16 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 19. A visita da fada verde

Acordei, passava das seis, com a sensação de estar atrasado, para o quê não cheguei a saber. Deixei-me estar na cama a olhar em volta, a ouvir o rumor de vozes chegadas pela janela, que deixara entreaberta e a que uma corrente de ar muito mansa fazia ondear a cortina como se me chamasse a espreitar.
Lá em baixo, no jardim, desenrolava-se a actividade desconexa e frouxa que é própria dos jardins públicos: um casal de namorados, num banco, com o ar  clandestino dos amorosos à solta; um velho que se afastava em direcção ao outro extremo do jardim; duas mulheres olhavam e comentavam os fogachos vermelhos de um metrosídero em flor.
Senti fome e desatei a abrir e fechar gavetas, a ver se encontrava alguma coisa, por lá eventualmente deixada pelo gajo que ali morava, mas sem sorte. Fui tomar um duche, sabendo que, no final, teria de vestir a mesma roupa, não tinha outra; talvez pudesse, depois, pedir ao.... O telefone tocou, se calhar não tinha a ver comigo mas fui atender ainda assim.
“Paulo! Estava a pensar em ti, meu, e se terias roupa que me pudesses emprestar... Como soubeste que estava aqui?”
“Ainda não deste conta que nesta terra não se passa nada que não se saiba de imediato?! Cheguei e disseram-me logo, na recepção. Olha, como é: queres jantar aqui ou preferes ir fora? Por mim, já estou um bocado cheio da comida, mas, ao menos, morfa-se de graça...”
E o Paulo ficou-se a rir convulsivamente do lado de lá do fio.
“Quem janta mais?”
Ele suspirou:
“Quem janta mais, quem havia de ser? Os tristes do costume; agora estamos aqui eu, o Senra e o Schmutzer... O coiso está para o continente, deves saber pois estás no quarto dele...”
“Sim, o coiso. Olha, será que me emprestas uma t-shirt e uma camisola? Vim da Graciosa a correr, nem tive tempo de fazer mala...”
“Evacuar um maníaco, já ouvi dizer.”
 O Paulo voltou a ter um paroxismo risonho e eu, sentado na cama, enrolado num toalhão de banho, a sorrir-me também ao imaginar a fácies e os trejeitos que corresponderiam àquele gargalhar.
O Paulo Amorim é natural de Vila do Conde, onde mora com os padrinhos numa encantadora quintarola em cima do Ave que inclui uma azenha, mas conheci-o nos corredores da Faculdade de Medicina, onde se passeava, rodeado pelas alunas mais vistosas do meu Curso, como se estivesse ali de passagem ou em revista às tropas. É um tipo trigueiro, com uma cabeleira negra, lanuda, que, no seu crescimento, lhe invade de tal maneira a fronte que é periodicamente obrigado a rapar um centímetro ou dois daquela praga a fim de não ficar sem testa e com as sobrancelhas, igualmente negras e abundantes, coladas ao crânio! O Paulo tem, como um ursinho de consolo, uns olhos de azeviche, sempre assombrados por uma estupefação que lhe empresta à expressão um ar estrelado, e havia quem pusesse a hipótese do revirado das suas pestanas não ser natural. Fosse como fosse, o homem não passava facilmente despercebido em lado algum, quer pelo modo como caminhava de pescoço esticado, o que lhe conferia uma altivez de ganso, fosse porque podia decidir-se ir jantar e atravessar a pacata sala do restaurante envergando calças brancas, muito justas, e botas de verniz negro, de cano pelo joelho. Sim, podia dizer-se que havia um leve problema de sintonização no Paulo, de que o próprio tinha despreocupada consciência e sobre a qual contaria episódios como se estivesse a falar de um tio-avô distraído.
“Já sabes o que me aconteceu a semana passada? A recepção telefonou a despertar, como tinha pedido; vesti-me, apanhei um táxi e fui para a Praia da Vitória fazer as consultas, como é costume. Eu tenho a chave lá do posto, abri a porta e sentei-me à espera dos doentes. Estranhei não ver ninguém, nem doentes nem funcionários da secretaria, mas, às vezes, chego primeiro que todos e não me ralei. Olha, ao fim de uma hora ali a secar, vim cá fora espreitar para descobrir que era Domingo! Já viste o desperdício?!”
E perante o olhar benevolamente condescendente do Virgílio Senra e os olhinhos vigilantes do Schmutzer, o Paulo torceu-se de riso na cadeira, fazendo tilintar a mesa onde estávamos os quatros sentados em volta dos nossos bifes com molho de pimenta e atraindo a atenção das outras mesas.
À sobremesa, ainda tomado por aquela sensação de férias que me assombrava, comi ananás e prometi a mim próprio que, enquanto estivesse nos Açores e o pudesse fazer, não escolheria outra coisa... Perante a indiferença dos outros gabei o fruto: aquilo não se encontrava em mais lado algum, aquele sabor em que o doce não asfixiava – como no abacaxi – o perfume daquela rodela de um ouro desmaiado.
“Lá na Graciosa vocês não comem disto todos os dias?”, perguntou o Schmutzer na sua voz nasalada e um tanto aflautada.
“Não, nada disto. Comemos queijo de S. Jorge com compota, até à náusea; não há mais nada para sobremesa, nem sequer fruta fresca. É tudo importado do continente e as maçãs que chegam lá parecem o refugo que sobrou para um estábulo.”
Eu conhecia o Senra de vista da Faculdade, era do meu curso, mas como éramos trezentos e tal e não abancávamos na mesma turma nunca fôramos próximos nem nada nos atraíra. Quanto ao Schmutzer, sabíamos um pouco mais dele, eu e o Rui conhecíamos-lhe até uma irmã, que namoriscara um primo do Rui; estivéramos o Verão de 75 todos juntos em Lagos, no Algarve. Mas, ali, ele parecia-me mudado, como se nos tratasse com uma cortesia distanciada, e o modo como participava na conversa afigurava-se pautado por um qualquer fito vigilante, dir-se-ia que estava a tirar notas mentais. Mais tarde na noite, quando apenas o Paulo e eu restámos por um canto do bar, a beberricar copinhos de absinto, falei-lhe na minha estranheza.
“É, o gajo está assim. Mal chegou, conseguiu ser eleito, ou escolhido, para delegado dos médicos da Periferia; passa a vida enfiado no estaminé do Director Regional... Diz que isto é um sítio de futuro – e aqui o Paulo teve uma nova sezão de riso – e que já “teve convites”; que vai tentar fazer aqui uma especialidade e ficar por cá, ser um senhor e ficar rico... mandar nesta merda toda – olha a grande coisa! Quem quereria mandar nisto?”
Encolhi os ombros com tédio, mudei de assunto:
“Já alguma vez tinhas bebido disto?”, perguntei levantando o cálice onde brilhava um líquido esverdeado, com uma cor que lembrava elixir dentífrico.
“Não”, confessou o Paulo, “é horrível... Parece anis escarchado, mas p’ra pior.”
Apesar disso, continuámos a beber pela noite dentro, pois a minha surpresa e curiosidade ao dar com a garrafa, inocentemente exposta nas prateleiras do bar, fora desmedida. Estava convencido que o absinto – a famosa bebida da fada verde – era proibido em Portugal, um país onde era tudo mais ou menos interdito, e afinal fora dar com uma garrafa, de produção nacional, num recatado hotel açoriano. Havia uma mística por trás da bebida, ligada ao século XIX e cantada por escritores e poetas como Poe, Rimbaud e Baudelaire, pincelada pelos impressionistas... O absinto, dizia-se, era uma espécie de droga destilada em estado líquido, provocava alucinações quando consumido cronicamente, mas o máximo que eu e o Paulo estávamos a conseguir era ficar supinamente nauseados e a incubar uma dor de cabeça que, no dia seguinte, nos bateria à testa sem dó. Entretanto, o Paulo, a quem as desgraças pareciam desencadear o riso, ia-me pondo a par dos pequenos dramas triviais que tinham acometido a nossa tribo de médicos periféricos. Já mais de uma dezena tinham sido devolvidos à procedência por se terem dado mal com o clima.
“Apanhados pelo clima! Apanhadíssimos pelo clima, pelo anticiclone...”, resumia o Paulo, feliz, dando-me uma leve palmada no ombro.
“Pois... A gente, lá na Graciosa, não sabe de nada do que se passa... Soubemos do Saraiva, em S. Jorge, mas foi até por ti!”
“Todas as semanas há uma bronca qualquer, o Porão da Nau anda desvairado, qualquer dia nem tem médicos que lhe acudam ou então andam todos a calmantes! Para nós até é bom, anda tão assustado que assina todas as contas que lhe chegam sem pestanejar. Quem julgas que vai pagar este absinto?”, continuava ele, rodando o copo e olhando com gosto os reflexos verdes, como se fosse imune à peste insular que descrevia.
O “Porão da Nau”, a que se referia, era o nosso patrão administrativo mais imediato e o seu apelido real era Lopes da Nave, um continental com um nome muito apropriado a um contexto tão marítimo, e a quem nós coláramos aquela alcunha, epíteto que se nos infiltrara de tal modo na pele que já acontecera a alguns de nós dirigirmo-nos-lhe, ao vivo, por Porão da Nau. Está claro que o Paulo não se lhe dirigia de outro modo e estou até convencido que já lhe esquecera o nome verdadeiro.
“Pois, agora, a grande esperança do Porão da Nau é o seu pajem Schmutzer; já o envia por aí em missões aerotransportadas, pelas ilhas, a fazer de penso-rápido nas crises...”
“Olha, eu é que precisava de um aerotransporte daqui para fora, mas parece que, pelo lado dos helicópteros, não me safo antes da próxima terça. Já ouviste falar das boleias em barcos?”
O Paulo já ouvira falar disso, mas não sabia pormenores, não era assunto que o interessasse. Nunca saíra da Terceira a não ser de avião: ou num dos grandes, para o Continente, ou numa das avionetas que faziam ligação a S. Miguel.
“Às vezes vou, nos fins de semana, a Ponta Delgada... Aquilo também é um atraso de vida, mas, ao menos, não morro no mesmo pasmo!”
Antes de nos separamos, combinámos que, no dia seguinte, eu iria ao porto, apalpar terreno e que ele me faria companhia.
“Perdão...”, desculpou-se o Paulo, educadamente, já próximo da porta do meu quarto, quando uma emanação do absinto o fez arrotar sem aviso, “não estou familiarizado com as eructações desta mixórdia!”
“Deixa, pode ser que ainda sejas visitado pela fada verde durante a noite.”

“Deus te ouça...”, disse ele seguindo pelo corredor fora um pouco em zigzag.