05 fevereiro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 1. Posta restante

Director clínico com cigarro.
Num dos pisos térreos da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto havia um salão sobretudo conhecido por entre as suas quatro paredes terem lugar as matinés dançantes que, ao longo de alguns fins de semana do ano, animavam a cinzentude do hospital de S. João.
Aí, ao som de um conjunto musical, aspirantes a médicos e estudantes vindos de outras faculdades confrontavam balançando a sua timidez e belas histórias (de amor, sexo, ou somente amizade) deflagraram por conta do ambiente transitório de boîte daquele salão frio.
Pois foi nesse mesmo espaço que anos mais tarde – corria o Outono de 1978 – se realizou a assembleia em que se decidiria quem ia para onde no contingente do Serviço Médico à Periferia (SMP) de 1979.
O SPM foi um dos efeitos secundários do espírito revolucionário do 25 de Abril e consistia em enviar médicos para o seio esquecido do país. Este era o lado mais idealista e publicitável do projecto, pois a iniciativa desembaraçava também um Governo embrulhado em sucessivas fornadas de médicos que saíam das faculdades e não tinham continuidade profissional, uma vez que a especialização médica subsequente se achava paralisada pela desorganização que contaminara todas as instituições e sectores de actividade do país. Assim, graças ao SMP, sempre se ia adiando a dor de cabeça. Espraiado entre 1975 e 1982, o SMP colocou, por doze meses e em todos os cantos do território nacional onde houvesse uma mesa e uma cadeira, milhares de jovens médicos, ignorantes da realidade médica mas mais ainda da social, médicos que aprenderam com a experiência e boas recordações guardaram dela. Algumas dessas recordações incluem mulheres e filhos, arranjados durante o percalço, ou casas secundárias no concelho onde estiveram colocados. Qual foi a vantagem real da iniciativa para a saúde da população é coisa que ficou por apurar de forma objectiva, mas é certo que populações sem nenhuma espécie de acesso a serviços de saúde viram, de súbito, alguma forma de cuidados médicos chegar às suas aldeias e médicos inexperientes mas dispostos a olhar gratuitamente para os seus males de corpo e alma.
Nesse Outono de 1978 de que falava, eu era um entre as cerca de três centenas de médicos que se encostavam pelos cantos do salão, pois as cadeiras disponíveis já se encontravam tomadas. O ambiente fervilhava de nervosismo e, dardejando olhares e tapando a boca com a mão, algumas das senhoritas comentavam as histórias que circulavam. Muitos daqueles meninos e meninas – as nossas idades rondavam os 25 anos – nunca tinham saído mais do que um par de dias do Porto, outros sabiam o que era morar longe da casa materna embora não tivessem ideia do que era trabalhar fora do contexto hospitalar onde sempre havia lugar para a protecção dos mais experientes. E aquela Periferia da sigla SMP era mesmo periferia: em distância, em condições de trabalho e meios de apoio! Terras do Bouro, Macedo de Cavaleiros, Póvoa do Lenhoso, Paredes de Coura, Torre de Moncorvo, meu Deus, quem podia viver aí durante doze longos meses!? E não era só isso: havia ainda que ter em consideração as vagas que era preciso ir ocupar na Madeira e nos Açores, que eram tão longe como se fosse outro país e não permitiam sequer vir dormir a casa, que eram as contas que faziam a maior parte dos sorteáveis: primeiro tentar uma periferia o mais perto possível do Porto, secundariamente uma periferia que permitisse vir dormir a casa todos os dias e, no pior dos casos, ficar numa casa secundária que a família possuía no campo ou não longe de uma praia ventosa do Norte. Havia ainda aqueles cuja maior preocupação era não desfazer os ténues arranjos conseguidos na actividade médica privada, favores que se podiam desvanecer ou ser ocupados por outros em ausência tão prolongada!
É óbvio que os Açores não permitiam dar saída favorável a nada disto e desfiavam-se as façanhas dos colegas que se iam desfazer de centenas de contos ou oferecer automóveis novos para, em caso de azar no sorteio da vaga, trocarem com alguém que não se importasse tanto de ir penar em tais desterros. Olhados como heróis eram também aqueles, raros, que perante uma colega grávida ou um recente par romântico, constituído durante o Curso, ofereciam o sacrifício grátis da troca grátis por uma vaga mais inóspita.
Casa dos Magistrados, entrada principal (com Virgílio Senra).
Equilibrado no parapeito largo de uma janela, eu olhava tudo com o ar desdenhoso daquele que alcançou a liberdade por ter escolhido o pior: eu era um dos raríssimos candidatos voluntários aos Açores e o único do país à ilha Graciosa, a mais pequena do arquipélago logo atrás do Corvo. Aliás, a minha atitude em relação a tudo aquilo era tão blasé que escolhera o local olhando o mapa, o mais próximo que conseguia aproximar-me do intrépido viajante que põe um globo terrestre a rodar no seu eixo e lança a faca de mato contra esse alvo como método para decidir onde será a próxima expedição. Pois eu escolhera o local pela estética do nome das ilhas e, por as Flores já estarem tomadas, optara pela Graciosa, pois que beleza imediata se poderia achar em Faial, Pico ou Terceira?
De acordo com o regulamento a nossa partida para o território adjacente deveria processar-se a 1 de Janeiro, o começo do ano civil, mas a coisa atrasou-se de tal modo que passei todo esse mês em muito libados jantares de despedida: “agora é que parece que é”, dizia eu erguendo uma taça que não seria a derradeira.
Finalmente, já Fevereiro batia à porta, eis que nos enfiaram a todos – os que vindos do Norte, do Centro e do Sul se juntaram em Lisboa – num avião militar sem assentos que se vissem e tão barulhento que não nos ouvíamos uns aos outros. Perto de uma centena de desconhecidos para a colheita insular. Mas rapidamente estreitámos relações e nessa mesma noite, num hotel da marginal de Ponta Delgada, as celebrações alastraram de quarto em quarto e incluíram música, bebidas e chouriços assando em álcool sobre a mobília. Nos  dias seguintes, os jornais locais atroariam a habitual pasmaceira de S. Miguel com indignadas notícias sobre os sucessivos e ingénuos escândalos com que os médicos do Continente salpicavam o território e faziam prever o pior: os “cubanos” – como nos chamavam nesses anos pós-revolução ainda quentes – tinham bebido de mais nas boîtes, alguns foram mesmo vistos a estender as pernas e a pousar os pés nos tampos de vidro das mesinhas baixas; as facultativas continentais saracoteavam-se lascivamente nas pistas de dança e vestiam-se a condizer!
Rapidamente, muito mais rapidamente do que era a sua bitola de eficiência costumeira, a Secretaria Regional respectiva apressou-se a despachar-nos para os respectivos destinos. Após um curto voo para a Terceira, onde permanecemos um dia ou dois à espera de transporte, eu e outro colega – dos quatro previstos para a Graciosa apenas dois se mostraram disponíveis – fomos enfiados num helicóptero da Força Aérea para um voo de libelinha de cerca de meia-hora por sobre o azul bravio do mar dos Açores.
Aterrámos entre as balizas do pequeno campo de futebol de Santa Cruz, assim se chamava a capital da ilha. O perímetro do relvado estava pejado de gente, não tardaria a percebermos que sempre assim sucedia quando o helicóptero vinha, uma vez por semana se o tempo estivesse bom. Era a maior distracção da ilha, e nessa manhã do começo de Fevereiro apimentada pela chegada dos novos médicos. À saída da carlinga fomos cumprimentados de raspão pelos três colegas que íamos substituir e que rapidamente subiram a bordo. Eram os três do Porto e  lembrava-me deles, frequentávamos os mesmos cafés da cidade. Um usava o cabelo pelos ombros, parecia um pau de virar tripas e viria a ser um cirurgião plástico dos que abrilhanta revistas cor-de-rosa; o outro tinha uma expressão facial descaída e que o fazia lembrar um jacobino da Revolução Francesa, e a terceira era uma loura pálida e de ar atemorizado.
“Adeus”, disse um deles, “boa sorte” e o tom com que o gritou por sobre o barulho das pás do helicóptero, que nunca tinham parado de espadanar o ar, pareceu-me tão carregado de sarcasmo como a manhã o estava de humidade e salitre.
Casa dos Magistrados: varanda, lado sul (ao fundo o edifício do hospital).
Entretanto aproximara-se um tipo que, após nos desejar as boas-vindas muito formalmente, se apresentou como funcionário do Tribunal e nos informou que tínhamos uma autópsia marcada para as duas da tarde desse mesmo dia.  Olhei o céu para corporizar a maldição que dirigi aos colegas que nos tinham deixado tal presente de boas-vindas, mas o helicóptero já desaparecera no pano de cena do céu nublado.
“Trouxeste o guia das perícias medico-legais?”, perguntou o meu colega entre dentes.
Abanei a cabeça numa afirmativa condicionada. Esse e outros livros médicos, enfiara-os eu no baú de madeira e chapa que, a essa hora, ainda devia estar a ganhar pó pelos armazéns do porto de Leixões, à espera de ser alfandegado. Se tudo corresse bem talvez dali a um mês me chegasse às mãos.

© Fotografias: Santa Cruz da Graciosa, Graciosa, Açores, 1979, fotógrafo desconhecido.