05 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 31. Expiação

A namorada do Rui chamava-se Clarinha e devia andar pelos dezoito anos. Eu e ele tínhamos-lhe posto a primeira vista em cima na mesma manhã, na gloriosa vila de Fafe, onde ambos fôramos colocados a fazer o estágio de Saúde Pública de um treino básico após a licenciatura, com a duração de dois anos, designado Internato de Policlínica, treino que, como o nome indica, consistia em aprender a fazer um pouco de tudo, uma vez ser genericamente aceite que não se aprendia nada de prático na Faculdade e que um médico recém-licenciado era tão capaz de lidar com um doente que lhe aparecesse como um revisor de contas ou um pedreiro. Passados quarenta anos é reconfortante constatar que nada parece ter mudado na capacidade operacional com que os actuais médicos deixam a universidade.
Esse estágio de Saúde Pública, de que falava, prolongava-se por oito meses e, antecedendo o seu começo, nós os dois tínhamos optado pelo Hospital de Guimarães como local para os tais dois longos anos de aprendizagem do Internato de Policlínica. A escolha de Guimarães não fôra arbitrária, mas, pelo contrário, baseada em critérios sólidos. No ano anterior, 1976, deambulando pelo Agosto da Póvoa de Varzim, tropeçáramos num delicioso cardume de raparigas de Guimarães que por ali veraneavam com as famílias, pois a Póvoa fazia as vezes de estância balnear de algumas cidades do interior adjacentes, como Braga ou Guimarães. Esse tropeço levara-nos a decidir-nos por Guimarães mas, distraídos, não nos tínhamos apercebido de que, no decurso desses dois anos, era forçoso fazer um estágio parcelar, desenvolvido num Centro de Saúde, fora do hospital, o tal estágio de Saúde Pública, e quando acordámos para a realidade já todos os centros de saúde das cercanias da cidade estavam escolhidos e reservados, restando o de Fafe, o mais longínquo e com pior fama deles, e a cerca de 20 km de Guimarães, uma brutalidade segundo os ditames e as estradas da época. Fafe?! Fafe era já nos contrafortes de Trás-os-Montes, um fim de mundo!
Culpa nossa, mas, após o impacto inicial – era um gelado mês de Janeiro quando nos mudámos para lá – a nossa estadia em Fafe revelou-se um dos períodos ditosos da nossa vida e a existência por lá pautou-se por suaves obrigações que incluíam longas pausas no D. Fafe, um café com dois pisos do centro da vila, o de cima concebido como uma espécie de mezanino onde se costumavam acoitar as alunas do liceu a emborcar cafés e a fumar a coberto de quem passava pelas vitrinas. E um fim de manhã, numa dessas mesas recuadas, sentava-se a Clarinha e umas amigas, segredando e dando risadinhas que nós, dois dos três médicos recém-chegados, resolvemos perturbar arremessando para a mesa delas, tal se fossem serpentinas ou confettis, algumas das caixinhas de amostras de medicamentos com que os delegados de propaganda médica costumavam inundar os clínicos nesses dias. Essa singela interferência cobrou o seu preço que, no caso do meu amigo, se traduziu em vinte e tal anos de casamento e um Vasquinho em homenagem à memória do avô paterno. Mas isso foi bastante depois, que, nesses dias de Verão na Graciosa, quem apareceu, na companhia da João, foi uma Clarinha ainda teen e solteira, uma loura de olhos castanhos, bonita e fazendo lembrar a Jessica Lange do King Kong (1).
O facto de terem surgido juntas surpreendeu-nos, pois uma residia em Fafe e outra em Cascais, e não havia registo de que se conhecessem previamente, tendo-se associado exclusivamente para a viagem.
Era o pino do Verão e a Santa Cruz da Graciosa parecia outra, não tão outra como nos tinha acenado o entusiasmo patriótico dos naturais, mas, mesmo assim, um pouco mais animada do que o marasmo costumeiro. Ensimesmado, quase amuado, olhava com desdém a transformação, onde a mudança mais vincada se processara nos habitantes que, todas as manhãs, saíam agora à rua afivelados na  máscara de quem se crê olhado e tem a sua oportunidade cénica. Abotoado na bata curta, o Gasparinho, muito famoso e considerado entre os emigrantes canadenses e americanos, esvoaçava pela vila fazendo-se imprescindível, entregando embalagens aqui e ali, aconselhando quanto às diarreias estivais e às picadas de peixe-aranha. No Rossio, assertoado no seu orgulho de correligionário e bufando o fumo pela ponta acesa do charuto, o Oriolando apresentava-me, solene, o Jaime Gama, vice-presidente do grupo parlamentar do Partido Socialista, que eu não sabia açoriano nem supunha tão baixo. Enquanto ouvia, impaciente, os seus apartes sobre o Estado da Saúde na região, ia catrapiscando o Rui que, uns metros ao largo, apanhado à saída do Açucareiro, conversava com o Dr. Gregório e senhoras, um pequeno magote que cumpria o passeio higiénico após o jantar, enquanto a João e a Clarinha, divertidas, observavam tudo de um banco de jardim e eram observadas por uma romaria de moças que passavam alinhadas e onde, entre outras, deslizava a Isabelinha, a Sãozinha e a Leninha.
O Dr. Gregório era filho do Dr. Gregório, um senhor velhote que fora, durante décadas, o único médico da ilha e junto de quem, nas primeiras semanas, procurámos socorro para situações médicas mais complicadas. O velho Dr. Gregório, que nos recebera cortesmente na sua casinha térrea em Santa Cruz, aconselhou-nos com simpatia mas deixando transparecer a distância de quem quer agora ser deixado em paz, não parecendo interessado em manter um olhar clínico activo sobre as nossas aflições ou o que se passava na ilha. Quase no final da visita, em meia dúzia de frases secas e destiladas na experiência, resumiu-nos o retrato mórbido local, aquilo de que nós mesmos nos íamos apercebendo: havia fartura de hipertensão, alcoolismo, distúrbios da saúde mental; tuberculose..., esta última ligada ou agravada pelo próprio alcoolismo e pela miséria social. Quanto ao Dr. Gregório filho, seguira os passos do pai na profissão, mas pusera-se a andar dali para fora e era agora uma personalidade importante no meio médico da Terceira, só regressando à casa paterna no tempo quente, para uns dias de férias e umas consultas programadas da sua especialidade nas instalações do hospital. Antes de o encontrarmos em carne e osso nos passeios nocturnos já o conhecíamos telefonicamente dos desesperados apelos que dirigíamos aos colegas de Angra do Heroísmo e, dessa perspectiva, era um dos colegas mais acessíveis, pacientes e entendedor das nossas dificuldades. Talvez por ser daqui e conhecer o panorama, talvez por se lembrar da vida anterior do pai, talvez por temperamento; quem sabe?
Mas também as nossas companhias tiveram o seu quinhão de sucesso nesses dias de férias em Santa Cruz da Graciosa: duas jovens mulheres bonitas – uma loura serena e uma morena decidida – habitavam a casa dos Magistrados, atravessando a vila com um desprendimento que suscitava espanto nas locais, trajando roupa e padrões que causavam inveja às locais, dispondo do Açucareiro e das sombras do Rossio sem pagar tributo, encarrapitando-se no bordo dos pauis como se ninguém tivesse tido a ideia anteriormente... Eram então aquelas as figuras que povoavam a vida que os nossos médicos levavam do lado de lá do mar? Tudo isso parecia um pouco desconcertante, um nada humilhante e, simultaneamente, obscenamente cativante para quem ali vivia e era, mais ou menos, da idade das duas estrangeiras. Até as freiras se sentiram encantadas ao, finalmente, serem-lhes apresentadas e ao saber que aquela morena com reflexos verdes no olhar atento – rapidamente promovida a minha noiva para que pudesse ser mais legitimante apreciada – era enfermeira como elas, e tinham, finalmente, o ensejo de apreciar em carne e osso a pessoa de quem eu lhes falara e se prestara a orientar em Lisboa alguns Graciosenses doentes enviados a tratamento.  

Quem também chegara na remessa fora o Paulo Amorim, especialista na companhia social de senhoras, atributo que já o víramos praticar com à vontade e sucesso nos corredores da Faculdade. Na sua viagem até nós, e sabe-se lá porquê, a João e a Clarinha tinham ido parar a S. Miguel, em vez da Terceira, e a Ponta Delgada, em vez de Angra do Heroísmo! Tornava-se necessário fazer a troca de ilha, pois era da Terceira que se tinha acesso à Graciosa! E o Paulo foi buscá-las a S. Miguel, tornou-se cicerone delas na Terceira, veio garantir que chegavam incólumes ao destino final. Com mérito e sem fazer uma única consulta enquanto por lá esteve, insinuações de trabalho a que fugia como o diabo da cruz, engrandeceu o rancho de passeantes pelas alamedas e vielas da vila, engrossou os excursionistas ao Carapacho e à escadaria em caracol da Furna do Enxofre, era o conviva mais esfusiante à mesa da D. Irene, que andava transtornada com toda aquela agitação de gente, horários e menus e que, secretamente, se deve ter sentido muito aliviada quando todos se foram umas duas semanas mais tarde.
Tal como eu, secretamente também. Aqueles dias foram-me penosos e senti-me como um bicho empurrado para fora da concha e que se deixa expor à violência do sol sem correr a abrigar-se. Sem me dar conta, a vida na ilha, aqueles meses de exílio, transformara-me e, de algum modo, incapacitara em mim a funcionalidade de me relacionar com terceiros. Chegar a casa e encontrar gente, ver combinadas iniciativas da qual era naturalmente suposto fazer parte e em que não me apetecia participar, não ter privacidade alguma a não ser quando fechava a porta do quarto de banho... Não saber o que dizer e o meu discurso parecer-me sistematicamente pesado e artificial... O que era aquilo tudo e o que era feito de mim? Não me reconhecia, desintegrava-me, todo eu era um montão de desgosto e desagrado comigo próprio.
Uma manhã, elas foram-se e eu, como o resto da vila, fui dizer adeus ao helicóptero, acenar e voltar para casa, pensando que recuperara de volta o meu quarto, que a casa, de novo sem ninguém, me traria de volta a antiga pele. Não foi o que aconteceu. Nada resultou.

(1) Nova versão, realizada em 1976 por John Guillermin, do filme original realizado em 1933 por Merian Cooperand e Ernest Schoedsack.