09 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 18. Voando sobre o ninho de cucos

Quem não ficou muito agradada com o anúncio do visitante vespertino – a GNR teve algum trabalho em enfiá-lo no jipe, o que atrasou a chegada – foi a madre superiora, que o conhecia de visitas e dores de cabeça anteriores. Mas, como era de sua índole, não deixou de pôr de imediato a apoquentação a render e logo contactou o Viegas para que substituísse nessa noite a irmã Noémia, que era a enfermeira escalada para apoio à urgência. O Viegas tem mais de um metro e oitenta de altura e, embora seja um pacholas, o seu físico e ar de S. Cristóvão com o Menino aos ombros impressiona, para além de que sempre resistirá melhor a um sopro do que a irmã Noémia. Como medida suplementar, após ter vindo auscultar a minha sensibilidade de director clínico, a madre superiora decidiu que, logo após o jantar dos doentes, fecharia as enfermarias à chave, fazendo as irmãs o mesmo na sua residência do andar de cima. Achei bem e muito avisado, não me iria ocorrer tal procedimento a não ser quando já tivéssemos um maluco a atemorizar doentes numa enfermaria ou a fazer esvoaçar freiras pelas janelas.  
O visitante parecia agora outra pessoa e o ser passivo, embora expectante, que eu fora encontrar sentado no quarto, transmutara-se numa bisarma agitada que percorria sem cessar o espaço – um gabinete de consulta desocupado – onde, forrando de lençóis uma marquesa, lhe improvisáramos uma cama para a noite. A irmã Noémia trouxera um copo de leite morno, naquela de que o leite, para além de sustento, é também calmante, e o Viegas tentava abordar o homem pelo lado racional da argumentação e das regras de convívio entre seres humanos sensatos. Encostado à ombreira da porta, eu olhava a cena com apreensão, pois a insistência do Viegas e o tom do diálogo, a roçar o ofendido pelo outro não perceber que só queríamos o “teu bem”, estava visivelmente a energizar o doente. Mais no registo maternal, a irmã Noémia, flutuando em volta dele, empunhava entre o indicador e o polegar da mão esquerda uma alentada cápsula azul-napa-forro-de-cadeira, enquanto da outra lhe oferecia o tal copo de leite morno que já devia estar frio. Entalado entre os dois enfermeiros, entre as duas estratégias, o homem ia crescendo em claustrofobia e lançava olhares em volta, nomeadamente para a única abertura da sala sem janelas. Fiz um sinal discreto ao Viegas e saímos ambos até ao corredor, onde um dos guardas da GNR se acomodara num dos bancos de espera para o atendimento da urgência. Compreensivo e solidário, o comandante da GNR destacara um dos seus soldados para ali passar a noite, auxiliando-nos no que se viesse a revelar necessário em termos de contenção ou segurança.
“Nós, assim, não vamos a lado nenhum, Viegas. Não é nem com comprimido nem com copos de leite que o vamos acalmar. Mas vamos ter de fazer qualquer coisa, duvido que ele se aguente até de manhã sem desvairar...”
“Pois, eu sei, mas o que é que você propõe? Ele precisa é de um injectável, mas quem lho dá?”
Eu percebia lindamente o ponto de vista dele: é competência do enfermeiro administrar as injecções, mas aquilo era um caso especial e tentar inoculá-lo um procedimento que poderia acabar em agressão, pois quem não reage com uma sapatada ao ser picado por uma abelha?
“Vamos andando e vamos vendo. Para já prepare aí uma seringa com duas ampolas de Largactil: 25 + 25 mg. Preferia Haldol, mas acho que não temos injectável...”
“Já não há, não. Já se pediu para Angra mas não veio... Ou até em gotas, disfarçava-se no leite...”, sonhava ele alternativas à injecção.
“Arranje isso. Depois vemos se o convencemos; se não for a bem, vai ter de ser a mal...”
“Porra”, disse o Viegas, inconformado: “E quem lha dá, a mal?”
“Logo se vê”, prometi, vago, “nem que seja usando o método radical da enfermeira Celeste...”
Ele riu, apesar de tudo. O método radical da enfermeira Celeste, que o usara como missionária em situações limite, consistia em usar a seringa e a agulha como uma bandarilha e espetá-la na primeira oportunidade, deixando de lado preciosismos técnicos e fazendo-o mesmo que fosse atravessando a roupa.
“Olhe”, voltei, dando corpo à ideia, não se esqueça de apetrechar a seringa com uma agulha de calibre compatível...”
“Já tinha pensado nisso”, respondeu ele, “será bom que a agulha não parta...”
A irmã Noémia apareceu, fechando cuidadosamente a porta atrás de si.
“Então? Conseguiu?”
Ela abanou a cabeça tristemente: “Não há maneira de o convencer, parece que nem está ali! E deita-me uns olhos de cada vez que insisto!”
“Pois não, e cápsulas destas tem ele em casa, aos montes, por tomar... Até no chão as vi... Olhe irmã, são horas de jantar; vá para cima, que a gente aguenta-se por aqui.”
Ela lançou-nos um último olhar de admiração e carinho, quis saber se as diligências com a vinda do helicóptero estavam tomadas.
“Sim, sim”, informou o Viegas, “se nada falhar estão aí amanhã, às oito. Vão tentar mandar um enfermeiro de lá, para ajudar e acompanhar o transporte...”
De madrugada ouvi cair chuva e encolhi-me, fez-me pensar que poderia estar tudo comprometido. Continuei na cama, a ouvi-la cair; era forte, mas não açoitava as vidraças, soava como uma chuva vertical, obediente. Dormira pessimamente, se é que dormira, nem bem disso estava certo. Tínhamos adiado a inoculação do doente até depois do jantar, na torpe esperança de que com o esparguete com alcatra e o copo de leite, que fora deixado em cima de uma mesinha móvel, ele se tentasse e engolisse os – agora dois – comprimidos. Quando voltámos de casa da D. Irene, eu, o Rui e o Viegas entrámos no gabinete com as tarefas toscamente distribuídas: o Rui e o Viegas entretê-lo-iam, de modo a criar um momento de rarefação de espaço e tolhimento de movimentos, instante que eu aproveitaria para lhe enfiar a agulha e pressionar o êmbolo da seringa. Assim fizemos, com o doente a agitar-se mal percebeu a seringa, e o tal momento idealizado a resvalar, comigo a espetar a agulha através do tecido das calças na face externa da coxa do homem; o Rui a tentar evitar que ele usasse as mãos enquanto eu pressionava o êmbolo, e o Viegas a apanhar um safanão que o atirou contra a mesinha móvel onde estavam pousados os restos do jantar, fazendo-a tombar com grande estardalhaço e atemorizando o GNR que dormitava do lado de fora.
Perto da uma da manhã telefonei de casa para o hospital. Atendeu o Viegas e dei comigo a falar com ele em voz muito baixa, como se tivesse medo que alguém nos ouvisse. E do lado de lá, contagiado, ele respondeu no mesmo tom de voz sumido. O doente continuava na mesma, isto é, fresco como uma alface; até parecia que lhe tínhamos dado água, na versão do Viegas.
“Já viu, Dr.? Uma dose que, a nós, nos ia pôr de patas ao ar!”
“Mas está tudo calmo?”, queria eu saber, pois, estando longe da vista, a minha preocupação entretinha-se com imagens de portas partidas, fugas no escuro da noite...
“Está, tudo sob controle, pode ir dormir sossegado. O gajo está lá fechado, não se ouve uma mosca, e eu estou aqui entretido na conversa com o nosso amigo da Guarda. Ao que parece, a ilha toda está a par, olhe que nem uma mosca apareceu até agora na Urgência...”
Mas, embora exaurido, sono era coisa que não me descia. Peguei num livro e pus-me a ler sobre agitação psíquica e métodos de tranquilização rápida; antipsicóticos de primeira e segunda geração, efeitos secundários... As descrições eram uniformemente esquemáticas e pareciam ter lugar no melhor dos mundos, um mundo em que os necessitados baixavam as calcinhas para levar a pica no tutu! O livro ficou por ali, aberto em cima da cama; apaguei a luz e tentei apagar-me. Como é que o gajo não havia de ter ficado agitado? Quando o arrancaram de casa e chegou ao hospital – por muito alienado que estivesse – devia ter apercebido o que lhe ia suceder a seguir, bastava ter memória e ser capaz de reter alguma aprendizagem: ia acontecer como já tinha acontecido, iam levá-lo dali no helicóptero, por sobre o mar; iria parar a uma casa onde nada era agradável ou livre, onde nem sequer tinha uma mãe para pregar uns sopapos....
A luz infiltrava-se pelos rebordos do caixilho e já não se ouvia cair a chuva. Olhei o despertador: sete menos dez. Levantei-me e puxei o estore: o céu estava azul, ainda um azul desmaiado, mas sem mácula. No prado em frente, a vaca do costume tinha levantado a cabeça e olhava na minha direcção. Parecia lavada pela chuva, como se tivesse acabado de sair de um chuveiro onde preparara o preto e branco da pelagem para enfrentar o novo dia.
Depois a manhã pôs-se em marcha, rapidamente. O helicóptero surgiu no céu mal davam as oito e, da ambulância em que o Nascimento o fora receber, desaguaram à porta do hospital dois latagões vestidos de branco, com camisas de manga curta e bíceps poderosos. Um deles pendurava duma mão uma maca portátil e o outro uma trouxa clara que reconheci, mais ao perto, como sendo uma camisa de forças. Eram enfermeiros, recrutados ao saber-se a tipologia do doente a evacuar: nem a Saúde nem a Força Aérea queriam incidentes durante um voo sobre o mar! Fiquei a assistir, maravilhado, à facilidade e à leveza assertiva com que os dois tipos vestiram, como quem enfia uma camisa lavada a uma criança, o colete de forças ao nosso visitante, e a docilidade com que ele se deixou cair na maca, desdobrada no corredor da urgência.
Acabei por servir de motorista à ambulância no regresso ao heliporto que, nessa manhã, não via tanta gente como de habitual, pois as circunstâncias não permitiam a viagem de mais ninguém até Angra. Durante o trajecto, descomprimindo da tensão de tantas horas, dei comigo a dirigir ininterruptas perguntas aos enfermeiros: o que iria acontecer ao doente quando chegasse à Terceira? Já o conheciam? Afinal o que tinha ele, qual era o seu diagnóstico psiquiátrico? O enfermeiro que seguia sentado a meu lado era do género mais calado e quem me respondia era o outro, que, inclinado sobre a janela de correr separando a parte traseira dos assentos da frente, me informou que isso do diagnóstico poderia perguntar depois aos psiquiatras, mas o que podia dizer é que se tratava de “um menino perigoso”. E logo apresentou uma proposta surpreendente:
“Por que é que o Dr. não vem connosco? Já ficava a saber tudo isso...”
“Acha que sim, que seria possível?”, perguntei, atónito.
“Claro, é perfeitamente normal: acompanhar um doente complicado durante uma evacuação... Acontece com frequência.”
A ambulância era dotada de rádio, que permitia o contacto directo com o hospital. Liguei ao Rui e expus o assunto, afinal era ele que iria alombar com a minha ausência.
“Vai à vontade”, disse com simplicidade, “eu cá me arranjo”.
No Hotel Angra também encararam a minha chegada com naturalidade. Não, não estava nos quartos nenhum dos meus colegas, todos tinha saído para os respectivos locais de consulta. Sim, havia um quarto que estava, no momento, desocupado e eu poderia ficar nele, o colega que ali costumava morar estaria fora nas próximas dez noites. Deram-me a chave, subi de mãos a abanar, pois nem uma escova dos dentes trouxera! Quem se atreveria a atrasar uma evacuação por causa de adereços de higiene? Tinha deixado a Graciosa directamente da ambulância para o helicóptero; ao veículo, alguém o iria buscar ao campo de futebol, as chaves ficaram no porta-luvas.
O quarto dá para trás, para o florescente Jardim Municipal e uma tranquila luz, temperada de reflexos verdes e ambarinos, entra pela janela. No quarto de banho encontrei pasta, escova dos dentes, um pente com cabelos encravados; só iria ter de pedir emprestada uma lâmina de barbear. Estava sem saber quando regressaria à Graciosa. Arranquei os sapatos, despi-me, e enfiei-me na cama de solteiro, feita de fresco, apetitosa como uma noiva acabada de cortar.
No hospital psiquiátrico acompanhara o doente à enfermaria de agudos que, a essa hora da manhã, estava surpreendentemente vazia. Os enfermeiros que tinham acoplado a maca a um sistema de transporte com rodízios já não eram os mesmos do helicóptero. Assisti ao modo cauteloso como passaram o doente para a cama e como, antes de começarem a despir-lhe a camisa de forças, lhe enfiaram os pés numas algemas de couro acopladas ao fundo da cama. Em seguida, retiraram-lhe um dos braços da contenção da camisa de forças e prenderam a respectiva mão noutra algema que pendia ao nível da cabeceira. Finalmente, fizeram o mesmo com o outro braço e com a outra mão e, só então, relaxaram a atenção aos procedimentos. Foi, sobretudo, por esse ritual que percebi os riscos que corrêramos naquelas horas todas em que lidáramos com o doente na Graciosa e senti-me vulnerável como um aprendiz, como um jogador a quem foi concedida a sorte do principiante; foi nesse momento que o medo floriu diante de mim. Deitado na cama do hotel, pensamentos à solta, a minha visão interior era interceptada pelas imagens daquela meia-hora de helicóptero sobre o mar azul. O doente viajara deitado e manietado na maca, num espaço aberto pelo recolher dos bancos que há atrás da carlinga. Os enfermeiros, cansados por se terem levantado tão cedo e com a sensação da tarefa cumprida, seguiam absortos, e eu, entaipado no meu assento, estava dentro do ângulo de visão do passageiro: toda a santa viagem o homem me fitou com o olhar que sobra ao animal enjaulado e tem consciência da presença do seu perseguidor; um olhar de ódio concentrado, que se exprime da impotência em direcção à eternidade. Horrível, pois embora tentasse entreter-me na beleza das imagens em movimento do exterior do Puma, o meu olhar voltava para reencontrar a mesma fixidez, pois, na mente cativa, ele não tinha outro motivo de interesse.
O colega a quem fui apresentar cumprimentos antes de deixar o hospital, era simpático, condescendente com o jovem maçarico que lhe aparecera e que parecia tão impressionado com a encomenda que entregara.
“E agora, para onde é que você vai? Quer boleia lá para baixo? Vou sair dentro de uns dez minutos, posso levá-lo ao hotel...”
Durante a breve viagem, expus a minha preocupação em ter deixado a ilha, em restar lá apenas um colega a tomar conta de tudo; em só voltar a haver transporte dali a uma semana.
Antigo hospital psiquiátrico, actual Casa de Saúde Mental, ilha Terceira.
“Pois..., é a isso que se chama insularidade! Mas, se está tão apressado em regressar à Graciosa, pode ir tentar a sorte no porto. Não sei exactamente os dias, mas há uns barcos da marinha mercante que fazem rota entre as ilhas e talvez lhe possam dar uma boleia.”
Perguntei onde se podia saber disso, comprar bilhetes, e o tipo riu-se à fartazana.

“Ó colega, aquilo não são barcos de passageiros, percebe? Levam mercadoria, mas pode ser que lhe deem uma boleia, sobretudo sabendo que você é médico e está em serviço nos Açores. Pergunte no hotel ou dê uma volta pelo cais, vai ver que alguém lhe saberá dizer alguma coisa.”
cos de passageiros, percebe? Levam mercadoria, mas pode ser que lhe deem uma boleia, sobretudo sabendo que você é médico e está em serviço nos Açores. Pergunte no hotel ou então dê uma volta pelo cais, vai ver que alguém lhe saberá dizer alguma coisa.”

Nota: O título do texto inspirou-se no livro de Ken Kesey Voando Sobre um Ninho de Cucos, que daria origem ao filme homónimo de Milos Forman, 1976.