08 março 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 6. Ilha com vista para o mar

O hospital – viria a descobri-lo mais tarde, após ter trabalhado em vários – tem a dimensão e o padrão do que se chama ‘hospital concelhio’, uma estrutura pensada para servir populações relativamente pequenas com os cuidados médicos considerados básicos.
Da esquerda para a direita: Madre superiora, Virgílio Senra, irmã Noémia, director interino, Viegas.
Este tem dois andares e no de baixo situa-se a urgência, os gabinetes de consulta, a secretaria e, lá ao fundo, um pequeno bloco operatório pobremente apetrechado, onde sobressai o avantajado projector de quatro lâmpadas que há-de um dia assombrar de luz a mesa cirúrgica. Ao cimo das escadas ficam as enfermarias, uma para mulheres e outra para homens, no total somarão a quinzena de camas. Tomando pelo patamar em sentido contrário ao do internamento, numa parte recuada do segundo andar resguardam-se as instalações das freiras, e vamos apercebendo de que nos aproximamos de outro mundo pelos acabamentos de marcenaria e pintura, pois os pormenores escapam aqui ao cunho impessoal da instituição hospitalar clássica. O acesso é vedado ao público, até a nós, profissionais do mesmo ramo, e só terei a rara oportunidade de aí entrar meses depois, quando as irmãs encomendarem uma missa privada em honra do meu aniversário natalício. Mas isso será só em Junho.
Ao dar-me conta de que o hospital era gerido por freiras – sejamos claros: o Nascimento não faz mais do que esvoaçar entre papéis – senti um baque de desagrado: não gosto de freiras nem de ambientes freiráticos. Conheço-os bem, de perto, frequentei-os no Porto quando desenvolvi actividade cirúrgica com o meu pai, que é médico e trabalha, quase em exclusividade, em Ordens. Venha a nós o vosso reino e aqui está a factura, tomastes um comprimido mas pagais a caixa inteira; é esta a impressão geral que tenho do mundo em que se movem e onde convivem em tão grande à vontade com os cobradores de impostos e outros fariseus.
Mas a realidade encarrega-se de trocar as voltas às minhas generalizações e aprenderei a respeitar e a gostar destas freiras insulares, que não perdem tempo a ornamentar o discurso com pieguices, não investem no registo da hipocrisia, não reviram os olhos à procura do firmamento e se adaptam com prodigiosa velocidade ao que tem pela frente, o que, nos últimos anos, consiste em médicos imberbes, pouco sabedores e quase nada treinados; às vezes arrogantes e sempre transitórios ao local onde vieram parar. Mas elas lidam bem com tudo isso e mantém, à tona dos constrangimentos, o horizonte da sua missão: tratar e cuidar dos doentes.
Há três freiras enfermeiras: uma é a Madre Superiora, uma mulher com a estatura, e talvez a idade, da D. Irene, mas tesa à proa do seu leme e capaz de conjugar um sorriso na face rubicunda, onde cintilam uns olhos azuis atentos e inteligentes. Há, depois, a irmã Noémia, uma mulher mais nova e ainda afligida pelas hormonas, estremecimentos que, tem dias, se lhe escapam por entre as pregas engomadas do celibato. Resta a irmã Celeste, senhora de idade, ex-missionária na Índia, e vinda acabar os seus dias de servidão na pacatez da Graciosa. A irmã Celeste já enfrentou e viu tudo quanto havia a ver, e é até capaz de recorrer a técnicas de guerrilha para alcançar os seus intentos fraternos. O meu consultório, no rés-do-chão, é contíguo às duas salas do serviço de urgência, com quem comunica por uma porta, porta que amiúde se escancara e deixa irromper no meu espaço um doente que, de calças arreadas, tenta escapar à ex-missionária, que o persegue de seringa em riste como se de um novilho a bandarilhar se tratasse. O mundo é a preto e branco para a irmã Celeste e concede à vida terrena a justa medida de uma chamazita bruxuleante. Quando um doente nos morre, é a única que rejubila e nos consola com uma palmada da mão seca no abatido antebraço que atraiçoou Hipócrates e não conseguiu salvar mais este...
“Deixe lá, Dr.” diz, risonha e consolada: “é mais um que já vai a caminho do Senhor”.
E ficamos na dúvida se ela não terá mesmo um fraquinho ingénuo por este tipo de desenlace.
Toda esta paleta de nuances faz muita confusão ao Viegas, também ele enfermeiro, mas em permanência a tentar demarcar-se da troica de colegas que comanda o hospital. O Viegas é militar, pertence aos quadros da Marinha portuguesa e está aqui numa missão terrestre que dura há imprecisos anos. É um tipo enorme, de ar atormentado, e poderia facilmente encaixar a madre superiora debaixo de um braço. Mas não, pode ser até que resmoneie contra ela, e as suas regras, protegido pelo gargalo de uma garrafa de cerveja durante um baile no Clube, mas na sua presença é um cordeirinho pascal. Há uma outra enfermeira sem hábito, a Guadalupe, açoriana, mas essa mantém-se tranquilamente arredada do núcleo duro: gosta de ir almoçar a casa, onde tem família à espera; toma conta das consultas periódicas de grávidas e crianças, e é quem nos acompanha nas saídas semanais às localidades da Luz e da Praia, onde fazemos consulta nas respectivas Casas do Povo. Se as três freiras representam o hospital e um certo género de vida monástica, voltada para o interior, a Guadalupe representa para nós o exterior, as estradas sinuosas por entre muros soltos em pedra vulcânica e vistas de verde e mar; os solitários gabinetes de consulta das casas do povo, abertos para nos receber uma vez por semana. Ali me sentarei, esperando os doentes que pingam ou que, simplesmente, não aparecem, sob uma luz mortiça e esverdinhada, mal me atrevendo a fazer ranger a cadeira de napa preta em que me sento como uma visita, olhando com tédio os papéis timbrados que se amontoam na escrivaninha ou levantando-me para inspecionar o armário de porta e estantes de vidro onde foram empilhados medicamentos e artefactos que parecem ter sido desviados a um museu e me recordam as aulas obsoletas de Higiene e História da Medicina.
Debico nos tubos que chocalham as pílulas esquecidas, já passadas do prazo de validade há tanto tempo que nem uma data se consegue recompor nos números apagados pela humidade. 

Chocalho uma ampola de Pantopon, uma solução injectável de ópio, e fico a observar a turvação que percorre o líquido e faz lembrar as borras numa garrafa de vinho do Porto de uma colheita antiga e caseira. Quem se atreveria a injectar aquilo num corpo humano?! Sinto uma vontade, longínqua e frouxa e parecida com um dever, de fazer uma limpeza, de deitar aquilo tudo ao lixo, mas a moleza invade-me e o encolher de ombros da Guadalupe, quando tento discutir o assunto com ela, também não me estimula grande coisa. Os doentes, esses, estão tão fora do tempo como a atmosfera do meu gabinete e raramente me atrevo a mandar despir alguém, tanta é a humidade encascada que preside e que, certamente, irá arrepiar de salitre as carnes lívidas. As queixas e os pedidos dos clientes são aqueles a que me começo a habituar nestas paragens: hipertensões himalaianas, cismas, doentes que aparecem gesticulando as caixas cilíndricas de alumínio que outrora continham comprimidos de lítio. A quantidade de gente que está medicada com lítio nesta terra, o número de pessoas com distúrbios psiquiátricos pesados, é enorme... Quanto aos hipertensos, não terei – nem eu nem o Rui – grande sucesso na cruzada contra ela, na tentativa de reposição de valores normais pela medicação  prescrita: os doentes sentem-se mal com as tensões normais! Estão habituados àquelas tensões alucinantes e queixam-se que os comprimidos amarelos e os brancos que lhes receitei os fazem sentir “esvaziados e sem força”. Deixaram mesmo de os tomar, pois foram rápidos a identificar a causa e o efeito. Não são medicação “discreta” está bom de ver! 
Cá fora, a Guadalupe espera por mim sentada num muro e, ao lado dela e da mala térmica das vacinas, um velhote de mãos enfiadas entre os joelhos e pose contrita espera também.
“Será que podemos dar uma boleia ao Sr. Picanço, Dr.? Precisa de fazer penso no hospital...”

O Sr. Picanço é diabético e tem uma ferida no pé, derivada duma unha que encravou. Ajudámo-lo a entrar para o assento de trás da Dyane, pois é notório que não tem prática de entrar em automóveis. Há aqui gente – já detectei um em consulta – que não foi nunca sequer à vila, quanto mais pensar em sair da Graciosa! Se não fosse terem nascido numa ilha seriam daqueles que, aos sessenta anos, nunca viram o mar. Há quem, perante o meu espanto, encolha os ombros: a ilha não tem porto de mar nem conexão fluvial às outras; os helicópteros metem respeito, pousam uma vez por semana e são para uma minoria seleccionada de gente e de razões; as próprias ligações dentro da ilha são difíceis: não há carreiras regulares de transportes públicos e quem quiser mover-se ou aluga um táxi, ou vai de burro, ou a pé. Então, cada um fica onde está, a sonhar com o azul do mar e a cerração ou a tentar escapar-se com o que tem à mão, o que para os ricos é maioritariamente o whisky da base das Lages e para os outros é o vinho de cheiro, isto é aquilo que chamamos em Portugal vinho ‘americano’ ou ‘morangueiro’. O problema é que este vinho parece ter uma concentração elevada de metanol, substância tóxica que se faz pagar caro na factura das perturbações de visão e na rapidez da demência alcoólica que provoca.  
  © Fotografia de cima: fotógrafo desconhecido, Santa Cruz da Graciosa (Açores), Junho 1979.