01 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 17. Um só dia

Dizia o Sófocles: “Um só dia faz baixar ou erguer de novo tudo o que é humano (1).” Eu que o diga, que ainda ontem, por esta hora, não sonhava nem dos meus sonhos fazia parte a pálida ideia de, menos de vinte e quatro horas depois, estar a entrar num quarto do Hotel Angra, na ilha Terceira. Os meus sonhos, os meus desejos, andam em permanência e por princípio agarrados ao local onde estou;  imaginar, como via outros fazerem, ver-me fora da Graciosa, ter férias dali a não sei quantos meses e fazer contagem decrescente dos dias que faltavam eram estratégias que evitava por conhecer a ressaca que sempre lhes vinha debitada. Iria de férias lá o para o Verão, lá para o meio da estadia por aqui, deixaria uns dias também para o Natal; talvez a João e a namorada do Rui nos viessem visitar no bom tempo, e era tudo. Nessa altura, dizem por aqui, a ilha engrinalda-se com os emigrantes que voltam da América e do Canadá, anima-se com a visita dos que moram na Terceira mas aqui tem casa, pois aqui nasceram. Até lá havia que aguentar sem gemer, sem queixumes, tínhamos sido nós a escolher aquele destino.
Era o Rui que estava de urgência e a regra básica ditava que quem estava de urgência não saía do hospital, com excepção do almoço e do jantar em casa da D. Irene ou da ida ao Açucareiro, mas essa rotina dos médicos toda a gente a conhecia sem necessidade de aviso prévio. Assim, quando a GNR nos apareceu por lá com o pedido de um médico fui eu a escolha natural. Preferi levar a Dyane, queria estar livre de movimentos para o que desse e viesse, mas dei boleia ao guarda que me fora chamar e a quem fui sacando nabos da púcara pelo caminho. Havia um tipo maluco – “De que idade, mais ou menos?” Ele pareceu surpreso com a minha pergunta, “não fazia ideia, não o tinha ainda visto” – maluco a sério, e com história de internamentos anteriores no manicómio da Terceira; com tendência para se tornar violento quando se passava acima do costume e, desta vez, quase limpara o sebo à pobre mãe com quem vivia, tinham sidos os vizinhos a telefonar para a GNR ao ouvir os gritos; já lá estava até um carro com dois soldados, mas achavam ser assunto para chamar um médico, pois havia a violência mas também a doença e tinham dúvidas sobre como lidar com a situação. A casa ficava na franja de uma povoação chamada Caminho de Manuel Gaspar, já por ali passara, sem reparar; pouco mais de quatro quilómetros da vila mas com um resto de estrada estuporada até chegar à sede do incidente, como diz o guarda. O tempo hoje está bonito, chegou Maio, e o mar murmura espreguiçado e azul-profundo, grandes pássaros deixam-se vogar nas correntes de ar, sem fito aparente, como se tivessem feito uma pausa para planar apenas. O jipe da GNR está estacionado encostado a uma esquina, a uma boa dezena de metros da casa em questão, as portas abrem-se e os guardas saem quando travo o Dyane à porta e fico à espera que venham ao meu encontro, um pouco intrigado. Se o doente é varrido e, pelo dito, queria apertar o papo à mãe, o que estão estes tipos a fazer tão longe e sem nenhuma velha com eles, à protecção? Explicam que tentaram entrar em casa do “indivíduo”, mas que ele é perigoso e preferiram esperar por mim; a mãe, essa, não quis deixar a proximidade do filho. Mas que raio estão estes gajos à espera? Que eu seja o escudo deles? Aquilo cheira-me mal, ainda antes de ter começado.

A mãe é um vale de rugas e está sentada num banco da cozinha, tem um lenço amarrado na cabeça e, mal percebe que devo ser o médico, dá de levantar as mãos, juntas como se eu fosse uma Nossa Senhora, e lamuria-se do pobre rico filho e da vida dela, ali sem outro homem em casa que pudesse impor alguma discrição. Pergunto pelo rico filho e ela aponta uma mão desalentada em direcção a uma escada que nasce ao fundo, depois de se atravessar a cozinha. Um dos guardas quer subir comigo, mas peço que fiquem em baixo; se precisar chamo e eles então que subam, aos pares. A casa é tosca, despida, e as escadas para o andar de cima parecem mais os degraus desleixados de um celeiro do que escadas de uma habitação. Quando chego aos últimos degraus vejo, em frente aos olhos, uma porta escancarada e ao fundo uma janela aberta que enquadra o azul-ferrete do céu e uma barra do azul-profundo do mar – é bonito como uma pintura. Entre a porta e a janela está uma cama de ferro, estreita, encostada à parede, e nela está sentado, como num banco de um jardim público, um tipo enorme, vestido de preto, com calças e casaco como se estivesse pronto a sair para a missa. O chão em torno dele está pejado de piriscas calcadas, embora, no momento, ele não esteja a fumar nenhum cigarro; tem as mãos pousadas no colo, umas manápulas grossas e de unhas por cortar, tarjadas de sujidade. O homem não levanta os olhos sequer ao sentir aproximar-me, mas pressinto que sabe que estou ali e penetra-me com agudeza a intuição de que devo ter muito cuidado, não sei bem porquê. Não é só pelo tamanho do tipo, embora só isso já inspire muito respeito, é algo na pose expectante com que mantém as mãos espalmadas sobre as virilhas, na cabeçorra cabisbaixa, de cabelo liso, escuro, a escorrer gordura; no modo como os olhos baixos se movem cautelosamente sob as pálpebras semicerradas. Percebo agora o temor respeitoso da GNR, aquilo é como um touro bravo parado numa sala de estar, quem é que se chega para um primeiro embate? Bem, mas eu sou o médico e sou suposto ter competência naquele tipo de bloqueios, como se fosse um mágico ou um hipnotizador. Tento chegar à fala, mas ele não responde e quando me aproximei, para, talvez, me chegar a sentar numa ponta da cama, como faz o bom clínico chegado à cabeceira do doente, o homem levantou a cabeçorra e olhou-me como se tivesse óculos e me fitasse por cima deles, daqui vejo a risca ao meio que aparta os cabelos negros, nítida e ensebada. Nada, nada que eu possa fazer, aquilo está para além de todo o entendimento. Prefiro, movendo-me lenta e previsivelmente como se estivesse num museu, pôr-me a observar os medicamentos espalhados em cima do tampo de uma cómoda, a panóplia do costume de antipsicóticos e calmantes, uma salada com o poder de uma marretada de guindaste. Mas não os deve andar a tomar, algumas das embalagens (várias da mesma marca) estão ainda seladas, e outros frascos derramam cápsulas pela cómoda e pelo chão. Diagnóstico desconhecido, perigosidade alta, intervenção a pôr em acção mais do que clara: tem que ser evacuado para a Terceira a alta velocidade, não há nada que a gente possa fazer para desarmadilhar aquilo em tempo útil! O tempo está até excelente, agora é só levá-lo até Santa Cruz e a GNR que trate disso.
O cabo consulta o relógio quando lhe transmito as minhas conclusões:
“É que já passa das três e meia e nunca se vai conseguir ter tudo pronto, da nossa parte, antes das quatro ou mais. Depois é preciso activar os procedimentos com a Força Aérea e, a essa hora, o helicóptero já não vem, eles não gostam de fazer missões para aqui da parte da tarde, para mais em hora tão adiantada; a não ser em caso de vida ou de morte... O Sr. Dr. diria que é um caso desses?”
“Bem, para ele, não; mas para quem se lhe atravesse no caminho já não sei...”
Os gajos riram como se só estivessem à espera daquilo para desanuviar; um riso nervoso, em qualquer dos casos, pois ninguém duvidada que os próximos a ter de se atravessar no caminho seriam eles.
“De qualquer modo, meus senhores, aqui é que ele não pode continuar. Teremos que o manter em Santa Cruz até amanhã de manhã, mas é melhor começar a tratar disto desde já, não vos parece?”
Pareceu-lhes, a custo, e depois de olharem uns para os outros numa consulta muda:
“A gente, quando chegar, vamos deixá-lo lá ao hospital; pois não há ilícito declarado que obrigue a que fique sob nossa custódia... Vamos ver o que diz o nosso comandante, mas é o que parece.”
Fui obrigado a achar que me parecia bem, mas aquela sensação boa e refrigerante de ter passado a batata quente fugiu de mim como as raras nuvens que, altas e dignas, patrulhavam o espaço e fugiam à ilha rumo ao sul.

(1) Sófocles, Ájax (vv. 130-131).

© Fotografias de pedro serrano, de cima para baixo: (1) Paul, ilha de Santo Antão, arquipélago de Cabo Verde, 2013; (2) Hydra, ilhas Saraónicas, Grécia, 2017; (3) Ilha do Maio, arquipélago de Cabo Verde, 2017.