07 junho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 25. Nas nuvens

Sob a camada lisa de nuvens que atapeta o céu até ao horizonte ainda deve ser noite, mas aqui esboça-se uma claridade cinzenta e lá longe, no máximo onde a vista alcança, surgiu uma linha vermelha de contorno esborratado que, se a terra fosse plana como antigamente, parece querer trepar do vazio. Persistente, aumenta a espessura e o esplendor e vai nutrindo o espaço em volta com amarelos, dourados e, agora, uma indicação de azul. O avião, muito ajuizado, mantém uma distância uniforme em relação ao leito de nuvens a seus pés e finge não se aperceber do que se passa lá longe, como se isso não lhe interessasse, ao contrário dos meus olhos, que se humedecem.
No assento da coxia, a senhora que me deixou sentar à janela, dorme. É a mesma que, nas cadeiras duras das Lajes, me perguntava se eu tinha conseguido dormir e que, já dentro do avião, fez grande festa ao descobrir que íamos viajar lado a lado, oferecendo-me aquele que era, por direito de bilhete, o seu lugar, pois, dizia ela para me convencer, até preferia a coxia, uma vez que podia levantar-se e ir aos lavabos sem ter de incomodar.
À saída do aeroporto apanhei um táxi para Cascais e um condutor que me ia mirando pelo espelho, talvez desconfiado com um cliente tão novo a encomendar-lhe um frete tão caro. Peço-lhe para descer a Avenida e fazermos o trajecto pela marginal a partir do Cais do Sodré. Fica ainda mais desconfiado pela escolha do percurso mais longo, rosna um “o senhor é que sabe”. Está uma manhã serena e, pelo caminho, tudo se desenrola em azul: o céu, o rio, depois o mar que o continua. Em Cascais, mandei parar no largo da estação, não sei o nome da rua onde fica a Albergaria Valbom. Óbvio, concluo ao iniciar a descida do passeio e ao passar pela placa, é na Avenida Valbom, uma rua com um só sentido para automóveis e curta em demasia para merecer chamar-se avenida. A albergaria fica a meio, à esquerda quem desce, próxima dos escaparates de rua da livraria Galileu. Mantenho-me ainda na minha redoma de encanto e silêncio, não me apetece deixar que a conversa do recepcionista lhe abra rachas: o tipo lamenta, mas só me pode atribuir um quarto a partir das treze horas. São 9 e 35.
“Mas o senhor tem quartos livres?”, ouço a minha voz  produzir-se com algum esforço. Ele, com certeza que tem quartos livres, “mas a diária inicia-se a partir...”
“Então, vamos fazer o seguinte: considere que cheguei ainda ontem, e inclui essa noite na minha conta. Quer que lhe pague adiantado?”
Ele percebeu de imediato onde eu queria chegar, fez um telefonema interno em voz amortecida e vinte minutos depois estavam a – toc, toc – entregar-me uma bandeja com o pequeno-almoço no quarto. Tomo o meu TAO, o dente não me dói e passo por cima a toma do Sosegon, preciso de dormir e já sei que com aquilo fico a levitar entre cá e lá, não é um verdadeiro descanso. O espelho do quarto de banho cobre quase metade da parede por cima do lavatório e é poderosamente iluminado por uma lâmpada comprida de néon, enfiada numa caixa rectangular de plástico, com picos prismáticos a imitar vidro translúcido. Sim, agora já se nota nitidamente o inchaço, não toma a bochecha mas há ali um papinho ao nível da mandíbula. A janela do quarto é de sacada, dá para uma modesta varanda que tem por vista desordenada as traseiras de outros prédios, uma nesga alaranjada de buganvília. Gosto assim, prefiro ver roupa a secar e uma mulher a fumar um cigarro debruçada sobre um saguão do que uma vista de mar. Esvazio o saco e arrumo tudo nas gavetas e prateleiras; estou a fazer horas para ligar à João, não queria fazê-lo antes das onze, pode estar ainda a dormir ou entretida com actividades da manhã. Daqui a casa dela devem ser uns dois quilómetros, só lá estive uma única vez mas é um pouco fora, sobe-se uma avenida a partir do centro da vila até que aparecem ruas sossegadas com moradias entre pinheiros mansos. Ela sabe que eu vinha, se conseguisse; liguei-lhe do Hotel Angra mal tive a ideia. Só não tinha mesmo a certeza se eu arranjara passagem, ou não, pois já era demasiado tarde quando mo confirmaram e o pai dela (padrasto) é um chato; se há episódio que o vire do avesso são telefonemas fora de horas, já tive uma cena dessas com ele.  
Vista das traseiras da Albergaria Valbom, Cascais (2017).
Quando liguei foi ela que atendeu e, mesmo antes de começar a falar comigo como deve ser, ouvi-a gritar:
“Mãe, podes desligar, é para mim...”
Digo-lhe que já cheguei, que estou em Cascais. Pergunta onde, por entre o espanto e o riso da surpresa.
“Na Albergaria Valbom...”
“Sim, claro, que estupidez! E, agora, que vai fazer? Dormir, calculo, deve estar estourado...”
A meio da tarde, umas convenientes seis horas mais tarde, ligam da recepção; anunciam que está lá em baixo uma senhora a perguntar por mim.
“Sim, obrigado. Pode mandar subir, por favor”; respondo na entoação do hóspede familiarizado com as regras da casa.
É que eu já tinha estado ali.


© Foto de cima: céus sobre o arquipélago de Cabo Verde, 2015, pedro serrano.