13 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 14. Domingo à tarde


A sala é grande e bebe a jorros a luz forte que lhe entra pelas janelas de sacada. A mesa é comprida e está ricamente posta. Eu sou um dos convidados de honra, de favor, pelo que me é impossível escapar à sopa nojenta com que me encheram o prato até às bordas. De pequeno que detesto todas as variações gastronómicas que incluam pão demolhado! Açordas, torradas encharcadas no molho do polvo à Bordalesa; só tolero mesmo as rabanadas a boiar no seu caldo doce, enriquecido com canela e casca de limão. Detesto, também, hortelã na comida: na canja, nos assados, seja onde for... Abomino, igualmente, todas as vísceras de animal que não tenham a consistência firme da moela ou do coração, e sangue, como ingrediente ou tempero – de que o exemplo mais flagrante é a cabidela – nem pensar! Pois, imaginem agora: a mistela que, no meio de encomiásticos gorjeios, me deitaram, à revelia dos meus olhos indefesos, no prato fundo, tem, em abundância, de tudo isto: pão encharcado, fígado, hortelã, o conjunto a boiar num sangue nojento, de um vermelho cediço, abrilhantado por vacúolos de gordura. Chamam a isto Sopa do Espírito Santo e é uma das preciosidades locais do almoço do domingo de Páscoa e, em extensão, dos domingos que se lhe seguem.
Invoco até mim as manhas que usava em criança quando era forçado a comer uma coisa de que não gostava: aferrar o nariz – como se me preparasse para  mergulhar nas ondas de um mar sem fundo, suster o reflexo do vómito, e pensar noutra coisa. E aqui vai uma colherada, cheia, para acalentar o pensamento positivo de quanto mais cheias as colheres mais depressa esvazio o prato e me livro disto... O esófago retorce-se-me à passagem do caldo viscoso e de um farrapo de miolo de pão... Foda-se, para além de a sangue e a hortelã, isto sabe a canela, o choque plástico e gustativo é similar a ter engolido uma rabanada tombada em fluido menstrual! À minha volta, os olhares das senhoras fixam-me atentamente, ansiosas pelo veredicto, pois, a título cautelar, cometera a estupidez de confessar que seria a primeira vez a comer uma sopa destas... Repelindo um naco de fígado, vertiginosamente atraído para a concha do talher, encho uma segunda colher. Tento pensar noutra coisa...
As janelas, de sacada e com varandas curtas de mero enfeite, dão para os pauis da praça. A mesma praça para onde abriam as janelas da nossa casa, quando morávamos por cima da farmácia. Mas as nossas janelas da frente eram acanhadas e a perspectiva sobre os pauis prejudicada pelos troncos e ramos mais baixos das araucárias; era uma paisagem tristonha, mesmo nos dias ensolarados. Daqui a vista é desimpedida, veem-se os dois lagos, vê-se o largo arborizado do Rossio, o coreto, as cadeiras da minúscula esplanada do Açucareiro. Agrupados em diminutas esquadras, andam patos a vogar nas águas, tranquilos, uma gaivota passou lá no alto, invejosa, deslizando o reflexo na superfície... Ao chegar à Graciosa julgava que estas piscinas eram ornamentais, embora houvesse algo de peculiar nas suas paredes grossas e abauladas. Depois vim a saber que eram cisternas, primordialmente construídas para aproveitamento da chuva, o tom decorativo, que acabara por se impor, era secundário. A Graciosa não tem água doce, não há nascentes, ribeiros ou riachos,  a ilha é chata como uma bolacha e as nuvens que passam no céu não têm onde se enredar, preferem vogar mais a sul e enamorar-se da agulha do Pico, onde ficam emaranhadas e cismam grandes névoas, despejam chuvadas ou choramingam borriços. Aqui, o clima é louco, num mesmo dia pode chover, ventar, ficar nublado ou raiar um sol aberto: a ilha está totalmente à mercê do tempo que passa a caminho de outro sítio qualquer. Ao menos nunca é muito frio, penso, reparando que a sopa foi amornando, torna-se ainda mais nauseante emborcá-la. Já ingeri grande parte do líquido, mastiguei os pedaços de alcatra, mas, acusativos farrapos de pão jazem entre os troncos de hortelã como alforrecas presas no sargaço... Vejo a dona da casa olhar na nossa direcção, expectante, uma criada, inclinada sobre a mesa, segreda-lhe algo... É um recado do hospital, telefonou a madre superiora, parece que chegou um doente muito urgente, requer-se o médico de serviço. Ora, o Rui esteve de serviço ontem, o médico de serviço sou eu e levanto-me de supetão, antes que ele, que, a meu lado, se vai refugiando em copos de verdelho, aproveite a oportunidade e se escape ao repasto!
O doente está ainda deitado na maca em que foi transportado, pousada no chão da urgência, não quiseram mexer-lhe antes que o médico chegasse. É um homem dos seus sessenta e um fio grosso de vómito escorre-lhe da boca, cola-se-lhe à bochecha flácida, escorreu para o lençol que o cobre até aos ombros. É comida, ainda por digerir, se aquilo não é sopa do Espírito Santo anda lá perto... “Sentiu-se muito mal logo no fim do almoço, de repente, quando se levantou da mesa...”, informa alguém que o acompanhou. “114/175”, segreda-me a madre superiora. Percebeu o que aquilo era mal lhe pôs a vista em cima e deparou o ar ausente, confuso, do doente, um canto da boca descaído.
“Este senhor andava a tomar comprimidos para a tensão?”, pergunto enquanto lhe tomo o pulso. Andava, de dois tipos diferentes: uns brancos e uns amarelos, envernizados... Mas não com a regularidade receitada, percebo nas hesitações ao inquérito; sentia-se zonzo quando os tomava todos os dias... Às vezes tomava só metade do branco, partia-o pela ranhura.
Quando regressei ao almoço já as cores e a tremeluzência das sobremesas alegravam a toalha e os pratos dos convivas. A dona da casa, pressurosa, quer-me mandar aquecer qualquer coisa; garanto-lhe que “não, muito obrigado”, estará para mim perfeito fazer um curto-circuito directo à sobremesa.
“Nem um poucochinho de alcatra assada, com uma batatinha?”  
Durante a tarde fomos chamados mais duas vezes ao hospital, terminámos o dia com três AVC(1)! Todos com tensões altíssimas, descontroladas, os três aparentemente desencadeados pela grande farra gastronómica do almoço de Domingo de Páscoa. Ficaram internados, dois na enfermaria dos homens, a mulher no lado da parede que lhe compete. É a mais nova, tem apenas 56 anos e, se não recuperar, vai ficar bastante estropiada e dependente. Não há grande coisa a fazer com os AVC e nem pensar em evacuá-los, não fomos bem sucedidos numa experiência prévia. O helicóptero demorou a vir, por causa do nevoeiro, e os colegas, mais velhos e experientes, do Hospital de Angra telefonaram a descompor-nos: para que tínhamos mandado aquilo, que podiam eles fazer por lá que nós não pudéssemos por aqui, e quais as vantagens em desinquietar um doente confuso, que precisava de sossego e não de ser balançado sobre as águas como um recém-nascido no bico da cegonha?! De facto, talvez eles tivessem razão, mas nós, por aqui, não temos capacidade para fazer sequer uma análise rápida ao sangue e os livros médicos revelam-se de pouca utilidade prática... E ficamos muito atrapalhados quando sentimos a gravidade de uma situação clínica a pairar sobre nós como um augúrio de remorsos... Bem, mas isto de estar vivo e de se aguentar nas borrascas da doença também tem muito de sorte, a qual pode ser de distribuição instantânea ou de ter de se esperar para ver. Os nossos três doentinhos – como lhes chamam as freiras – ficaram todos a soro, bem entalados na roupa, quietinhos nas suas camas e atentamente vigiados pelos familiares que durante a tarde vêm de táxi visitá-los das freguesias e se sentam nas cadeiras, dispostas em torno da cama, a pasmar para as gotas do sistema de soro. Eu, se não fosse um mero director interino, sem poderes reais de despesa e inovação, mandava até servir-lhes chá; não às cinco horas – para não interferir com o horário das visitas, que é das duas às quatro – mas lá pelas três e um quarto.   



(1) AVC – Acidente vascular cerebral.