08 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 32. Entrevista com o vampiro

Paços do Concelho de Santa Cruz da Graciosa, Açores.
Pouco tempo passou até eu ir, finalmente, de férias, mas uns dias antes da partida recebemos um curioso convite, sobretudo vindo de quem, pelo visto, sentia ânsia de nos abater. O Sr. Gui B. Louro, solicitava, por escrito, a nossa comparência nos paços do concelho no dia tantos de tal, em virtude da visita à ilha de Sua Excelência o Dr. João Bosco Mota Amaral, presidente do Governo Regional dos Açores. Lá está: o Rui era o delegado de saúde, eu o director do hospital e não havia assim tantas individualidades na Graciosa que pudessem ser arrebanhadas para comporem um ramalhete decente, dois já faziam mossa. Vestimos as nossas roupinhas de cantar no coro e, expectantes, subimos as escadas da câmara até um salão um nada sombrio apesar das muitas janelas, duas das quais eram de sacada e se encontravam abertas para a varanda e para os paus de bandeira que apontavam obliquamente a praça.
Foi daí, da luz do sol onde procurara abrigo para escapar ao ambiente escuro e bolorento do salão que vi a visita chegar, seguido de um presidente em modo de desvelo para com a insigne presença. Mota Amaral, deputado da Nação em Lisboa, regressado aos Açores em 1975, membro conhecido da Opus Dei e eminência parda da Frente de Libertação dos Açores, de quem se dizia ser o autor do programa ideológico... Actualmente em lume brando, a FLA, como era conhecida, sonhara, durante os tempos que se seguiram ao Verão Quente de 75, libertar o arquipélago do jugo do Continente, num processo de independência que poderia incluir iniciativas musculadas, se fosse o caso. Os Açores, nesse futuro radioso, viveriam, como um senhorio a quem saiu a sorte grande, da renda do aluguer da base das Lajes e da exploração das potencialidade geotérmicas e sulfurosas da região, isto é: o senhorio tornava-se também mefistofélico. O problema foi que os americanos, mesmo assanhados como estavam com a hipótese de uma deriva comunista em Portugal, acharam o projecto demasiado inverosímil e não deram luz verde ou apoio ao devaneio.
Ao vivo, o homem era igualmente sinistro e senti o fantasma de Murnau pairar na sala, pois a aparência do político tinha algo de irreal, parecendo, em simultâneo, uma amálgama do menino que cresceu demasiado depressa com um eclesiástico romano à Fellini e um vampiro do celuloide, parecença a que as orelhas, alongadas e despegadas do crânio, e a cabeça de feitio triangular conferiam maior verosimilhança. Ao perto, o contacto interpessoal não desfazia a infelicidade da aparência: falava num sussurro, expelido por uma boca cujos lábios se exteriorizavam como uma galinha prestes a pôr um ovo, e, ao apertar-lhe a ponta dos dedos, fiquei-me na guarda de o ver arreganhar os beiços e mostrar os caninos. Depois falou uns minutos à escassa plateia, um discurso gelado, incidente na tónica da necessidade de se manter os Açores em paz e onde se entrelinhavam apartes ao desregramento que ainda não acalmara o suficiente no resto do país... E Gui B. Louro, o nosso autarca com nome de papagaio, torcia-se de prazer ante a finura das alfinetadas, acenava gravemente a sua concordância perante a estratégia de manter, o mais possível, o arquipélago fechado aos embates do exterior. 

Esteve pouco tempo, sua eminência, e num gesto de mão pálido e bem educado recusou o beberete que esperava, tinha pressa, e foi com enfado mal disfarçado que se dignou ouvir a minha preocupação sobre a quantidade de tuberculose que grassava na ilha e que, na visão de um médico de passagem, muito beneficiaria de um interesse político que gerasse um movimento sanitário mais amplo e consistente (1). Resolveu o assunto de uma penada, garantindo-me com um esgar que lhe animou a expressão, que quando o problema fosse ainda mais expressivo mais fácil se tornaria pensar numa solução global para ele. E logo deslizou dali para fora, deixando o salão tão morto de vida como estava antes de ele chegar e enquanto lá esteve. 


(1) Em 1982, os casos novos de tuberculose diagnosticados foram de 71,5 por cem mil habitantes no Continente e de 202,1 nos Açores, isto é, quase um triplo de casos foram detectados na região autónoma (dados do Instituto Nacional de Estatística). Compare-se, por exemplo, este panorama com os valores da mesma taxa, em 1980, nos Estados Unidos da América: 12,3 casos de tuberculose por cem mil habitantes, ou seja, um número 6 vezes inferior ao do Continente e 18 vezes inferior ao dos Açores.
 

Nota: O títuo do texto baseia-se no do livro de Anne Rice Entrevista com o Vampiro, 1976.