29 maio 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 23. A janela quebrada

Esplanada do Açucareiro, Graciosa: Oriolando ao centro,
com o braço descaído sobre o espaldar.
Findo o jantar, estávamos a realinhar o espaldar da cadeira com o tampo da mesa, o Oriolando surgiu à porta da sala de jantar e, naquela timidez irónica com que sempre se exprime, perguntou se lhe dávamos a honra de nos fazer companhia até ao Açucareiro. Aquilo era uma cena deveras inusitada, uma vez que o tipo veste sempre, se nós lá estamos, a pele do espectro na própria casa, sendo coisa rara cruzarmo-nos com ele por acaso, quanto mais vir procurar-nos. E o seu aparecimento no umbral foi tão concertado com o nosso momento de saída como se já aguardasse na sala ao lado, escutando e interpretando todos os ruídos, o que, se calhar, fora o que se passara.
Mas é assim que ele é, um homem misterioso, dado a pontuados irónicos no discurso, frases enigmáticas, silêncios eloquentes, meios-sorrisos; e fugidio como o urso de peluche que se tenta pinçar num aquário de acrílico de feira popular. Saímos juntos, ele posicionou-se entre nós no passeio e como tinha algo a dizer-nos e o trajecto até ao coreto era breve, deixou de pronto escorregar o que queria transmitir; mensageiro de si próprio, como acentuou logo de início. O que contou era espantoso nos detalhes, embora a mensagem fosse clara e simples: que tivéssemos cuidado com o Gui B. Louro, pois o tipo tinha-nos de ponta e nos últimos tempos andava a espiar por conta própria junto da nossa casa, tendo sido visto a espreitar, à noite, pela janela da sala de jantar, em cima de um banco de cozinha que transportava debaixo do braço! Ora acontece que o tal Gui B. Louro é o presidente da Câmara local e ficámos de tal modo surpreendidos que a nossa primeira inclinação foi associar a confidência a uma caldeirada política, dado que Gui é o chefe do PPD local e o Oriolando um incondicional do PS, partido que aqui, tal como no resto dos Açores, é encarado como a encarnação camuflada do comunismo internacional e se comporta como se estivesse na clandestinidade, dando substrato à teoria da sua perigosidade.
Entretanto chegáramos ao café, o que conveio de sobremaneira ao nosso mensageiro, que logo deslizou em direcção à mesa de homens que se compusera na esplanada, deixando-nos sem hipótese de lhe dirigir as questões que esclareceriam e aplacariam a nossa incredulidade. O presidente da câmara encavalitado num banco dentro do nosso quintal? A espreitar as nossas janelas? Mas porquê e para quê, santo Deus?! Engraçado como a notícia transformou, de imediato, a nossa perspectiva e, nessa noite, o tomar um café corriqueiro no Açucareiro encheu-se de olhares em volta, de ampliações de detalhes; de atenção paranoica aos possíveis meta-significados das palavras que nos eram dirigidas pelos presentes. Desta feita não parámos nos Barcelos para a telenovela e seguimos directamente para casa, juntando pontas, rebobinando pormenores até aí deixados no caixote do lixo dos acontecimentos fortuitos. Que factos poderíamos relacionar com o assunto? O tipo era um gajo execrável, mas isso há muitos, e o seu comportamento geral era o de quem pensa que tem infindo poder, ainda por cima legitimado pelo partido regente do arquipélago, território que, diga-se, é tudo lhe chega como universo e quanto ele consegue ver do mundo. Mas que teria ele contra nós, que mal lhe teríamos feito? Ah, e aí começou a ganhar contorno o que parecia nem contorno ter: nós não lhe ligávamos peva; não o cumprimentávamos com salamaleque especial, precedência ou reverência particular, e preferíamos gastar os minutos de conciliábulo social no café a trocar ditoches com o Araújo, galhardetes com o Oriolando ou o Gasparinho ou mesmo enfatuadas considerações sobre o clima com o Sr. Medina. E, depois, havia aqueles dois, não, três, episódios no hospital: uma vez o tipo mandara um amanuense da câmara ter connosco, portador de uma listagem de medicamentos sarrabiscada em papel de ofício autárquico – pretendia umas receitas à distância. Dissemos que não, claro, que teria de ser o próprio a interessar-se por isso. Da outra vez, vezes, foram familiares próximos que insinuavam prioridade no atendimento clínico e, exibindo galões, tinham empurrado um nervoso Nascimento a encomendar o frete. Dissemos que não, está claro, e a não ser que fosse caso insuspeitamente urgente, essas senhoras teriam de esperar a sua vez no banco do corredor, como os outros. Seria isso? Será que estas pingas de água se teriam acumulado no peito do senhor como uma honra ofendida, desfeiteada? E, só então, nos invadiu a certeza sobre a génese de um incidente a que, no momento da ocorrência, não conseguíramos garantir destinatário. Era à noite, já penetráramos sob as copas das árvores que guarnecem o Rossio, caminhávamos em direcção ao café, e ao passarmos pelo Sr. Gui B.L., que conversava com outro cavalheiro, ouvimos dizer:
“Andam para aí umas aves raras que é preciso abater...”
Na altura ficámos incomodados pelo dito, odia significar que ele andaria a tentar coleccionar o para o " homem era uma besta, um daqueles personagens irascles dois, nandé terrível ouvir coisa assim, pronunciada pelo responsável máximo da terra onde se é um convidado especial: éramos, os dois, os únicos médicos da ilha, não éramos turistas, não cometêramos   crime algum ou desleixado as nossas funções de estarmos abertos vinte e quatro horas por dia a quem nos quisesse procurar por razões de saúde ou de doença. Mas como o homem era um matarruano, um daqueles trogloditas irascíveis, de rancor fácil e partidário da independência e da supremacia do Açor, embrulhámos o assunto; a pouco e pouco fomos empurrando aquilo para o “se calhar não era a nós que se referia”, talvez estivesse até a passar um socialista no seu radar. Estava agora visto que a frase se nos dirigia, que essa espionagem sobre pernas de madeira – as nossas janelas não tinham cortinas e eram sobre o alto – só podia significar que andaria a tentar coleccionar violações aos costumes para nos incriminar, para enriquecer a nossa ficha negra, particularmente agora que tínhamos uma mulher a morar, ou a permanecer durante a noite, em casa.
Aquilo deixou-nos supinamente irritados e, antes de a domarmos e arrefecermos, dirigimos parte da irritação ao pobre Oriolando, não alcançando na nossa ingenuidade de forasteiros a coragem que a confissão revelava da parte de quem vivia ali todo o ano de todos os anos, e tinha, ele próprio, telhados de vidro, vidro de um fosco que, tornado transparente, traria dias amargos ao filho varão da nossa estalajadeira.

Nessa noite, ao contrário do habitual, ficámo-nos a espairecer e a beber cervejas pelas cadeiras incómodas da sala de jantar, e aí acabaram por se nos juntar o Pombo e a Marília, a quem divulgámos a novidade. Mais tarde na noite, pareceu-nos ouvir um ruído vindo do quintal e, oportuno como o raio, o Rui atirou uma garrafa de cerveja contra o vidro da janela, o qual se estilhaçou em estardalhaço pirotécnico. Corremos lá fora, mas não havia ninguém, apenas a noite escura e, clareando os degraus, onde outrora serrara o pescoço da Mimi, as pontas aceradas da estrela de luz amarela que se vertia pela vidraça partida. Estava certo de que, onde quer que morasse, o Sr. Medina se agitaria no sono pelo prejuízo daquele bem não inventariado.