04 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 37. Senhora da Ajuda

Graciosa: Monte da Senhora da Ajuda visto da vila.
O monte da Senhora da Ajuda é sobranceiro à vila e tem cento e poucos metros de altura, elevação que, nesta ilha plana, é já muito. Há vários caminhos que vão confluir no acesso à subida, e perto da nossa casa há um atalho, não longe do prado para que dá a janela do meu quarto e em cujos torrões se vão dissolvendo os ossos de frango da Mimi.
Da janela via os seus flancos arborizados e, distante, o cume onde alvejavam umas construções que, mais tarde, soube serem três ermidas: uma deu o nome ao Monte, as outras são dedicadas a santos – S. Salvador e S. João – e parece que estão ali há uns séculos, alguém me disse quantos mas não liguei.
Já lá fôra com o Rui, após chegarmos aqui, e uma segunda vez quando cá estiveram a João e a Clarinha, pois o sítio é magnífico para uma vista panorâmica sobre a vila e o oceano e, virando costas ao mar mais imediato, para um olhar sobre o interior da ilha. Depois, já após o meu regresso antecipado, sozinho e tentado pelo apelo que me dirigia da janela do quarto, dei de ir lá quase todos os fins de semana, uma forma dilatada de estar só. É raro, muito raro, encontrar por lá alguém e as ermidas estão sempre cerradas. Uma ocasião, numa destas últimas semanas, saí de lá a correr, disparado monte abaixo, só travei quando o caminho desembocou numa das ruas da vila e alguém se podia pôr a pasmar para o estranho comportamento do único médico da ilha. Foi que senti o monte vivo, e a sua presença começou a adquirir dimensão, como um balão que encheu e nos vai afastando as mãos, ganhou espessura e vida própria, e como que desatou a comunicar comigo, fazendo disparar o coração e o ritmo da respiração. A qualquer momento, achei eu, poderia explodir e os meus pedaços perderem-se na terra, no mar e pelo ar. Parecia romântico, mas meteu-me medo e, antes que alguém invisível desatasse a falar comigo, pus-me a andar dali para fora. Isso foi da última vez, mas, antes, em todas as visitas que fizera ao monte sozinho, a primeira das quais desligadamente despreocupada e quase na pele do turista acidental, algo se acrescentava a cada subida, uma circunspeção qualquer, uma reconcentração vinda sei lá donde, talvez do ruído do vento na copa das árvores, da visão do movimento dos ramos, incessante e sem se revelar; do sol a reverberar na cal das ermidas, dos bancos vazios parecendo esperar alguém. E o mar, o mar, o mar. Lá em baixo, parada e como sem habitantes, a vila não ajudava nada à minha tranquilidade; a nossa casa, a casa onde eu morava, mas que bem podia não morar lá ninguém, aparecia como se nunca tivesse perdido o estatuto de fechada, fora de uso para pesar do Sr. Medina. Insidiosamente, aquilo foi mexendo comigo e de cada tarde que me preparava para lá voltar era atraído por essa repetição, sentia uma apreensão crescente já ao início da subida, tal se algo ou alguém segredasse: um dia, um dia vais ter aqui uma revelação e sabes que a maior parte das revelações podem ser terríveis... Bem, isso quase acontecera na última tarde, a vez em que desci o monte na brida, mas quanto ao que consistiu a revelação ou o susto, acho-me incapaz de o precisar, é bem possível não ter sido nada, nada mais do que eu próprio perante mim próprio, sem ajuste, sem referência...
Suponho ser por isso que me veio, de repente, no baile, aquela ideia de convidar a Sãozinha a ir comigo, cordeiro mais inocente não ia encontrar!
Acordei, tomei banho, passei pelo hospital a saber novidades dos doentes internados (tenho lá cinco neste momento, ninguém gosta muito de estar preso com um tempo tão bom). Fui almoçar à D. Irene que, agora que como sozinho, fica à porta da sala, a olhar para mim, sem dizer nada. Café e meio-whisky na esplanada do Açucareiro, a ver quem passava, nada de inspirador. Fui buscar um saco de pevides para fazer horas, mas nem sinal da Sãozinha. Então vi-a, aparecida não sei por onde, atravessara a praça e entrava na rua que vai dar ao hospital, ia ao nível da papelaria-drogaria. Levantei-me, fui andando devagar, alcancei-a no passeio uns metros à frente, fomos caminhando lado a lado, como quem não quer a coisa e milagrosamente ninguém nos interceptou até que virámos para dentro, direcção do monte. Quase não trocámos palavra até chegar ao cume, ao terreiro onde estão as ermidas e formam assim como que um cenário irreal, quem passa pela cabeça de alguém construir três igrejas no topo de um ovo em pé?! Parecia uma espécie de Portugal dos Pequeninos, a qualquer momento ela podia desatar a fugir por entre aquelas paredes, tipo cabra-cega, evaporar-se. Mas não, sentou-se no longo banco de pedra, cujas costas são a parede inclinada da ermida que parece um pequeno castelo, e pôs-se a sorrir-me, é a coisa que sabe fazer melhor. Eu não sabia bem o que fazer, isto é, sabia bem o que gostaria de fazer, mas não sabia se seria uma boa ideia, seria como cravar o primeiro cigarro após se estar um ano sem fumar. Mas a Sãozinha tinha essa qualidade de atrair sem fazer nada por isso, era bonita, o sorriso acolhedor parecia endereçar várias promessas meigas... Nada que eu (ou o Rui e, provavelmente, variados outros camelos na ilha) já não tivesse concluído dos breves momentos de proximidade nos bailes ou de a encontrar com a tia pelas ruelas da vila. Mas agora estava ali à minha frente, mais carne do que osso, e levantara-se, aproximara-se da  extremidade do terreiro, apoiara as mãos na balaustrada do miradouro, dizia:
“Já viu daqui?”

Juntei-me a ela, deixei flutuar no ar a intenção de contar o que me acontecera a última vez que ali estivera, a quase revelação, o vento a golpear-me as orelhas, as vozes a chiar-me aos ouvidos; mas a presença dela sobrepunha-se, preenchia. Lá longe, o mar chegava-me magnífico, de um azul quase comovedor, gostaria de o comparar aos olhos dela, mas esses eram mais para o verde e o que havia ali de verde que se lhes comparasse? Ah, talvez abraçá-la um pouco, de trás ou mesmo de cernelha, passar-lhe os braços em torno da cintura e pousar o queixo no seu ombro, olhar o azul por essa nesga. Isso seria consolador como  ser um copo alto e alguém a enchê-lo de limonada acabada de fazer, o gelo a tilintar. Não fiz nada de nada, postei-me ao seu lado, encostado mas não colado, no limite do flirt. Ela sem temer os meus avanços – e eu sem os tentar – mas a sorrir em permanência, a ansiar pressentir a possibilidade de haver avanços, mantendo a vibrar em mim a corda do desejo em avançar. Lá em baixo, tudo parecia sereno, perfeito, a vila um destino em que um viajante, que passasse no mar, desejaria aportar, talvez ficar a morar.
“Devíamos ir...”, disse ela olhando o relógio, “prometi à minha tia...”

“Vamos”, anuí de imediato, tomando-lhe delicadamente o cotovelo e orientando-nos para os degraus que desciam do Monte da Senhora da Ajuda.