12 julho 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 28. Em Sintra, com Eça

A João tinha uma Vespa vermelha, foi nela que nos transportámos, por Cascais e arredores, durante essa semana. Era sempre ela quem guiava, eu não queria nem ouvir falar em experimentar e gostava daquela posição na ponta traseira do assento, de olhar a partir dali o que ia surgindo ou aquilo por onde íamos passando ou deixando para trás; de sentir a carícia involuntária das mechas do cabelo dela que me cocegavam a face quando, para ouvir algum comentário, me inclinava para a frente, as mãos enlaçando-lhe a cintura.
Ela não estava de férias ou convalescente de um abcesso dentário, pelo que eu passava razoáveis pedaços do dia sozinho esperando que terminasse o trabalho e voltasse de Lisboa ou que arranjasse um novo álibi para se baldar de casa. Mas também dessa espera gostava, do pequeno-almoço nalgum café da baixa de Cascais, do deambular por entre os escaparates no passeio da livraria Galileu, a única livraria onde alguma vez vira cerâmica à venda, belos azulejos decorados com rãs tridimensionais, e terrinas em forma de peixe do Bordalo Pinheiro – se não tivesse os Açores pelo meio teria comprado algumas peças. No impasse, acabei por adquirir na livraria uma edição do Eça de Queiroz Entre os Seus, um livro de correspondência entre o escritor e a, primeiro noiva, e, mais tarde,  mulher, o todo comentado por uma filha, coisa que se dispensaria pois pouco mais fazia que acrescentar qualificações superlativas ao que interessava. Aquela compra reavivou-me a vontade de ir a Sintra, além do mais agora que estava a uma modesta vintena de quilómetros... Como todos, eu dera Eça no liceu, éramos obrigado a ler pedaços da A Cidade e as Serras, detestava aquilo e as minhas memórias do escritor faziam parte de um aglomerado baço onde se entrelaçavam com o Camões, o Frei Luís de Sousa e o Alexandre Herculano, entre outros igualmente chatos. Mas o tempo rodou e por uma tarde do ano de 1978 bati à porta do Carlos Araújo, cuja casa frequentava com regularidade, para ser informado de que não estava, mas iria chegar. Fiz menção de ir embora, voltar mais tarde, mas a Mira, mulher dele, convenceu-me a entrar. Ela própria estava cheia de pressa, ia sair, mas eu podia esperar na sala de trás, o Carlos chegaria a qualquer instante. Entrei e fiquei por um sofá dessa sala, impregnando-me, à medida que os minutos passavam, do silêncio e do tédio que reinavam na casa vazia. Já se passara uma meia-hora quando comecei a olhar em volta em desespero, à procura de algo que me entretivesse. Não havia nada naquela divisão, nem jornais, nem revistas ou álbuns de fotografias, nem sequer uma aparelhagem de música, e não me sentia à vontade para ir coscuvilhar em outras. Foi a necessidade que, num porta-revistas contíguo ao braço do sofá, me levou a mergulhar num monte de novelos de lã, agulhas e um pedaço de camisola nos seus primórdios e, sob essa bagunça, descobrir a lombada grossa de um livro.
Hotel Nunes, Sintra (actualmente demolido).
“Os Maias – Cenas da Vida Romântica”, li na capa. Já era castigo!
Quando, uma hora depois, o Carlos chegou, foi quase com irritação que o saudei e lhe suportei os comentários entusiasmados à minha presença, um dedo a servir-me de marcador ao naco razoável de páginas lidas. Já saltara para o interior da trama do romance e só pensava em continuar a segui-la.
“Emprestas-me esta merda?”, perguntei, displicente. Ele pareceu espantado:
“Leva! Está para aí há séculos, nem sei de quem é... Talvez da Mira, do liceu.”
Nos meses seguintes li tudo quanto havia a ler de romances, novelas e contos do Eça e, quando se aproximaram os dias de rumar aos Açores, já andava a chafurdar nas prosas bárbaras, nas folhas soltas, na biografia do João Gaspar Simões. Mas aquelas cartas íntimas nunca vira e, sentado na esplanada em socalco de um pequeno café de uma calçada estreita que subia do lado da baía, saboreava, carta a carta, a correspondência e um cigarro Brazão, a marca açoriana que andava agora a fumar e provocava olhares intrigados dos cascalenses. E voltou-me, em redobrado, a vontade de Sintra, que só conhecia verdadeiramente das descrições do escritor.   
A João achou boa a ideia de Sintra, a hipótese de ficarmos lá de um dia para o outro enrugou-lhe a testa. A melhor altura para a excursão, pois estaria livre do trabalho, seria o fim de semana, mas aí o controlo em casa seria mais apertado, o padrasto, estando por perto, podia ser especialmente severo em relação ao paradeiro das raparigas. Não que ela se queixasse ou dispusesse esses obstáculos sobre a mesa, mas eu conseguia aperceber nos seus “vou ver” o caminho pedregoso para a liberdade. Ainda antes de ontem, por conta desses apertos, vivêramos uma cena com um entrefecho curioso. Ficáramos de jantar juntos, num daqueles restaurantezinhos encantadores das ruas que iam dar à Lota, e eu fazia horas na albergaria para a confirmação telefónica da hora a que se me juntaria. Já tarde, contrariada, ligou a informar que não conseguiria jantar comigo, nem sequer sair depois do jantar; nessa noite não ia dar. Jantei sozinho, com uma vela e caracóis de manteiga dispostos numa mesa só para mim; dei uma volta arrastada pelas ruas, detive-me na montra de uma boutique a olhar um roupão de feltro, de um amarelo de saibro, que me andava a tentar há dias – era caro, mas possuía o atributo perverso de me surgir na lembrança e lamentar não o ter ainda comprado sempre que estava longe da vitrina. Voltei ao quarto, li quatro ou cinco cartas, apreciei aquela despedida “sempre teu do coração” que Eça, por vezes, usava e, embora nem fossem onze, apaguei a luz, pois pensei sentir o sono. Nada, falso rebate, apenas a ilusão do tédio a pesar nas pálpebras. Não tive dúvida de que ia passar por uma insónia, uma daquelas azedas e duras de roer como talo de couve. Engoli então um Somnium e entreguei-me à indulgência do bendito esquecimento. Mas o telefone tocou e, naquele sobressalto condicionado pelo hábito do estar de urgência, atendi. Mas quem poderia ser, ninguém sabia que estava aqui! Que me quereriam da recepção a uma hora daquelas? A chamada era do exterior e ouvi a voz da João, contente e triunfante, a comunicar que, afinal, ia conseguir sair, estaria à porta da albergaria dali a dez minutos, o mais tardar; de lambreta, à noite e sem trânsito, era um tirinho até mim.
Bar do Hotel Estoril Sol.
Ora acontece que, está descrito, é assim que aquele tipo de substâncias é usado  recreativamente: os hipnóticos da família química da metaqualona (como o Somnium, o Quaalude ou o Mandrax), quando são tomados e se resiste ao sono inicial, provocam peculiares efeitos: um bem-estar lânguido e, posteriormente, uma absoluta falta de memória do que se passou enquanto se esteve sob o efeito. No meu caso, nunca mais me lembrei que tinha tomado o comprimido e o assunto só me preocupou um pouco enquanto descia no elevador para um serão que, afinal, não tinha terminado ali. Estava uma noite maravilhosamente tépida e, voando abraçado à cintura da Vespa, olhava enfeitiçado o cume branco das pequenas ondas que, ronronando, subiam da praia em direcção ao paredão da marginal. Íamos ao Estoril, passar um tempo no bar do Hotel Estoril Sol, onde havia sempre música ao vivo. Recordo a chegada, a travessia sob a pala tipo Niemeyer que cobre a entrada principal, a sala panorâmica e um tipo a tocar piano para os hóspedes. Depois parece que pedi uma cuba-livre ou um gin-tonic; o resto contou-me a João, mais tarde, já em Sintra, divertida. Eu não me lembrava de absolutamente nada! Nem de me levantar do nosso cantinho para ir pedir ao pianista que tocasse um determinado standard – embora esse gesto fosse compatível com a minha maneira de ser –, e muito menos de ter passado uns bons pedaços cantando, apoiado ao piano, para quem estava presente no salão.
Bem, pior tinha acontecido ao Leonard Cohen, comparava eu, sentado à mesa da esplanada do Hotel Central, o compositor canadiano, conhecido por Capitão Mandrake nos anos 70, uma piscadela de olho ao Mandrax, de que era cliente. No Festival da Ilha de Wight, acordado às duas da manhã para cantar para 600.000 pessoas, fizera-o pouco após ter tomado uma coisa daquelas no camarim, precisava dormir e julgava só ter de se expor ao público muitas horas mais tarde.
“Eu, ao menos, só cantei para uma meia-dúzia...”, concluía olhando, do outro lado da rua, no palácio, as imensas chaminés cónicas, que se viam de todo o lado, tão desmedido era o seu tamanho. O Eça falava daquilo!

Fizéramos a viagem até Sintra num átimo. Ainda agora estávamos a sair de Cascais, a passar pelo supermercado Pão de Açúcar e a virar pela avenida acima, num cálido começo de tarde, e não muito depois já o tempo se tornava fresco como numa adega e rolávamos sob um arvoredo que cobria o asfalto, um toldo verde e tremeluzente que não mais nos largou até que pousámos a Vespa, para um merecido repouso, no largo do Hotel Central. A minha ideia era deambular por ali, sem pressa nem fito, aquilo não era assim tão grande que a qualquer momento não fossemos tropeçar na Lawrence (onde Carlos da Maia procurara a loura dona de uma cadelinha chamada Niniche) ou no Nunes, onde o Cruges encontrara o Eusebiozinho com as duas putas espanholas e se acabara por esquecer das queijadas... Será que a confeitaria onde provava uma daquelas nozes caramelizadas tão fantásticas, e onde também vendiam travesseiros e queijadas, já existiria no tempo dos ‘Maias’? Poderia ter sido ali, a uma daquelas mesas, que nascera a referência do Eça?
Hotel Lawrence, Sintra.
Após explorarmos o centro da vila começámos a subir em direcção à serra, por entre vivendas antigas e ajardinadas, que pareciam adormecidas sob aquela luz esverdeada e loura que rompia por entre a ramaria. Já acima do nível de vila, onde a densidade das casas rareava e fora substituída por muros e portões de quintas, demos com uma tabuleta que indicava Quinta dos Lobos e informava tratar-se de um “bed and breakfast”. Por entre as grades do portão apreciámos a moradia, enquadrada por arbustos e flores, uma casa antiga e com as janelas bebendo a luz da tarde. O dito local pareceu-nos a perfeita âncora para o sem rumo que prosseguíamos nesses dias. Era gerido por um casal de estrangeiros, tinha apenas três ou quatro quartos e o que acabou por ser o nosso continha mobília antiga e prateleiras com livros, como se ali habitasse alguém que nos cedera o quarto para a noite. Quanto ao pequeno-almoço, explicou-nos a senhora ao mostrar-nos a cozinha, podia ser tomado ali a qualquer hora, a torradeira estava em cima de uma cómoda e no frigorífico havia fiambre, compotas e sumos enlatados. Aliás, podíamos servir-nos do que quiséssemos a qualquer hora. Eles deixavam de estar por ali a partir das oito da noite e nós ficaríamos na posse das chaves do portão e da casa. Queríamos nós perguntar mais alguma coisa?  
Voltámos à Quinta dos Lobos uma e outra vez ao longo daquele ano e de cada vez que consegui vir da Graciosa até ao Continente lá íamos como que em romagem, uma romagem que abrangia Sintra, a Várzea, Colares, o caminho arborizado para Cascais e as viagens na lambreta. 



© Fotografia ao lado: Hotel Central, fotógrafa: João Berhan, Sintra, Junho 1979.