18 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 20. Blue Alert

Cidade de Angra do Heroísmo, ilha Terceira.
Dormi como uma pedra, mas acordei cedo, como sempre acontece quando me embebedo. Zunia-me a cabeça mas pela janela entrava uma luz esperançosa e, sendo ainda hora do pequeno-almoço, resolvi levantar-me, ir dar uma volta pela cidade. Mas aquela luz toda revelou-se ilusória: apesar da claridade, chovia, uma chuva fraca mas persistente, que já pingava da folhagem desmedida dos fetos arbóreos e dos guarda-chuvas de quem se aventurava no jardim.
Dei lume a um cigarro, voltei a deitar-me e tentei conciliar o sono, mas interpôs-se a especulação sobre o que seria feito do maluco do Caminho de Manuel Gaspar. Por esta hora – tinham passado mais ou menos vinte e quatro horas – já o gajo devia estar arrefecido nos ímpetos à custa da martelada química dos neurolépticos, mais um dia ou dois e podiam retirar-lhe as algemas com o alívio de quem vira um bolo recém-saído do forno sobre o prato onde vai ser fatiado e comido; deixaria de ser perigoso e devolvê-lo-iam à ilha natal com um  certificado de garantia, válido por período indeterminado. Voltei a rever o seu olhar malsão, agarrado a mim durante toda a viagem de helicóptero, iria demorar até que essa memória ganhasse tonalidade neutra e deixasse de me incomodar.
Pelo almoço fui tomar o pequeno-almoço num café da baixa de Angra. Um ventinho limpara as nuvens e um sol, tímido e já quente, lambia as pedras molhadas das calçadas e devolvia o brilho aos edifícios. Angra é uma cidade muito bonita, cheia de cor e não tão a preto-e-branco como a capital dos Açores, e a cidade acolhe e abraça o mar, ao invés de Ponta Delgada onde o mar passa rente e paralelo à cidade mas esta não lhe admite intimidade e recantos. Entrei numa livraria e encontrei A Peste, do Camus. Já o tenho pelas estantes do Porto, mas fiquei tão agradado de o ver entre manuais escolares e almanaques que o comprei sem pensar. Depois entrei numa agência de viagens, talvez me soubessem informar os horários dos barcos mercantes entre as ilhas. Não sabiam, dedicavam-se somente a excursões e voos de avião, fiquei a perceber – embora no momento a informação não me interessasse – que havia mais aviões para Lisboa do que supunha. Para além dos voos domésticos da TAP há os grandes bichos transatlânticos que, três vezes por semana, voam dos Estados Unidos e do Canadá, fazem uma breve escala técnica nas Lajes e, umas duas horas depois, pousam em Lisboa antes de continuar Europa adentro.
No porto disseram-me que chegaria durante a tarde um navio que, vindo de S. Miguel, fará a rota do grupo ocidental até às Flores. Partiria nesse mesmo dia, à noite, pelo menos era o costume. Quanto a uma eventual boleia teria de falar com o comandante, o transporte não era coisa que estivesse protocolada ou sujeita à decisão de terceiros. Voltei ao hotel e, por entre o quarto e as salas de estar, aborreci-me até à hora do jantar, e quando o Paulo bateu à porta do quarto com uma camisa e uma jaqueta curta, axadrezada e com carapuço, agradeci e disse já não precisar pois decidira regressar, hoje mesmo, à Graciosa. Ele olhou-me, interdito, após o que aconselhou:
Cais de Angra do Heroísmo, ilha Terceira.
“Ao menos leva o casaco, olha que se está a levantar uma ventania... Depois devolves-me, quando voltares cá ou eu for lá visitar-vos. Vais de barco? Quem me dera...”
“Não sei se vou, vou tentar.”
Jantámos cedo, só os dois, e o Paulo acompanhou-me ao porto, fizemos o caminho em silêncio, mãos enterradas nos bolsos e cabeças viradas ao chão para enfrentar a força do vento que, no cais, revolvia a água contra as pedras, chocalhava os pequenos botes e borrifava quem tinha de andar por ali.
Ao contrário do que esperava o capitão não era um tipo barbudo, enfarpelado numa farda de brancos e dourados, e não usava sequer boné. Como o resto da tripulação, era um tipo novo, informal e todos pareciam andar por ali como se andassem noutro local qualquer, num ambiente geral um pouco caótico e nada planeado. O Paulo estava já a adorar tudo aquilo e, no início da entrevista, o capitão chegou a pensar que ele iria também. Em princípio não estavam a pensar fazer escala na Graciosa, mas podiam deixar-me ao largo, pela madrugada; seria uma questão de ligar para lá, pelo rádio, para que um escaler fosse tratar do meu transbordo. Senti-me um fardo.
“Não temos é onde o deitar, Dr., mas pode passar o tempo connosco na sala dos oficiais. Há para lá uns sofás...”
Pareceu-me maravilhoso, adorava a ideia de ir andar de barco uma noite inteira. Até à data, a viagem mais arrojada que fizera consistira em atravessar o Tejo de cacilheiro.
Já quase amanhecia quando vi aproximar-se ao longe a Graciosa, uma mancha escura com aspecto desabitado que foi ganhando nitidez de detalhes à medida que nos aproximávamos. O navio fundeou ao largo e a rampa do cais da Praia pareceu-me tão longínqua como o barco onde chegaram as nossas arcas me parecera então, ancorado no meio do mar. O capitão acompanhou-me à amurada, vigiando a escada de corda com degraus de madeira que estava a ser desenrolada no portaló. Espreitei, as mãos fortemente agarradas à balaustrada. Visto dali o casco parecia alto como um arranha-céus e a pobre escada um balancé esquecido num jardim de inverno, os últimos degraus a balançar suspensos sobre as águas que se atiravam ao ferro castanho com um apetite voraz. E ia eu amarar por ali fora, com toda a gente a acompanhar a descida – uns de cima, outros de baixo – e, quando chegasse ao último degrau, teria ainda de acertar no bote, a alternativa a cair ao mar ou ficar esmagado entre o escaler e o navio. Lamentei amargamente tudo quanto bebera durante a noite, o arrependimento abrangeu até o absinto da noite anterior... Tinha passado a totalidade das horas nocturnas a beber, que era o que mais se fazia na sala dos oficiais. Primeiro vinho, pois eles jantaram tarde e fizeram-me comer outra vez, e depois whisky, um produto tão popular e abundante na zona que bem poderia ser a bebida nacional dos Açores. Copinhos e mais copinhos, por entre uns quatro tipos que jogavam cartas e contavam histórias no meio de risadas, tendo-me, a certo ponto, parecido que ou já tinham esquecido a minha presença ou que me tinham absorvido de tal modo que me consideravam um dos seus. Eu próprio me transformara em tal, e já levantava com familiaridade os cotovelos da toalha branca da mesa para, aos tropeços e amparando-me às paredes metálicas e aos abundantes corrimãos, ir dar mais uma mijadela no abafado urinol onde cheirava a gasóleo e asfalto. 
Ah, barcos era uma cena porreira, por mim passaria a vida naquilo; como será que se faria para ser médico de bordo? A meio da viagem o mar encapelou-se e o meu entusiasmo toldou-se ao tentar olhar pelas vigias e tanto as encontrar ao nível do chão como ao nível do tecto. Estava um pouco enjoado, mas o que mais me impressionava era a volatilidade do que é caminhar sobre as águas. Os meus comparsas tinham-se dado conta do meu assarapantamento e brincavam mansamente com isso, aconselhando a que bebesse mais um copo e comesse mais qualquer coisa, pois o melhor amigo do enjoo era viajar sobre um estômago vazio. Trinquei, sem vontade, uma fatia de bolo de cenoura que me soube a iodo e a petróleo.
No convés, esperando que o escaler chegasse suficientemente perto para poder iniciar a descida, voltei a sentir-me um pouco melhor, pois o ventinho cortante das primeiras horas da manhã reanimara o meu tolhimento geral. Mesmo assim, gostava de não ter bebido tanto, não havia agora nada a fazer.
“Pode descer quando quiser, Dr.”, despediu-se o comandante, estendendo-me a mão. “Prazer, e quando precisar de outra boleia é só aparecer...”
Essa sugestão de futuro deu-me coragem para ir, mais escorregando do que descendo, avançando por ali abaixo, aferrado às cordas da escada como se já me estivesse a afogar e entaramelando os pés nas travessas de madeira, prontamente ensopadas pelo roçar no casco molhado e pela espuma das águas. Uma breve eternidade mais tarde aterrei no escaler, onde a mão do homem de serviço ao  pequeno motor fora de água me estabilizou na posição de sentado. Agradecido, reconciliado, olhei para cima numa despedida, mas tudo quanto vi foi uma parede enferrujada afastando-se das minhas intenções.
Na rampa do cais, que consistia agora o centro das minhas atenções, apercebia dois vultos que subiam e desciam, e uma luz azul que piscava e que, ao aproximar-me, percebi ser o farol do tejadilho de uma ambulância. O Rui fora buscar-me e no trajecto de regresso a Santa Cruz, como se não tivessem passado somente dois dias sobre a manhã em que eu deixara a ilha, confidenciou estar cheio da Dyane e a resolução de passar a usar a ambulância nova como meio principal de transporte.
“Como assim somos nós que vamos buscar os doentes em mais de metade das situações...”
Era verdade. Quem habitualmente a guiava era o Nascimento, o Viegas ou, se estava para ali virado, o Sr. Weber, que acumulava com a presidência da comissão administrativa do hospital a de comandante dos bombeiros. Mas, a pouco e pouco, fartos de esperar na Urgência os doentes que, anunciados, não haviam meio de chegar, os médicos foram tomando a iniciativa de os ir buscar a casa, numa espécie de serviço completo em termos de cuidados à população. Essa atitude, inspirada pela luta contra o tédio, lavrara um certo sucesso junto da opinião pública, pelo que passara a ser considerado merecido e habitual o facto de aparecermos no Açucareiro a bordo de uma ambulância com uma luz azul a rodar no tejadilho. Eram os médicos que vinham tomar o seu café.   

Nota: O título do texto foi inspirado pela canção "Blue Alert", de Leonard Cohen e Anjani, 2006.

Fotografias, de cima para baixo: 3.ª fotografia, pedro serrano, Cabo Verde, 2013; 4.ª fotografia, fotógrafo desconhecido, Graciosa, 1979.