11 junho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 26. Adivinha onde vais jantar

Em Portugal, no dealbar dos anos 70, não se passava nada; tudo isto era um atraso de vida. Por exemplo (ilustro musicalmente, pois, de todas as musas, foi a que mais me influenciou e acabou por condicionar existência): entre 1970 e 1972, na segunda cidade do país, houve um concerto do Modern Jazz Quartet no cinema Trindade, e um concerto dos If no Coliseu – uma banda rock, britânica, de segunda linha, que lotou a sala. Para além disso, no Porto, perpetravam-se no Rivoli uns serões musicais periódicos onde, por sobre as emanações de cânfora dos casacos de peles de velhas senhoras, desafinavam, afinados na plangência, os violinos de uma orquestra clássica.
Então, eis que, já perto do final de 1971, se ouve falar de um festival de jazz lá para o sul. Jazz? Festival?! Muita gente junta no mesmo lugar, sem ser em Fátima ou num estádio de futebol?! Seria possível?
“Onde, quando? Em Lisboa?”
Não, era em Cascais, o que para nós ia dar ao mesmo; e teria lugar já na semana seguinte. E os bilhetes, Santo Deus, como se arranjavam? Estariam à venda no Porto, em algum lado? Ninguém sabia, achava-se que não; o melhor seria ir perguntar numa discoteca, alguém teve a ideia de se passar pelas lojas de instrumentos musicais, podia ser que...
Por esses dias tinha eu uns recentes dezanove anos e sair de casa por três dias (a duração do festival estendia-se por duas noites) era manobra que implicava satisfações e negociações e nisso – mais o tempo a correr, mais os bilhetes que ninguém conseguia e a própria incerteza sobre os dias do evento – nisto, o festival passou e perdemos o Miles Davis, o Thelonious Monk, o Ornette Coleman, o Dizzy Gilespie, o Art Blakey e o Sony Stitt. Uma catástrofe que, uma vez que as parcas notícias saídas nos jornais a seguir ao festival anunciavam uma segunda edição, tentei remediar logo, cedo, no ano seguinte. Ok, a coisa tenderia a repetir-se no mês de Novembro, mas em que dias? E os bilhetes? Vender-se-iam, desta vez, também no Porto? Até tarde, pelo Outono dentro, nada se soube, mas, ah, nós imploráramos atalaia aos nossos conhecimentos na capital e, a custo, conseguimos os preciosos bilhetes para as noites de 11 e 12 de Novembro.
No dia 11, de manhã, com o automóvel atestado de gasolina, cobertores,  almofadas e toalhas de praia – eu, o meu primo Manel e o nosso amigo Juca – rumámos a sul como se fossemos para outro país. A viagem para Lisboa demorava umas seis horas e Cascais nem sabíamos onde era, devia haver placas a indicar em Lisboa. Quanto a dormida, iríamos fazê-lo no carro, pois o meu maravilhoso Fiat 128 vinha artilhado de fábrica com uma funcionalidade espectacular: os assentos da frente rebatiam sobre o banco de trás, metamorfoseando um autêntico sofá-cama. Para três pessoas, era um bocado apertado e o gajo que se deitasse no meio iria ter de lidar com o espaço vazio onde, inamovíveis, se eriçavam a manete de velocidades e o travão de mão. Mas isso eram detalhes de que só daríamos conta  quando a noite nos reconduzisse ao dormitório.
Perímetro interior do Mercado de Cascais.
Chegámos a Cascais umas sete horas mais tarde, a tarde sombreava-se, embora a temperatura do ar fosse espantosamente amena quando comparada com a do Porto chuviscoso ainda dessa mesma manhã. Depois de umas voltas exploratórias, acabámos por deixar o carro estacionado no interior do perímetro do mercado municipal, local protegido ao trânsito das ruas exteriores por um muro e envolventes árvores de grande porte, proporcionando ao estacionamento uma intimidade não inferior à de um quarto de hotel. Entardecia, o céu dissolvia-se em tons rosados, mas era ainda um tanto cedo para jantar – o concerto era só às nove e meia. Deambulámos pela vila como que embriagados, aquilo não se assemelhava com o Portugal que a gente conhecia: era tudo muito ordenado, arrumado e limpo; as lojas pareciam mais modernas do que as de Cedofeita ou Santa Catarina, as pessoas tinham um ar bem tratado e demoravam-se por cafés e esplanadas como se todos estivessem de férias; as tabacarias penduravam no exterior mostradores com  jornais estrangeiros e expositores giratórios com postais; os  restaurantes ostentavam nomes inspirados e as fachadas pareciam preparadas para cenário de um filme. Fascinados, em silêncio, muito juntos, um tanto ou quanto inibidos, andámos para trás e para a frente sobre aqueles passeios ordeiros, aquelas calçada lisa a preto e branco, com efeitos; apercebendo-nos de que a localidade não era muito grande, já tínhamos passado por aquela farmácia do lado de lá da rua, onde se começava uma rua que ia desembocar num terminal de comboios. Por aí, perto da estação, descobrimos uma tasquinha de bom aspecto, com pratos apetitosos anunciados a giz num quadro, e preços compatíveis. Ao café, perguntámos como ir dar ao Pavilhão de Desportos; era fácil, disse-nos o homem por trás do balcão: descíamos a rua, iríamos dar à baía e depois era só cortar à direita, a direito, para dentro, voltar a subir até chegar a um jardim e, dali, já veríamos o pavilhão.
“É longe?”, queria eu saber com o coração a palpitar e zonzo de tantas indicações.
Pavilhão de Desportos do Dramático de Cascais.
“Não!”, disse o homem, “põe-se lá em dez minutos; vá lá, um quarto de hora”.
Demorámos mais, mas talvez a culpa fosse nossa, fomos abrandando o ritmo da passada à medida que sentíamos estar mais próximos, contidos por um certo receio de chegar e a certeza que íamos no caminho certo, pois começávamos a integrar-nos agora numa corrente de gente que parecia mover-se por um qualquer tropismo, que ia engrossando à medida que outras pessoas surgiam de ruas e ruelas que confluíam no nosso trajecto.
“Achas que o Brubeck vai tocar o ‘Take Five’?”, perguntava o Manel a meu lado.
“Sei lá, não faço a mínima...”
“Era fixe...”, insistia ele.
Chegávamos. Era noite cerrada, azul-negro, e umas barreiras de metal protegiam a zona da entrada da turba que se pressionava. Lá dentro, era um banal recinto desportivo fechado, com um ringue ao meio, bancadas de cimento de um lado e outro e janelas envidraçadas lá no alto. O palco era um estrado nu encostado a uma das bancadas, pelo que haveria gente que iria assistir às costas do que se passasse em cena! Essa bancada estava ainda assustadoramente despovoada e a outra, em frente, perigosamente já cheia.
“Ainda há lugares lá em cima...”, apontou o Juca, começando a trepar pelo espaço livre à frente dos joelhos de quem já se instalara nos degraus de cimento duro.
Cascais, 1972. Da esquerda para direita: Gerry Mulligan (saxofone barítono),
Dave Brubeck (piano), Paul Desmond (saxofone alto).
O Fiat esperava por nós, fiel e já com uma película de orvalho a abrilhantar a chapa azul. Por cortinas, entalámos as toalhas de praia no rebordo superior do vidro das janelas; rebatemos os bancos e ajudámos o Manel – a quem, por ser o mais novo e o mais curto, tinha cabido ficar no meio – a encher os espaços vazios com almofadas, para que não corresse a emoção de se lhe espetar o travão de mão pelo cu acima. Passando o gargalo de um cantil de bagaço entre nós, comentámos a noite, rimo-nos até às tantas e adormecemos felizes por no dia seguinte haver mais.
De 1972 a 1978 falhei apenas o Festival de Jazz de Cascais de 1976, pois nesses dias de Novembro deambulava por Katmandou, no Nepal, aguardando que o tipo que fizera a viagem comigo acabasse os tratamentos da febre tifoide e tivesse alta do hospital. Cascais tornara-se um clássico nas nossas vidas. Entretanto houvera uma revolução no país; acabara o curso de Medicina, e as estadias em Cascais tinham-se sofisticado: enrolávamos charros antes e durante os concertos, e já não dormíamos no Fiat. Numa dessas idas a jantar à tasquinha perto da estação, onde se continuava a comer bem e o pessoal se lembrava de nós de uns anos para os outros, déramos de caras com uma Residencial – eles, à moda antiga, chamavam-lhe albergaria – onde, às vezes, dormíamos quatro ou cinco num quarto para dois; um ano cheguei a experimentar dormir dentro da banheira, uma péssima ideia. O grupo de pessoas que migrava do Porto alargara-se e diversificara-se à medida das novas amizades, das novas namoradas e, em 1978, ano da 8.ª edição do Festival, a comitiva que saiu da cidade, numa caravana de três automóveis, incluía uma dúzia de peregrinos, quatro dos quais eram raparigas e, enquanto nós ficaríamos, como de habitual, na Albergaria Valbom, elas beneficiariam de alojamento em casa de uma amiga das mães, ao que parecia natural do Porto, mas a viver em Cascais há muitos anos.
Assim, mal pousámos os carros, uma delas entrou numa cabina telefónica para  anunciar a chegada e combinar a estadia em casa da tal senhora. O resto de nós manteve-se nas imediações, a desentorpecer as pernas das horas enfiados nos automóveis. A páginas tantas, a porta da cabine abriu-se e a Gabriela (que andava entremeada com o meu primo Manel), ainda de telefone na mão, chamou-nos e quis saber a opinião dos rapazes:
“A Zé manda perguntar se vocês querem ir jantar lá casa...”
“Quem é a Zé? Ir jantar quem?”, tentou precisar um de nós.
“É a dona da casa. Todos...”, disse a Gabi com um sorriso.
Ali, no meio da rua e da tarde que já se afundara, senti-me estupefacto: eram quase sete da tarde, éramos uma dúzia deles; como podia alguém convidar assim, de repente, para um jantar, uma multidão destas?!
Alguém ainda levantou a questão de se teríamos tempo de ir jantar não sei onde e estar a horas no pavilhão. A Gabi, que ia trocando informações com o bocal do telefone, garantia que sim, que o recinto era perto da tal casa; que assim as malas delas já lá poderiam ficar, só vantagens.
Fui arrastado para o sim mais ou menos geral, mas, um resto de mim, agarrava-se à ideia de ser muito mais simples jantar por ali, ao meu ritmo, e não estar a comparecer a um jantar estranho, a fazer cerimónia, a procurar frases polidas; a ter de investir esforços por uma transitória hora de convívio com desconhecidos. Era o género de empreendimento que me dava um certo galo, mas todas elas – os únicos de nós que conheciam quem nos convidara – garantiam que íamos gostar, que era uma gente muito simpática e hospitaleira e, ainda por cima, comentou uma delas, “o António não estava lá”; fosse quem fosse o tal António.
“Tá combinado”, anunciou a Gabi descendo da cabina telefónica, “a Nita vai ter connosco à porta da Albergaria daqui a vinte minutos; assim ainda há tempo de irem lá pousar as vossas tralhas...”
Quando desci do quarto, a tal Nita já chegara e conversava no círculozinho frenético formado pelas raparigas na soleira da porta da albergaria. Era uma morena bonita, tostada por praia recente, num conjunto de olhos escuros e cabelo negro e liso que lhe davam um certo sabor indiano; e a sua missão imediata era meter-se num dos carros e servir-nos de guia até casa da mãe. No final do jantar, apanharia boleia connosco e guiar-nos-ia até ao Dramático – como ela dizia – onde tinha um part-time a  dar uma mão no bar durante os concertos.

“Acabo por assistir a tudo, de graça!”, confidenciava, radiante com a pechincha.