23 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 15. Cuidados de saúde primários

O não haver uma cortina, o risco de esparrinhar o chão, poderiam ser invocados como factores explicativos, mas o certo é que o Rui adora enfiar-se em demorados banhos de imersão, onde, para além de se ensaboar e amolecer as extremidades, corta as unhas e barbeia-se!, o que, a mim, faz grande confusão pois não me atrevo a escanhoar a cara sem um espelho à frente dos olhos. Como fica imerso por solitárias eternidades, o gajo gosta de companhia e, se estou em casa, vou, por vezes, sentar-me no tampo da retrete a conversar. Sobre toda a sorte de assuntos, boas e extensas conversas ali mantivemos por entre o ecoar dos mármores, o embaciar dos meus óculos e o pingolejar das torneiras.       
Hoje é sexta-feira, há baile logo à noite e queremos aparecer no Clube como novos, apagar de nós as emanações e a recordação de tanta gente auscultada, percutida, apalpada, infectada e desinfectada; alguns deles poderão até surgir-nos mais logo transfigurados em concorrentes de dança ou a querer pagar-nos uma mini ao balcão. Estou sentado no digno tampo de madeira da sanita, da banheira chega-me o clic-clac do corta-unhas e aguardo que o Rui acabe as abluções para me pôr eu de molho. O Pombo, coitado, como é apenas hóspede e tem ainda risco de contágio, fica para o fim e espera no quarto que saiamos e lhe deixemos os despojos do chão encharcado e do espelho nublado.
Enquanto isso, fazemos uma espécie de balanço da semana, comentando doentes e o grande número de AVC que nos inquietaram nos dias que se seguiram às festas pascais. Dos três que apareceram na tarde do Domingo de Páscoa, o mais grave pareceu-nos o da mulher, mas quem morreu foi um dos homens; ela para lá está no internamento, a recuperar melhor do que imaginávamos e só não lhe demos alta porque a família ainda não encaixou que vai ter de modificar a rotina para a ter de volta. Ao contrário do que sucede com a irmã Celeste, nós ficamos na merda de cada vez que nos morre um doente e assalta-nos a corrosiva dúvida de se teria sido possível ter manejado o caso de outro modo, se fizemos alguma coisa que não deveríamos ter feito e que, a ser evitada, ainda poderia levar a que o defunto andasse à tona da existência. De quando em quando, se o doente nos ficou mais próximo, comparecemos discretamente no velório ou na missa de sétimo dia, mas sempre possuídos pela sensação de não termos o direito de ali estar, de que haverá alguém na assistência – por mais polido e contido nas manifestações – que julgará ser acintoso termos aparecido, pois a razão para o fúnebre encontro radica, em última análise, em nós.  
Terá, porventura, sido num desses diálogos aquáticos que nos surgiu a ideia apaziguadora de um dia, talvez lá mais para o meio do ano por uma questão de acumulação de maior massa crítica, de uma tarde passarmos pelo Registo Civil a fazer uma visita ao Oriolando e de, como quem aproveita a visita, lhe pedir para nos deixar ver o livro de assento dos óbitos deste ano e, “já agora, ó Sr. Oriolando, poderíamos também dar uma espreitadela nos livros de 1979 e 1978?”. O fito é contar quantos doentes teremos matado desde que aqui chegamos (subtraindo ao total o morto que esperava para autópsia no dia em que pousámos no campo de futebol) e comparar esse número com os mortos do mesmo período de tempo de cada um dos dois anos anteriores. Temos fé que a estatística nos alivie. Ambos somos ainda muito ignorantes nesta ciência da análise e interpretação da mortalidade comparada, mas se viermos a descobrir que a gente falecida no tempo dos colegas que nos precederam foi semelhante à desaparecida nos nossos dias, estamos em crer que as nossas almas poderão circular pelas ruas de Santa Cruz mais leves e diáfanas. Ah, se assim for...
“Ainda por cima, eram o dobro de nós a fazer consulta...”, dizemos como se isso tivesse alguma coisa a ver.
Vivemos em permanente ansiedade e a noite é sempre pior, sobretudo para o que está de urgência, que desperta enfrentando o dia como se o céu estivesse coberto de nuvens e se vê empurrado para um lugar solitário mal a luz do dia declina, uma trincheira em que o telefone tocará só para ele. Cada um de nós – confidentes em espelho – sabe tão bem como é solitário esse posto, que não é raro eu atravessar o negrume da noite em direcção à luz amarelada que brilha do lado de lá dos vidros da janela da Urgência e, passada meia hora, ver aparecer um Rui, desgrenhado e de olheiras cavadas, que me cospe ao ouvido ter tido uma “insónia do caralho” e, junto a mim, se debruça sobre a criancinha que arde de febre em cima da marquesa.
“Que é que achas que tem?”, inquire em voz calada. As crianças metem-lhe especial respeito, pois considera não ter grande à vontade para lidar com elas e, sobretudo, com as mães que, com os seus olhares pendurados e apartes  constantes, não nos deixam trabalhar em paz.
“Não faço a mínima... Para já tem uma febre impossível, temos de o arrefecer não vá ter uma convulsão! Ajudas-me a segurá-lo? Tentei espreitar-lhe a garganta mas a progenitora desatou aos soluços e não foi capaz de o prender como deve ser!”
Sonhamos com meningites, enfartes, corações arrítmicos, insuficiências renais, comas diabéticos; ventres agudos a necessitar cirurgia urgente e o helicóptero sem vir por causa da tempestade... Perante situações clínicas concretas – ou imaginadas a meio da noite, na espera que o telefone toque – abro os livros e ponho-me a estudar febrilmente. Quando nos mudámos para aqui, estavam todos muito arrumadinhos, por altura da lombada, na estante de criptoméria do Sr. Medina, no escritório, mas, a pouco e pouco, foram subindo as escadas e invadiram os quartos. Tratados de Medicina Interna, handbooks de Pediatria e Obstetrícia, concebidos para caber no bolso de uma bata; manuais de Farmacologia e Terapêutica, vade-mécuns para interpretação de parâmetros laboratoriais. O problema, o grande problema, é que, e embora esteja lá tudo, todo o saber, não nos servem para grande coisa! E, mais, o defeito é mesmo esse: estar lá tudo! O não haver uma hierarquia do que é mais frequente, do que se pode esperar num ambiente genérico como o nosso, é o que distorce a sua utilidade. Pela leitura desses livros pantagruélicos achamo-nos logo contaminados pela hipótese de que uma dor de cabeça poderá ser sintoma de um tumor na cabeça, quando o mais provável é a senhora que se nos queixa estar nesse estado na sequência de uma enorme pega com o marido que, em vez de a defender, se pôs do lado da mãe dele, aquela cabra! Mas os livros que temos connosco, prezados como bíblias no Hospital Universitário que nos formou, são demasiado especializados, excessivamente médicos, se assim se pode dizer. Demoram-se tanto nas raridades, que só verei uma vez na vida ou nem isso, como nas condições clínicas que representam 95 % do que geralmente bate à porta de uma consulta indiferenciada como a nossa, ali na ilha, onde somos embate de todos os acontecimentos que podem levar um ser humano a sentir-se esquisito. Porra! E, depois, mesmo quando temos a certeza do diagnóstico, do mal da pessoa, e, confiantes, vamos procurar ao calhamaço o esteio técnico para como proceder a seguir, deparámos com recomendações como: “meça a pressão parcial de gases no sangue...”, efectue punção lombar e mande analisar o liquor”, ou “proceda a radiografia de contraste, baritada...” E nós ali, onde o único gás à mão é o oxigénio e está dentro de uma bilha de metal, e em que o único Rx acessível serve para confirmar se um osso está partido, coisa que, aliás, já sabíamos pela irmã Noémia, que tem uma queda pelas fracturas e pela Ortopedia. Em termos de recurso ao Rx, especialmente, convém sermos parcimoniosos nos pedidos, pois as freiras, as únicas que estavam por perto quando ele foi instalado e aprenderam a mexer naquilo, detestam lidar com o obsoleto aparelho, do qual não se pode dizer mal, pois foi doado pela diáspora Açoriana. Estou em crer que a sua chapa mais importante foi a tirada no dia da inauguração, por entre discursos que louvaram o bem inestimável que é a Saúde, e a bênção do Sr. Bispo de Angra que, ainda hoje, é o melhor garante de segurança contra as radiações.  
Em todas as arengas oficiais que ouvimos até chegarmos aqui foi-nos prometido o apoio dos colegas mais velhos; qualquer coisa e era só ligar para Angra do Heroísmo, já que os médicos de serviço teriam o maior gosto em auxiliar e aconselhar os colegas mais jovens... No princípio era o verbo, depois restou-nos a operadora da central telefónica, que nos diz que o telefone toca e ninguém atende ou nos vai confidenciando que é sempre muito difícil chegar à fala com o Sr. Dr. que pretendemos.... Quando, por fim, chegamos à fala, o colega quase não dispõe de tempo para nos ouvir ou não nos pode aconselhar por não ter o doente à frente. Seria então melhor enviar a senhora a Angra, ao Hospital? Isso, nós é que sabemos, defende-se o tipo do lado de lá, mas o melhor seria, para já, tentarmos resolver o problema a nível local; sobretudo não voltássemos a mandar doentes sem avisar, sem contactar antes, como já tínhamos feito mais do que uma vez! É que, entre o hospital, a clínica e o consultório privado, eles têm muito com que se ocupar e não é só a nós e à nossa ilha que devem prestar apoio! Desalentado, fico-me a olhar o bocal negro e mudo do telefone, e a única certeza que me resta é a de que a próxima vez que tocar vai ser para mim, vai ser uma das irmãs ou o Viegas a pedir desculpa por me maçar menos de uma hora após eu ter deixado o hospital, mas apareceu uma senhora, grávida de 37 semanas, cheia de dores, referindo perdas... Porra, e eu que detesto grávidas e as suas complicações a dobrar! No bloco operatório há um carrinho de metal polido, com várias prateleiras frias e ressonantes, em que esperam, em caixas a condizer, um par de fórceps e uma ventosa obstétrica que faria as delícias da Inquisição Espanhola.  
Quando as portas a que bato não se abrem ou, sequer, alguém atende ao intercomunicador, viro-me para o meu pai, que chateio por telefone, ou a quem, nos casos menos agudos, escrevo longas cartas que mais parecem histórias clínicas e que, Deus seja louvado, se interessa pela nossa aflição, procurando o parecer de colegas se não está à vontade na área do saber que precisamos no momento e que, no telefonema do próximo Domingo, perguntará novidades sobre o estado do Sr. Bettencourt ou a cólica da D. Crisália.
Em complemento, abuso também da João, a minha namorada, particularmente quando os casos são (ou tresandam a) doença maligna, pois se ela tem aulas ali mesmo ao lado do Instituto Português de Oncologia... É um senhor que já devia ter sido encaminhado há meses, a cirurgia está atrasada, não valerá a pena fazer nada se não for já, e Angra não dá andamento à referenciação... Ela multiplica-se nos esforços e não só conseguiu consulta como desencantou uma pensão perto do IPO, para a mulher do senhor ficar em Lisboa. Irá mesmo buscá-los ao aeroporto da Portela, quando o casal, assustado e desorientado, deixar a sua ilha no meio do azul a caminho da capital que visitam pela primeira vez.
 2.ª imagem de cima para baixo: © Fotografia de pedro serrano, Macau, 2016.