24 março 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 9. Olhai as aves do céu

Não deixa de ser apropriado que, no mar, a velocidade, isto é, o cumprir da distância, se meça não em quilómetros mas sim em nós, uma escala de medida que não se percorre com a linearidade do quilómetro e terá de ser deslindada com a perseverança de quem, após os desfazer, recompõe um novelo apanhado por um gato. Estamos, aqui, a uns meros 45 km da Terceira, 49 de S. Jorge e sessenta e picos do Faial e do Pico. De carro, isto far-se-ia numa meia-hora, uma hora, vá lá; hora e meia se as estradas tivessem contracurvas. Por vezes consegue-se ver S. Jorge em dias claros, lá longe, um cisco acharutado ao rés do mar. Parece que há gente especialmente dotada que avista, de quando em vez, o Pico e, dizem que, em certa curva da estrada do Faial, se pode lobrigar o contorno da costa sul da Graciosa. Pessoalmente, nunca vi nada de nada a não ser o mar e esse pode ser cinza, branco, azul ou verde, tudo depende do céu e do vento.
Esta situação de só se ver mar, de se ouvir o mar em todo o lado, de a ilha ser plana como um prato e o horizonte se aguar constantemente, mexe connosco e é substancialmente agravada pela consciência de não podermos sair daqui quando nos apetece. Lá, na longínqua pátria, estivesse onde estivesse, por inóspito que fosse o lugarejo, enfiava-me num carro, num comboio ou numa camionete e ia onde se me desse ir, e a diferença que isso faz! Aqui, estamos todos presos, coarctados,  pousados nesta lágrima de pedra no meio do mar, às voltas como formigas numa côdea semissubmersa. Porto de mar não há e os barcos passam ao largo, são  traiçoeiros os baixios da ilha. Quanto ao helicóptero – Pumas da Força Aérea – está vedado ao público em geral, para o usar naturalmente é necessário estar a morrer e que o médico de serviço o ateste à Autoridade Marítima, que gere a lista de passageiros com mão de ferro e que, graças a este poder, alcandorou ao trono um dos tipos mais irascíveis e poderosos da terra. O delegado marítimo, um simples cabo ou sargento em qualquer outro lugar, tem aqui o poder da escolha e da retaliação e pode, a bel prazer, riscar um vulgar mortal da lista de passageiros para a próxima libelinha. O helicóptero vem habitualmente uma vez por semana, às terças de manhã, isto partindo do princípio que o tempo está de feição, pois pode acontecer que não lhe seja autorizado sequer levantar da base de Angra, ou enfrentar condições de vento e névoa que não lhe permitem pousar na Graciosa; chegaremos, no pino do inverno, a estar três semanas sem comunicações com o exterior, sem correio, sem substituição das garrafas de oxigénio da urgência. Quando pode voar e pousar, o Puma traz bens essenciais (dinheiro, correio, medicamentos) e algumas pessoas: dignitários, funcionários; doentes que regressam de internamentos e exames complementares de diagnóstico que foram fazer a Angra, a S. Miguel ou mesmo a Lisboa. Ao fazer-se de novo ao caminho, pouco mais de dez minutos após ter chegado, leva consigo uma dezena de eleitos que, estando de boa saúde, olham com regozijo os infelizes que pasmam ou acenam na periferia do campo de futebol enquanto eles se afastam no éter.
“Prá semana há mais”, rosna o delegado marítimo de forma a apaziguar quem não foi e a anunciar que, para a próxima tudo passará igualmente por ele.
Como médicos da ilha apercebemo-nos bem da teia de favores e das maroscas da autoridade marítima, pois temos o poder de desencadear, em situação de emergência médica, uma evacuação, que é como se chama a uma vinda excepcional do helicóptero. Quando isto acontece e o delegado marítimo vem a tomar conhecimento, sente-se como o corno do provérbio, mas, entretanto já nós acertámos com o hospital da Terceira e a Força Aérea a recepção e o transporte do caso urgente e a Sua Autoridade nada mais resta do que remexer à pressa na papelada e reordenar os jeitinhos alinhavados, pois mesmo em circunstância urgentes o helicóptero tem espaço para mais alguém além do doente e do seu angustiado familiar.
Resta, como prémio de consolação, à ilha que fica excitar-se como um voyeur a espreitar a chegada do pássaro sagrado. Toda a actividade de Santa Cruz estremece e se extingue nessa hora. Geralmente pressente-se a aproximação do helicóptero, o barulho do motor e do rotor das pás ouvem-se uns minutos antes e então, uns a pé e outros de carro, tudo se apressa em êxodo para o campo de futebol: eis o Araújo que sai apressado dos Correios, atravessa a rua e salta para o assento traseiro da nossa Dyane fumegante, enquanto os doentes que aguardavam vez vêm à porta do hospital assistir eles próprios à visão diferida do acontecimento que se aproxima, chegando alguns a correr mesmo rua fora em direcção ao heliporto, pois se nós lá estamos eles poderão também gozar a cena sem o risco de perder a consulta.
“Então, Sr. Araújo”, temos ainda tempo de perguntar ao nosso viajante, “mais uma viagem a buscar o correio?”
“Sim, sim”, responde ele, acrescentando, misterioso: “E pode ser que chegue também algum no estado líquido... Eu logo telefono, se tiver notícias.”
Quando chegámos à orla do relvado já lá está o Gasparinho da farmácia, de bata branca ao vento e o Sr. Medina, assertoado na sua gabardina de abas estralejantes, prestes a receber a correspondência oficial; e, pronto a avançar, de cabeça baixa, a proteger-se da guilhotina circular das hélices, o Sr. Francisco Barcelos, que nos confessou enjoar com as curvas do helicóptero e a quem prescrevemos Dramanine para o efeito, despede-se, nervoso, da esposa e das filhas, pois embora o negócio que o leva a Angra apenas lhe vá gastar um dia, só poderá regressar a casa daqui a uma semana, no próximo voo do Puma.
Observamos quem chega, e se desce alguém de novo, ainda nunca visto nas ruas da ilha ou no Açucareiro e o Oriolando acena-nos do lado de lá do campo, encostado à trave de uma baliza. Desta vez, que a gente conheça, regressou o Pombo da consulta a que o mandámos ao SLAT(1) de Angra. O Pombo é o veterinário da ilha e está tuberculoso, tem uma caverna no pulmão direito que ombreia com a das Furnas. Não se trata ou trata-se de forma irregular, fuma como um cão, bebe de mais, e tivemos de o enviar, quase à força, avaliar a sua situação e tentar perceber o risco de contágio que envolve. O Rui, que é o delegado de saúde, ameaçou que o afastaria compulsivamente do trabalho e que o proibiríamos de aparecer em nossa casa se nada fizesse. O gajo tem trinta e muito pouco anos e é bom homem, apenas um tresloucado incapaz de gerir a vida e o seu mal. Veio aqui parar, do continente, sem ter consciência para onde vinha e, embora já cá esteja há mais de um ano, acho que ainda não se apercebeu do que lhe provoca tanta instabilidade, pelo que reage numa girândola de direcções e confusões enquanto queima cigarros e engole copinhos de whisky, brandy e Angelica, um vinho licoroso de produção local com 17 graus de potência. Não sabemos a origem da tuberculose dele, se das vacas com quem lida no emprego ou se de outro mugidor de duas patas, pois a tuberculose abunda por aqui: o que temos a certeza é que o ter cuspido, após muitas fungadelas e umas tossidelas arrancadas às costelas, um escarro demonstrativo, estriado de sangue, para a floreira ao lado da nossa porta não é bom sinal, nem para ele nem para a saúde das nossas ervas daninhas!     
“Venho carregado de frascos e de drogas”, diz-nos numa voz roufenha, sentado no banco de trás da Dyane, “vou ter de engolir um cocktail delas durante oito meses, no mínimo! Depois, tenho de voltar lá...”
“Estás fodido, Pombo”, dizemos-lhes para o animar.    

1 - Serviço de Luta Antituberculosa.