14 junho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 27. Cesário Verde, 117

O jantar foi chucrute ou, descodificando, salsicha fresca estufada com couve branca, receita de confecção rápida e apta a satisfazer a fome fácil dos convivas que enxameavam em torno da mesa, procurando atestar o prato antes de se dispersarem pela grande sala, prato nos joelhos, por cadeiras e pontas de sofá.
Para além da Nita e da dona da casa, pessoa muito amistosa e parecendo feliz por nos ter ali, havia também uma velha senhora de cabelo branco e pose reservada que não participava na refeição, como se já tivesse comido ou esperasse para o fazer quando a chusma desaparecesse, e um rapaz alto, sério e com um traçado de testa e queixo que lembrava o Marlon Brando, mas que, apesar disso, partilhava linhas de parecença com a irmã. Pela conversa e pelas observações polidas da  Raquel e Gabi, fui concluindo que o tal António era o dono da casa e se encontrava, de momento, na Suíça, onde ia amiúde por razões de trabalho. Mas o assunto logo se desviou para como tinham, no Porto, ficado os pais das irmãs Pais (Raquel e Cristina) e a Tita, mãe da Gabriela. Entretanto, alheio àqueles jogos florais, eu fôra espreitar a longa varanda de tijoleira que se estendia ao longo da fachada traseira da casa e para onde abriam as janelas de sacada das salas de jantar e de estar, unificando também exteriormente aquele espaço comum. Estava uma noite morna, o Gonçalo fumava um cigarro debruçado na balaustrada que deitava sobre o quintal e, sentado numa cadeira de plástico, o Heitor comia as suas couves com ruminante aplicação. Voltei para dentro pela porta de sacada que dava directamente para a metade que funcionava como sala de estar e sentei-me ali, num sofá, a folhear uma Casa & Decoração pousada sobre uma pequena arca de madeira que servia como mesa de apoio. Devíamos começar a pensar em nos pôr a andar, afligia-me, olhando o relógio e constatando que já eram oito e meia; de outro modo íamos arranjar uns lugares de merda. Bem que podia ter ficado a comer na vila, na tasquinha da estação... Por um ruído, a atenção desviou-se da revista: uma porta abrira-se à direita e entrou na sala uma rapariga que olhou em volta, desconfiada, como se ver aquele maralhal não fosse o que mais lhe apetecesse. As suas linhas de feição permitiam perceber que era aparentada com os outros dois filhos da casa, embora fosse menos tisnada do que a Nita, os olhos fossem mais claros e os cabelos castanhos se ondulassem discretamente para dentro na base do pescoço e se empertigassem em onda sobre uma metade da testa.
“João, anda jantar, filha. Tens aí pratos no rechaud...”
Ela rosnou qualquer coisa e, à medida que ia saudando de beijinho, foi-nos sendo apresentada por palavras maternas, que a iam louvavelmente desculpando pelo atraso, mas estava a estagiar no IPO como parte do seu curso de enfermagem. A visada ia-se servindo, calada, sem dar, sequer, troco aos incentivos carinhosos da avó, que vigiava a quantidade de comida que ela pusera no prato e só agora parecia aliviada do receio de que toda aquela matilha esgotasse as couves antes da neta chegar!
A mãe ia pondo a recém-chegada a par das mais recentes novidades, pois, ao fim de uma breve hora, encontrara já teias de parentesco ou proximidade na maior parte de nós, inclusive a feliz descoberta de ter sido companheira de carteira da minha tia Teresa no Colégio Luso-Francês, no Porto.
Sentando-se ao lado da avó, a aparecida nada reagiu às felizes coincidências, mantendo a expressão fechada e parecendo entre o preocupada e o ansioso por se pôr a andar, em flagrante contraste com a hospitalidade explícita e sorridente do resto da família. Confesso que, ao fundo, sentado no meu sofá, achei graça àquela antipatia pouco convincente, à falta de à vontade que quase a tornava uma estranha na própria casa, e, à saída, despedi-me dela com especial sublinhado, calculando que isso a irritaria e que não iria ter a responsabilidade de a voltar a ver tão cedo.
Enganei-me, pois num dos intervalos dessa noite no Festival de Jazz, ao ir com o Gonçalo ao recesso por baixo de uma das bancadas onde funcionava o bar, demos com as duas irmãs atrás do balcão, afanadas e sorridentes a aviar cervejas e sanduiches embrulhadas em película plástica transparente.   
Regressámos ao Porto, acabrunhados na viagem por aquele silêncio que sempre sobrenada a espuma dos dias cheios, e na semana seguinte perguntei, distante quanto soube, à Cristina Pais se, por um acaso, não teria, que me pudesse dar, a morada daquela senhora encantadora que nos recebera em Cascais. Ela demorou um pouquinho, tinha ido procurar, à gaveta da mesinha do telefone, o livro de endereços da mãe.
“Tens aí onde se escreva? Aponta: rua Cesário Verde, 117...”
E para Cascais enderecei um agradecimento que invocava Pessoa – discípulo confesso de Cesário Verde – e o modo gentil e generoso como a dona da casa abrira a porta a totais desconhecidos.
Nem um mês passara sobre o agradecimento e eis-me, de novo, a pedir ajuda à mais velha das irmãs Pais.
“Cristina, por acaso não tens aí o telefone da João no Porto? Queria telefonar-lhe, a convidá-la para jantar um dia destes...”
Ela tinha e deu-mo, simpática mas relutante nas bordas. Anos volvidos, soube que, no mesmo dia, telefonara à visada a dar conta do que fizera e avisando-a para ter cuidado, pois que eu não era assim tão recomendável ou flor que se cheirasse. Pobre e bem intencionada Cristina, que ficou com esse embaraço atravessado, sobretudo quando dali resultou, em pouco mais de um ano, um casamento. Se nos conhecesse bem a ambos, melhor do que nós nos conhecíamos a nós próprios – ou se já tivesse a experiência de filhos adolescentes – teria sabido que é justamente isso – contrariar o contacto – o que não deve ser feito quando se quer evitar que dois jovens seres se aproximem.
A João e uma amiga chamada Rita – uma loura de voz rouca que desencadeou estragos na turba masculina que eu frequentava na época – visitavam a cidade por umas curtas duas semanas, para um estágio geminado no IPO do Porto. Estavam luxuosamente acampadas num apartamento que o padrasto da João possuía na Foz, outrora alugado, mas, nesses dias do final de 1978, desocupado e onde os aquecedores a óleo, há tanto tempo por usar, libertavam para o ar um atraente perfume a pó evaporado. Fiz o tal telefonema e, para desespero da minha mãe que nunca sabia por onde eu podia andar ou se viria dormir a casa, mudei-me praticamente para a Foz.
Foi também por essa época que se iniciaram as celebrações da minha despedida, pois ia servir um ano nos Açores, na Graciosa, uma ilha que, a não ser algum tio-avô fanático da geografia, ninguém sabia que existia, quanto mais onde se situava. E a lista de convidados para esses jantares viu-se inesperadamente engrossada por uma nova presença, uma novidade com cadeira perto do homenageado, o qual, em pé e em pleno brinde, era visitado pelo pensamento sombrio de não ser a melhor hora para se pôr a andar dali para fora, uns dois mil quilómetros a oeste. Era quase um absurdo, mas a que não havia volta a dar e o melhor era vivê-lo sem gemer, como advogavam, entre outros, o Píndaro e o Camus.    



© Fotografia ao lado: pedro serrano, Cascais, Rua Cesário Verde 117, Dezembro 2012.