16 março 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 7. Dancing Days


Libinha, sentada no braço do sofá.
Às sextas e sábados há baile e, não se passando nada mais animado na terra, toda a gente cai lá, incluindo os médicos de serviço. Não é necessário sequer avisar no hospital para onde vamos, as irmãs sabem-no de antemão e o Viegas – se estiver de apoio à urgência e impedido de ir – sabe-o igualmente. No dia seguinte perguntar-nos-á como correu e não deixará de mencionar um qualquer detalhe relacionado com a nossa presença no baile para mostrar que está ao corrente de quanto se passou.
Às sextas, o baile é no Clube e ao Sábado na sede da Filarmónica Recreio dos Artistas onde, se a noite estiver boa, será no pátio, ao ar livre. Em ambos os casos, a banda que abrilhanta a dança é a mesma e conta com o Gasparinho da farmácia no trompete, um tipo tisnado e barbudo, que trabalha na oficina de automóveis, faz de cantor principal e toma conta do saxofone, e, para grata e grande revelação, a Dona Nizalda Barcelos ao teclado da organeta eléctrica! Suponho que a dimensão desta surpresa vem das coordenadas em que a minha mente a balizara: D. Nizalda pertence a uma das famílias mais aristocráticas da Graciosa, é extremosa mãe de filhas casadoiras e, mesmo no espectro musical, é quem dedilha o órgão e dirige o coro na Igreja Matriz de Santa Cruz. E se pode não receber às terças nos exactos moldes da Condessa de Gouvarinho, a porta da sua moradia de tectos em masseira e paredes apaineladas está generosamente aberta a uma certa categoria de visitantes.
O Rui e eu fomos merecedores dessa distinção e atravessámos o umbral pela mão da Libinha, filha da D. Irene, para um serão que, rapidamente e com naturalidade, se transformou numa rotina: alinhar no prato os talheres do queijo da Ilha com compota e, na companhia animada da Libinha, descer a rua quase até ao Rossio – perto de onde moram os Barcelos – bater a uma porta que prontamente se abre e deixar correr um pedaço da noite encaixados num sofá a ver o Dancing Days, que passa aqui de modo diferido, uma dezena de episódios atrasado em relação ao seriado emitido no Continente. Esse retardamento na emissão fica a dever-se à censura interna que o actual patrão dos Açores – o chefe do governo regional, Mota Amaral – estende sobre o seu arquipélago, mantendo-o adormecido e ao largo da agitação perniciosa do mundo, como fez o velho Salazar com tanto proveito ao longo de confortáveis décadas. Vamos tomando contacto com essa rede vigilante em cada dia, e ganhando consciência de que é premeditada nos apartes abafados do Oriolando, sombriamente camuflado numa oposição temerosa como se ainda estivéssemos nos dias da ditadura. Os telejornais nunca são os de Lisboa e as notícias são filtradas conforme as conveniências regionais e os bons costumes. Quanto ao Dancing Days, a perigosa telenovela brasileira, suponho só ser tolerada pelo poder local graças à pressão gerada pelo seu imenso sucesso no Continente, sucesso com tal repercussão pública que o nome de uma das personagens – Vera Lúcia – se tornará popular ao ponto de influenciar os nomes escolhidos para baptizar as novas recém-nascidas. Mas os olhos da censura são cinzentos e observam o mundo de uma seteira: a novela expõe a desagregação familiar, há uma mãe solteira a quem nenhum castigo esmaga e as actrizes atravessam os 173 episódios da saga muito decotadas para os padrões de clausura do Dr. Amaral. Deste modo, há cenas que desaparecem e se isso interfere com um cristalino entendimento do enredo tanto pior para quem se prende com detalhes. Mal queremos acreditar, julgávamos que cinco anos depois da revolução, de os cinemas democratizarem os tiques amanteigados do Brando no Último Tango em Paris, os excessos escatológicos da Grande Farra ou a rouquidão da Linda Lovelace em Garganta Funda, julgávamos que o país era já arejado e uno; mas não: ainda restam torrões enquistados pela teimosia e alheamento próprios do cacique, o que explica que alguma desta gente se refira aos restantes conterrâneos como ‘os cubanos’, aqueles que, na sua visão, estariam a dar cabo do país, enquanto alguns outros perseguem a pureza original da FNAT[1] e do Deus de Ourique. Para nós é desconfortável viver isso, potencia a sensação de isolamento que estar rodeado de mar induz; é como estar expatriado.

Mas em casa dos Barcelos nada disso se faz sentir, eles tentam viver a sua vida e é tudo: a Dona Nizalda recebe-nos com um sorriso acolhedor e o Sr. Francisco (ou deveria chamar-lhe D. Francisco?) pergunta se “vai um calicezinho”. O calicezinho é eufemismo para um copázio de whisky das Lajes, puro, um produto referido na ilha com os cuidados do material contrabandeado. Não que seja proibido ou ilegítimo, mas é transaccionado fora do circuito comercial, livre de impostos e a um preço estonteantemente barato e, para além do mais, alguém tem de ir lá (à base americana na Terceira) e arranjá-lo nas devidas quantidades; encafuá-lo nos helicópteros da Força Aérea portuguesa sem que tilinte em demasia. Todos na ilha falam do assunto numa socapa de iniciados, com a epiderme arrepiada pelo clandestino.
“Vai um calicezito, doutores?...” pergunta D. Francisco como se de senha se tratasse e vendo em nós um sólido pretexto – clínico e de hospitalidade – para que possa beber mais um copo a coberto da censura doméstica.
Após o cálice, o Sr. Barcelos tenta reter-nos um pouco junto dele, tem uma biblioteca cujas estantes albergam as séries completas dos livros Vampiro e da Colecção Argonauta e não lhe escapou o brilho nos meus olhos quando lhe pus a vista em cima, o desabafo de que a minha arca e, com ela, os meus livros ainda não tinha chegado. E na vila que não há uma biblioteca ou uma livraria, o máximo que encontráramos fôra dois ou três livros do Jack London à venda numa papelaria quase drogaria, entre lápis Viarco e alguidares de plástico.
“Dr. pode levar daqui o que quiser, quando quiser; tenho todo o gosto...” oferece o Sr. Barcelos já aquecido ao sol da sua generosidade, praia sobre a qual a D. Nizalda acaba, porém, de lançar a sombra ao recordar-lhe que são horas da telenovela, que as pequenas já esperam na saleta e que nós, os médicos da terra, esperamos também e que, certamente, somente estamos ali a reter-nos por cortesia.
Entre os bibelots da saleta há um televisor sobre uma mesinha e, defronte, um sofá onde nos vamos acumulando; para quem já não cabe ficam os braços como assento, arrasta-se uma cadeira se preciso for. Como espectadores estamos nós; as pequenas – que inclui as filhas dos Barcelos; a Libinha e uma ou  outra amiga que poderá já lá estar ou ter chegado entretanto. Nem a D. Nizalda nem o Sr. Barcelos assistem, suponho que as razões se repartem entre o não se interessarem, o consideraram aquele tipo de entusiasmo um nada inconveniente para a sua idade, ou o quererem deixar a juventude à vontade. É claro que nós os dois, repimpadamente sentados no coração do sofá, no seio daquela gruta de intimidade criada pelas portadas cerradas e por luzes enfraquecidas, fazemos render o que já sabemos sobre o que irá acontecer no ecrã e elas ainda não, o que provoca um suspense nas raparigas que pode, no seu paroxismo, atrever-se até a uma palmada leve num dos nossos braços ou a uma interjeição de desabafo sobre a nossa desapiedada crueldade. Mas o máximo a que nos permitimos, em termos de esclarecimento, é um “vocês já vão ver”, um enunciar de charada em linguagem críptica que enfurece as damas. Compete-nos também insinuar algumas observações educadamente brejeiras perante certas cenas, o que provoca risinhos, uma resposta sibilina a condizer da Libinha – que é a mais velha e a de resposta mais pronta – e o olhar oblíquo, de quem se inicia por desfiladeiros submarinos, das mais novas. Para elas, aqueles serões em Santa Cruz são uma coisa totalmente nova e um aroma de êxtase habita as respirações suspiradas que emitem de cada vez que António Fagundes – na pele de Cacá, o galã distante – surge no ecrã. Tomando partido, discutimos preferências femininas com as nossas vizinhas de sofá, as quais, em disfarçada desvalorização da beleza adolescente de Vera Lúcia (encarnada pela actriz Lídia Brondi), preferem destacar os superiores atributos de personalidade ou presença de outras actrizes.
E eis que agora, uma sexta à noite, tropeço na D. Nizalda, sentada ao órgão no Clube, destilando o acompanhamento das canções ao ritmo das quais os presentes dançam, e lá estão os médicos de serviço, e as filhas dela, e lá está a Libinha e lá está até, a um canto, o Sr. Oriolando – filho da D. Irene e irmão da Libinha – que nunca dança mas se fica a olhar, copo na mão, deixando tombar sobre tudo e sobre todos uma mirada de tímido sarcástico, como se olhasse um circo ao qual não pode escapar, prisioneiro na sua própria ilha.
O Clube tem duas salas e na primeira, ao cimo das escadas, fica o bar, um simples balcão de madeira enxameado de gente a pedir cervejas e outras bebidas, pois comida é coisa que não servem, talvez umas pevides. É nesta sala que se acumulam, em pé, visto não haver mesas ou cadeiras, os homens, a quem só é permitido passar à segunda sala quando uma nova música começa; até lá terão de se manter, ordeiros e compactos como sardinha em lata, a supor o que se passa além da linha invisível do vão em arco que separa as duas salas. Do outro lado do arco aguardam as senhoras, isto é, os seres dançáveis mais todos os paus de cabeleira que sobram à dicotomia: mães, avós, tias, vizinhas; todas as mulheres da vila parecem estar ali, sentadas em bancos corridos ao longo de todas as paredes – excepção feita àquela onde pontifica o conjunto musical –, esquadrinhando com pupilas inexpressivas todos os centímetros quadrados do soalho de tábuas à sua frente. Se pretender dar um pé de dança, só resta ao pobre candidato o tentar colocar-se, o mais próximo que conseguir esfuracar, do vão entre as salas, acotovelando os que estão de um lado e do outro do seu corpo espremido, e tentar aguentar-se nessa tensão elástica até que soe o primeiro acorde de piano, de guitarra ou do órgão. Então, e só então, lhe é permitido lançar-se em frente numa disparada e correr para a menina da sua eleição, a qual, se estiver para aí virada ou ainda descomprometida, lhe dirigirá um levíssimo aceno de aceitação após ter lançado uma mirada às acompanhantes.
Nestas circunstâncias, como sacudirmos sapatos apertados, é um tremendo alívio dançar com a Libinha depois da tensão que foi andar às voltas com uma moça que fomos buscar ao banco, iludidos pelos acordes em tom menor que anunciam uma música lenta. Para começar, a rapariga não fala e responde por monossílabos ao que perguntamos, o que faz com que seja impossível concentrarmo-nos numa relação de tipo interpessoal e nos sobre todo o tempo do mundo para apreciar a paliçada de olhares que nos verrumam desde as paredes em volta. Todos os presentes sabem que somos os novos médicos, só isso já seria prazer suficiente para as desocupadas, mas, para além do mais, acontece que estamos a tentar apertar a filha de X, a sobrinha de Y, a irmã de Z, o que só acrescenta novos temperos ao interesse da vigilante ou da tricotadeira de intrigas. Mais tarde, aprenderei a desenvolver técnicas especiais de fuga e ocultação, uma das quais consiste em fazer rolar o par pela sala até longe do local onde a fui convidar à dança e a coberto do coro grego que a acompanha, mas mesmo essa manha pode não ser verdadeiramente eficaz: no lambril mais distante, do outro lado da sala, estará sempre alguém que trocará informações, sem levar nada por isso, com o inimigo. Que alívio, então, que a música tenha terminado e que seja obrigado pela convenção a regressar à andro-metade do Clube, onde tentarei alcançar o bar e obter uma cerveja que irei beber, pelo gargalo, pois não nos dão copo, junto do Rui ou cá fora, ao fundo das escadas onde o ar está carregado de humidade mas respirável.
Retomada a coragem, voltarei a subir, pois a noite é uma criança e antes estar ali do que em casa à espera que me chamem ao Hospital. Desta vez, se dançar, irei buscar a Libinha, pois a D. Irene nunca aparece no Clube e o Oriolando, para além de não ter vocação para chaperon, não aguenta um baile até ao fim, a um momento olhamos para o canto onde cismava e já desapareceu na noite. E, depois, a Libinha já é grande, mais coisa menos coisa deve orçar a nossa idade, talvez  mais; viveu os anos do liceu em Angra do Heroísmo, é divertida e emancipada q.b. Enquanto rodamos pela sala vai-me explicando quem é quem, incluindo, como um bónus, a descrição da complexa relação entre as donzelas disponíveis e a respectiva teia familiar, os tabus que é interdito pensar em transpor.
“Mas isso já não se usa, Libinha...”, digo, incrédulo.
“Meu caro” – ela dirige-se-nos com frequência usando esse vocativo, amistoso e irónico – “aqui é assim: vai ter de se habituar.” 
“Pfffff”, sopro como uma válvula de panela de pressão, provocando um breve turbilhonamento na franja do seu cabelo curto.

(1).FNAT – Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, que viria, após o 25 de Abril de 1974, a ser substituída pelo INATEL.

© Foto de cima: data, local e fotógrado desconhecidos.