16 fevereiro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 3. Pulgas no Açucareiro

Esplanada do Açucareiro.
Encontrámos o Sr. Medina no Açucareiro e, a princípio, tomei o encontro como uma aparatosa coincidência, quase reagi com a face do espanto. Depois descobri que o café do Açucareiro é o único da vila, da ilha!, e a surpresa feneceu.
Do lado de lá de um dos dois lagos que lambem a porta de nossa casa fica o largo principal da vila, o Rossio. No centro há um coreto – conhecido por açucareiro – e sob o chão deste, no miolo da estrutura que o suporta, numa sala rebaixada, abriga-se o café da ilha. De modo que, sendo o único, o derradeiro, ali converge diariamente – de manhã, à tarde e à noite – a gente de Santa Cruz da Graciosa: os da farmácia, os do hospital, os da câmara e dos diversos pelouros municipais; os do correio, os da firma que anda a construir o porto; o Sr. Medina, este último representando com circunspecção os serviços judiciais e usando a linguagem gestual para oficiar que nos deseja apalavrinhar por uns instantes.
Ora acontece que os Serviços Sociais do Ministério da Justiça pretendem contratar a atenção médica a que, por estatuto, os seus funcionários, familiares directos e colaterais, têm direito mas, dada a nossa condição de médicos policlínicos, torna-se impossível firmar um contrato e, então, após ouvir os seus superiores em Angra do Heroísmo...
Distraio-me do que diz o homem: a circunstância de ter sido o nosso fiel escriturário durante a autópsia reenvia-me, por uma associação de pensamento lateral, para uma aula prática de medicina legal ocorrida num soturno fim de tarde na Morgue do Porto, ali ao lado do jardim do Carregal. A atmosfera da pequena sala está pesada com os miasmas do formaldeído e, de um dos assentos dispostos em anfiteatro, uma mão toca-me o ombro e a voz do Zé Lino, que se distrai na fila atrás da minha, segreda:
“Estás a começar a ficar careca, pá, já se topa uma clareirazinha no alto do cocuruto...”
Tento encaixar o choque sem alarde. Careca!? Tenho vinte e dois anos e, por escrutínio atento ao espelho, não tenho notado nada de tal... O certo é que, ao espelho, controlo sobretudo as entradas da testa... Mas dali, do seu posto de observação privilegiado das traseiras, o Zé Lino – colega com quem costumo estudar em casa de meus pais e para onde, sempre que pode e eles não estão, ele orienta as namoradas de ocasião – detectou a falha, a erosão insidiosa. Humilhado, destroçado, tento resistir a não levar, em público, a mão à zona desmascarada.  
Enfim, tudo se passou em local apropriado para uma constatação sobre mortalidade e os efeitos da passagem do tempo, generalizo, de novo à ponta do balcão do café sob o coreto e de regresso à conversa do Sr. Medina, que nos pede, então, o obséquio de, entre nós e logo que possível, decidirmos qual dos dois será o médico dos serviços judiciais da comarca da ilha Graciosa. Derivado de não poder haver contrato, não poderá haver lugar a pagamento, somenos que ele espera a gente compreenda.
A gente, isto é eu e o Rui, não compreende grande coisa mas, também, pouco nos interessa. Os funcionários e respectiva família do pessoal do tribunal serão dois ou três gatos pingados e, quando necessitarem, marcarão vez e irão à consulta como os outros.
“É isso, não é?”, perguntámos mais tarde nesse dia ao Nascimento, o chefe dos serviços administrativos do hospital que, embora estivesse também ao balcão do Açucareiro, lançando olhares de acesa curiosidade na nossa direcção, fingiu não saber ao que nos referíamos. Resumimos-lhe o encontro e a conversa.
O Nascimento, sem se querer comprometer com assuntos de outras entidades oficiais, acha que será mais ou menos isso, que eles estarão, sobretudo, interessados em manter o esquema de comparticipação de medicamentos e meios auxiliares de diagnóstico que, amiúde, são diferentes do regime geral...
“Vejam os doutores, por exemplo, os bancários: gozam de um sistema de protecção na doença muito mais...”
Já desligamos outra vez, queremos é pôr-nos a andar, ver se conseguimos acabar de encafuar os nossos pertences nos armários e dar uma volta de reconhecimento pela ilha na Dyane, veículo que requisitámos para nosso uso. O Nascimento vai abanando a cabeça e dizendo que “já que se está com a mão na massa” lhe devemos indicar, com brevidade, qual de nós irá ser o responsável formal por alguns cargos que é necessário distribuir: director clínico do hospital, delegado de saúde, director da consulta do dispensário do SLAT (1), director da consulta Materno-Infantil, membro da Comissão Administrativa do Hospital... Tudo isto,  dada a nossa condição de médicos policlínicos, será assegurado a nível interino e gracioso.
“Mais nada?”, inquirimos, já irritados, e perguntando se no meio disso tudo nos iria sobrar tempo para ver e tratar doentes.
O Nascimento teve um riso nervoso, o confronto directo parece não ser o seu terreno favorito. Refugiou-se nas directrizes do Sr. Vasco Weber, chefe da Comissão Administrativa do Hospital Concelhio. Queremos saber quem é esse senhor e onde está, mas, pelo visto, faz outras coisas na vida e só passa por ali de vez em quando.
Director (interino) à porta do hospital, vendo-se, 
à direita, a janela do seu gabinete.
Estamos de saída, mas o Nascimento agitou ainda um pedacito de papel diante dos nossos olhos.
“Ah, já me ia passando, telefonou para aí o Araújo, dos Correios... Parece que quer falar com os senhores – suponho que será para que indiquem qual vai ser o médico deles – e convida-os para um copo, palavras suas, uma noite destas em casa dele.”   
“Ao menos um que é simpático a manobrar...”, comentei com o Rui já no caminho para casa, um trajecto de cinco minutos a pé que deu para discorrermos sobre a multidão de gajos, serviços e departamentos que se preparavam para girar em torno de nós dois.
“Pois. Já viste a quantidade de gente a quem o nosso trabalho vai justificar a existência? Que seria deles se este ano não tivessem vindo médicos para a ilha? Uma matilha de pulgas para um só cão!”
“Dois, se não te importas”, corrigi, “exijo ser chupado por metade dessas pulgas. E a ti, o que te agrada mais: director do hospital ou delegado de saúde?”
“Sei lá, talvez delegado de saúde. Não faço ideia, mas é capaz de dar menos trabalho...”
E animamo-nos um pouco ao lusco-fusco a combinar entre nós quem ficava com o quê.

(1) SLAT – Serviço de Luta Antituberculosa.

© Fotografias: Santa Cruz da Graciosa, Graciosa (Açores), 1979, fotógrafo desconhecido.