22 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 21. Temporariamente suspenso

Na terça seguinte, pelas onze, uma hora após o helicóptero no qual teria regressado a Santa Cruz se tivesse optado pelo transporte regular, ter partido recebi um telefonema do Sr. Araújo.
“Recebi uma encomenda especial da Terceira; querem dar um salto até aqui?”
Desliguei e dei lume a um Goldflame, a ganhar tempo. Conforme a perigosidade, costumava sentar os doentes ou a meu lado (baixa perigosidade, exemplo: D. Crisália) ou em frente a mim, a secretária a servir-me de zona neutra. Naquele momento tinha, do lado de lá da mesa, sentada a D. Hirondina, um caso difícil, uma dama de meia-idade completamente viciada em barbitúricos, dependência de que, coitada, nem se dava conta, a não ser nas minhas tentativas de a fazer descolar daquele hábito. A Dona Hirondina padecia de insónia, insónia crónica, e a  geração de colegas que me antecedeu, segundo a verdade científica das décadas anteriores, receitaram-lhe barbitúricos, um medicamento que, como vários outros, provoca dependência e tolerância, isto é, não só agarra insidiosamente a pessoa – que passa a não passar sem ele – como o tomador necessita de ir aumentando a dose para obter um efeito parecido ao que obteve inicialmente. Ora acontece que uma dose excessiva de barbitúricos pode matar, veja-se o sucedido a Marylin Monroe ou Judy Garland, que se passaram para somewhere over the rainbow(1) graças a eles ou, falando de gente mais nova, Jimi Hendrix ou Brian Epstein, o carismático empresário dos Beatles, a quem sucedeu destino semelhante. Todas estes mortes se passaram entre 1962 e 1970, o que mostra que até o modo de morrer tem as suas modas e, no caso da D. Hirondina, fazia supor que ela tomaria aquilo há mais de dez anos. Pois eu andava a tentar fazer-lhe o desmame com novas substâncias que, embora igualmente um tanto viciantes, acarretavam um menor risco de lhe curar a insónia de vez e de que eram exemplos o Somnium ou o Rohipnol. Mas sem grande sucesso, diga-se, pois ao fim de uma semana, ou menos do que duas, ela voltava a aparecer-me na consulta expondo nas mãos trémulas caixas vazias de Somnifen ou Luminal e ganindo de abstinência como um personagem de tragédia grega.

Estava num desses confrontos de impasse quando o telefone tocou e era o Araújo.
“Dona Hirondina”, acabei por dizer, esmagando o resto do Goldflame no cinzeiro, “vou pedir-lhe que tire o seu chapéu e os seus sapatos e se deite ali na marquesa por um bocadinho. A irmã Noémia virá aqui ver como está a sua tensão e o seu pulso... Eu volto já.”
E vazei, atravessando o corredor, cheio de clientes àquela hora, para bater à porta do Rui e, em pose profissional, lhe comunicar que devíamos ir de imediato aos CTT, onde éramos solicitados por uma ocorrência. O Rui, grave, levantou-se e, sem despir a bata, enfiou o estetoscópio no bolso e seguiu-me em direcção à porta principal do hospital.
A sede da estação dos Correios é do outro lado da rua e chegar lá é equivalente a atravessar um salão grande, pelo que cedo nos achámos conduzidos pelo funcionário que atendia ao balcão ao gabinete do responsável máximo. Logo que entramos, o Araújo levantou-se do monte de papéis que consultava, dirigiu-se a uma estante metálica cheia de listas telefónicas de onde extraiu, a uma porta vertical que ocupava toda a altura do armário, um par de garrafas, uma das quais de meio-litro e com o formato de um cantil. Eram ambas Ballantine’s e a grande acondicionava 75 cl de whisky envelhecido ao longo de dezassete anos!
“Esta fica para logo à noite, em minha casa, estão ambos convocados – é demasiado preciosa para ser deixada aqui!”, anunciou o Araújo enchendo três pequenos copos do precioso líquido cor de chá gelado. E tal se fôssemos os três mosqueteiros, cruzando floretes, entrechocámos os copos, emborcámo-los duma só vez e saímos de regresso às consultas temporariamente suspensas.
Depois do jantar, abdicando do habitual café no Açucareiro, pois era plausível que esse complemento nos aguardasse em casa dos Araújos, atravessámos o Rossio e penetrámos na parte distal da vila, onde o chefe da estação dos CTT habita com a família. Connosco arrastáramos a Libinha e uma das filhas dos Barcelos, que, lançando despedidas apressadas à Dona Nizalda e ao D. Francisco, abalaram na nossa companhia mal o genérico final do Dancing Days começou a deslizar no ecrã da TV.
Considerados hóspedes de cerimónia, éramos sempre recebidos na sala de estar, uma sala fresca com varandas que deitavam para a rua e enroupada com mobiliário de verga e bambu, após o dono da casa nos vir receber pessoalmente à porta, sistematicamente acompanhado dos enormes olhos da Leninha, a filha mais nova, que nos fitavam como se tivesse ali chegado a sétima maravilha do mundo e, apesar de sermos já figuras crónicas na ilha, para quem mantínhamos incólume o estatuto de new kid in town. Esta Leninha, que eu supunha chamar-se Helena mas sem a coragem de o confirmar por pergunta, pois naquela latitude era possível que o encantador diminutivo escondesse uma “Elisandra” ou uma “Heliodora”, esta Leninha teria os seus onze ou doze anos e usava um cabelo curto que lhe realçava o tamanho dos grandes olhos escuros e um nadinha salientes, herdados do pai. Estava naquela precisa idade ou, melhor, vivia aqueles breves dias em que as expressões, movimentos e gestos se sucediam intercalados, ora revelando a infância ora deixando vislumbrar a grácil senhorinha que espreitava nela por todas as frinchas da curiosidade e da sedução. Ainda não tinha formas, coitadinha, ou sequer volumes apenas perceptíveis de perfil, mas já se experimentavam nela as feminis graças, visíveis particularmente quando, muito compenetrada e feliz por a terem deixado sair, caminhava pela álea saibrada do Rossio entre as outras raparigas da terra.
Para grande divertimento do pai, que o via claramente, a Leninha deixava-me sempre sem jeito, pois a sua preferência por mim era evidente como um terçolho e, sabendo que o principal interlocutor entre os médicos e as restantes pessoas presentes na sala, seria o pai, sentava-se-lhe nos joelhos, de modo a poder observar em primeira demão o que lhe diríamos, e como se, estando ali, pudesse desviar parte do discurso para ela.
“Sai daí, franganota”, dizia o Araújo, “olha que já pesas e, mesmo que fosses uma pena, dás-me cabo das pernas com esses ossos todos. Vê se fazes alguma coisa útil: vai buscar-me aquela embalagem que trouxe hoje...”
E a Leninha saltava-lhe do colo como um gafanhoto e atravessava a sala como um coelho, lançando-me um olhar lateral à saída e novos olhares oblíquos quando, mal chegada, depositava nas mãos do pai o Ballentine’s que era mais velho do que ela.
Apercebendo-se de que aquele líquido era o centro da nossa presença e do  entusiasmo geral (até a mãe – embora não o bebesse – lhe soltava considerações falseteadas), a Leninha queria provar uma pinga, amuava um pouco por não lho permitirem e por lhe começarem a chamar a atenção para as horas, pois, em dias normais, já deveria estar a caminho da cama. Protestava, queria saber se hoje não iríamos sair, dar uma volta pelo centro, encetar um saco de pevides de abóbora no Açucareiro.
“Já viram esta?! Doutor”, requeria o Araújo para os meus lados, “tem de receitar um xarope qualquer a esta rapariga; fica a regular um pouco mal quando os senhores nos vêm visitar, e até confunde os dias da semana...”
Exposta com esta crueza, a Leninha indignava-se, olhava na minha direcção como se eu pudesse contribuir com algo que solucionasse a questão ou a redimisse. Mas eu, confesso, não sabia como situar-me, bloqueado entre o registo com que se espera que um adulto trate uma criança e o respeito pela fragilidade delicada das metamorfoses da rapariguinha. Os meus modos acabavam por se lhe render e, num comportamento pautado por uma timidez que não me era associada, encarava em total seriedade as suas manifestações e discurso. E é óbvio que ela, como um broto de planta que adivinha cegamente de que lado vem a luz, se apercebia desse meu cuidado, o qual acabava em redobramento do fervor com que me presenteava.
Como aquelas pessoas que estragam um ambiente, e nos fazem pensar duas vezes antes de nos dirigirmos aos desagradáveis locais onde é forçoso encontrá-las, aquela ponta de espargo produzia em mim um efeito semelhante, embora de uma polaridade oposta, doce e terna. Em extremidades opostas do espectro feminino, como guardiãs das portas daquele mundo que eu pretendia longínquo ao longo dos longos doze meses na ilha, a Leninha e a irmã Noémia eram as minhas assombrações, mas, enquanto o perigo representado pela freira, agora que o nosso entusiasmo com o coro da igreja Matriz esmorecera, se limitava aos escassos metros quadrados do perímetro de um círculo com epicentro na urgência, a sílfide dos CTT esvoaçava por toda a ilha e, mal nos via aparecer, apressava-se na nossa direcção e não mais nos largava, dando voltas sobre si mesma e sobre o contexto até conseguir colocar-se ao meu lado nos passeios, para cá e para lá, que dávamos em torno do Açucareiro, do Rossio e dos pauis. As outras, com quem costumávamos caminhar, pareciam não se dar conta destes malabarismos de posicionamento ou, se o davam, não lhe atribuíam importância ou talvez considerassem que eu, o visado, não lhe concederia valor de mercado ou, porventura, não desse até fé da existência de uma tal criançola, praticamente saída da mudança de dentes.



(1) Da canção “Over the Rainbow”, de Arlen-Harburg, um dos temas musicais do filme O Feiticeiro de Oz, realizado por Victor Fleming em 1940 e cuja protagonista principal é Judy Garland.