23 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 35. O som distante das vozes

Vista da ilha Graciosa, Açores.
Agora que o Verão se aproxima do fim, a ilha está menos verde e, vista de cima, tem certo ar crestado, o que talvez explique a razão pela qual Raul Brandão lhe chamou ‘ilha branca’, o gajo deve ter passado por aqui nesta época do ano.
Nada como o realmente: na Secretaria Regional ficaram tão impressionados com a  minha antecipação da vinda por uns dias que me fizeram viajar até aqui num Puma só para meu uso; fiz a viagem no cockpit, a trocar larachas com o piloto e o copiloto, também eles contentes por um volteio sobre o mar sem grande responsabilidade.
Quando cheguei a Angra fui ter ao hotel e, como ninguém me esperava, a minha aparição foi um estouro. Só o Schmutzer pareceu ficar perturbado, como se lhe tivessem trocado as voltas, e pôs-se, ao jantar, com considerações sobre a gravidade da situação, as consequências que poderiam advir para o Rui do ‘abandono’, o regulamento não sei de quê...
“Cala-te, caralho”, ladrei-lhe, corroborado pelo Paulo e por um Senra sorridente, “deixa-me comer a merda do ananás em paz...”
“Vais ver, vais ver; na Direcção Regional dizem que...”
Mas a Direcção Regional, e o seu mais digno representante em carne e osso, o Porão da Nau, estava feliz com o meu regresso temporão e a perspectiva de, no dia seguinte, ter outra vez um médico em Santa Cruz da Graciosa deleitava-o. Por isso arranjou helicóptero como quem tira um monco do nariz e me prometeu mundos e fundos, inclusive que, em questão de dias, teria um colega a ajudar na Graciosa..., até que o problema se resolvesse.
“Estamos a trabalhar nisso, Serrano...”, disse quase comovido.
Aproveitei para relembrar que ainda não nos tinham pago um tusto da infinitude de horas extraordinárias que nos deviam por estarmos de urgência dia sim, dia não.
“Estamos a trabalhar nisso, Serrano...”, repetiu, quase convencido de que falava verdade.
E aqui vou, apetrechado de asas, quase a lamber o sal do mar, as apreensões sobre a chegada momentaneamente suspensas na atmosfera.

Acabei por me despedir à pressa de toda a gente, fui à porta de uma imensa enfermaria para um último adeus a uma João trajada de enfermeira e sumi-me entre o público do aeroporto de Lisboa, brevidade de que não desgostei, acho que me veste bem sair à francesa de um local ou de uma situação: quando olham, ou dão por isso, já fui, nem sequer me despedi segundo as fórmulas das despedidas. É uma estética e uma filosofia, digamos. Na véspera da partida fomos jantar a casa da Isabel Silva Lino, uma amiga da João que mora em Carnaxide e é casada com um piloto da TAP. Têm uma filhinha chamada Joana, parecem mesmo uma família, um modelo a seguir, e a pequena sala de estar deles, onde ficamos a dormir para que eu estivesse mais perto do aeroporto, não tem porta, está separada do resto da casa por uma cortina de toquinhos de bambu, o que produz um balsâmico farfalho a espanta-espíritos cada vez que passamos através dela. Na tarde do último dia comprei um LP do George Benson com uma capa muito estival e, surpresa, em que o guitarrista de jazz canta em duas das músicas e, Deus meu, com que voz e com que estilo! Uma das canções chama-se “This Masquerade” (1) e, se bem entendo a letra, fala de dúvida, de relações amorosas em que nunca é dito o que devia ser dito, de ambiguidade, incerteza e, a mim, calha-me como uma luva, pelo que deixei o disco à guarda da João enquanto volto à ilha, nem sequer temos gira-discos por lá. Na outra vez que por aqui estive deixei-lhe uma cassete com o espírito de uma velha canção francesa do Charles Trenet, mas na versão menos derradeira do Nat King Cole (2), que fala das mesmas incertezas e finais dúbios das relações sentimentais – estou aqui ou não, estou dentro ou fora, será isto para durar? – mas, em qualquer dos casos, não me queiras mal que não é isso que eu te quero, e, se isto não der, recordarei estes dias com ternura.

 Goodbye, no use leading with our chins
 This is where our story ends
 Never lovers, ever friends.
 Goodbye, let our hearts call it a day
 But before you walk away
 I sincerely want to say:
 I wish you bluebirds in the spring
 To give your heart a song to sing
 And then a kiss, but more than this
 I wish you love.
 And in July a lemonade
 To cool you in some leafy glade
 I wish you health
 But more than wealth
 I wish you love.
 My breaking heart and I agree
 That you and I could never be
 So with my best, my very best, I set you free.
 I wish you shelter from the storm
 A cozy fire to keep you warm
 But most of all when snowflakes fall
 I wish you love.


Uma das muitas vantagens das canções é que são plásticas e servem vários fins e diferentes circunstâncias e, em Janeiro, antes de embarcar para os Açores e para uma ausência tão desmesurada, deixei, em jeito de despedida musicada, um bilhete no quarto da minha irmã mais nova, que tem catorze anos, para que fosse ao meu quarto vazio escutar a 4.ª música do lado A do álbum pousado no prato do gira-discos, este “I Wish You Love”, cantado por Mr. Cole num show ao vivo no hotel The Sands, em Las Vegas (3). Era tudo quanto lhe desejava para o futuro próximo e o distante: pássaros azuis, amor, limonadas no Verão e uma lareira no Inverno e, quanto a este aspecto, bastava que descesse as escadas da casa onde ainda morava com os meus pais, havia lá sempre uma a carburar nos meses frios. Pobrezinha: a nossa irmã mais velha já casara e tinha a sua própria casa e, com a minha saída, ela ia ficar ali, sozinha, percebendo cedo o que é um quarto vazio e o som distante das vozes.

Susana, minha irmã mais nova, 1978.




(1) Breezin’, 1976. “This Masquerade”, de Leon Russell, excerto: “Are we really happy with/This lonely game we play/Looking for the right words to say/Searching but not finding/Understanding  anyway/We're lost in this masquerade./Both afraid to say we're just too far away/From being close together from the start/We tried to talk it over/But the words got in the way/We're lost inside this lonely game we play./Thoughts of leaving disappear/Each time I see your eyes/And no matter how hard I try/To understand the reason/Why we carry on this way/And we're lost in this masquerade.”

(2) “Que Reste-t-il de nos amours?” (“I Wish You Love” na versão inglesa), música e poema de Charles Trenet, letra inglesa de Lee Wilson.

(3) Nat King Cole – At The Sands, 1960.