16 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 33. Um telefonema inesperado

Cascais (final anos 70).
Em Lisboa apanhei um táxi para Cascais e desta vez resolvi registar-me no hotel Nau, igualmente central e a dois passos da estação, mas com um nome e um perfil branco de vapor que me agradou, agora que o meu mundo regular era predominantemente marítimo. Do outro lado da rua havia um cafezinho atraente, com mesas de bancos altos e uma diminuta esplanada que vendia umas sanduiches de ovo e alface deliciosas, talhadas em triângulo e acondicionadas em papel celofane transparente. Nunca tal vira.
Fiquei-me uns dias por ali. Íamos na Vespa vermelha até ao Guincho e se a praia estava demasiado ventosa vegetávamos num dos tabiques com vista para o mar do bar-restaurante-hotel Muchaxo, uma construção encarrapitada nos rochedos fronteiros à praia, num rústico pseudo-mexicano como orientação arquitectónica e pormenores algo surreais como um pátio interior onde havia aves marinhas de asas cortadas, para que não escapassem ao cenário. Um dia, à noite, já tarde, a João levou-me à casa da rua Cesário Verde, onde estivemos na sala a conversar em voz baixa para não incomodar nem chamar a atenção de quem já dormia no andar de cima. Pareceu-me outra, talvez mais meditativa, aquela sala onde, uns oito meses antes, entrara pela primeira vez para uma ruidosa sessão de chucrute.
Depois voltámos a Sintra, a revisitar o mesmo quarto com mobiliário antigo e livros pelas paredes, aos passeios desencontrados pela serra e pela vila, sempre na esperança de encontrar o Alencar numa vereda de luz flutuante. Na Quinta dos Lobos não havia um serviço de recepção permanente e eram os próprios hóspedes que abriam quer o frigorífico quer o portão exterior, ou a porta que dava acesso à moradia. Uma noite, em que regressámos particularmente tarde, franqueámos o portão com todas as precauções e, para não correr o risco de incomodar alguém, percorremos calados e em passo leve o caminho até à entrada. Estávamos a poucos metros da porta quando sentimos, mais do que ouvimos, um movimento ao nosso redor e nos vimos cercados pelos dois elegantes e assustadores dobermanes que, nas palavras calmantes dos donos, estavam sempre acorrentados no canil durante a noite e jamais na situação de se aproximar dos hóspedes sem supervisão. Bem, nessa noite não estavam e, por um minuto, estivemos ali, transidos e congelados, até que a voz do dono se deu conta e nos veio salvar dos terríficos vigilantes que, na perfeição, cumpriam o seu papel.
A pouco e pouco, sobretudo no idílio de Sintra, o meu coração foi sossegando e a ilha foi recuando na minha mente, aliviando os meus dias, mas como tudo tem um reverso, incubando a ideia penosa de que, mais semana menos semana, mal as férias terminassem, teria de voltar. Mas entretanto...
Muchaxo, interior.
De Sintra, regressámos a Cascais e daí apanhei um táxi directo ao Porto, para ir a casa – ou antes, à casa dos meus pais – onde não punha os pés desde Janeiro. Eu já não sabia bem como designar aquela casa – reflectia, pesaroso, no assento de trás do táxi enquanto o ar da tarde quentíssima invadia o interior – e oscilava entre “a casa dos meus pais”, quando a referia a terceiros, ou “a minha casa”, sempre que a pensava para mim mesmo ou para os muito próximos e que sempre me tinham visto por lá. Mas o certo é que já não morava ali há dois anos e depois dela morara em duas casas em Guimarães e numa terceira em Fafe. (E por falar em Fafe tinha de ver se sacava uma tarde para  revisitar a D. Maria e o Sr. Marques, o casal em casa de quem acampara durante os oito meses em que por lá estivera com o Rui e o Zé Pedro Moreira da Silva, meus colegas de estágio durante o Internato de Policlínica). Agora não tinha automóvel (vendera o Fiat 128 antes de abalar para os Açores), mas podia cravar alguém para ir comigo, ou apanhar um táxi. E em Guimarães havia sempre quem me desse dormida, começando pela D. Antonina e o Sr. Ribeiro, donos do restaurante As Trinas, casal que nos adoptara ao fim de tanto termos almoçado e jantado no seu restaurante, uma adopção tão completa que o Rui guardava lá pijama em permanência e, os dois, dispúnhamos de quartos de dormir à disposição, bem como grátis e incontáveis petiscos regados a Pasmados tinto e whisky Dimple, todos estes mimos a pouco mais de cem metros do hospital.
E regressava, precisamente, desta peregrinação, as ilhas cada vez mais esfumadas no horizonte da consciência, quando, um dia, o Rui telefonou. Estava em casa dos meus pais, a ver passar os dias antes de regressar ao sul, e vem a minha mãe, em toda a naturalidade, e diz que ele está ao telefone. Ora se para ela era trivial, para mim era-o bastante menos; nós não costumávamos telefonar-nos em circunstâncias destas, havia uma espécie de pacto não explícito de descansarmos um do outro, de não chatearmos o outro enquanto ele desopilava e vogava por outras paragens e, desta vez, esse era o meu caso.   
A voz soou-me estranhamente próxima, limpa do eco e ruídos de fio telegráfico das ligações entre o Continente e as ilhas, e rapidamente fiquei a saber que o Rui estava em Lisboa, de facto chegara na véspera. Um ponto de interrogação estrebuchava na minha mente: mas como era possível? Eu viera de férias e, por quase vinte dias, ele ficaria como único médico da Graciosa... Como era possível que me estivesse a falar da casa da Paula e do António, uns amigos que moravam nos arredores de Lisboa?
A casa dos meus pais no Porto (final anos 70).
A razão era a mais bizarra. Uns dias antes, Gui B. Louro, o próprio, recorrera a consulta médica e, coerente com o seu jeito de quinteiro, entrara pelo consultório do Rui dentro sem mais aquelas, ultrapassando tudo e todos e impondo a presença na consulta que decorria. Queria uma consulta, já, e ele mesmo estabelecia o nível de urgência. Bem, o Rui pode ser um gajo com um feitio péssimo e, sem mais, pô-lo dali para fora, enviando-o a marcar vez e esperar, como os outros que lotavam os bancos de espera. Foi nesse contexto, perante toda a gente, em pleno corredor, que o homem, possesso, o ameaçou fisicamente e fez as promessas de que ele ir ver o que lhe iria acontecer em breve. O Rui não esteve com mais aquelas: pôs-se a andar da Graciosa, passou pela Terceira a relatar o sucedido, fazendo notar que não regressaria à ilha enquanto não tivesse garantida a sua integridade física e, finalmente, apanhou um avião para Lisboa. Como seria de esperar a notícia caiu como uma bomba, o Porão da Nau entrou em opistótono, a Secretaria Regional do Assuntos Sociais informara Lisboa do incidente e agora alguém no Ministério da Saúde, ligado à tutela do Serviço Médico à Periferia, queria falar com o Rui. Será que eu poderia ir com ele? Sempre ajudaria a explicar os antecedentes.
“Claro. Quando é que tens de ir lá?”
“Fiquei de telefonar a um gajo da Direcção-Geral de Saúde, a marcar...”
“Isso é onde?”
“Em Lisboa, numa porra duma alameda qualquer...”
“Então marca e diz; vou aí ter.”

Tomei um táxi para a capital e, pela viagem abaixo, fui sentindo, como um sopro no coração, que ainda agora não existia e agora já lá mora, que talvez as minhas férias estivessem por um fio.