01 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 11. Alô, alô, é da central?

Sem poder sair daqui, a não ser a nado, com o correio a chegar – com sorte – uma vez por semana, o nosso único meio de contacto com o exterior, o mundial, é o telefónico. Mas até o singelo gesto de pegar no auscultador, discar um número e ter na linha quem nos interessa, não funciona aqui!
A menos que queira aceder a um número local no interior da ilha, para ligar para qualquer outro lugar do universo devo fazê-lo através de uma operadora em Angra do Heroísmo, a capital da ilha Terceira. Do outro lado do fio, na central, surge uma senhora que já sabe quem sou e me conhece a voz antes de eu ter tempo de me identificar e que, ao soletrar-lhe o número que pretendo, é mesmo capaz de clarificar: “ah, é para casa dos paizinhos”. Acho isto chocante em termos de privacidade ou de liberdades e garantias – como se diz agora – mas é o que temos e ninguém consegue escapar ao processo.
A minha mãe, por outro lado, acha tudo isto pitorescamente divertido e este atraso de vida recorda-lhe os ambientes sertanejos das terriolas descritas por Jorge Amado nos romances que têm inspirado tantas telenovelas de sinhás e coronéis, e que ela segue com paixão e encanto. Lá, no continente, é uma hora mais tarde do que aqui, pelo que sucede ela ligar pensando que terá comigo uma troca de impressões pós-prandial, durante a qual poderá até perguntar o que jantei hoje; mas, sendo aqui uma hora mais cedo, enquanto a ela, na sua poltrona da sala de estar, em frente à lareira, chegam os sons longínquos e reconfortantes do arrumar da cozinha, por aqui acabei eu de bater a porta da casa dos magistrados para, melancolicamente, ir enfrentar o peixe frito da D. Irene. E foi isso mesmo que lhe disse a menina dos telefones da ilha Terceira, quando ela ligou e pediu para falar com a casa dos médicos da Graciosa:
“Ó minha senhora, eu ligo, se quiser, mas olhe que eles – a esta hora – não estão, foram jantar...”
A minha mãe acha isto extraordinário, a mim deprime-me! Em nossa casa o telefone está lá em baixo, na zona do escritório, mas tendo por base a nossa especificidade laboral e o cada um de nós estar de urgência dia-sim-dia-não, exigimos que o conectassem a um fio tão longo que possa serpentear pelas escadas e esgueirar-se sob a porta do meu quarto, ou do quarto do Rui, dependendo de quem está à chamada nessa noite. Hoje é o meu dia sim e aqui está ele ao meu lado, na mesinha de cabeceira de hospital, que faz pendant com a minha cama, mas eu olho-o de cernelha, desconfiado; evitando usá-lo para conversas de índole privada, pois é como bichanar para um confessionário aberto para o refeitório do convento! Mas a noite é longa e o tédio imenso. O que estarão todos a fazer, pelo Porto, por Cascais?
Lá fora o vento geme e entrechoca as ripas de plástico dos estores. Pego num livro, mas farto-me ao fim de poucos minutos; ando com dificuldade em concentrar-me e a trama escapa-se-me de significado, pois outras ideias se interpõe, catapultadas ou não pelo que estou a ler. Dou uma golada no gargalo da pequena garrafa espalmada, de bolso, que já teve whisky mas para onde transvasei rum velho com uma atraente cor de caramelo e um travo a noz residual. Pouso o livro, vou mudar a cassete no Aiwa e acabo por levantar o auscultador e pedir uma ligação para Cascais, para casa da João, nome e parentesco que, desconfio, a operadora já terá interiorizado, uma vez que não acrescenta  comentário algum ao pedido de marcação de chamada. Desligo e bebo mais um gole, uma ligação com o continente demora sempre alguns minutos. Mas esqueci-me do cabrão do fuso horário, que os minutos escorrem, e quem atende é uma voz masculina, à beira da indignação, que me obriga a dizer quem sou e com quem quero falar antes de responder que isto não são horas de se ligar para casa de ninguém. Olho o relógio e são dez nos Açores, não me parece que seja assim uma hora tão desgraçadamente escandalosa!
“Ó chefe, não é consigo que quero falar”, deixo escapar, “passe-me lá a João”.
Ele não passa, claro, e desliga, mas o meu fugaz desabafo foi arquivado na mente do meu futuro sogro e será a primeira coisa que usará como ilustração de já nos conhecermos, no dia em que, um ano mais tarde, lhe for apresentado. A minha desculpa circunstancial para o meu deslize insular irá estribar-se fortemente na diferença horária, pois o homem é engenheiro electrotécnico e fez toda a sua formação na Suíça, é, por isso,  um devoto da ordem e da ciência relojoeira. 

O telefone serve-nos também para trocar informações com os companheiros de degredo, particularmente os que estão sedeados em Angra e, como Angra é o centro do nosso mundo, obter através deles notícias do resto dos Açores. Na Terceira ficaram mais de uma dezena de colegas, que asseguram a assistência médica em tudo quanto são postos de saúde e casas do povo da ilha e reforçam semanalmente as escalas dos serviços de urgência do Hospital Distrital, que tem míngua de médicos. A maior parte deles reside no Hotel Angra, um dos dois hotéis da cidade e quartel-general dos clínicos do Serviço Médico à Periferia. A Secretaria Regional dos Assuntos Sociais tem ali vários quartos tomados em permanência para estes colegas, os quais fazem todas as refeições no hotel e o usam como se fosse uma república. Como há sempre alguém a circular – por férias, ausência para tratar de algum assunto, etc. – é fácil poder usar, à borla e por um par de dias, um dos quartos quando alguém de uma das outras ilhas do grupo Central ou Ocidental se desloca à Terceira, ou passa pela Terceira a caminho do exterior. A gerência baixa os olhos a este borboletear de gente que entra e sai sem reserva, sem se registar e sem pagar conta, e vai fornecendo serviços de quarto e refeições sem se queixar – alguém lhes há-de pagar isto mais cedo ou mais tarde. Por esta altura, desde o regresso massivo de colonos das antigas províncias ultramarinas, os hotéis estão habituados a servir de poiso a este tipo de refugiados; por isso nós seremos encarados como mais uns do género: gente que tem de ser suportada, com a vantagem de sermos médicos, o que agrada à população. A pouco e pouco vamos sendo conhecidos e a tolerância instala-se, tornou-se lasso e menos explícito o desagrado com que fomos recebidos inicialmente. Em Angra, cidade pequena e muito provinciana, não mais ninguém se atreverá a tratar-nos como aconteceu na tarde do primeiro dia em que aqui chegámos: o Rui, eu e o Paulo Amorim – pousadas as malas no hotel – atravessámos a Praça Velha e entrámos num café para tentar tomar um. Sentados a uma mesa, olhando repousadamente em volta, pedimos três cafés ao tipo que saiu detrás do balcão e nos veio atender em passada relutante.
“Não há café”, respondeu ele, pronto e em registo cortante.
Olhámo-lo, surpreendidos, e confirmámos aquilo que era evidente: em volta havia pessoas a tomar café, a levar chávenas à boca, a remexer com a colher a xícara acabada de pousar na mesa.
“Mas ainda agora serviu...”, disse um de nós apontando a evidência mais recente. 
“A máquina avariou-se!”, respondeu o homem dando de ombros. 
Angra do Heroísmo: Praça Velha e, ao fundo, Hotel Angra.
E aí sentimos na pele aquilo que já sentíramos ao chegar a S. Miguel, de que já nos tinham avisado: os continentais não eram desejados nos Açores, eram globalmente encarados como comunistas ou semelhante, representantes do reviralho que dera dado cabo do país e impusera a desordem como bitola nacional. Os Açores temiam o contágio e tencionavam resistir a isso, assistia-se mesmo a um recrudescimento do prurido independentista, um “movimento de libertação” que sonhava poder safar o arquipélago à custa da posição geoestratégica, da América e do aluguer das Lages. Saímos e fomos tomar café ao hotel, ao menos aí sabiam quem nós éramos e tinham de nos aturar.