29 agosto 2012

Discreta Serenata Rural: A VINDIMA


O cadáver jazia de lado na cama, uma colcha azul-sulfato tapando-o por inteiro. O delegado de saúde sussurrou ao comandante da GNR:
“Por favor peça-lhes para saírem, todos.”
Enquanto aguardava notou, com apreensão, um odor no ar. Era ainda muito leve, pouco maduro, mas já despertava inquietação. Setembro ia quente, dizia-se que o rapaz andara desaparecido mais de 24 horas e o apodrecimento dava os primeiros sinais da sua marcha.
Sim, deveria andar pelos vinte, vinte e dois anos. Moreno, cabelo preto e encaracolado, vestido de ganga azul-coçado; de lado no leito, a perna direita flectida em gatilho (o tacão da bota lambendo de lama a ganga da coxa) sobre a perna esquerda estendida.
No pescoço, um sulco, feio de se ver, lembrando as marcas de um martelo de cozinha num bife já não muito fresco: violáceo e esfarelado, descosendo a harmonia entre a cabeça e o tronco.
“A corda deve estar aí na cama. Pedi aos homens que a guardassem”, espreitou o comandante da GNR por sobre o seu ombro.
Com esforço, o médico rodou o corpo para si. Desengonçada, a cabeça escorregou da almofada e um gorgolejo carrancudo soltou na dobra do lençol uma baba acastanhada, fétida e malévola. O delegado de saúde travou a respiração e rezou por paciência aos deuses do estômago. Por trás de si, o comandante da GNR sibilou:
“Oh, diabo...”
O médico sugeriu-lhe que saísse um momento, a tomar ares. Conhecia a sensibilidade dele às caretas que a morte faz aos vivos, e se um dos dois podia escapar ao espectáculo... Mas o comandante não o quis deixar só: solidário, apenas buscou consolação no vidro da janela ao fundo do quarto.
Lá estava a corda. Antes uma tira longa, de couro, achatada como uma cobra atropelada, e habitualmente usada na tarefa complexa de aparelhar uma junta de bois à canga de um carro de madeira.
“Era muito metido em si mesmo...”, declarara a mãe, como se não o conhecesse.
Os 70 Kg do rapaz tinham acabado numa vindima precoce e desmazelada: Um ramo grosso de videira, abraçado a um arame (pouco mais de metro e meio até ao chão) ofertara, juntamente com um desnível entre terrenos de menos de três palmos, o apoio para um problema que permaneceria desconhecido.
Fez um laço, enfiou-lhe o pescoço, passou o resto da tira por cima do ramo da videira e amarrou a ponta que sobrava ao tornozelo da perna direita, que tinha flectida sobre a coxa. Assim poder-se-ia suspender com a certeza prévia que os seus pés não procurariam o chão, tão demasiadamente próximo.
“Onde pensara ele tudo aquilo? Em casa, in loco?”.
Lá estava: levantando a calça aparecia a pele do tornozelo direito modestamente esfacelada.
Nada mais a fazer ali, senão confirmar a presença primaveril da morte naquele corpo: uma flor esverdeada de putrefação intestinal desabrochava na vizinhança da anca direita do cadáver.
“E se fossemos ver o local do acidente?”, propôs o delegado de saúde, ansioso por desinfectar a memória.
© Fotografias de Pedro Serrano, Praia da Areia Branca, 2010.