03 setembro 2012

Discreta Serenata Rural: DELITO COMUM


A Teresinha já chegara do infantário, mas conservava ainda o bibe vestido. Veio, lá do fundo do corredor, como uma pequena locomotiva aos quadrados vermelhos e brancos. Abriu-lhe os braços, enfiou o nariz no sino dourado e doce da sua cabeleira.
“Papá, vens brincar comigo às famílias?”
“Deixa-me só ir tirar o casaco e lavar as mãos...”
Ela trotou de imediato para a cozinha e, quando se reuniu a ela uns minutos mais tarde, encontrou-a, de pé, em cima de um banco a retirar, de cima do frigorífico, os pesos da balança da base de madeira onde estavam enfiados, agrupados por tamanhos.
“Tu trazias o avô e a avó...”, determinou ela enfiando os pesos mais pequeninos no bolso do bibe e deixando-lhe a responsabilidade de transportar os pesos de 1 Kg e de ½ Kg.
Ao ver o pai ligar o amplificador e levantar a tampa do gira-discos, ergueu a cabeça da sua tarefa de constituir grupos familiares com os pesos de latão, pediu:
“Pões a canção da bailarina...?”
Cerca de vinte minutos passados, o telefone tocou. A mulher passou da cozinha, sorrindo ao ver os dois entretidos no tapete, movendo pesos e trocando-os entre eles segundo protocolos em actualização permanente.
“É da GNR...”, informou, tapando o bocal e arrepanhando a pele entre as sobrancelhas numa ruga de contrariedade. O homem suspirou, levantou-se para atender.
Ao contrário do habitual, não foi o comandante que respondeu do lado de lá, mas sim o cabo Duarte. Desconfiou que seria algo muito diferente das mortes violentas do costume pelo tom cerimonioso do discurso:
“Senhor doutor, desculpe estar a maçá-lo para casa a esta hora, mas tivemos um percalço de serviço... O nosso Comandante feriu-se... Ele queria saber se o senhor doutor o poderia receber na urgência...” E, após um silêncio: “ele preferiria, caso fosse possível, que fosse o senhor a recebê-lo...”
Sentindo o mistério, o delegado de saúde não perguntou mais nada, informou:
“Diga ao senhor comandante que daqui a cinco minutos estou lá, à espera dele.”
O Centro de Saúde estava mergulhado na calmaria que precede o anoitecer e o médico de serviço acabara de sair para jantar. Avisou a enfermeira de apoio à urgência de que iam receber um doente em breve, mas que trataria pessoalmente do assunto e só a chamaria se precisasse de ajuda. A enfermeira agradeceu a borla, era a hora de fazer a ronda pelo pequeno internamento de oito camas de que dispunha o centro. Maquinalmente, vestiu uma bata, lavou as mãos e sentou-se à espera.
Ao ouvir o ruído de um motor e, em seguida, de uma porta a bater, foi receber os recém-chegados à porta e quase teve de conter um sorriso ao encarar a encomenda:
Apoiado ao cabo Duarte, e obrigando-o a um passo que recordava o ritmo de um andor de procissão, o comandante da GNR, entre o branco e o amarelado, avançava na direcção da entrada com a testa enfaixada num pano, um trapo encravado no rebordo do boné de serviço e manchado de vermelho na zona supraciliar. Tranquilizado quanto à gravidade do doente, mas para transmitir a sensação que se irmanava ao drama, o delegado de saúde avançou na direcção de ambos:
“Entrem para aqui, entrem para aqui... Então o que foi isso...?”
O cabo Duarte manteve-se em silêncio, o comandante suspirou profundamente:
“Ah, senhor doutor, se me vejo livre desta...”
“Uma coisa de cada vez. Primeiro vamos tratar de lhe tirar esse casaco e de o deitar aqui na marquesa...Devagarinho, cabo Duarte, ajude aqui deste lado.”
Por baixo do trapo ensanguentado, a ferida, extensa e de bordos irregulares, já não sangrava e assumira uma cor violácea, sinal de algum tempo de evolução. Depois de acender o foco sobre a testa do comandante e de dispor o óculo do pano verde-água do campo cirúrgico sobre a zona a intervir, o médico começou as perguntas com delicadeza, pois o modo como o paciente mantinha os lábios encarcerados entre os dentes não enganava ninguém.
“Não se aflija que isto não é nada do outro mundo: tem um ar um bocado feio, mas nada que uns pontos bem dados não resolvam...
“Será, senhor doutor? É que sangrou como o diabo...”
Nesta zona as coisas sangram sempre muito e, depois, ao dono parece sempre mais sangue do aquele que perde... Há quanto tempo é que fez isto...?
“Seriam...”, o comandante ensaiou soerguer-se na marquesa e alcançar o pulso para olhar o relógio, gesto que foi prontamente sustido pelo delegado de saúde:
“Quietinho, comandante, agora o senhor não se pode mexer um milímetro, se não fica aí com uma cicatriz feia. Só queria ter uma ideia geral – é que isto já está tudo bem coagulado, vê-se que não foi feito há meia hora...”
Arrasado sobre a marquesa, o comandante mugiu profundamente, deixou jorrar a resposta quase com desprezo, como uma confissão sobre algo de que se envergonhasse:
“Isto já foi por volta das quatro da tarde, doutor... Mas confesso que estive ali no posto às voltas, sem saber o que fazer; até que decidi: não, há moléstias que não saram por a gente se pôr a olhar para elas, tenho de telefonar a quem sabe...”
“E fez muito bem”, respondeu o visado, “até o devia ter feito mais cedo! Estas coisas, quanto mais depressa se limpam e se cosem melhor. Se passa muito tempo os bordos da ferida começam a recuar, o perigo de infecção é maior, fica tudo mais difícil...”
“Tem razão, tem razão, foi um disparate da minha parte, uma fraqueza. Mas sabe, as condições em que tudo isto se deu... O pior nem é isto que estou a passar aqui agora, o pior ainda está para vir...”, a voz do comandante chegava de sob o campo cirúrgico abafada de angústia.
“O senhor está a ser muito pessimista”, respondeu o médico, que acabara de limpar a ferida. “Não há nada que não se resolva! Por agora vou-lhe pedir para se manter calado e muito quieto, pode ser? Depois de resolvido isto, trataremos do passo seguinte. Agora vai sentir uma picadelazita, mas a seguir mais nada...”
Antes que a injeção se abatesse, o comandante, temendo que a anestesia local o pudesse incapacitar de falar ou raciocinar, pediu ainda licença ao médico para libertar o cabo Duarte, pois seriam horas de jantar e ele já nada precisava de fazer por ali, uma vez que o delegado de saúde até se oferecera, gentilmente, para o levar a casa no fim de tudo.
E o silêncio, apenas entrecortado pelo ruído metálico de algum instrumento sendo pousado, tomou conta da sala da urgência.
“Para o museu das suas recordações devo dizer-lhe que foram 12 pontos”, revelou o médico quando terminou e ao ajudar o paciente a sentar-se na marquesa.
“Doze?!”, o comandante estava abismado.
“Sim, o tecido estava bastante descolado do osso e a ferida era extensa, sabe? Levou quatro pontos de aproximação e o resto na pele, para que isso fique bem alinhado e não repuxe.” E acrescentou:
“Ora veja-se aí ao espelho, diga lá se não está tudo com muito melhor aspecto do que quando chegou...”
O que o comandante viu no espelho foi apenas um grande penso, imaculado, ocupando quase metade da testa, trepando-lhe pela calva. Mas não havia sinais de sangue ou daquela aflitiva carne às bolinhas vermelhas e até o trapo ensanguentado repousava já, longe da vista, no balde inox das compressas sujas.
“Sente-se agora aqui, enquanto lhe passo uma receita – vai ter de tomar um antibiótico, também lhe vou receitar uns comprimidos para as dores... Sabe como estão as suas vacinas?”
Sentado à escrivaninha, com o comandante em frente a si, o médico começou a escrever. Pouco depois, o comandante quebrava o silêncio:
“Senhor doutor, eu não sei se um dia destes não vou ter de o voltar a maçar, se não vou ter de lhe pedir um relatório sobre tudo isto...”
O delegado de saúde levantou a cabeça do papel, surpreendido.
“É que eles lá no Comando, no Porto, a primeira coisa que fazem quando acontece um incidente envolvendo veículos da Força é levantar um processo de averiguações ao assunto...”
“Não é só no seu comando”, retorquiu o delegado de saúde um tanto azedo, “é procedimento geral na função pública! Aqui é o mesmo: antes mesmo de verem o que se passou, quem tem razão ou quem tem culpa, instalam um processo disciplinar a um gajo. Veja lá se isto cabe na cabeça de um prego!”
O comandante soltou um suspiro que foi quase um arquejo, como se lhe abrissem as comportas do peito. E disse:
“Mas é que no meu caso, desgraçadamente...”
E beneficiando da descompressão de ter a sua situação imediata tão bem resolvida, encorajado pelo ambiente acolhedor da sala, desafiado pelo ar do médico que, em frente a si, o mirava com a caneta suspensa, contou tudo.
Ele o e cabo Duarte tinham saído, logo após o almoço, para uma ronda por Santa Marinha, na encosta fronteira à vila. E seguiam com o jipe, ele ao volante, por um estradão florestal de piso irregular quando, de repente, vindo do nada, se atravessa um javali à frente do veículo, um bicho enorme,.
“O senhor havia de o ver: era macho, uma bisarma, um bisonte...”
O médico, calado, acenava com a cabeça, como se estivesse lá.
“Não sei que me deu, senhor doutor, que achei uma pena deixá-lo escapar assim... E como ele já estava quase a desenfiar-se pelo lado direito da estrada, torci o volante naquela direcção e acelerei a fundo. Se dependesse de mim, não havia de escapar dali sem levar ao menos uma pancada!”
E fora aí que se dera o desastre. Com o movimento brusco, o jipe resvalara pela ribanceira, só não capotara porque um tronco grosso de faia o sustivera.
“Agora imagine o senhor o que vou eu dizer ao Comando! Que resolvi abalroar um animal cuja caça é interdita com um veículo da Guarda... Se ainda fosse gente daqui, eram capazes de perceber que aqueles animais são uma praga, que dão cabo das sementeiras e das culturas! Mas cavalheiros lá da cidade, que nunca viram – com sua licença – um reco do monte em acção!”
O médico, para agrado do comandante, pasmava com a história. Depois, pousando a caneta:
“Mas, ouça, não percebo bem porque é que está tão preocupado com os tipos lá do Porto. O senhor acha que num relatório se fica a perceber, assim sem mais nem menos, a intenção da pancada...?”
O interlocutor não percebeu de imediato onde o outro queria chegar, remexeu-se na cadeira. O médico explicou-se:
“Quero eu dizer: o senhor não pode, pura e simplesmente, dizer que ia tranquilamente na sua missão e que o animal, desembestado, foi contra o jipe?”
O comandante pareceu, de súbito, iluminado por uma visão. Olhou em volta, inclinou-se na direcção do médico e, em voz baixa:
“O senhor doutor acha...?”
O outro encolheu os ombros:
“O senhor acha que os javalis conhecem os sinais de trânsito?”
E levantando-se:
“Vai esperar um bocadinho aqui por mim, ok? Vou só lá dentro avisar a enfermeira que me vou embora...”
No refeitório, três doentes comiam a sopa de olhos pregados na telenovela. Perguntou à auxiliar:
“Alcina, viu a enfermeira Isabel Luísa?”
“Foi à esterilização buscar compressas, doutor, quer que a vá chamar?”
“Deixe estar... Diga-lhe só que fui andando, que fica tudo calmo na urgência.”
O comandante, moído pelas emoções do dia, dormitava, adornado, numa das cadeiras da sala de espera. O médico tocou-lhe no ombro:
“Vamos, agora? Vou levá-lo a casa, que a sua senhora já deve ter o seu caldo pronto e a arrefecer!”
Todos estes acontecimentos se passaram a uma quinta-feira e no dia seguinte, ao princípio da tarde, o telefonista do centro de saúde ligou ao delegado de saúde, tinha uma chamada em linha.
“É o comandante da Guarda...”, esclareceu.
Do lado de lá do fio um homem risonho e confiante queria saber se o médico estaria pela vila durante o fim de semana. Quando lhe respondeu que, de momento, não alimentava intenção de ir a lado nenhum, o comandante revelou ao que ia:
“Então será que o senhor doutor, a senhora e a menina não quererão, no Sábado, ir até lá casa comer umas febrazinhas especiais...?”
O médico riu-se, brincou:
“O senhor não me diga que agora anda para aí feito talhante..., olhe que ainda não pode fazer grandes esforços...”
“Não, pode ficar descansado, quem o desmanchou foi o Duarte, que tem sido muito prestável, coitado. O senhor doutor também o irá encontrar lá no Sábado, por volta da uma, se sempre me quiser dar esse prazer...”

© Fotografias de Pedro Serrano, 2012: (1) Praia da Areia Branca; (2) e (3) Leipzig. 

Nota: Os restantes contos da sequência Discreta Serenata Rural podem ser lidos na página Contos deste blog.