09 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 38. Náufrago na Macaronésia

Pelo menos duas vezes por semana telefonava ao Porão da Nau a saber em que helicóptero chegaria o meu reforço, a exigir o apoio de um segundo médico. Tantas vezes, que o gajo, por falta de resposta satisfatória, procurava escapulir-se-me, mandava a secretária infectar-me com desculpas: ou estava numa reunião com o senhor Secretário e não podia ser interrompido, ou tinha ido a um encontro de dirigentes de saúde da Macaronésia e só voltava para a semana; ou ainda não tinha chegado, ou já tinha saído. Depois, e aí concluía que o Porão recebera os meus recado, telefonava-me o Schmutzer com falinhas mansas, falando nas dificuldades em pessoal, muita gente de férias, pedidos de paciência, etc., retórica que eu sumia com um:
“Olha, e já que estás tão sensibilizado para o problema, porque não vens tu?”
Este argumento definitivo era também retórica pura da minha parte, pois  preferia estar sozinho com toda a carga de trabalho do que aturá-lo, e só pensar em o ver morar na casa dos Magistrados me dava voltas ao duodeno! Pelo seu lado, idem aspas, nem ele desejava afastar-se dos seus tachinhos ao lume nem morria pela minha companhia... Continuei, sem ajuda, a tratar de mim e a tomar medidas concretas, e uma foi a de acabar com as deslocações semanais às casas do Povo, dado que, para além do tempo queimado e dos poucos doentes que apareciam nessas consultas campais, faziam com que me afastasse da urgência e do internamento, o que não era assisado numa situação de médico único. Assim, escalei a Guadalupe para ir lá vacinar a criançada e observar uma ou outra grávida em consulta de rotina.
Eu próprio, nas solitárias voltas pela ilha em ambulância, era, ocasionalmente, interceptado por alguém atraído pelo lanternim azul que rodava no tejadilho e tendo uma pergunta para fazer, ou para comunicar que tinha um parente em casa a necessitar de cuidados. Resultado dessa troca de impressões, acabava a fazer um domicílio ou transportava alguém na ambulância até ao hospital. A maior parte não eram, felizmente, situações graves mas, como era já tarde e não havia transporte de regresso à aldeia do enfermo, arranjava-se uma cama na enfermaria, a pessoa jantava e passava lá sossegada a noite, domínio dos pensamentos inquietos. Menos eu, que continuava a não conseguir adormecer, com ou sem comprimidos, os quais apenas me traziam numa espécie de suspensão, como se fosse um ser sem peso aquele que interrompia as consultas às onze da manhã, atravessava a vila e ia gozar de uma pausa ao Açucareiro, sentado à sombra dos tijolos da esplanada a beber um café e meio-whisky, pois por ali não havia bolos de arroz, pastéis de nata ou bolas de Berlim. Com certa frequência, nesta pausa matinal, um cliente dos que esperava consulta seguia-me até ao Rossio e ficava-se, sentado num banco ou encostado a uma araucária, a vigiar o que eu fazia e esperando que regressasse ao trabalho. Em mais do que uma manhã, de tão solitário, me tentou a ideia de chamar o voyeur para partilhar um café, um calicezito de qualquer merda, mas isso podia criar enganadoras presunções de preferência, intimidades que poderiam prejudicar, mais tarde, o decorrer do intercâmbio clínico, etc., pelo que nunca levei a coisa à prática.

Conhecia agora os doentes como as minhas mãos, de tanto os ver e rever, e não apenas os doentes, começava igualmente a aperceber-me das teias de relações familiares entre eles e das curiosas repercussões que projectavam nas próprias queixas! Herdara também os doentes do Rui e ia tendo a minha visão de algumas das histórias que me contara nas nossas sabatinas médicas de trazer por casa. Para mim, um dos casos mais perturbadores era o de uma senhora, dos seus cinquenta e picos, com quem era complicadíssimo estabelecer uma conversa minimamente prática e que, enquanto não estava sentada à minha frente – rígida como se aspergida com laca – passava os dias empoleirada na bifurcação do tronco de uma árvore que tinha no quintal, balançando-se como se num baloiço fixo. Perante este tipo de situações, e eram muitas como nos avisara o velho Dr. Gregório, sentia-me completamente impotente e via recuar perante mim a sensação reconfortante de ter solucionado um caso, um problema, gratificação tão presente nos actos cirúrgicos em que ajudava o meu pai e em que o doente agora tem um problema agudo, que lhe ameaçava até a vida, e horas depois ei-lo na enfermaria ou no quarto, ainda branco mas já sorridente e do lado de cá da existência. Tudo aquilo me abalava, me depenicava a autoestima e, embora continuasse a desfolhá-los, a procurar no índice, os volumosos livros médicos para pouco, muito pouco, me serviam. Essa descrença contaminou a leitura, mesmo a de obras de ficção, que deixaram de entreter, distrair ou consolar, e os enigmas policiais pareciam-me artificiais, os mundos imaginados dos livros de ficção científica do Sr. Barcelos rebuscados. Deixei de ler, enchi-me da tradução do Tarot e negligenciei o caderno onde, laboriosamente, a ia transcrevendo e já ia em 70 páginas.
Restava a música mas, mesmo essa, sobrevivia pelo automático que era meter uma cassete na ranhura e carregar no play do gravador. Já não podia ouvir o Bob Marley nem os Dire Straits e o que ainda me ia fazendo certa companhia eram os sons de exílio da Amália Rodrigues e do Carlos do Carmo, e uma cassete com a IV Sinfonia do Mahler pela Chicago Symphony Orchestra, dirigida por Georg Solti e com Kiri Te Kanawa como ave canora principal. Deus, como as cordas, os metais e aquelas vozes soavam numa casa vazia!