27 abril 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 16. As desventuras de Mimi

Hoje deram-me uma galinha, viva. No fim da consulta, a D. Crisália, aplicando duas palmadinhas ternas na minha mão que ficava mais próxima da cadeira de onde se levantava, confidenciou:
“Trouxe-lhe uma pequena lembrança, Dr. Pedro... Ficou à guarda da Rosa, ela depois entrega em sua casa...”
Fiquei intrigadíssimo com o mistério: o que poderia ser que tivesse que ser levado a minha casa e o que teria a Rosa a ver com tudo? A Rosa é uma das empregadas auxiliares, um daqueles casos de criança internada que a família se esquece de levantar e vai ficando, ficando; até que o tempo passou, ficou grande e agora pertence ao quadro de trabalhadores do Hospital. Quanto à D. Crisália, é uma das minhas doentes mais fieis e entusiastas: mora lá para uma das extremidades da vila, uma rua estreita com as casas alcandoradas sobre o mar. Quando me foi testar a primeira vez, apareceu com um saco de medicamentos que foi dispondo no tampo da secretária como se fossem peças de dominó. Percebi que ia ser demorado, empurrei o cinzeiro para perto de mim e acendi um Goldflame, que é o que ando a fumar agora, pois os dez pacotes de SG Filtro que vinham dentro da arca já se acabaram e tabaco continental é produto raro por aqui. Entretanto ia mirando as caixas que a D. Crisália alinhava e, de imediato, previ que dormia mal, tinha gases e más digestões: cismática e entupida, um fardo comum. Mas apesar de se tratar de um mal trivial, ela ficou comovida quando lhe adivinhei e particularizei a situação com cuidadosa atenção e me dispus a tentar uma solução alternativa para os seus males. Já percebi que os doentes de uma certa idade – esta senhora andará pelos seus cinquenta e picos – gostam de consumir medicamentos em formato líquido, pelam-se pelas injecções de beber que implicam limar o bico às ampolas com uma serrinha ou ficar a ver cair gotas em colheres de chá previamente atapetadas com açúcar. E foi precisamente isso que propus ao seu fígado pouco colaborante, sujeito a pontadas, interferindo com as digestões de fritos e provocando enfartamentos, gases e um intestino preguiçoso: por agora iria suspender o carvão activado e contabilizar gotas antes de cada refeição. Quanto à sua paralisia intestinal, prometi que havíamos de ver isso numa próxima visita, assim como o medicamento para dormir que estava a perder efeito.
“Senão fica sem motivo para me vir visitar!”, adiantei, “para já vamos concentrar-nos no seu fígado...” E passei a explicar das gotas, quantas devia tomar por dia, a que horas e do sabor a hortelã pimenta que deixava na língua. Enquanto perorava iam-se digladiando na minha mente as considerações do livro de terapêutica, que atribuía valor meramente de placebo ao medicamento, e o que me dizia o meu pai no final de uma ronda de consultas, depois de ter pedido autorização ao cliente para que eu assistisse, avisando-o que brevemente eu seria médico. Na Universidade havia também quem nos falasse nisso em palavras empolgadas, da arte e da ciência em Medicina, mas era diferente ver isso acontecer com cobaias verdadeiras, esse entrelaçar da vertente técnica e psicológica, em que a atenção ao que nos conta, confessa ou oculta, o doente e o modo como se comporta, tem o atributo da vara onde se enrosca a relação médico-doente.
Pois as gotas e os posteriores conselhos dietéticos e de higiene do sono deram bons resultados na D. Crisália, que passou a distinguir-me com um sorrisinho cúmplice quando, nas noites de Sexta ou Sábado, me adiantava no Clube ou na Filarmónica para requisitar a sua sobrinha Sãozinha para uma dança. Estou em crer que via tudo aquilo com esperançosa simpatia e é possível que a galinha fosse uma espécie de marco geodésico na sua geografia particular de contribuir para fixar um médico na ilha.
Terminadas as consultas fui à procura da Rosa que, com um sorriso embevecido, me arrastou pelo braço da bata até umas das portas traseiras do hospital. Lá fora, esgravatando a orla da erva rala onde se estendiam os lençóis a corar, uma galinha castanha tentava chegar mais longe com o bico do que o que lhe permitia o cordel que a prendia, por uma pata, a uma estaca espetada no chão.
A meio da tarde, quando ouvi bater lá em baixo, já me esquecera de tudo aquilo e a minha cara deve ter suscitado na Rosa a necessidade de uma explicação:
“Venho trazer a galinha”, apontou para o bicho que, de tornozelos amarrados, trazia encaixado debaixo do braço como uma bola de futebol. “E também lhe trouxe isto, deve dar para uns dois dias...”, acrescentou estendendo-me um saco de plástico. Espreitei: dentro havia um ajuntamento algo caótico de cascas de batata, hastes de verdura e pedaços de pão seco.
“Onde quer que a ponha?”
Acordei da minha inspecção de resíduos e apontei com o indicador em arco:
“Venha comigo, há um galinheiro ali atrás...”
A Rosa inspecionou a porta de rede, enferrujada e empenada, e o chão coberto de urtigas e outras herbáceas daninhas, com um desprezo que transformou num conselho:
“Vai ter de lhe por ali uma malga com água... E se fosse ao Dr., despachava a franga nos próximos dias, está no ponto para ser comida e quando mais tempo esperar mais rija vai ficar. É para ser comida aqui, não é?”
Olhei-a com o meu olhar mais transparente e assegurei-lhe que sim, que era para comer já e ali.
Fui despedi-la ao portão e, antes de regressar ao interior, fui espreitar a galinha, em sossego. Mal se via no meio daquele mato todo mas, com o pescoço oscilante em cada passo prudente que dava, já andava a inspecionar o novo cativeiro que, pelo menos, era menos traumatizante para os artelhos que o anterior. Assim, vista de perto, achei-a bonita na sua cor de um castanho quente e brilhante, à qual casava bem o vermelho da crista diminuta e dos barbilhões. Fui à cozinha e enchi uma tijela com água, entornei metade da ração que a Rosa me deixara num prato de sopa e estava a puxar o estore da porta da cozinha, que dá directamente para a parte lateral da casa e do trajecto para o galinheiro, quando o Pombo entrou na cozinha e se dirigiu ao frigorífico para se servir de cerveja.
“Ouve lá”, perguntei, “sabes matar uma galinha, não sabes?”
O gajo segurou-se, quis saber porque fazia a pergunta e em que contexto.
“Contexto?! É que temos ali atrás uma puta duma galinha, que, depois de morta,  poderá dar um belo frango assado, para três ou mais convidados, e como és veterinário...”
“Eh pá, sim, mas sou sobretudo especializado em animais de grande porte: vacas, cavalos, porcos, às vezes. Aves, galináceos, cães e gatos não é muito a minha cena...”
“E se for uma avestruz?”
Fiquei logo a perceber que, por ali, não ia a lado nenhum e pareceu-me mais recuada a imagem de um frango assado em cima da nossa mesa da sala de jantar que, dois meses depois, continuava por inaugurar e se mantinha com o ar não habitado do resto da casa.
Auto-retrato com toucador.
Subi as escadas e sentei-me a continuar, por mais umas linhas, a tradução do Tarot, constantemente interrompida pela falta de inspiração, pela necessidade de consulta do dicionário, e por interrupções de pessoas que me vinham trazer galinhas a casa. Ouvi tossicar e olhei em frente: a mesa que me serve de secretária é uma cómoda com espelhos articulados por dobradiças a que se pode modificar o ângulo e multiplicar-nos por três. O Pombo estava encostado à ombreira da porta e ao ver os meus seis olhos expectantes perguntou:
“Se aquela cena do frango assado for em frente, posso trazer uma amiga? Disseste que podia dar para quatro...”
Na manhã seguinte, antes de sair para a ida semanal à casa do povo da Luz, fui espreitar a galinha, a que o Rui já apusera a alcunha de Mimi, o que não me agradava, pois queria evitar o mais possível uma relação personalizada com alguém a quem urgia limpar o sebo, sendo eu o putativo carrasco. Já tinha comido tudo e virado a tigela, que estava vazia de água. Reabasteci e jurei a mim próprio que hoje mesmo, na volta, trataria do que tinha a tratar.
Durante a viagem de regresso da Luz apertei a Guadalupe com um interrogatório de tal modo cerrado sobre o modo de proceder com galinhas que ela se ofereceu para me matar a Mimi, depená-la e tirar-lhe as tripas. Agradeci, mas recusei, era uma tarefa que, como dono e tipo que quer aumentar as perspectivas  gastronómicas domésticas, me assistia. Mas não deixei de me sentir ainda mais acabrunhado, pois a minha preocupação com o futuro saltava imediatamente do acto de matar para o acto de cozinhar e não me detivera nas etapas do depenar e do extirpar! Durante as consultas da tarde, já no hospital, enquanto ia ouvindo distraidamente as queixas dos doentes fui tentando atiçar a memória e revisitar aqueles momentos, fugazmente lobrigados e logo desinvestidos, em que as empregadas de casa dos meus pais cortavam o pescoço a galinhas e perus e depois, sentadas num caixote posto em pé, ao lado de um alguidar fumegante, lhe arrancavam em sucessivos ‘plops’, às mãos cheias de penas, o toucado, até o bicho estar tão obscenamente nu como um sobretudo que se abre à saída da escola primária. 
Voltei a amarrar os tornozelos da Mimi, que durante todo o processo me fixou com um olhar onde cintilava uma indignação estúpida, e levei-a para a zona dos degraus que davam acesso à porta da cozinha, onde já esperava o alguidar e a faca de mato que viera na arca; lá dentro, no fogão da cozinha, pusera água a ferver numa panela. Acabara por optar pelo facão após examinar as duas facas de cozinha que herdáramos da casa por cima da farmácia, as quais possuíam lamentáveis gumes e quase nulo poder de corte. Lâmina e gume não faltavam a esta, embora talvez o gume fosse um pouco espesso quando o comparava mentalmente com as facas, afiadas até ao sumiço do aço, usadas em minha casa, na casa da minha avó. Trouxera este facalhão comigo no mesmo espírito das garrafas de rum e da ilha deserta, era um faca exploratória, enfiada na sua bainha de couro cru, com cabo de osso e uma lâmina de quinze centímetros. Mais uma arma de chefe dos escuteiros do que de açougueiro ou cozinheira, mas, na teoria, parecera-me a melhor solução, não agora que tinha a Mimi presa entre os joelhos, como um puto em observação  pediátrica, e lhe esticava o pescoço pegando-lhe pelo pente da crista. Aquilo não tinha sentido e essa constatação de absurdo corroeu-me o ímpeto ao gesto decisivo, pelo que não consegui um golpe eficaz e dei comigo a serrilhar o pescoço da galinha em hesitantes gestos de vai e vem. Ela, por seu lado, debatia-se cada vez mais fracamente no meu colo e a sua respiração transformara-se num gemido asmático. Quando terminei, os degraus de mármore claro das escadas estavam vermelhos de sangue e havia uma nódoa líquida de fezes nos joelhos das minhas calças. Fui lá dentro buscar a água, que, solitária, fervia em cachão na panela, e transvasei-a para o alguidar, aproveitando para esfregar um pano de cozinha embebido nela no tecido cagado das jeans. Mimi, essa, jazia sobre o empedrado de mármore, de olhos vagos, desinteressada do presente e do futuro. Enfiei-a pelas patas dentro do alguidar e deixei-a ali uns minutos, enquanto fumava um pensativo Goldflame. Quando a retirei do molho, ela não passava de um gotejante peso-morto que libertava um enjoativo fedor a  merda e penas molhadas. Tentei arrancar algumas, mas aquele plop fácil de que me lembrava não se reproduzia ali e libertar cada uma das penas da pele da galinha era como arrancar uma árvore pela raiz! Desisti ao fim de uma penosa dúzia de tentativas e ao aperceber-me das muitas centenas de penas e penugens que revestem a carcaça de um galináceo.

Livrei-me da água no quintal, enfiei Mimi no alguidar e cobri-a com o pano. Depois fui discretamente despejá-la no prado que existe em frente à nossa casa, do lado de lá da rua. Uma vaca ficou a acompanhar as manobras, sem deixar de ruminar a erva tenra que ia retouçando, enquanto eu olhava em volta, em busca de testemunhas. Ninguém me viu. Corri para casa, subi as escadas e fui para a janela do meu quarto, que dá directamente para o prado e para os quadris da vaca em questão. Parecia que nada tinha acontecido por ali, já nem tinha bem a certeza de qual era o maciço de ervas onde abandonara os despojos da galinha.   
© Fotografias, de cima para baixo: (1) Carlota Rodrigues, 2017; (2) pedro serrano, Graciosa (Açores), 1979; (3) pedro serrano, 2018.