19 março 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 8. O tapete cor de rato

Assemelhou-se a uma apoteose planeada. Na véspera, no Açucareiro, o Sr. Medina comunicara-nos que a mudança para a casa dos magistrados tinha merecido parecer favorável de Angra do Heroísmo e que agora faltava só contratar umas mulheres para uma limpeza geral, mandar ligar a água e a luz...; instalar o telefone, lembrámos nós. “Coisa para dois ou três dias”, diz ele recusando com gentileza a caixa de cigarrilhas Pérola que lhe estendo. E hoje, a meio da manhã, de director para director, telefona-me o Araújo dos Correios a informar que estão a caminho as nossas malas de porão: chegam, da parte da tarde, pelo barco que fundeia ao largo da Praia; será que quereremos ir vê-las chegar? Ele pode tratar do transporte até nós, mas pensou que talvez quiséssemos assistir ao desembarque. Precisaremos de boleia? Ele vai lá, noblesse oblige, receber correspondência e encomendas. Está claro que queremos, é uma novidade suficientemente nova para a deixarmos escapar, mas iremos lá ter pelos próprios meios, levamos a ambulância velha – a que faz o transporte dos mortos – para arrebanhar os baús.
A localidade da Praia fica no sudeste da ilha e possui a única praia de areia de toda a Graciosa, em todas as outras, chamadas de praia, o areal tem o tom da fuligem e é formado por seixos que roncam sob o corpo de cada vez que nos reposicionamos na toalha. O porto, recorrentemente destruído pelas fúrias do atlântico no inverno, está a ser reconstruído no recesso da costa, uma reentrância mesmo assim demasiado exposta ao mar do norte, o que o torna bastante perigoso. Os navios, mesmo os de modesto calado, são obrigados a fundear ao largo, a umas largas centenas de metros, nem pensar em aproximar-se da doca, onde só conseguem atracar barcos a remos ou alguma traineirazita manhosa. As mercadorias que, quando o tempo permite, chegam à Graciosa vindas da Terceira ou de S. Miguel, são descarregadas por um guincho para dentro de escaleres que encostam ao casco dos navios e, se algum improvável passageiro vai descer na ilha terá de deixar o navio por uma escada pendurada no costado, rezando aos céus ou a Neptuno para aterrar em segurança quando chegar ao nível da casca de noz que bambeia, lá em baixo, nas ondas. Nesse princípio de tarde, o mar está invernoso, bravo, e esfarrapa rajadas de espuma branca nos rochedos aguçados que cercam o porto como barbatanas de tubarão. Firmado na rampa do molhe, arrepio-me ao olhar aquele cenário, longe de imaginar que um dia, não tão longínquo assim, eu próprio não terei outro remédio senão um transbordo daqueles, olhando o mar da amurada daquele mesmo navio de onde agora vejo, ao longe, descer a carga; amaldiçoando o casco cor de ferrugem ao longo do qual terei de me aventurar, enredando as pernas na escada de corda, os pés a escorregar em travessas de madeira encharcadas.
“É aquilo?”, pergunta o Araújo espetando o dedo. Aceno com a cabeça, reconheço o padrão axadrezado da cobertura de chapa dos dois baús rectangulares que se empilham à proa do bote que acabou de lançar corda à estaca do cais. “Ok, vou tratar de os libertar com a capitania...”
Passaram três dias, são quatro da tarde, acabei de chegar a casa e olho com um exultante sentimento de satisfação a arca de madeira forrada de chapa metálica com desenhos geométricos vermelhos. Já a abri, mas está ainda praticamente cheia, e antecipo o que vou encontrar como se não soubesse o que eu próprio aí acondicionei, como se tudo tivesse sido arrumado por outrem e eu fosse um puto de cinco anos que esventra um ovo de Páscoa em busaca das amêndoas! Retiro com cuidado o meu querido rádio-gravador-leitor de cassetes Aiwa. Aquele bicho custou uma fortuna uns dois anos atrás, mas tem valido a pena: é compacto e estéreo, resistente e fiel; o som é impecável e aguenta volumes altos sem distorcer. A falta que me tem feito estes dois meses! Viajou no centro do baú, embutido num ninho sólido forrado por vários tratados de medicina. Até que enfim vamos poder escabichar as dúvidas clínicas que nos consomem e que nos fazem encarar com apreensão cada telefonema para nos apresentarmos na urgência. O que será que estará à espera desta vez? E se é um enfarte? E se é um ventre agudo? E se é um parto complicado? E se for uma fractura do baço? E se... Temos muita esperança na ajuda daqueles livros... Começo a alinhá-los, por altura, na estante da divisão a que já começámos a chamar por escritório.
Estamos na casa nova e foi sem saudade, sem sequer aquele olhar derradeiro, que deixámos o apartamento por cima da farmácia. Nunca nos sentimos ali como num lar, a sensação era em permanência a de poiso transitório; nunca para ali convidámos ninguém e as únicas visitas foram as do Gasparinho, ou de outro auxiliar da farmácia, que subiam as escadas com demasiado à vontade para o nosso gosto. Tudo isso acabou. Acabámos por ficar com a casa dos Juízes, pois a outra, geminada à nossa, talvez venha a ser ocupada em breve, diz a fé do Sr. Medina. Estão “em negociações” e há a hipótese de vir um procurador do Ministério Público fazer missão na Graciosa; o Sr. Medina teme que possa ser uma senhora, mas pede-nos reserva perante a informação. “De todo o modo”, continua ele, “vindo um Dr. Procurador, o lógico é que fique na casa que lhe compete...”
Casa dos Juízes, arrumos das traseiras.
A casa que nos cederam é a mais do lado do hospital, estamos agora ainda muito mais perto do local de trabalho do que estávamos, devo gastar um minuto, a passo pausado, a percorrer a distância que separa a porta do hospital e a daqui de casa, que está escancarada – fazendo corrente com as janelas abertas lá de cima – a ver se se esbate o cheiro a mofo, que produz uma estranha combinação olfactiva com a cera com foram recentemente passados os tacos do chão das divisões e os degraus das escadas para o primeiro andar. No andar de baixo fica o escritório de um lado e a sala de estar e de jantar do outro; lá mais para a outra ponta fica a cozinha. No andar de cima, há três quartos e uma grande casa de banho, quase luxuosa nos seus apontamentos de mármore com veios esverdeados. Para trás fica o terraço, vastíssimo, a pedir um clima de esplanada, com o seu chão de tijoleira e separado do terraço da casa contígua por um murete que facilmente se transpõe com um simples jogo de coxas e joelhos. Espreitando do terraço, nas traseiras, há um quintalzeco, um coradouro bravio que evidencia o abandono, uns arrumos e um galinheiro de rede enferrujada que permanecerá sem uso, com excepção às quarenta e oito horas que ali passará uma malograda galinha.  
Mas, no presente, estou ajoelhado sobre o tapete do escritório a dispor os livros médicos nas estantes, a empilhar as cassetes na mesinha, para depois as levar para cima, para o meu quarto, uma vez que já escolhemos quartos e o que sobrou ficou imediatamente a ser o quarto de hóspedes. A casa está mobilada, a maior parte do recheio pertence ao Tribunal e o resto são acrescentos do hospital, mais o que foi trazido do apartamento por cima da farmácia. A minha cama, por exemplo, é uma cama de hospital, daquelas feitas em tubo de ferro esmaltado e com cabeceira gradeada. Ligo o fio do Aiwa à tomada e estou a esquadrinhar a lombada das cassetes quando ouço chamar. Enfio a cabeça pela porta de vidro martelado para espreitar o vestíbulo, que é mesmo ali ao lado e é de onde vem o som que chama. Na ombreira está o Sr. Medina, sem se atrever a entrar, com uma pasta encaixada debaixo do braço e o olhar preocupado do senhorio: não é preciso muito para adivinhar que ficou desagradado ao encontrar a porta escancarada, a bela porta, alternante de madeira e vidro, que lembra uma tablete de chocolate, franqueada à iniciativa de quem pretender o acesso à casa dos Juízes, eventualmente gente não devidamente credenciada.
Casa dos Juízes: porta; Virgílio Senra e director clínico (interino).
“Oh, Sr. Medina, é o senhor!? Entre, entre, por favor...”, digo, tentando, na entoação da minha saudação, fazê-lo sentir-se especial e reduzindo-me, simultaneamente, ao papel do hóspede transitório e grato.
“O Sr. Dr. dá licença? Não sei se incomodarei, mas como é mandatório procedermos ao inventário da moradia... É certo que poderá ser feito em outra ocasião, mas pensei que quanto mais cedo mais fácil será identificar o que já cá estava e é pertença do Tribunal... Antes que outros bens se lhe misturem...”
Mandei, pressurosamente, entrar o Sr. Medina, apontei-lhe um dos sofás de napa, desculpei-me por não poder oferecer-lhe nada que se pudesse beber ou tomar, mas estávamos ali “há menos de dois dias”, e foi esta a chazada metafórica que lhe servi mas a que ele pareceu não ver nem bule nem chávena.
Quase duas horas mais tarde, quando o Rui chegou do hospital, ainda encontrou o Sr. Medina sentado numa cadeira, os joelhos apertados a servir de suporte à pasta de oleado sobre a qual escrevia, a rever a lista dos bens inventariados. Tínhamos subido e descido escadas, entrado e saído de quartos, aberto e fechado portas de cómodas e armários, com o meu inquiridor a enunciar em voz audível o móvel ou o pertence sobre o qual firmava registo:
“Estante em madeira de criptoméria, com três prateleiras amovíveis e corpo inferior com duas portas...”
Por coincidência, a última divisão sujeita a inventário foi o escritório onde o Sr. Medina quase me apanhara, de joelhos sobre o tapete, a arrumar livros e cassetes, e foi aqui que, a páginas tantas, ele levantou a esferográfica e, fitando-me dos seus olhos tranquilos, invocou a minha ajuda:
“De que cor diria o Sr. Dr. que é este tapete?”
Olhei o tapete com olhos de ver; o problema da cor não me parecia obstáculo.
“Eu diria que cor de rato...”
O Sr. Medina pareceu espantado:
“Cor de rato? Desconhecia haver uma cor com esse nome...”
Encolhi os ombros, balancei levemente a cabeça como se a cor em causa fosse banal.
“Sim, é uma cor comum – pelo menos lá no Continente...”
“Muito bem, muito bem”, comprazeu-se o Sr. Medina, assumindo em voz alta: “Tapete de sala rectangular, cor de rato.” 
Antes de sair, satisfeito com a colaboração prestada pelo médico com que o Tribunal acabara recentemente de estabelecer contrato de serviços clínicos a título gracioso, o Sr. Medina prometeu que, logo que o inventário fosse convenientemente revisto e passado à máquina, me enviaria o documento final para que eu o assinasse, tomando conhecimento.  
 


© Fotografias, de cima para baixo (2.ª e 3.ª fotografia): Fotógrafo desconhecido, Santa Cruz da Graciosa, Açores, 1979.