27 agosto 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 36. Regresso

Graciosa: vista aérea do Monte da Senhora da Ajuda.
O Rui só acabaria por voltar cerca de dois meses mais tarde e, como seria de esperar, as promessas trapalhonas do Porão da Nau de arranjar outro médico para me ajudar demoraram um mês a concretizar-se, um longo, paranoico e desértico mês até que o Virgílio Senra apareceu. Foi o meu grande estágio de solidão e, passados quarenta anos, ainda reconheço o sabor e o som daquele silêncio.
As únicas pessoas que saudaram a minha volta com explícita alegria foram as irmãs, no hospital, e alguns doentes; os restantes ou não reagiram, como a nossa atormentada anfitriã, D. Irene, que veio à porta como se eu ;araxava os estores do andar de baixo,fonar-me.hmutzere dirigentes da savam a descida do monte da Senhora da Ajuda.car a morar.
lá tivesse jantado na véspera, ou fizeram-no pela socapa, como o Oriolando, perante o qual eu e o Rui  ressurgíamos na roupagem de heróis da resistência. Quanto ao Araújo, soltou as boas gargalhadas do costume quando voltei a aparecer em casa dele e o Sr. Medina, tal o conde Steinbroken nos Maias, teve tendência a considerar, descomprometidamente, o episódio da nossa desconsideração pelo poder local como ‘excessivamente grave’.
Retomei o trabalho, agora a dobrar, e durante a maior parte das horas diurnas andava tão trôpego de consultas, visitas à enfermaria, resolução de burocracias adiadas, que nem tempo me sobrava para pensar que existia. Isso só acontecia quando, ao fim da tarde, chegava a casa. Aí o silêncio caía-me em cima, a casa passara a ter divisões a mais, quase não me atrevia a entrar em algumas delas; onde estava a Marília, agora que seria bom que estivesse por perto? Nem o Pombo se via pela ilha!
Na manhã em que cheguei, ao descer do Puma, fui directo à casa dos Magistrados e abri a porta com precaução, não sabia o que esperar. Depois do que sucedera, era plausível ter acontecido uma rusga vingadora, uma invasão, uma selvajaria sobre os nossos pertences, sei lá. Mas estava tudo intacto, as camas feitas, alguma louça lavada na banca da cozinha e um odor a pó requentado pairava no ar. Só a senhora da limpeza ali teria entrado, nos restantes dias, sem testemunhas, o calor do Verão tivera vagar para cozer a poeira. Fui visitar as freiras, jantar, entrei no Açucareiro, hesitante. Durante uma semana, ou assim, senti medo durante a noite. Fechava a porta da entrada com todas as voltas da chave, baixava os estores do andar de baixo, trancava o meu quarto por dentro; escalpelizava os ruídos que chegavam do exterior, a tentar perceber qual deles poderia ser o prelúdio para um ataque, um ajuste de contas sobre o médico que restava; o facalhão com que assassinara a Mimi debaixo da almofada, enfiado na bainha para não danificar a fronha do hospital. Encharquei-me em remédios para dormir, mas dormia mal na mesma, atravessava o sono entre pesadelos confusos, julgava estar num local não sitiado por água, acordava para um alívio ressacado. Por vezes, não muito, o telefone retinia no escuro, o coração saltava-me no peito de susto, na antecipação de notícias aterradoras. Mas não, era uma das irmãs ou o Viegas, pedindo sempre muita desculpa por estar a maçar, mas precisavam de mim, é que dera entrada... Pobres irmãs, que passaram a ter o cuidado de andar em bicos de pés pela minha precária existência. Evitavam incomodar-me e, elas próprias, despachavam, como tinham feito anos a fio, a maior parte das urgências, e até aquelas para as quais não tinham alternativa senão chamar-me, eram cuidadosamente triadas previamente; ao chegar ao hospital encontrava o doente com a temperatura tomada, a tensão avaliada, uma veia canalizada, às vezes um soro a correr; uma hipoglicemia já estava a caminho de controlada e o enfermo a recobrar na enfermaria. Quando terminava, voltava a casa, pelo negrume, vigiando os taludes da berma da estrada, as sombras; sopesava um canivete no bolso como se fosse um amuleto. No hospital apercebiam-se dessa tensão, ninguém acreditava que alguém me fizesse mal, mas temiam pelo meu temor, a madre superiora sugeriu que poderia ter por lá uma cama sempre feita, onde ficaria em noites agitadas de serviço. Não aceitei a simpatia, preferia manter uma divisória que separasse o trabalho da vida privada, apesar da minha vida privada ser uma valente cagada, e, para ser franco, pesava na opção algum receio de, num momento mais destemperado, poder receber a visita nocturna da irmã Noémia, que sempre tivera um fraquinho por mim, e que, coração de mulher, se desfazia agora em desvelos comigo, enternecida pelo meu desamparo e extasiada pela minha coragem solitária... Isso refulgia no modo como me recebia à porta do hospital, como me olhava o tempo em que eu deambulava pela urgência, a barba já despontada pelo orvalho nocturno; como vinha confirmar a ampola de Buscopan, que eu prescrevera a uma cólica, vidro que pousava na minha mão como um passarinho palpitante, perguntando:

“É mesmo isto que o Dr. Pedro quer que dê?”
E eu, seco e breve:
“É, irmã...”, que outra porra mais poderia ser; enquanto ela retirava mansamente a ampola da minha palma, num imperceptível contacto sacro-profano.
Gandulo que se julgava familiarizado no trato com mulheres, sentia-me muito pouco à vontade com aqueles borboleteios; nunca fizera parte das minhas tentações ou fantasias um restolho que envolvesse hábitos, entrefolhos, toucas engomadas e pecados capitais!
E tal como o pessoal de enfermagem do hospital me poupava solicitações, também os próprios doentes pareciam imbuídos desse espírito, que, no caso deles, não se traduzia em me pouparem e, por ventura, aparecerem menos a solicitar consultas, mas sim na mais benévola tolerância ante o comportamento idiossincrático que fui desenvolvendo ao longo daquele mês solitário em que trabalhava de mais, bebia de mais, comia de menos, tomava comprimidos a mais e dormia tão esfarrapadamente que não recuperava do cansaço. As olheiras cavaram-se-me e o bigode descaiu-me, avitaminado. Passei a andar, em permanência, com óculos escuros e tornei-me um tudo nada excêntrico... Uma tarde, após examinar trinta  doentes, senti o alívio de ver sair a porta do gabinete a última ficha, e pus-me a fumar um áspero Além-Mar, marca de que andava a fumar agora. Estava a esborratar a pirisca no cinzeiro e preparava-me para sair quando me pareceu ouvir vozes abafadas no corredor. Ora eu já acabara todas as consultas marcadas para o dia e as urgências que chegassem eram, se surgissem durante a minha permanências nas instalações, anunciadas por telefone pela secretaria. Espreitei pela fechadura da porta do gabinete, buraco que enquadrava os bancos de espera do corredor. E vi, ali alapados e com ar de quem espera médico, umas quatro ou cinco almas. Ora eu já acabara as consultas marcadas para o dia e as urgências que chegassem... Em silêncio, despi a bata e abri cuidadosamente a janela,  abençoadamente deitando para a fachada do hospital e para a liberdade. E como o consultório ficasse no rés-do-chão, saltei com facilidade do parapeito para o exterior. Mas, pouca sorte, na soleira da porta de entrada do hospital, esperavam mais duas ou três alminhas que, não querendo esperar na obscuridade do corredor, gozavam ali a fresca da tarde. Ao verem-me, no desfecho do salto, desataram a falar alto, a dizer:
“Ele está aqui, ele está aqui; vai a fugir...”
O que era inteiramente o que estava a acontecer. Mal aterrei no solo, desembestei em direcção a casa, distante uns cinquenta metros do hospital. Enquanto corria e tirava a chave do bolso, ia olhando para trás e vendo os doentes correr atrás de mim e, agora já a meter tremulamente a chave na ranhura, considerando-os como o bando de zombies que, numa fita de terror, persegue o herói a ver se lhe chupa os miolos. Se eu ao menos conseguisse abrir a porta antes que me tocassem... Consegui, subi as escadas duas a duas, escancarei a janela do meu quarto, que dá para a frente da casa, e desatei a ralhar em altos brados com aquela gente, que me olhava muito séria, destratando-os por me deixarem em paz.
“Voltem amanhã, vejam se têm respeito....”
Casa dos Magistrados: a janela do meu quarto, 1979.
Cordatos, eles lá se foram, sem me levar a mal. Sabiam da minha história triste e voltariam no dia seguinte para me examinar melhor.  
Aos fins de semana eis-me caído nos bailes e, como o tempo ia famoso, preferia os da Filarmónica, ao ar livre, onde me podia sentar numa mesa só minha, a beber as minhas cervejas, os meus conhaques, consolado, sem grande separação de sexos como no Clube, e observando a banda de perto. Lá estava o Gasparinho, perdigotando no trompete, acompanhado pelo Gonçalves, malandro, moreno e barbudo como um cigano, agora longe do jugo da oficina de automóveis e balanceando capciosamente a boca bojuda do saxofone-tenor na minha direcção se acontecia desfilar uma jeitosa à frente do canto onde tocavam. E a D. Nizalda, com um sorriso mais aberto do que na igreja, dedilhando os seus acordes seculares, sentada à mesmíssima organeta que usava na Igreja Matriz.
Era interessante: agora, que estava sozinho na Graciosa, raramente alguém se  sentava à minha mesa. Quer dizer, podia acontecer, mas não permaneciam muito tempo, nem que os convidasse para um copo. Agradeciam, partiam, por vezes o meu consumo ficava pago. Como se me quisessem deixar com os meus botões, ou seria por receio de represálias, medo que contassem ao Gui L.? Mas esse nunca aparecia nos bailaricos, não era visto, e nas poucas vezes que lhe passara perto evitara olhar-me.
À terceira ou quarta cerveja, a paliçada de paus de cabeleira ganhava contornos difusos e sentia-me com lata suficiente para ir convidar uma chavala ao seio do matriarcado. Sucedia poder começar com a Libinha e trocar larachas e provocações durante a dança, a que ela respondia de pronto, o queixo de baixinha levantado de afirmação e desafio e o olhar coruscante – um gesto muito seu, fazendo-me rir, fazendo-nos rir; mas, mais tarde, quando a nostalgia alcoólica me beijava as mangas, o chamamento da Sãozinha, sentada ao lado da tia, tornava-se poderoso e, guardas baixadas como uns suspensórios, lá estava a convidá-la, bolero após bolero, tornando o sorriso da D. Crisália autónomo como o do gato de Cheshire. Num desses enlaces, perguntei-lhe ao ouvido – de outro modo não se ouvia o que dizíamos – se já alguma vez fôra à Senhora do Monte.
“Monte da Senhora da Ajuda? Claro que fui”, disse ela, “toda a gente que é de cá já lá foi...”
“É um sítio muito especial...”, respondi tentando enxaguar a banalidade com que  se referia ao local.
E como ela considerasse o assunto encerrado e eu pressentisse a música no estertor, atirei:
“Não quer ir lá visitar aquilo comigo, no Domingo?”
“Se puder...”, respondeu com simplicidade.
“Passo no Açucareiro depois do almoço e, se a vir, podemos então ir...”
A música acabou, deixei de ter pretexto para estar junto dela e fui-me da Recreativa. Já era Domingo, precisava de me recompor para o eventual passeio.