27 março 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 10. Sorte e Destino

Daqui a três meses faço 26 anos, o que, a esta distância em que escrevo, me parece pouco, muito pouco; actualmente as pessoas com quem convivo referem-se a gente dessa idade como “miúdos”. Mas não era nessa categoria tão verde e desculpável que se sentia pertencer o personagem que, nesse Março de 1979, deambulava – corcovado para resistir ao vento – as ruas de Santa Cruz da Graciosa.
Eu fôra para ali no decorrer de um processo que já fermentava na minha cabeça e buscava algo como uma troca de pele e de personalidade, como fazem as serpentes para se renovar. Intenções. Com vinte e cinco anos e uma – julgava eu – longa acumulação de desvarios e episódios amorosos, ganhava terreno em mim a vontade de mudar de vida, assentar, o que incluía seguir o meu caminho, o qual não sabia qual seria mas, ponto dado como adquirido, incluiria uma companhia feminina de longo prazo, se não eterna ao menos definitiva como a existência por vezes nos parece. Estava enjoado da vida sexy que levava, rai’s partisse o jugo da sensualidade, a sedução, e quem lá andasse. E aquela coisa da ilha até que tinha calhado bem, funcionaria como a linha traçada na poeira com um graveto: “isto é a fronteira; tu agora não podias passar daqui, nem saltar por cima”; no fundo, quanto mais solitário o desterro, melhor: levaria os livros que achava ter de ler e nunca lera, e lá estavam a saltar da minha arca furta-cores os sete volumes do À La Recherche du Temps Perdu, do Proust. Ter tempo para, finalmente, traduzir para português a versão do Tarot do Oswald Wirth – também viajara no baú, na companhia dos respectivos arcanos maiores. Estudar medicina (de que sabia estupidamente pouco); firmar uma troca de correspondência com pessoas seleccionadas (actividade que julgava tão apropriada a uma ilha como o eleger o rum como bebida oficial); manter-me solitariamente afastado como forma de ascese espiritual – eu não conheceria ninguém no lugar para onde iria, conservar-me-ia longínquo e evitaria flirts, namoros ou qualquer outra espécie de contacto dessa natureza. Este celibato observaria mais do que um objectivo, um deles acautelava a eventual veracidade das histórias que se ouviam sobre a disposição das fêmeas açorianas em lançar mão de todos os subterfúgios da sereia para escaparem ao destino insular. E eu, em paradoxo com a minha ânsia de isolamento, já me sentia tremer de horror ao imaginar-me, por toda a existência, encatrafiado numa ilha a empurrar carrinhos de bebé pelo empedrado vulcânico, a engolir as sopas de pão das festas do Senhor Santo Cristo! Com esse celibato autoimposto observaria também outro dos mandamentos que me traçara: a fidelidade a um ser concreto. Uns curtos dois meses antes de embarcar para os Açores eu estava certo de ter encontrado finalmente a tal companhia feminina duradoura; a tal que me levaria a outro patamar da existência e preenchia, na minha exigente checklist mental, os quadradinhos de verificação onde riscara uma cruz: bonita, inteligente, gostável, com pinta – termo que então se usava para com classe, e dona de uma ponta de irreverência a desabrochar. Chamava-se João, tinha 22 anos, deslocava-se numa Vespa vermelha, usava chapéus moles Burberry, e estava a terminar o curso de enfermagem na escola do IPO de Lisboa, a espécie mais chic das escolas de enfermagem desses dias. Antes disso cursara um ano em Medicina, mas tinha urgência em ser útil e achara os estudos médicos demasiado arrastados no tempo.
Tudo isto que agora uma rememoração retrospectiva define em contornos tão nítidos, tal peças de puzzle que encaixam sem folga, não o era, ou não o parecia ser, na época em que as coisas sucediam, pois aos vintes a vida parece-nos mais uma fotografia do que um filme, uma imagem fixa onde, para além das bordas do papel fotográfico, nada existe que se relacione connosco. Ou seja, e comparando-me a um potro candidato a puxar a carroça do primeiro emprego, eu relinchava e escoiceava naquele processo de me habilitar a seguir um caminho em que eu próprio seria a besta de carga e o cocheiro. Seria aquele o melhor caminho? Seria aquele o único caminho? Seria aquele o meu caminho? Qualquer decisão que viesse a tomar me parecia rigidamente definitiva e capaz de vincular todo o meu destino por séculos de arrependimento. Mas, enfim, uma ideia confusa persistia na bruma, a vontade de a cumprir também, e a personagem que deambulava pelas ruas da ilha – inclinado contra o vento – estava, a contragosto e capaz de o negar sobre qualquer um dos livros sagrados, tão eriçada de intenções e de princípios como os ouriços-do-mar do Carapacho de espinhos. Longos são os desertos e muitos os oásis.
O Rui partilhava uma boa mão cheia dos meus propósitos, um deles acabadinho de ser chutado ao mar por ambos. Conhecíamos-nos há sete anos, desde os primórdios na Faculdade, e vivêramos os dois últimos anos nas mesmas casas, nos nossos primeiros dias fora das respectivas casas paternas e no dealbar da vida profissional. E, apreciada a experiência e a aprendizagem, os dois concordáramos que era hora de cada um seguir o seu caminho, de nos aventurarmos em separado; de maneira que tendo ambos decidido ir para os Açores durante a Periferia, o faríamos em ilhas diversas: ele a norte, nas Flores, e eu na Graciosa, uma ilha do grupo central. E estava tudo mais que claro e decidido nas nossas cabeças até a esse dia da escolha no salão da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em que soubemos que as Flores já fora escolhida por um grupinho de quatro colegas de Lisboa. Logo depois, a realidade desnudou uma nova aresta: para além de mim, mais ninguém queria ou se sujeitava a ir para a Graciosa e eu não poderia servir sozinho uma população de 7.000 habitantes! Estavam planeados quatro médicos para a ilha, no ano anterior tinham lá estado três e, mesmo assim, não fora fácil. Comigo em silêncio, o Rui suspirou e lá se chegou à frente para a escala na Graciosa. 
“É o destino”, aquilata ele sorvendo um pouco de whisky e ajeitando-se regaladamente no sofá das Barcelos, enquanto a TV aquece para mais um episódio do Dancing Days. Santo Deus, aquela Vera Lúcia – que tesãozinho!

© Imagens (de cima para baixo): 1) Quatro arcanos maiores do Tarot de Oswald Wirth, 1966; 2) Fotografia: Escola Técnica de Enfermeiras (IPO de Lisboa), Junho 1979, fotógrafo desconhecido.