05 fevereiro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 1. Posta restante

Director clínico com cigarro.
 Sabíamos que eram belas as ilhas
 por aqui algures onde tateamos
 um pouco mais abaixo ou um pouco
 [mais acima
 um espaço mínimo.

       Yorgos Seferis (Romance, VIII)
Num dos pisos térreos da Faculdade de Medicina havia um salão, sobretudo, conhecido por abrigar entre as quatro paredes as matinés dançantes que, ao longo de alguns fins de semana do ano, animavam a cinzentude do Hospital Universitário de S. João.
Aí, ao som de um conjunto musical, aspirantes a médicos e estudantes vindos de outras faculdades, confrontavam, balançando, a sua timidez e belas histórias de amor, sexo ou somente amizade, deflagraram à conta do ambiente transitório de boîte daquele salão frio.
Pois foi nesse mesmo espaço que anos mais tarde – corria o Outono de 1978 – se realizou a assembleia que decidiria quem ia para onde no contingente do Serviço Médico à Periferia do ano seguinte.
O Serviço Médico à Periferia foi um dos efeitos secundários do espírito revolucionário do 25 de Abril e consistia em enviar médicos para o ventre esquecido do país. Este era o lado mais idealista e publicitável do projecto, uma vez que a iniciativa desembaraçava também um Governo embrulhado em sucessivas fornadas de médicos que saíam das faculdades e não tinham continuidade profissional, pois a especialização médica subsequente achava-se paralisada pela desorganização que contaminara todas as instituições e sectores de actividade do país. Assim, graças a esta espécie de serviço cívico, sempre se ia adiando a dor de cabeça. Espraiando-se entre 1975 e 1982, o Serviço Médico à Periferia colocou, por doze meses e em todos os cantos do território nacional onde houvesse uma mesa e uma cadeira, milhares de jovens médicos, ignorantes da realidade médica mas mais ainda da social, médicos que aprenderam com a experiência e boas recordações guardaram dela. Algumas dessas recordações incluem mulheres e filhos, arranjados durante o percalço, ou casas secundárias no concelho onde estiveram colocados. Qual foi a vantagem real da iniciativa para a saúde da população é coisa que ficou por apurar de forma objectiva, mas é certo que populações sem nenhuma espécie de acesso a serviços de saúde viram, de súbito, alguma forma de cuidados médicos chegar às suas aldeias e médicos imberbes mas dispostos a olhar, gratuitamente, para os seus males de corpo e alma.
Nesse Outono de 1978 de que falava, eu era um entre as cerca de três centenas que se encostavam pelos cantos do salão, pois as cadeiras disponíveis já se encontravam tomadas. O ambiente fervilhava de nervosismo e, dardejando olhares e tapando a boca com a mão, algumas das senhoritas comentavam as histórias que circulavam. Muitos daqueles meninos e meninas – as nossas idades rondavam os 25 anos – nunca tinham saído mais do que um par de dias do Porto, outros sabiam o que era morar longe da casa materna embora não tivessem ideia do que seria trabalhar fora do contexto hospitalar, onde sempre havia lugar para a protecção dos mais experientes. E aquela Periferia da designação oficial era mesmo periferia: em distância, em condições de trabalho e meios de apoio! Terras do Bouro, Macedo de Cavaleiros, Póvoa do Lenhoso, Paredes de Coura, Torre de Moncorvo, meu Deus, quem podia viver aí durante doze longos meses!? E não era só isso: havia ainda que ter em consideração as vagas que era forçoso ir preencher na Madeira e nos Açores, que eram tão longe como se fosse outro país e não permitiam sequer vir dormir a casa, que eram as contas que fazia a maior parte dos sorteáveis: primeiro tentar uma periferia o mais perto possível do Porto, secundariamente uma periferia que permitisse vir dormir a casa todos os dias e, no pior dos casos, ficar numa habitação secundária que a família possuía no campo ou não longe de uma praia ventosa do Norte. Havia ainda aqueles cuja maior preocupação era não estragar os ténues arranjos já conseguidos na actividade médica privada, favores que se podiam desvanecer ou ser ocupados por outros em ausência tão prolongada!
É óbvio que os Açores não permitiam dar saída favorável a nada disto e desfiavam-se as façanhas dos colegas que se iam desfazer de centenas de contos ou oferecer automóveis novos para, em caso de azar no sorteio da vaga, trocarem com alguém que não se importasse tanto de ir penar em tais desterros. Olhados como heróis eram também aqueles, raros, que perante uma colega grávida ou um recente casal, constituído durante a licenciatura, ofereciam o sacrifício da troca grátis por uma vaga mais inóspita.
Equilibrado no peitoril largo de uma janela, eu olhava tudo com o ar desdenhoso daquele que alcançou a liberdade por ter escolhido o pior: eu era um dos raríssimos candidatos voluntários aos Açores e o único do país à ilha Graciosa, a mais pequena do arquipélago se ignorássemos aquele nico chamado Corvo, tão desprezível que nenhuma vaga estava prevista para lá. Aliás, a minha atitude em relação a tudo aquilo era tão blasé que escolhera o local olhando o mapa, o mais próximo que conseguia aproximar-me do intrépido viajante que põe um globo terrestre a rodar sobre o eixo e lança a faca de mato contra esse alvo como método de decidir onde será a próxima expedição. Pois eu escolhera o local pela estética do nome das ilhas do arquipélago e, por as Flores já estarem tomadas, optara pela Graciosa, pois que beleza imediata se poderia descortinar em Pico, Faial, ou Terceira?
De acordo com o regulamento, a nossa partida para o território adjacente deveria processar-se a 1 de Janeiro, o começo do ano civil, mas a coisa atrasou-se de tal modo que passei todo esse mês em libados jantares de despedida: “agora é que parece que é”, dizia, erguendo uma taça que não seria a derradeira.
Finalmente, já Fevereiro batia à porta, eis que nos enfiaram a todos – os que vindos do Norte, do Centro e do Sul se juntaram em Lisboa – num avião militar sem assentos e tão barulhento que não nos ouvíamos uns aos outros. Perto de uma centena de desconhecidos para a colheita insular. Mas rapidamente estreitámos relações e nessa mesma noite, num hotel da marginal de Ponta Delgada, as celebrações alastraram de quarto em quarto e incluíram música, bebidas, chouriços a assar em álcool sobre a mobília e uma colega cuja voz cristalina de soprano atroava os corredores interpretando árias de ópera. Nos  dias seguintes, os jornais locais agitariam a habitual pasmaceira de S. Miguel com notícias indignadas sobre os sucessivos escândalos com que os médicos do Continente salpicavam o território e faziam prever o pior. Os “cubanos” – como nos chamavam nesses anos, ainda quentes, da pós-revolução – tinham bebido de mais nas boîtes, alguns foram mesmo vistos a esticar as pernas e a pousar os pés nos tampos de vidro das mesinhas baixas; e, à meia-luz, as clínicas continentais saracoteavam-se lascivamente nas pistas de dança, vestidas a condizer!
Rapidamente, muito mais rapidamente do que era a sua bitola de eficiência costumeira, a Direcção Regional de Saúde apressou-se a despachar-nos para os respectivos destinos. Após um curto voo para a Terceira, onde permanecemos um dia ou dois à espera de transporte, eu e outro colega – dos quatro previstos para a Graciosa apenas dois se mostraram dispostos a ir – fomos enfiados num helicóptero da Força Aérea para um voo de libelinha de cerca de meia-hora por sobre o azul bravio do mar dos Açores.
Ilha Graciosa, Açores (Grupo Central).
Aterrámos entre as balizas do pequeno campo de futebol de Santa Cruz, assim se chamava a capital da ilha. O perímetro do relvado estava pejado de gente, não tardaria a percebermos que sempre assim sucedia quando o helicóptero vinha, uma vez por semana se o tempo estivesse bom. Era a maior distracção da ilha, e, nessa manhã do começo de Fevereiro, apimentada pela vinda dos novos médicos. À saída da carlinga fomos saudados de raspão pelos três colegas que íamos substituir e que rapidamente subiram a bordo. Eram os três do Porto e  lembrava-me deles, frequentávamos os mesmos cafés da cidade. Um usava o cabelo pelos ombros, parecia um pau de virar tripas e viria a ser um cirurgião plástico dos que abrilhanta revistas cor-de-rosa; o outro, tinha uma expressão facial descaída e que o fazia assemelhar um jacobino da Revolução Francesa, e, a terceira, era uma loura pálida e de ar atemorizado.
“Adeus”, disse um deles, “boa sorte” e o tom com que o gritou por sobre o estrépito das pás do helicóptero, que não tinham parado de espadanar o ar, pareceu-me tão carregado de sarcasmo como a manhã o estava de humidade e salitre. 
Entretanto aproximara-se um tipo que, após nos desejar as boas-vindas muito formalmente, se apresentou como funcionário do Tribunal e nos informou haver uma autópsia marcada para as duas da tarde desse mesmo dia. Olhei o céu, a corporizar a maldição que dirigi aos colegas que nos tinham deixado tal presente de boas-vindas, mas o helicóptero já desaparecera no pano de cena do céu nublado.
“Trouxeste o guia de perícias medico-legais?”, perguntou o meu colega entre dentes.
Abanei a cabeça numa afirmativa condicionada. Esse e outros livros médicos, enfiara-os eu no baú de madeira chapeada que, a essa hora, ainda devia estar a ganhar pó pelos armazéns do porto de Leixões, à espera de ser alfandegado. Se tudo corresse bem, talvez dali a um mês me chegasse às mãos.


© Fotografia de cima: Santa Cruz da Graciosa, Graciosa, Açores, 1979, fotógrafo desconhecido.