04 junho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 24. Corrente de consciência

“Você tem aqui um abcesso e peras”, revelou o dentista após me ter feito dar mais do que um estremeção na cadeira para confirmar qual dos dois dentes suspeitos estava infectado. “Hoje não vou poder fazer nada nisto; vai ter de tomar um antibiótico e voltar cá, de hoje a oito, para arrancarmos isto como deve ser.”
“Hoje a oito?”, perguntei eu, que já só raciocinava em termos de disponibilidades e horários de helicópteros. “Será que não podia antecipar para segunda à tarde? É que, de outro modo, vou ter de ficar em Angra duas semanas por causa de um dente...”
O gajo ficou a olhar para mim e tive de lhe explicar um pouco o meu contexto na Graciosa: que só havia transporte uma vez por semana, que a viagem era às terças de manhã, geralmente antes das nove.
“Então”, disse ele passando as mãos brevemente por água e sentando-se a uma mesa atulhada de modelos de dentaduras, “venha por cá na segunda à tarde, por volta desta hora. Por essa altura isso já deve estar controlado e, mesmo que continue a tomar o antibiótico por mais um dia ou dois, além da extração, até nem é mau... Você deixou chegar isto a um ponto...”
“Sabe que só me começou a doer agora – há dois dias, mais precisamente – e como não vi nada inchado, nem cara nem gengiva, não fiquei a pensar que fosse infecção...”, justifiquei-me.
“O inchaço só aparece quando a infecção já se está espalhando, e aí começa a doer menos, a parte nervosa fica menos comprimida. Este dente nunca lhe doeu antes? É que tem aí uma cárie enorme...”
Ele estava a desvendar, certeiro, a minha epopeia de desgraças dentais; achei bem pôr de lado as manhas do doente e ser sincero. Além do mais, sentia-me grato que me tivesse recebido sem marcação, por me ter aliviado com um diagnóstico e uma proposta de solução.
“Sim, já doeu, mais do que uma vez. Mas fui engolindo uns Optalidon e acabou por passar.”
“Pois... A dor acaba por desaparecer, mas à custa da morte do nervo e, então, só resta arrancar – que é o caso. Vou receitar-lhe TAO, é o melhor para isto. Precisa que lhe passe algum analgésico? Acho que tenho para aí umas amostras de Saridon que lhe posso ceder...”
Declinei a oferta, agradeci muito e saí para a liberdade.
TAO! Os dentistas têm uma fé nele não inferior à crença das mães no Halibut como remédio-santo para os rabos assados dos bebés. TAO é a abreviatura comercial da Tri-Acetil-Olandeomicina, um mata-ratos aconselhado no tratamento de doenças como a sífilis, as infecções pulmonares graves por micoplasma, e nas febres provocadas pela picadela de carraças. Mas, baseados na historieta de que o antibiótico tem uma boa eliminação pela saliva e, desse modo, alagaria os dentes de produto, tudo quanto é dentista passou a receitá-lo como se fosse um extintor para infecções dentárias. Para lhe fazer a vontade e comprovar a longevidade da minha gratidão, entrei numa farmácia, comprei uma caixa e apressei-me, sentado numa esplanada, a tomar uma cápsula, a que juntei um dos comprimidinhos brancos de Sosegon da placa que trazia no bolso. O dente recomeçara a latejar e o facto do dentista ter andado a escarafunchar e a dar-lhe pancadinhas despertara a dor que rondava lá trás, no esquecimento temporário provocado pelo analgésico. Sabia que iria ficar nauseado como uma grávida no primeiro trimestre, mas era um modesto preço a pagar pela abençoada acalmia.
Uns vinte minutos mais tarde recostei-me na cadeira de ferro da esplanada como se esta tivesse ficado acolchoada. A dor fora-se, a tarde ia bonita e brilhante, estava longe de Santa Cruz e a minha sensação geral era a de que o mundo se recompusera e eu usufruía um longo feriado. Suspirei e pedi uma torrada com os cantos aparados, talvez ajudasse a dissipar o leve enjoo e as ondinhas de excitação que me pregueavam o estômago. O cabrão do empregado não entendeu aquele requinte dos ‘cantos aparados’ – cujo simples objectivo era evitar que as côdeas do pão me estremecessem a cremalheira – e, apesar de lhe ter explicado em que consistia a confecção, trouxe uma torrada completamente clássica e de bordos  intactos. Estava a descascá-la com o auxílio da colher do chá quando, perfeita como uma onda do Hokusai, se elevou perante mim a ideia. Deixei-a espraiar-se no palato, estendi uma mão por sobre o apoio lateral da cadeira e, disfarçadamente, contei os dias dobrando sucessivamente os dedos sobre a palma da mão. Logo a seguir, senti a urgência e chamei o empregado, fazendo sinal de que pretendia a conta; irritei-me com o tempo que demorou a trazer-ma. Na agência de viagens, como da outra vez em que lhes fora perguntar dos barcos para a Graciosa, não sabiam de nada ou melhor, não desconheciam que havia avião nessa noite, por volta das duas da manhã, mas não sabiam se haveria lugares e, em qualquer caso, nunca me poderiam vender bilhete.
“E então?”, perguntei com vontade de estrangular a pandorca sentada atrás da mesa.
“Então, o melhor é o senhor ir ao aeroporto e tratar disso lá, ao balcão. Pode ser que eles saibam e lhe vendam bilhete, se houver lugares...”
Tentei que fosse ela a tratar-me disso, uma vez que trabalhava no ramo e as Lages distavam vinte quilómetros dali. Que não, dizia a gaja muito pausada, que não valia a pena; era informação que só se sabia um nadinha antes do avião pousar para escala, vindo de Boston, e só nessa altura é que se podiam emitir passagens.
“E com que antecedência acha que devo estar lá?”
Ela encolheu os ombros, questionou para o lado, a um tipo que arquivava papéis, uma opinião. Esse também não sabia, ficou um bocado a olhar-me, como se do meu aspecto geral resultasse o teor da resposta, e acabou por concluir que quanto mais cedo melhor, era frequente haver lista de espera para esses lugares.
“O melhor é o senhor ir para lá quando puder...”, voltou ela.
Olhei o relógio, eram seis da tarde; resolvi experimentar a ironia suave.
“Acha que, ao menos, posso ir ali ao Hotel Angra buscar a mala e comer uma omeleta antes de abalar?”
“Ah, sem dúvida”, assegurou ela com conhecimento de causa, “o voo é só às duas e meia da manhã; falta muito tempo”.
Abalei para o hotel, tomado de urgência, tomado de uma grande esperança, e disposto a estraçalhar quem se me atravessasse nela.
Jantei com o Paulo às sete e meia, mal o restaurante abriu, expliquei-lhe a mudança de planos: em vez de ficar por ali a vegetar uma semana, tinha-me surgido, como um flash, a ideia de pedir boleia a um avião.
“Ponho-me em Lisboa em três horas, e sempre são cinco dias limpos que posso passar lá. Volto na segunda (há avião de manhã), à tarde vou à consulta e na terça arranco para a Graciosa como se nunca tivesse saído de lá...”
O Paulo, a que raramente as variações do mundo exterior sobressaltavam, sorvendo o consomé de cogumelos, olhava-me, espantado com o meu entusiasmo transbordante.
“Sim, vai, já que te apetece tanto... Mas, olha, é preferível não ter pores a falar muito disso quando os outros chegarem. Podes crer que o nosso amigo delegado de turma vai logo enfiar a novidade no cu dos chefes.”
“Tens razão”, reconheci, “depois ajudas-me a sair daqui sem dar nas vistas?”
E o Paulo ajudou quanto pôde. Alardeando enfado, informou os colegas, entretanto chegados à mesa, que iríamos tomar o café fora, e saímos do hotel desencontrados, transportando ele o meu saco de viagem sob a gabardine de detective, em que se enrolara para enfrentar a suave noite de fim de primavera.
“E se eu fosse contigo, levar-te ao aeroporto? Como assim, o táxi fica pago e, mais cedo ou mais tarde, tem de regressar ali à praça...”
“Anda, o prazer é todo meu. Podemos tomar por lá qualquer coisa.”
Como assim, o chauffeur do táxi teve de esperar mais de uma hora, enquanto, no bar do aeroporto, o Paulo esvaziava copinhos de brandy-mel e eu, evitando o que era doce, empurrava golinhos de whisky sobre a gengiva doente.
“Bem, parece que não me querem deixar em paz, e tenho de ir...”, suspirou ele ao ver, pela terceira vez, o assarapantado motorista aparecer à porta do bar.
Passava das dez e meia quando se foi, tinha diante de mim quatro horas de espera até ao embarque. Conseguira lugar, primeiro em fila de espera e depois chamaram-me para pagar, pois a minha reserva tornara-se efectiva. Gastei o dinheiro com dupla alegria, uma pela alegria da liberdade em me pôr a andar dali para fora e a outra por, finalmente, conseguir gastar algum dinheiro do muito que agora me aquecia os bolsos. O ordenado que ganhava nos Açores era – para os meus padrões – principesco; com as alcavalas da insularidade e outras porras relacionadas recebia quatro vezes mais do que o equivalente num posto no Continente. A isso, viria ainda juntar-se o dinheiro que o Porão da Nau e a sua Secretaria nos estavam a dever por estarmos de urgência dia-sim-dia-não, dado que a bitola prevista para um policlínico como eu era de apenas uma urgência de doze horas por semana e, para além da barbaridade de horas a mais, tudo teria de, segundo a lei, ser considerado trabalho extraordinário, com horas pagas a dobrar ou a triplicar, conforme fosse noite ou fim-de-semana. Sentia-me retinir como a caixa registadora do Dark Side of the Moon(1)! Mas – dá Deus nozes a quem vai ficar sem um dente – oportunidade para o gastar era coisa que não surgia nem na Graciosa nem na Terceira, onde tudo estava incluído no hotel. Como esbanjar algum dinheiro se na minha ilha não havia um restaurante onde ir jantar, um cinema onde pedir um bilhete, uma livraria, uma discoteca, fosse o que fosse? Até no Açucareiro, a resposta mais comum quanto tentava liquidar a despesa era um “já está pago”, seguida de um apontar de cabeça do empregado em direcção ao obsequiador e a nossa correspondente vénia de obsequiados. Só gastava em tabaco e mesmo esse era estupidamente barato. 

Com todos estes pensamentos me entretinha, esparramado, e depois encolhido e depois esquinado, na cadeira que escolhera para ninho a um canto do hangar. À uma e meia da manhã a dor recomeçou a fazer negaças na minha consciência, ameaçando tomar conta do palco. Premi com o polegar a pele do maxilar, mesmo por cima do queixal dorido, um gesto que se me tornara habitual nos últimos três dias, pois a pressão parecia, embora timidamente, tornar a dor menos acutilante durante breves instantes. No entanto, esquadrinhando-me ao espelho da casa de banho do aeroporto, achava notar uma certa assimetria na face, talvez a bochecha direita estivesse mais inchada do que a outra, o que, segundo o dentista, era sinal de progresso. Será que o TAO já alcançara a sua missão de abrir brechas na fortificação bacteriana? Não, era ainda demasiado cedo... De qualquer modo, eram horas de tomar a segunda cápsula; iria juntar-lhe outro Sosegon, para atravessar a estratosfera em sossego.
Tudo começara na quase madrugada de Sábado para Domingo. Dormia finalmente, além da dificuldade em adormecer que caracteriza os meus sonos por aqui, quando, de adentro do território dos sonhos, como que surgiu uma massa negra, um horizonte carregado, que avançou no escuro, ainda sem formato, e se pôs a empurrar até que acordei sem saber porquê. Depois, de entre tudo quanto no meu corpo podia sentir, começou a individualizar-se o maxilar inferior, no seu lado direito, e aí levei o polegar na escuridão. Momentos mais tarde já o queixo me doía como se tivesse sido perfurado e, quando me levantei para ir ao espelho do quarto de banho tentar espreitar o mal, uma saliva brotava sobre a língua como se fosse um choro horizontal. Era uma dor de dentes, horrível, de um dos dentes de baixo, a meio da mandíbula, mas de qual deles? O meu indicador e o polegar, como se fossem uma pinça, tacteavam todo o percurso gengival, mas nada encontrava por ali que indicasse um ponto nevrálgico, o que tornava tudo pior: o não saber de onde vem o mal parece interpor-se à possibilidade de o confinar e combater. Espiolhei a gaveta da mesinha de cabeceira: havia ali um pouco de tudo, desde Somnium, para dormir; Buscopan, para dores de barriga; Imodium, para uma potencial caganeira; Fenistil, para as comichões de uma alergia; Guronsan, para a ressaca; Bradoral, para dores de garganta e, ah, – era algo do género que procurava – Aspirina. Tomei uma, com um grande copo de água e grande esperança, mas, meia-hora passada, estava na mesma, aquela dor não era menina que se deixasse embalar com aspirina!, já o sabia de episódios anteriores, mas, nos últimos tempos, os meus dentes até andavam calmos, fizera uma revisão antes de vir para os Açores, pois calculava não ir ter um dentista por perto com a facilidade e a confiança com que os frequentava no Porto. E por lá, em casa dos meus pais, havia sempre Optalidon ou Saridon, embora as amostras de Saridon, prodigalizadas pela propaganda médica, evidenciassem uma acentuada tendência para migrar até à casa ao lado, onde morava a minha tia Teresa, que padecia de dores crónicas de ouvidos e era uma devota do Saridon, entidade com quem mantinha uma ligação não menos íntima do que a que celebrara com o meu tio. O Saridon, com o seu sugestivo e piedoso nome, acorria a tudo, só não servia para limpar pratas e, mesmo aí, será que alguém já se tinha lembrado de experimentar? Em minha casa era diferente, o santo mais popular, a nossa senhora das dores mais celebrada, era o Optalidon. E, para dores de dentes, restava ainda a velha infusão de cabeças de papoila, de que havia sempre uma lata com algumas no armário da despensa, vizinha das batatas e da gaveta do arroz. Uma espécie de chá que não se engolia, mas se deixava marinar na boca e depois se cuspia e que contribuía para o entorpecimento dos queixos. O segredo farmacopeico da mezinha, aprendi ao estudar essas coisas na universidade, residia nos vestígios de ópio que sobravam nessas secas carcaças daquele tipo de papoila, que não era a pequena papoila que se via a pontuar de vermelho os campos no mês de Maio, mas as grandes, as orientais, que se vendiam, a peso, na drogaria mais do que nas farmácias. Quanto ao Optalidon, um produto da farmacêutica suíça Sandoz, aprendi também nos livros de Farmacologia e Terapêutica, o seu segredo de bálsamo provinha, para além do analgésico e anti-inflamatório da praxe, do butalbital, um barbitúrico, ou seja, a mesmíssima substância que fazia a D. Hirondina dormir regalada ou gemer de ausência quando os comprimidos se acabavam! Por outro lado, o aparentemente inocente Saridon, levado, dentro da sua caixinha metálica achatada, até à palma da mão da minha tia pela reputada farmacêutica Roche, era ainda um produto mais requintado e continha um sedativo (com algum poder hipnótico), cafeína, e um composto intermédio formado durante o processo químico de síntese da heroína! Está claro que, hoje em dia, embora alguns destes medicamentos ainda existam com a antiga designação comercial – aproveitando o remanescente prestígio do nome e a sua popularidade –, todos os seus ingredientes tóxicos, perigosos ou viciantes foram retirados à composição que, monótona e uniformemente, se limita actualmente ao paracetamol e à cafeína, ou seja, tomá-los equivale a tomar um Ben-U-Ron com um café forte. Mas, há menos de quarenta anos atrás, a lógica destes medicamentos, de venda livre, era bastante menos apurada, pouco dirigida, e a sua génese um tanto baseada num pozinho disto, mais uma pitada daquilo; numa mistela que atingia globalmente quem os tomava, mais do que especificamente o órgão, o sistema ou o mal que o necessitava. É curioso como, já perto do final do século XX, esta terapêutica às apalpadelas parece directamente em continuidade com a prática embruxada das mezinhas complexas da Idade Média: uma pitada de asa de morcego desidratada, uma colher de chá de raiz de mandrágora, um dedal de gosma de sapo; envolver a mistura com uma onça de cinza de corno de caracol, apanhado em noite de lua-cheia.
Com tudo isto me entretinha eu, de olhos fechados, podendo bem passar por um viajante adormecido. Mas na minha mente, feericamente iluminada e activa como um parque de diversões, as associações processavam-se ininterruptamente, deambulando de stand em stand... No Domingo, quando a dor e a desilusão com a segunda aspirina tomada, me forçaram a levantar e a aparecer no hospital antes das oito, dei de caras com um desgrenhado e surpreso Viegas, que não esperava ver-me por ali, pois não havia nenhum doente na urgência, as enfermarias estavam em paz, e, julgava ele pelo que constava na escala, era o Rui que estava à chamada.
“Tudo isso é verdade, Viegas, hoje o doente sou eu: estou com uma dor de dentes filha da puta! Acordou-me, veja você a potência!”
Dos dentes nunca ele padecera, mas já ouvira dizer que, pior, só dores de ouvidos. Já tivera, isso sim, uma cólica renal e, isso, não desejava ao pior inimigo. A única coisa que o aliviara fora Sosegon, em perfusão lenta.
“Estive vinte e quatro horas a soro, naquele quarto ao lado da enfermaria dos homens.”
Interessei-me pelo assunto.
“E temos aí disso? Não em ampolas, mas comprimidos?”
Ele achava que sim. Fomos passar revista à farmácia geral, onde, na prateleira dos analgésicos e junto aos outros medicamentos com acção no sistema nervoso, muito arrumadinhos e ordenados segundo os tópicos do Simposium Terapêutico  pela madre superiora, encontrámos as embalagens de pentazocina (o nome químico do Sosegon) contíguas às ampolas da morfina, vizinhas do Largactil, do Triptizol, do Valium, do Rohipnol.
“Vou levar uma placa, Viegas; depois passo uma receita e devolvo.”
“Leve uma caixa”, sugeriu ele, generoso, “escusa de sair de casa outra vez, a meio da noite, a um Domingo...”, e por aí apercebi-me que arrancara o desgraçado a um bom sono.
O Sosegon era, na realidade, um espanto: actuava rápido e sem cerimónias, empurrando a dor para um canto escuro, onde ficou a rosnar, mas impotente, o que quase me permitiu esquecer o assunto. Deitei-me para tentar dormir o resto da manhã, mas não consegui dissipar uma euforia que me dispersava os pensamentos, e acabei por me levantar, fazer a cama e arrumar o quarto; fui inaugurar o Açucareiro, sozinho, por volta das onze da manhã. A meio da tarde a dor regressou, vingativa e agreste, e percebi que não passaria por si, iria ter de fazer alguma coisa por isso, como ir a um dentista, por exemplo. O próximo helicóptero era na terça e, até lá, teria de me aguentar com analgésicos, o que, para já, parecia estar a funcionar. Por me ter levantado tão cedo, e da combustão que a própria dor provoca em nós, senti-me arrasado logo após o jantar, nem café fui tomar com o Rui e a Marília. Deitei-me, mas, embora sonolento, o sono não ganhava espessura e não conseguia dormir, vagueando por um estado em que a fronteira entre o sono, o sonho e a vigília parecia meia incerta... Fechara a porta do quarto, mas a frincha de luz no fundo da porta parecia arrastar para dentro os ruídos da casa, amortecidos mas presentes, e ouvia as vozes das conversas como se as pessoas estivessem a falar mais baixo por minha causa; mas não entendia o que diziam. Aquilo era uma gargalhado do Rui, depois foi como se um prato fosse pousado numa mesa, e o Pombo casquinou alguma coisa que não percebi e me pareceu ficar sem resposta. Que estava eu ali a fazer, sem sono e muito quieto? E se me levantasse e fosse ter com eles? Aparecia, explicava que não conseguia dormir. Mas continuei deitado, dei as costas à frincha de luz sob a porta. E se lesse? O tempo pareceu passar, pois a frincha de luz desapareceu e deixaram de se ouvir vozes; apenas um som me chegava por vezes, isolado, e que parecia ser no andar inferior. Depois, dei comigo enredado em pensamentos e arremedos de problemas que pareciam entupir-me de especulações e logo a seguir, num patamar de frieza racional, tomei breve juízo de que tudo aquilo que pensava nem sequer existia como tal, como facto! Tinha estado entretido com o vento!
Na segunda telefonei para a capitania, a marcar vez no helicóptero. A autoridade marítima resmungou para dentro por lhe estar a roubar um lugar, mas não podia fazer nada quanto a motivos médicos. À noite fiz uma mala pouco consistente, não sabia bem o que lhe meter, que quantidade, como estaria o tempo; que livro levar. Comprara aquele saco na base das Lajes, uma tarde em que o Rui e eu, nos dias em que chegáramos à Terceira e antes de ir para a Graciosa, fôramos espreitar a maravilha das maravilhas. Afinal, A Base, a parte onde os americanos nos deixavam entrar, não passava de um barracão grande, com um balcão comprido onde se podiam pedir bebidas, pacotes de batatas fritas e tiras de milho frito e, ao lado, a famosa loja onde se exibia o whisky e outras mercadorias. Foi aí que comprei o saco de viagem, uma peça de lona brilhante e encerada, cor de mostarda, indestrutível, com um fecho-éclair que lhe cria uma bocarra onde cabe tudo o que quisermos, a trouxe-mouxe, sem divisões internas. Com o saco vem um saquinho, pequeno mas do mesmo material, ideal para arrumar as coisas de quarto de banho. Agora atiro-lhe para dentro a jaqueta com carapuço que o Paulo me emprestou da outra vez e – que engraçado – comprámos uma tarde no armazém americano da Trofa, onde se vendem restos que os americanos bem intencionados juntaram para oferecer aos pobrezinhos dos portugueses, como ajuda por se terem liberto de vez de quarenta anos de ditadura e escuridão. Comprei lá maravilhosos bens em segunda mão, a preço de amigo; corríamos para a Trofa mal nos sopravam: “chegou um carregamento ao armazém americano”. Que livro? Influenciado pelo tamanho e leveza, decido-me por uma versão de bolso do Monte dos Vendavais, que comprei em Janeiro, justamente antes de vir para os Açores.

Entretido a navegar em tudo isto, apercebo movimento nas cadeiras em frente e ao lado da minha. As pessoas estão a levantar-se, o altifalante anuncia que chegou e partirá já de seguida o voo proveniente de Boston e com destino a Lisboa. Esfrego os olhos, recolho o saco de viagem cor de mostarda que jaz entre as minhas pernas dormentes. A mulher, que estava na cadeira em frente e se dirige para a fila que entretanto se formou, sorri-me e diz:
“Ainda conseguiu dormir qualquer coisinha, não é verdade?”
Digo que sim, que “passei pelas brasas”. Se ela fica feliz por eu me dar por faquir...    

(1) Álbum dos Pink Floyd (canção “Money”), 1973.