20 fevereiro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 4. Olhai as vacas dos campos

Ilha Graciosa, Açores (grupo central).
É sempre arriscado generalizar a partir de uma única observação. Entretido a dar nomes de cores às ilhas dos Açores (ao Faial chamou ‘ilha azul’ por causa das hortênsias), o escritor Raul Brandão resolveu cognominar a Graciosa de ‘ilha branca’. Ilha branca!? Quase escuto o brado de protesto de uma série de ilhas gregas a evolar-se, em coro, do azul-ferrete do Mediterrâneo.
Acontece que o homem passou por aqui no final do Verão, quando o verde da paisagem se encontra crestado pela falta de água e as casas caiadas sobressaem da relativa aridez. Foi um erro de julgamento sazonal, tivesse o tipo andado hoje connosco e chamaria a isto a ‘ilha verde’.
É Domingo, eu e o Rui metemo-nos na Dyane para a tal volta de reconhecimento à ilha, mentalmente preparados para gastar a tarde inteira na excursão... Qual quê!; passado pouco mais de uma hora estávamos de novo a estacionar o carro à porta do hospital, para ir dar uma espreitada aos doentes internados. A ilha tem 10 km de comprimento por 4 de largura, se não formos geógrafos ou botânicos percorre-se isto em meia-hora. E mesmo assim parámos no Carapacho por nos terem dito  haver lá um restaurante. Não há! Há um senhor a quem se pode encomendar uma caldeirada ou um cavaco estufado, mas tem de se marcar com antecedência para que ele arranje o peixe ou mande capturar essa espécie de lagosta jurássica, e abra e areje a sala onde iremos comer.
Rai’s parta, lá vamos nós ter de continuar a comer na D. Irene ou, se queremos comer melhor, aprender a cozinhar, uma solução demasiado radical para já. Rai’s parta também o romanticismo do Raul Brandão, que não deve ter gasto por aqui mais do que uma meia-hora deslumbrada.
De facto, em fins de Fevereiro, a ilha é verde como um drop mentolado para onde se quer que olhe. Para onde quer que se olhe vê-se o mar e mais nada, perto e longe, e entre ele e nós – especados ao lado da Dyane, de mãos enfiadas nos bolsos a arrostar com a ventania destes descampados – só se veem vacas; vacas e mais vacas, que nos olham de olhos meigos ou indiferentes, algumas delas quase encantadas por algo como nós lhes aligeirar o tédio dominical, outras escorrendo baba pelos cantos da boca como um alienado entre as tomas da medicação. Sobram ainda as que não levantam sequer a cabeçorra do solo, concentradas a retouçar o pedaço de verde ao seu alcance, confiantes no dia de amanhã e na eternidade do sustento. Até onde a vista descaída lhes alcança, a erva dos prados agita os caules verdes numa saudação amiga.  

 

  


Nota: As vacas da imagem inferior são tomadas de empréstimo à contracapa do álbum Atom Heart Mother dos Pink Floyd, 1970.