21 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 34. Os papeis do Leonel

Não sei o porquê mas, na minha tenra idade, imaginava uma Direcção-Geral como um local aceso de actividade, borbulhante na produção de decisões que não podiam tardar; onde trabalhariam, após cuidadosa selecção curricular, técnicos de excelência, como hoje se costuma dizer para categorizar pessoas e serviços como se fossem presunto de região demarcada.
A Direcção-Geral de Saúde, onde, nessa tarde, entrava a primeira das muitas vezes que lá entraria nas décadas seguintes, não poderia parecer mais distinta daquilo que imaginava... A nossa entrevista, com um subdirector-geral, era num dos pisos superiores do edifício e, para lá chegar, fomos trepando uma escada estreita que se contorcia por ali acima, apertada entre a parede e o poço de um elevador, como o acesso a um campanário. O silêncio era total e uma modorra de siesta reinava, apenas perturbada pelo enrolar e desenrolar dos cabos do ascensor. Em cada um dos pisos, na antecâmara dos gabinetes, havia uma mesinha por trás da qual estacionava uma senhora de bata que levantava os olhos ao ver-nos passar, mas sem deixar de esventrar meticulosamente, com uma faca para papel, os cadernos de um Diário da República ou de lambuzar selos em envelopes. Uma delas, levantou-se quando tentávamos transpor o umbral da sua secção, quis saber ao que íamos – eram contínuas, humildes guardiãs do templo.
“Vimos à procura do Dr. Leonel Barreira, ele está à nossa espera.”
O Dr. Leonel Barreira era um senhor de meia-idade, muito polido e sereno como um Buda. Mandou que entrássemos para uma sala e convidou-nos a sentar a uma bela mesa redonda, de madeira envernizada e marchetada com frisos dourados, enquanto se dirigia a uma secretária e remexia um monte de papéis. Em seguida, voltou à nossa companhia com uma capa de cartolina que continha apenas dois magros papéis dactilografados.
“Ora então os colegas, sem bem compreendi, foram deslocados para a ilha... Graciosa... no âmbito do Internato de Policlínica...”, disse como quem quer introduzir um começo de história.
“Serviço Médico à Periferia...”, corrigiu um de nós, “e não deslocados, escolhemos nós mesmo o destino. Aliás, fomos os únicos voluntários do país para a ilha...”
Ele levantou a cabeça do papel, que lia à socapa para se por a par do assunto, e olhou-nos, um pouco admirado, pareceu-me.
Depois, vendo que o homem estava a leste do paraíso e compreendendo que a batata quente lhe caíra em cima à queima-roupa, resumimos-lhe a história: o sermos apenas dois onde estavam previstos quatro, a falta de enquadramento e apoio por parte dos médicos mais velhos do hospital de referência – a 50 km de distância e com o mar pelo meio, o isolamento profissional e, o apóstrofo da questão, a cena com o presidente da câmara. Ele ouvia-nos com atenção e, apesar de se manter impávido, não conseguia deixar de manifestar espanto, traduzido, sobretudo, no modo como pedia para confirmarmos certos passos da novela.
“Dizem então que esse senhor vigiava a vossa casa? Pessoalmente?”
“Bem, a gente nunca o viu em cima do banco; é o que corria...”
Outra coisa que o intrigava era o que “esse senhor” poderia ter contra nós, uma vez que, segundo parecia, fazíamos o nosso trabalho e nem sequer dependíamos hierarquicamente dele.
“Aliás, o colega, informou olhando o Rui, como delegado de saúde depende hierarquicamente desta casa...”
Não fazíamos ideia, julgávamos até que dependíamos apenas do Porão da Nau e de nós mesmos, pois era isso a que estávamos habituados. Explicámos aquele que era o nosso entendimento da questão: os calores mal-arrefecidos da independência dos Açores, o eles acharem que éramos todos representantes do comunismo internacional – particularmente do Caribenho, tendo em consideração o epíteto de ‘cubano’ com que nos mimoseavam. O homem suspirou, fechou a cartolina do processo e passou uma mão, que flutuou a centímetros da capa, como se dali não se conseguisse espremer mais nada.  
“Imaginando que isto se resolve, o colega regressaria à ilha e ao seu trabalho?”
“Desde que me consigam garantir, com um mínimo de segurança, que não levo um tiro nas rótulas ou que me limpam o sebo...”, clausulou o Rui as suas condições.
“E quanto ao colega?”, perguntou ele virado na minha direcção.
“Eu?! Eu estou de férias, Sr. Dr., férias programadas e autorizadas; quando acabarem regresso ao trabalho...”
Embora não o tenha pronunciado, o Dr. Barreira pareceu aliviado com as respostas; disse apenas:
“Pois... É que uma ilha sem médicos, isto é: de repente sem médicos...
Cá fora estava uma tarde quente e indiferente. O Rui quis saber o meu balanço:
“O que achaste?”
Encolhi os ombros, não tinha bem a certeza do que achava.
“O gajo pareceu-me decente, acho que estava a leste de tudo, mas que ficou a perceber a cena; vamos ver...”
O Rui despediu-se, disse que ia para cima, para o Porto ou Guimarães, esperar no que davam as coisas. De uma coisa tinha a certeza: não ia voltar sem garantias. E perguntou:
“E tu, para onde vais?”
“Por agora, vou para Cascais, já terminei a peregrinação lá por cima. Depois, não sei – ainda tenho uma semana por cá, mas não sei...” 
E como um táxi descesse a alameda, fiz-lhe sinal e mandei bater para Cascais.