04 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 12. Afasta de mim esse cálice

Igreja Matriz de Santa Cruz da Graciosa.
Este ano a Páscoa é alta – 15 de Abril – o que nos dá alguma margem para não fazermos assim tão fraca figura. É que vamos estrelar na missa do Sábado de Aleluia, cantando no coro da Igreja Matriz. Imagine-se só: os médicos vão trinar na, talvez, missa mais carismática do ano, quando as trevas da Paixão descerem sobre a Terra e sobre as ilhas rodeados de água por todos os lados. Anda tudo excitadíssimo com a novidade, desde as Irmãs ao padre Jorge, nós incluídos.
Quem teve a ideia inicial de nos empurrar para o coro foi uma das freiras, pode ter sido a irmã Noémia, já não sei. Penso que a coisa surgiu por eu ter falado de música e de como gostava de música e uma delas ter querido saber se tocava algum instrumento e eu dizer que sim, que em tempos arranhara a guitarra, integrara até o embrião de uma banda que ensaiava na Senhora da Hora... E, então, alguém fez escorregar a hipótese para o prado verdejante das possibilidades... O coro da Igreja Matriz, que estava tão depauperado, só mulheres a cantar, sem uma única voz masculina para além da do padre Jorge e esse, pobre alma, Deus lhe perdoasse, era tão pouco dotado do ponto de vista canoro...
E nós, sem sexo, sem cinema, sem restaurantes, sem cafés; a capacidade para nos encantarmos com passatempos passivos – como a leitura – tão diminuída pelo spleen insular, deixámo-nos cair até à tentação, para grande alegria da irmã Noémia e da madre Superiora, já que a irmã Celeste não canta nem deixa os seus aposentos nas horas vagas.
“O próximo ensaio é já depois de amanhã”, anuncia a irmã Noémia, levitando de antecipação... Se os Srs. Drs. quiserem vir aqui ter, ao hospital, podemos ir juntos, apresentamo-los ao Sr. Padre Jorge.” E, agora que seríamos correligionários, confessou com um risinho: “Antes do ensaio tomámos uma gotinha de vinho do Porto, é muito bom para aclarar a voz; se acaso desejarem fazer-nos companhia...”
“Ai é?”, perguntou um de nós, preocupado por não termos um tal ambientador em casa. “A irmã acha que rum ou whisky serviria?”
A madre Superiora abanou a touca numa negativa: “Estou em crer que não, deve ser um licor: doce e não muito áspero para as cordas vocais. Dizem que o melhor é o vinho da vossa terra...”
O padre Jorge é um tipo novo, fiquei surpreendido, não estava à espera; não terá deixado o seminário assim há muito. Deve ser mais um daqueles que veio aqui parar sem ideia de onde ia ancorar. É um homem nervoso, inseguro, e embora tenha ficado muito contente com a nova aquisição, não sabe muito bem como lidar connosco. Nós não ajudamos grande coisa, pois desconhecemos os rituais envolvidos, quer em agrupamentos corais quer no comportamento a observar no seio de uma igreja. Quem acabou por salvar a situação foi a D. Nizalda que, surpreendidos, vimos chegar, atarefada e um nada em atraso, e dirigir-se para o banquinho do pequeno órgão eléctrico, atravessado na vizinhança do estrado que antecede o altar-mor.
“A senhora é a mulher dos sete ofícios...” cumprimentámos ao consciencializar que, para além de organista e de orientar a cantoria, é quem fornece o vinho do Porto que também ali existe, como remedeio para algum corista que o não tenha tomado em casa.
Para além das freiras, do padre Jorge, de nós e da D. Nizalda, integram o coro  mais uma meia-dúzia de senhoras, a maioria da categoria beata empedernida. Mas, sorridente, a nossa pianista vai informando ser plausível que, em próximos ensaios, apareçam mais candidatos, pois a notícia da nossa adesão despertou curiosidade e interesse “entre a juventude”. O padre Jorge aflige-se com a notícia, exalta-se um pouco, levanta e aproxima as mãos de unhas roídas ao nível do rosto e diz que não é a melhor altura para se estar a acrescentar o coro, mas que é, sim, o momento de o estabilizar para que tudo venha a sair como o esperado na noite do Sábado Santo.
“Vá lá, padre Jorge”, admoesta-o maternalmente a D. Nizalda, “não seja tão pessimista!”
Mas ele é, pessimista e ansioso, uma combinação explosiva. Dali a umas semanas, num momento em que, após um ensaio, ficarmos os dois a sós na sacristia, enquanto abre e fecha os gavetões da cómoda onde se guardam os paramentos, ir-me-á confessar que tem receio de ter perdido a fé, de ter deixado de acreditar naquilo que faz, nem sequer está totalmente seguro quanto à existência de um céu para além das nuvens! Fico bloqueado pela notícia e sem saber o que lhe dizer, antes de mais por se estar a abrir comigo daquele modo, o que significa que deve estar desesperado e se apoia em mim por ser médico, por haver também em mim a obrigação em ouvir e manter segredo sobre os males do corpo e da psique que me são confiados. E se o pusesse a uma dieta de Lorenin, pelo menos até ao Domingo de Páscoa, não vá ele armar cagada? Simultaneamente, sinto-me  preocupado com o seu futuro profissional – um padre sem fé, prestes a desatinar, a entrar em pânico; o desfecho clássico do que acontece a muitos que vêm parar às ilhas.
Ainda nem três meses passaram desde a chegada do nosso contingente de médicos ao arquipélago e os relatos de “esgotamento nervoso”, que nos conta o Paulo Amorim – entre risadas abafadas no bocal do telefone –, acumulam-se.
“Estás a ver o Saraiva, aquele que veio connosco do Porto e foi parar a S. Jorge?”
Sei muito bem quem é o Saraiva, um inofensivo e calado personagem do nosso curso, mas não faço ideia dos detalhes da estadia dele em S. Jorge. O Paulo acha inadmissível a minha ignorância,  afinal ele está aqui ao lado, em S. Jorge, um nosso vizinho; fala como se o pudéssemos ver daqui cada vez que fossemos ao terraço das traseiras!
“Pois olha, o divertimento dele era meter-se no carro do hospital – uma Dyane, penso eu – e fazer a ilha de uma ponta à outra, para a frente e para trás, horas seguidas; sempre a acelerar, embora aquilo não acelere nunca grande coisa, é uma chocolateira. Pois olha: espetou-se contra um muro ou contra uma vaca, ou capotou ou lá o que foi... O certo é que estava tão pirado que teve de ser evacuado, já não está cá! Vi-o quando passou aqui pelo hotel, a caminho do aeroporto, apanhadinho de todo; aquele já não vai a lado nenhum! Ou melhor: se calhar foi mais esperto do que nós e já está em casa, não tem de aturar mais isto nem comer ananás a todas as sobremesas!”
E o Paulo ri convulsivamente do lado de lá da linha, provocando-me também um ataque de riso e, por contágio diferido, um outro ao Rui que, chegado ao meu quarto, quer saber o que se passa e porque me estou a rir tanto, e eu não consigo pô-lo ao corrente pois sou acometido de paroxismos alvares durante as tentativas de explicação.
“Paulo, bichona incorrigível”, berra o Rui para o bocal, depois de me arrancar o telefone das mãos. “Explica lá isso desde o começo, quero saber do que me estou a rir!”
Mas o Paulo não consegue repegar o fio à meada, hilaremente fixado ao fragmento das rodelas de ananás a todas as sobremesas.
“Quem nos dera – ananás todos os dias”, grita-lhe o Rui, o máximo que tens aqui é queijo da ilha com compota!”
E a história do Saraiva fica por explicar, dissolve-se na risota da comparação das sobremesas na Terceira e na Graciosa.
D. Nizalda Barcelos.
Os ensaios prosseguem a bom ritmo, nós não falhamos um e, não tendo vinho do Porto em casa, recorremos ao do Açucareiro – que fica em caminho da igreja matriz – onde entramos a tomar um ou dois como preparação. Depois, já na igreja, raramente recusamos o cálice que nos é oferecido à chegada, de modo que o clima dos trabalhos – com a excepção, sempre crispada, do Padre Jorge – não podia ser mais amistoso e risonho. Foi-nos distribuído um agrafado de folhas com as letras das músicas que vão ser cantadas e é com surpresa que reconheço numa delas a melodia do “Blowin’ in the Wind”, do Bob Dylan, e até os versos em português se baseiam na resposta que sopra no vento da canção original, só que aqui a resposta vem dos Céus e a boa nova é a palavra do Senhor, etc. e tal. Aquilo dá-me ideias, sou arrastado pela tentação de introduzir alguns melhoramentos ao repertório e proponho ao padre Jorge que usemos uma canção recente do Chico Buarque, chamada “Cálice”(1). O padre fica desconfiado, refugia-se na opinião da D. Nizalda, que não conhece a música. Canto o refrão, omitindo o resto da letra:

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice

De vinho tinto de sangue

Mas eles não se sentem confortáveis com a novidade: o padre torce o nariz ao “vinho tinto de sangue” e, segundo se lembra, nenhum dos quatro evangelhos fala nisso de Cristo ter exigido ao Pai que o livrasse de beber o que tinha a beber para  salvar a Humanidade. A D. Nizalda, mais prática, tem receio que seja demasiado complicado para o coro acertar com a inserção na canção das diferentes entoações de “Pai” e de “cálice” que ela, esperta, acha ir soar aos ouvidos de todos como “cale-se”. Desisto e voltamos à aguada versão litúrgica do “Blowin’ in the Wind”. 


(1) Cálice”, de Gilberto Gil e Chico Buarque, 1978.