26 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 22. Deus abençoe o ausente

Agora que negativou, o Pombo parece outro. É certo que nunca foi propriamente o retrato do tuberculoso melancólico, abatido e reservado, mas mesmo a coberto da exuberância ruidosa, do não parar de se movimentar no espaço em que se encontra, como que distraidamente enjaulado, chocalhando as chaves no bolso e debitando palavras a ritmo acelerado na voz fanada pela inflamação crónica, mesmo a coberto desse temperamento, quem lhe estivesse atento aperceberia uma película fina de ansiedade, uma espécie de irritação por aquela desventura ter negócio com ele, com ele que abomina acertos a longo prazo. Hoje em dia, que já não escarra bacilos nas nossas floreiras, que já não lhe olhamos de lado o prato que jaz no lava-louça por lavar, uma novel segurança tomou conta dele e habita-nos a  casa – de onde nunca mais saiu, a não ser para umas surtidas a S. Miguel – com largo à vontade, como se fosse um de nós e pagasse renda. Apareceu até com uma namorada, uma Marília que logo percebi ser a amiga que fazia convidada para jantar no dia em que eu tencionava fazer frango assado caso tivesse conseguido depenar a galinha Mimi.
Pois esta Marília tem também o seu quê de ave depenada, foi assim que a vi aparecer e a esbocei, antes dessa imagem esmorecer no convívio que viríamos a entabular, uma vez que passou a morar na casa dos Magistrados, primeiro sob um, nunca declarado, concubinato com o Pombo e mais tarde, após o Pombo abalar para outras façanhas em Santa Cruz, sozinha, pois, entretanto, o Rui e eu, também não declaradamente, tínhamos adoptado a ave. Adianto-me, no entanto.
A Marília é uma professora primária friorenta dos arredores de Mirandela. É magra como um cão e, nesse particular, podia estar tão tísica como o namorado; tem malares salientes e bochechas convexas, dentes grandes de lebre e uns óculos de massa que lhe sobram na cara, como lhe parecem sobrar em permanência as saias na cintura ou as camisolas sobre os punhos estreitos. Para mulher, fala pouco – fala bastante menos do que o Pombo – embora esteja apta a debitar longas considerações quando, perguntada, fala das coisas e de si. Desde o dia em que nos apareceu até ao dia em que se instalou aqui, para tremenda agitação da sociedade local (uma mulher e três homens sob as mesmas telhas, nenhum deles casado com um dos outros), foi ganhando espaço na casa e em nós, quanto mais não fosse pela absoluta abstenção de peso que a caracteriza. Era fácil gostar-se dela, acontecia-nos assim a nós e a quem nos visitava, e só o Pombo se dedicava a tentar fricções com ela, o que, por uma ou outra rara vez, a faziam sair do seu estado habitual e, de uma maneira cansada e relutante, contrapor a sua têmpera transmontina aos latidos roucos do derreado macho alfa.
E a Marília foi ficando, sem ocupar gavetas nem provocar incidentes de tropeço em sapatos de salto alto, sem, sequer, ocupar o mais modesto cantinho do quarto de banho com cremes, escovas dos dentes ou hélices de cabelo no ralo da banheira. Essa, sim, era um suave fantasma melancólico, sempre grata por a deixarem estar e permitirem fazer parte de, não se lamuriando nem da vida nem da ilha nem do Pombo, a não ser quando captava que clamávamos por divertimento e a incitávamos a isso.
Havia três vias principais para se ir parar à Graciosa e a Marília, um tanto como nós, fazia parte do terceiro contingente. Em primeiro, havia os que eram de lá e lá voltavam após breves anos de rodopio por Angra, Ponta Delgada, ou até Lisboa ou Coimbra, e esses não contavam. Depois, havia que referir os que por lá penavam por castigo e esses militavam nas fileiras da polícia, das finanças ou de outros departamentos do Estado, uma espécie de última oportunidade antes de lhes ser mostrada a porta de saída do emprego que detinham no Continente. Era gente que se tinha portado mal ou exibido comportamento censurável e, então, num processo nunca formalizado como tal, eram despachados para os Açores, por uma temporada ou para exílio definitivo, agora que as tradicionais estâncias de degredo se tinham finado com a independência das colónias. A bem dizer, era um clássico com séculos de prática e assim se fizera história e se tinham povoado arquipélagos e linhas costeiras; continentes inteiros, se adicionarmos outros povos com o mesmo ímpeto colonizador.
A nossa nova amiga, como ficámos a perceber da narrativa esfarrapada, não fôra parar à Graciosa por nenhum desses motivos. Acontecera-lhe mais por distracção, por não estar a pensar nisso. Acabara o Magistério num ano em que as colocações se arrastavam, depois viu afixadas hipóteses no Alentejo e no interior das Beiras, mas, para granito, frio e marasmo, já lhe bastava Trás-os-Montes, de modo que ouviu Açores e achou que sempre poderia ser diferente, sabia-se lá, qualquer lado servia, no fundo. E viera aqui parar e por aqui andava há dois anos.
“Dois anos, Marília, foda-se! Como é que t’aguentas?!”
Ela encolhia os ombros – eu pensava num cabide e em pendurar o meu casaco de veludo, cor de mel – especificava:
“Dois, quase três...”
Voltava a encolher os ombros, repunha os óculos no cavalete do nariz, cruzava os tornozelos sob as saias pesadas enquanto reacomodava as espáduas contra o espaldar metálico dos pés da minha cama, que usávamos amiúde como sofá de conversa, pois as salas do andar de baixo eram tão frias de vida que nem as baratas se aventuravam a invadi-las. Aquele encolher de ombros abarcava o mudar dos quartos onde morava com uma frequência de meses; o sustentar-se à custa de refeições improvisadas; o estar-se nas tintas para as exigências a que deveria corresponder para ser aceite e manter o status-quo que lhe estava destinado. Não queria saber, mas não tirava força ou alento desse comportamento um nadinha à margem, não era isso que a movia, nada parecia movê-la, aliás; ia estando, sempre um pouco desconfortável, friorenta e apreciando muito os raios de sol dos momentos bons, como o terão sido, porventura, aqueles seus dias em nossa casa. Mesmo apesar das partidas que lhe pregávamos, como o de encostar o meu Aiwa à parede do quarto para onde ela se escapulira com o Pombo, com o som no máximo e a passar, non stop, a cavalgada ventosa do “One of These Days”(1).  
Quando chegou o dia e deixámos a ilha sem olhar para trás, ela por lá continuou, desconheço quanto tempo mais, não sei, inclusive, se num provisório que possa ter-se calcinado em eternidade; nunca mais voltei a ouvir dela, nem ninguém que me falasse sobre ela. Nenhum de nós ficou com o contacto uns dos outros, mas isso era frequente; o “que será feito de?” é dúvida não posta quando se tem vinte e cinco anos.

Nota: O título do texto é inspirado no da canção "God Bless the Absentee", de Paul Simon, 1980.

(1) Do álbum Meddle, Pink Floyd, 1971.