita sementeira: semelhando cogumelos fora de época, decalcando 42 made in Taiwan; revelando, na generalidade, um razoável tropismo pelos baixos-relevos dos acessórios de borracha.
O motorista soluçava encostado a uma sebe, soçobrando ante a constatação que um crânio e uma pedra produzem um baque idêntico, o mesmo tipo de ressalto facilmente ultrapassável.
Depois, ainda a papelada do primeiro caso estava a ser alinhavada, a queda de um velhote num tanque de rega... Toca a sair de novo, contactos, interrogatórios, mais papeis.
Às sete e meia da tarde tinham acabado o relatório conjunto para a Justiça. Após o memorando das tarefas para o dia seguinte, o delegado de saúde levantara-se, despedindo-se. Mas o comandante da GNR não o tomou por definitivo:
“Podíamos ir até lá casa comer qualquer coisa, eu dava daqui uma telefonadela à minha mulher...”
Saíram a pé. O comandante morava perto (ali na vila era tudo perto) e a nenhum, no epílogo de um dia passado em apertos de jipe e diligências, apetecia veículos motorizados.
O comandante, decerto inspirado pelas funestas coincidências da lua cheia, olhou o céu estrelado dos fins de Novembro e iniciou uma dissertação sobre as nebulosas fronteiras entre ciência e religião. O médico tentava seguir a linha de pensamento do outro, mas o facto de este estacar no fim de cada frase dificultava-lhe a compreensão, pois atravessavam a vila numa cadência de ---, --, -----, --, -----, o que constituía um péssimo ritmo para um diálogo que se tornava mais metafísico a cada passada.
Depois de dar como adquirida a existência de Deus, o comandante resvalara para a refutação das teorias darwinistas da evolução do Homem. Saltando de hipótese em hipótese,  concluía que:
“Não... Há muitos séculos que ele há homens, que há macacos. E seria possível que, ao fim de tão longa convivência, intimidade até - no caso de alguns países de clima mais tropical, não aparecesse um dia um macaco a falar, a dizer ao Homem: ’Olha, aqui estou... Falo, penso, sou finalmente como tu. Aprendi contigo, a ti o devo’?!”
O delegado de saúde optava pela abstenção, fazia por se concentrar no ritmo das passadas; sentia fome, dava por si a fantasiar o que seria o jantar. Mas ao comandante bastava a sua própria mecha:
“Não, a Ciência não pode explicar tudo...”
A ciência era limitada. Por um lado, pelos legítimos domínios da religião, por outro pelos mistérios da Natureza... As abelhas, por exemplo (o comandante possuía cortiços e divagou pelas propriedades anti-reumáticas das ferroadas), os cães...
Sobre cães, já o delegado de saúde conhecia de sobejo as convicções do comandante. Possuía vários, mas a sua predileção fugia para uma cadela perdigueira, uma maravilha que reunia numa só alma as virtudes de um perfeito exemplar da raça canina e de uma Diana. Ultimamente passava mal, pobre bicha... Tivera muitas ninhadas, o útero cansara-se e quebrara-lhe a barriga numa hérnia que cortava o coração ao dono. Pedira até a opinião clínica do delegado de saúde e sensibilizara-o o carinho com que este a examinou, de joelhos, ao pé da lareira.
“Se fosse ao senhor, levava-a a um veterinário; dos bons. É muito possível que isto possa ser operado.”
Estendida no tapete, serena às mãos do médico, a cadela observava toda a conversa, percebendo que o assunto era do seu interesse, o castanho dos olhos derretendo como caramelo à luz do lume.
O comandante ficou entusiasmado com a sugestão, que – “francamente” - nunca lhe ocorrera, a seguir eufórico e, por volta do segundo aperitivo, embriagado: citou os antecedentes genéticos da cadela, enterneceu-se com a infância do bicho, gabou-lhe as proezas de caça da juventude, encenando uma particularmente grata à sua memória.
Era uma manhã de caça, em Outubro, um Domingo... Andavam no monte há duas horas e, até ali, nada! A cadela saltitava, leve como um gato, à sua frente. De repente, perto de um maciço de urzes, estacara, imóvel, uma pata rígida petrificada no ar, farejava... Ele parara também, esperara em total suspensão, como o bicho... E o comandante da GNR exemplificou a pose da perdigueira: uma perna levantada e esticada para trás, o corpo inclinado para a frente, as narinas arfando e o casaco de couro do ofício, que conservava vestido, rangendo.
Depois a cadela virara a cabeça para ele ("o corpo mantinha-se na imobilidade") e olhara-o com aquele modo tão meigo, tão vivo, como que a dizer: "anda, olha que elas estão aqui..."
“Só lhe falava falar, senhor doutor. E, de facto, lá estavam as perdizes!”
Eram episódios como esse, podia contar muitos, que o levavam a pensar que havia, na Natureza, mistérios que a Ciência não explicava...
Da cozinha chamaram para a mesa.
“E se fossemos petiscar alguma coisa?”, sorriu o comandante, como se ambos ignorassem que era para isso que ali estavam. O médico levantou-se, pediu para ir lavar as mãos.
Era espantoso, pensou olhando a traça do espelho do quarto de banho, como aqueles tipos significavam "petiscar alguma coisa" a um coelho assado que, enquanto se aprontava, era precedido de umas febras de porco com batatas fritas e arroz, para ir "acalmando o estômago".
Ao jantar, a narração dos feitos do dia, bebida na fonte pelos familiares atentos, adquiriu a tonalidade que sobeja aos acontecimentos quando libertos da submissão ao segredo profissional, isto é recuperaram o colorido original.
Retomando um hábito local e, talvez, muito antigo, a conversação foi derrapando para as histórias maravilhosas. Não das mais sobrenaturais (bruxas, lobisomens, mula-sem-cabeça), visto que o círculo era diferenciado, mas umas de gama média em que o feliz desfecho era discretamente atribuído à intervenção do divino.
O comandante lembrava-se bem, embora fosse muito novo à época: Um homem aparece afogado, parece acidente, mas o povo murmura. Levam-se a cabo investigações, não se descobre nada... O dia do funeral. O cortejo, enorme, sobe a rua em direcção ao cemitério. À frente o padre, o sacristão (ainda era o falecido Faria) e vários voluntários, empunhando crucifixos e estandartes.
De súbito, as mulheres, cá trás, notam um burburinho: um dos homens que transportava um crucifixo era, agressivamente, interpelado por um dos outros.
“E que se passara?”, suspendeu, enigmático, o comandante, mantendo a tensão na assistência.
O crucifixo, que devia seguir com a imagem de Nosso Senhor voltada para a frente, rodava nas mãos do homem - sem ele se dar conta ou poder evitá-lo - e Jesus encarava-o, como se o acusasse... Este facto tantas vezes se repetira - ele a virar o crucifixo e Nosso Senhor a apontá-lo - que o povo desconfiara. Apertado, o homem confessara-se culpado pela morte do defunto.
“É formidável!”, luzia o comandante da GNR, satisfeito com aquela divina interferência que nos protegia das nossas próprias torpezas, dos actos vis de seres transitoriamente condenados ao suplício das instituições, mas destinados a adormecer na mão amnésica de Deus.
© Fotografias de Pedro Serrano, 2012: (1) Buçaco; (2) Queirã (Viseu) sobre colagem de Clara Serrano; (3) Sever do Vouga.