09 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 13. Febre de Sábado à noite

Interior da Igreja Matriz, Santa Cruz da Graciosa.
Para além de nós, estreava-se uma alcatifa vermelha, oferecida por um graciosense, emigrante em New Jersey, destinada a cobrir o estrado baixo que antecede o altar-mor, e que estabeleceria um belo contraste com a talha dourada das imediações.
Já no ensaio imediatamente anterior à missa de Aleluia a carpete ali estava, uma vez que a tarefa de a estender, alisar e afeiçoar aos rebordos do estrado que vai revestir revelou-se tarefa complexa e obrigou mesmo ao recurso dos serviços do estofador da vila. Nesse último ensaio, embora a noite estivesse chuviscosa, o padre Jorge esperava por nós à porta da igreja com o mal disfarçado fito de nos recomendar que raspássemos bem as solas dos sapatos no tapete de cânhamo do vestíbulo e que, lá dentro, tivéssemos todo o cuidado com o local onde pousávamos os guarda-chuvas, não fossem as ponteiras gotejantes manchar a alcatifa nova.
Espreito por cima do ombro, a nave está apinhada como um ovo de Páscoa. Não temos termo de comparação com o que se terá passado em noites homólogas de páscoas anteriores, mas habita-nos a vaidosa suspeita de que a afluência terá a ver connosco, o chamado síndrome new kid in town. Seja como for, o padre Jorge está sobre brasas e comporta-se como se esta fosse a noite do seu Juízo Final. Eu e o Rui chegámos uma meia-hora antes das portas se abrirem ao fieis e fomos dar com ele na sacristia a explicar ao Sr. Irineu, o principal acólito, em que momentos do culto deveria apagar as luzes da igreja e deixá-la às escuras, como no breu anterior ao Verbo, e qual seria a senha para que isso fosse desencadeado, relacionando-a com determinadas partes e palavras da pregação. O acólito, que anda nisto há mais tempo do que o padre, não parece impressionado com o planeamento da coreografia da escuridão e continua a atulhar o turíbulo de incenso, visto que, para ele, esse será o ponto máximo da cerimónia, pois já o evangelista anunciava: “E veio outro anjo e colocou-se junto do altar, segurando um turíbulo dourado e foram-lhe dados muitos incensos...”(1).
Ao ver-nos chegar, de casaco, calça de flanela e gravata, chocarreiros pelos vários cálices de Porto atestados para garante de uma boa afinação, o padre Jorge trasladou sobre nós as suas ansiedades. Oxalá o coro não se engane, oxalá tudo corra sem percalços; na assembleia – já foi espreitar lá de cima, da galeria, por entre a tubagem do órgão antigo – está o presidente da Câmara, está o emigrante que ofereceu a alcatifa; está o veterinário; está o dono da farmácia; está até o Oriolando, um ateu de referência; em suma, está a ilha em peso ou, pelo menos, quem conta.
Órgão da Igreja Matriz, Santa Cruz da Graciosa.
O Rui palmatoa-lhe com bonomia o ombro da sotaina: ele que não se preocupe, tudo correrá bem, e acrescenta um “segundo os desejos do Senhor” que, quem não o conhecer, tomará por genuína solidariedade, confundido pelos modos extremamente circunspectos e cerimoniosos que é capaz de assumir quando pretende tanguear terceiros. O nosso pequeno grupo de intervenientes vai-se acumulando na sacristia e, entretanto, chegou a D. Nizalda Barcelos, que tira o casaco e o pendura, com à vontade de iniciada, num cabide, ao lado de umas opas e de umas estolas eclesiásticas. Estamos prontos, são horas, e de cabeça flectida penetramos na igreja a caminho do local do coro, que fica, quem vem da sacristia, do outro lado do altar-mor. Ao contrário das freiras e das beatas, e até da D. Nizalda, nós não sabemos, não temos à vontade para aquele esboço de genuflexão, acompanhado de um rápido sinal da cruz, que é devido ao passar-se, no corredor central da nave, sob a zona de influência do sacrário, pelo que a tentativa de vénia do Rui fez periclitar, por um pé não recolhido a tempo, um jarrão com verdes. Mas não mais do que isso e eis-nos alinhados, quase dando as costas aos fieis, de feição a podermos observar a cada momento as indicações da D. Nizalda, sentada à organeta e abarcando-nos a nós e ao padre Jorge, que surge agora em direcção do altar, seguido do Irineu e de mais dois putos que, com as suas opas rendilhadas parecem bases de bolos. Com espanto, dou-me conta que toda as estátuas e estatuetas dos nichos da igreja estão cobertas com uma espécie de carapuço roxo que, como a cobertura de uma gaiola de pássaros, os esconde completamente. Atenção, vai começar!
Tudo quanto podia correr mal naquela missa correu pior. O coro desafinou e enganou-se a entrar, trocando uma música por outra, o que provocou, na nossa mentora organista, um encolher de ombros de quem foi apanhado numa maldade infantil e está supinamente divertido. Depois, apesar de industriado pelo padre Jorge e pelo Irineu, o jovem acólito de serviço aos interruptores confundiu-se várias vezes e as luzes mantiveram-se, resplandecentes, mesmo após o padre anunciar “e as trevas abateram-se sobre a Terra”, arruinando o efeito cénico de ficarmos apenas à luz bruxuleante e mística dos círios. Mas a gota de água, ou melhor dizendo, a gota de fel, chegou pela mão do Irineu que, porventura por o ter atafulhado em excesso, ao pendular o turíbulo com o intuito de potenciar o “subir do fumo dos incensos”(2) fez derramar algumas brasas sobre a alcatifa nova. Aí, o padre Jorge não resistiu e deixou apressadamente o altar para vir atacar a matéria ardente com desesperadas sapatadas extintoras, o que provocou a estranha miragem de estarmos a assistir a uma dança de sapateado e desencadeou uma risada alargada que não passou despercebida ao humilhado sacerdote. Dominado o incidente, o padre Jorge regressou ao seu posto atrás do missal e não se conteve a dar largas à sua frustração, desatando a ralhar com a assistência, censurando-a pelo não cumprimento das responsabilidades de cristãos, assumidas no baptismo, pelo seu afastamento da vida do templo, em suma, pela sua falta de fé.
Procissão do Senhor dos Passos (Quaresma), Santa Cruz da Graciosa.
Mais tarde, já em casa, na companhia do Pombo, a quem convidámos a vir passar uma temporada aqui, enquanto atravessa a fase mais crítica do tratamento com tuberculostáticos, rimos até às lágrimas ao relembrar os saborosos detalhes da noite, pois o Pombo assistira a tudo de um banco das primeiras filas da nave, com uma boa perspectiva sobre “o palco”, como ele dizia. O Rui, afagando o copo de rum, achava que “contado, ninguém acreditaria em tal cascata de incidentes” e eu, deixando a cama para ir mudar a cassete que chegara ao fim, achava que fazia lembrar as comédias italianas dos anos sessenta. O quarto de hóspedes é pegado ao meu e daqui vejo o Pombo, de pijama às riscas, deitado na cama, fazendo-nos chegar os comentários numa voz roufenha e esforçadamente esganiçada. O Rui, que está de serviço hoje à noite, conserva-se vestido e de gravata, e passeia-se entre o quarto dele e o meu, onde acaba por se sentar ao fundo da minha cama, de copo na mão.
“Deita aqui mais um coche”, peço estendendo-lhe o meu cálice, pois ele está também de serviço à garrafa de Bacardi Gold.
 

(1) Livro do Apocalipse 8:3.
(2) Livro do Apocalipse 8:4.