10 fevereiro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 2. Autópsia

A Lição de Anatomia, Rembrandt, 1632.
A autópsia correu bem, graças a Deus que na morte violenta a causa se revela na generalidade bastante evidente, mesmo antes que se descomponha o defunto.
O cadáver esperava-nos, pontual, no acanhado anexo por trás do hospital que fazia de morgue. Pontual, também, foi o Sr. Medina que já lá se encontrava com uma expressão de formalidade contrita semelhante àquela com que nos fora aguardar ao helicóptero. Como ele próprio explicou, é grande a dificuldade do Ministério da Justiça em recrutar magistrados que venham viver, ou até cumprir uma missão de dois ou três anos, à Graciosa. É isso que explica não existir na ilha nem juiz nem delegado do Ministério Público. Mas o Sr. Medina tem fé e rumores de que, talvez em breve, seja colocado alguém na ilha e que as carências mais gritantes sejam supridas; que os processos deixem de se continuar a acumular na sua mesa... Enquanto aguarda, fechado no seu mistério de confidencialidade, Sr. Medina vai desempenhando todos os papéis que a função exige: a de chefe da secretaria, a de quase autoridade judicial; a de escrivão; a de zelador das moradias geminadas que aguardam os magistrados, estando  destinada uma ao Juiz e outra ao Dr. Delegado do Ministério Público.
Vamos concordando e olhando o morto, enquanto o vemos retirar, com método, os ferros de autópsia, propriedade do Tribunal, de uma maleta que trouxe com ele e onde está igualmente acondicionado o papel pautado e timbrado onde irá registar o que nos “aprouver ir ditando durante a necropsia”.
No longínquo começo da manhã uma Citroen Dyane transportara-nos, mais às nossas malas, desde o heliporto improvisado até ao local onde iremos morar durante um ano. A casa dos médicos fica por cima da única farmácia da ilha e é suficiente desviarmo-nos por vinte centímetros na porta de entrada para nos encontrarmos no meio de estantes de vidro e caixas de medicamentos, frascos de xarope, embalagens de supositórios e ampolas bebíveis. Ao atravessarmos o umbral há quem tenha vindo espreitar à porta da farmácia: doentes pasmados, de receita em punho, e um tipo de bata branca que nos sorri com embevecida cumplicidade. Pousámos as malas e damos uma volta de reconhecimento pela casa, embora haja pouco a ver: dois quartos de estuque enxovalhado, uma sala acanhada com um sofá arrombado e uma janela dando para o largo fronteiro à farmácia e donde se avista um lago em forma de rim, bordejado por uma cáfila de uma espécie de grandes pinheiros de ramos horizontais e com algo de artificial, pois parecem ter sido espetados ao tronco à martelada. São araucárias, como nos irá informar o Sr. Medina um dia destes, num futuro que ainda não bateu à porta. Para já faltava-nos ainda ver a pequena cozinha, com ar de ter sido pouco usada. Escancarámos os armários para encontrar, na face interior da porta de fórmica de um deles, uma inscrição de boas-vindas sarrabiscada a marcador preto: “BEM VINDOS À ILHA DA LOUCURA”. O recado deve ter sido deixado, para nos desmoralizar, pelos três gajos com que nos cruzámos à porta do helicóptero ou será que eles, à sua própria chegada, um ano antes, já encontraram aquilo desabafado pelos colegas que os  antecederam?
Estávamos, cada um no quarto que escolhemos sem entusiasmo, a atirar alguns dos pertences para dentro das cómodas quando ouvimos a porta ranger ao fundo das escadas e uma voz gritar para cima. Espreitei: um tipo arruivado, de bata branca e muito curta que lhe conferia aspecto de bibe, galgava as escadas com desembaraço, como se estivesse habituado a fazê-lo; ia-se apresentando:
“Gaspar, auxiliar de farmácia. Tudo quanto precisem... Já assim era com o Dr. Francisco e o Dr. Alberto...”
E o Gasparinho, como logo informou preferir ser tratado, demorou-se por ali e na sua fala um pouco pevidosa foi-nos pondo a par de que se tinha dado lindamente com os médicos anteriores; que tocava trompete no conjunto da terra, e que na sexta-feira – como em todas as sextas e sábados – haveria baile na colectividade; e que já ouvira zunzuns de que tínhamos uma autópsia às duas da tarde... Depois, como se fosse o proprietário, lamentou a nossa casa e ela não ser tão boa como quanto mereceria a dignidade dos clínicos da ilha, mas que estava a ser ajustada entre a Secretaria Regional dos Assuntos Socais e o Tribunal a cedência de uma das casas dos magistrados, pois estavam vazias há anos e tinham outra decência que não aquela estreiteza do andar por cima da farmácia. O Sr. Medina não nos teria já falado nisto?
Não, o Sr. Medina – após ter solicitado a nossa licença – despira o casaco e usara as costas da cadeira como cabide. Retirava agora uma resma de papel de uma maleta e, depois de o alisar batendo com ele no tampo da escrivaninha que havia na morgue, informou-nos que irá registando o quanto lhe formos ditando durante a necropsia.
Olhei o Rui e, sem pestanejar sequer, trocámos entendimento. Ambos tínhamos já compreendido que a encenação era veste importante no destino a que acabáramos de chegar, mas ele foi mais rápido do que eu: estendendo-me o bisturi e assumindo o tom de um Groucho Marx, em diálogo com o Harpo, comunicou, muito profissional:
“Queira proceder, colega...”
“Cabrão”, mal tive tempo de pensar, enquanto revia mentalmente o pouco que retinha das aulas práticas de Medicina Legal. Para efeitos de autópsia, um ser humano cortava-se como um pacote e, no fim, costurava-se como um saco. Abria-se como um vulgar caixote de cartão, cujas badanas da tampa tivessem sido  justapostas com fita-gomada: metia-se o bisturi por baixo do osso do queixo e ia-se por ali abaixo até bater com a navalha no osso púbico, onde se dava o golpe por terminado. A variação consistia em que, ao contrário do caixote em que o percurso da navalha era rectilíneo, no caso dos seres humanos fazia-se o contorno do umbigo com o bisturi, tal qual o condutor que respeita ajuizadamente a circularidade a uma rotunda.
Sentado à sua secretária, fitando-nos de sob os sobrolhos fixos da massa negra dos óculos, o senhor Medina vigiava-nos atentamente os movimentos em torno da mesa de autópsia, e esperava, de esferográfica em riste, o nosso recitativo. “No que se refere ao hábito externo, trata-se de indivíduo do sexo masculino, de raça caucasiana e aparentando uma idade de aproximadamente...”, continuei por ali fora, dirigindo-me ao Rui cerimoniosamente e como se, todos os quatro, estivéssemos contidos na moldura de um óleo do Rembrandt.