12 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 39. Horror ao vazio

Carapacho, Outubro 1979: Delegada do Procurador emergindo entre rochedos.
Ainda tenho por aqui uma fotografia em que emerge, ao fundo, entre os rochedos e, no verso, escrevi “Carapacho, Outubro 1979”, o que atesta que, nesse mês, já ela integrava com naturalidade as nossas incursões excursionistas pelas partes amáveis da ilha. É, pois, plausível que tenha chegado no fenecer de Setembro ou mesmo no princípio de Outubro, uma vez que, na ilha, a intimidade entre expatriados se estabelecia rapidamente.
Recordo, isso sim, um dia, à hora de jantar, em que, ao entrarmos na sala de pasto da D. Irene, deparámos com quatro lugares postos na mesa, o que era raro suceder. Ali, jantávamos e almoçávamos só dois e mesmo quando insistíamos com a Libinha para que fizesse companhia – a proximidade era grande, ela era companheira assídua dos nossos serões – a moça negava-se a comer connosco, limitando-se a sentar-se à mesa na borda de uma das cadeiras, como se fosse  visita em casa dela. E a D. Irene, sem pronunciar palavra, não aprovava essa mistura, percebíamo-lo no silêncio mais cortante com que punha e tirava pratos ou trazia travessas, ou no bater de portas de um Oriolando que saía mais cedo para escapar a um súbito extremar da tensão doméstica.    
Assim, os pratos extra só podiam destinar-se a alguém de fora, alguém que teria chegado sorrateiramente num barco, pois nesse dia não houvera helicóptero, nem de carreira nem de emergência. Logo, não seria um alguém suficientemente notável, presumíamos enquanto nos sentávamos aos lugares do costume e aguardávamos o aparecimento da nossa estalajadeira para lhe espremer novidades. Entretanto chegaram pancadas tímidas da porta da rua, vozes abafadas, e eis que entram dois estrangeiros na sala, uma mulher primeiro e, atrás dela, um tipo hesitante, encabulado. O Oriolando, como homem da casa, atrevera-se à sala para as apresentações e, espreitando por trás dele, a D. Irene vigiava se seria já o momento de fazer entrar novamente a terrina de sopa de vagens enlatadas.
“A Sr.ª Dr.ª Delegada do Procurador da República... O Dr. Pedro, o Dr. Senra... Ah, e o marido da Dr.ª..., peço desculpa...”
Divertidos com a novidade e o imbróglio, levantámo-nos, solenes, das cadeiras, um de nós ainda com o guardanapo enfiado no colarinho, e fomos cumprimentar, aproveitámos para sacudir a mão do Oriolando num gozo de encenação a que ele não correspondeu nem se furtou.
A Dr.ª Delegada era uma bela morena de cabelos negros; mais ou menos da nossa idade, talvez um pouco mais, mas não teria ainda batido nos trinta. O mesmo se passava com o marido, um tipo de ar preocupado que se manteve toda a refeição praticamente calado, enquanto ela, à medida que deslizava para as vestes oficiais, ia informando, entusiasmada, ter concorrido aos Açores por as condições serem extremamente vantajosas para alguém em início de carreira, como ela.
“Venho por dois anos, o que equivale a quatro anos dos de lá. Mas se fizer, aqui, uma segunda comissão de dois anos, isso equivalerá a oito anos lá, o que,  automaticamente, me fará progredir para outro patamar e ter direito a uma colocação...”
Mantivemo-nos calados, o Senra e eu, um silêncio pouco habitual em nós quando nos brandiam disparates em frente aos olhos, mudez provavelmente temperada na compaixão que nos despertava o acabrunhamento do marido, que não partilhava, por palavra ou expressão, do entusiasmo da esposa.
Carapacho (Graciosa), 1979: Pedro Serrano, Marília, Virgílio Senra.
“Coitada”, pensava eu, talvez pensasse o Virgílio, “não faz a puta da mais pálida ideia do que é amargar cada dia nestas paragens...”
É que já víramos muita coisa naqueles meses, fosse por autoanálise, observação de quem chegava ou, até, no confessionário das consultas, onde aparecia sempre um ou outro expatriado a queixar-se da vida. Havia todas as variações possíveis: aquele que nunca imaginou previamente onde iria parar; o que pensa que uma ilha é o mesmo que um continente; o que chega entusiasmado e se vai deixando definhar, devagarinho; aquele que entra em pânico antes de decorridos quinze dias (uma barreira temporal significante) e se vai embora a correr, ainda que ponha em causa todas as vantagens e os contratos assinados, ou, talvez fosse o perfil mais próximo do nosso, o que vai andando, oscilando entre os polos extremos da disposição, com recaídas frequentes.
Mas, enfim, ela acabara de chegar, prenhe de lirismos e intenções e, na sua verdura, confundia a colónia penitenciária com uma colónia balnear... Quando lhe aparecesse lá por casa o Sr. Medina, a que, aliás, iria ter de aturar o zelo burocrático vinte e quatro horas por dia, de pasta e fita métrica a fazer o inventário dos tapetes e das estantes... Ou talvez não, talvez o Sr. Medina se deixasse apanhar nas curvas de algum fascínio insuspeito e se lhe rendesse como um cordeirinho... Quem saberia predizê-lo a partir da colher aguada que ela ia metendo à boca enquanto continuava a desfiar vantagens?
Quanto ao marido, tinha vindo apenas por companhia, para a ajudar a adaptar-se aos primeiros dias; ficaria até ao próximo helicóptero; esperava que nós, como vizinhos, como gente que já estava ali há mais tempo, a pudéssemos ajudar na adaptação. “Claro, no que pudermos ser úteis...”, oferecíamos sem brilho, já jantados e à espera da primeira aberta para nos pormos a andar dali para fora.
Teve algo de desolado aquele primeiro jantar da Luísa na Graciosa, igualmente me pareceram tristonhos os ruídos abafados, as luzes amortecidas que chegavam da casa contígua, agora habitada.
“Eh, pá, o que se passa aqui ao lado?; perguntou o Pombo ao aparecer de visita nessa noite. Ele é luzes por todo o lado...”
“Chegou a Delegada do Procurador...”, informámos, cada um mais lacónico do que o outro.
“É boa?”, quis saber.
Era, mas nenhum de nós achou que ele merecesse resposta.
Na terça-feira seguinte, mais acabrunhado do que na noite em que o conhecêramos, o marido da Luísa subiu para o estribo do Puma, a fralda da gabardina a adejar ao vento com maior vivacidade do que ele, que mal se atrevia a acenar um adeus à mulher, encandeado pela pequena multidão que se apinhava nas bordas do campo de futebol para ver partir o heli.
Quando, na primeira semana de Fevereiro do ano seguinte, deixámos a ilha definitivamente, a delegada do procurador foi despedir-se ao barco, lágrimas nos olhos e o desejo intenso de que chegasse a vez dela de se pôr andar... Angustiada pela nossa partida, mas também esperançada no presságio que era ver alguém chegar ao fim de uma comissão e ir-se, de vez. A ideia, louca, de uma segunda comissão de dois anos na ilha era morta e enterrada e, apesar de estar apenas há quatro meses na Graciosa, já contava os dias para o regresso, já exibia todos os tiques dos cativos.
“Obrigado por tudo...”, dizia abraçando-me e invocando as semanas, os dias, as horas em que eu, mais desvairado do que ela, a admoestava, ao mesmo tempo que, em modo vade retro, resistia às suas aproximações, geradas na solidão e no tédio, comportando-me não como o objecto afortunado de um encantador assédio, mas sim como o eremita da casa ao lado.
“Luísa, não entres nessa! É uma loucura, tu, no fundo, não queres isso... E podes dar cabo do teu casamento, que ainda agora começou...”
E continuava a ralhar-lhe, o mais ternamente que era capaz, defendendo-a de si própria, afastando-a, tentando ilustrar-lhe a inutilidade que seria qualquer investimento em mim, um eu que mal reconhecia, pois não era minha característica habitual resistir a tão tentadora cantada, vinda de uma tão atraente pessoa. E, tal o bom pai, repreendia-a, sentado na borda da cama dela, entrelaçando uma mão na sua para atenuar a aspereza do ralhete, ou esboçando uma carícia fugidia nos fofos cabelos cor de breu. Grata e um nadinha mais reconciliada, ela abraçava-me na hora de voltar à minha metade da Casa dos Magistrados, polvilhava-me o esternoclidomastoideo de lágrimas e ranho, e eu saltava o muro do terraço, regressava ao meu solitário quarto sentindo-me como se terá sentido o camelo que acabou de atravessar o cu da agulha.
Por esses dias, saía de um longo período em que vivera sozinho naquela casa: o Rui abandonara a ilha na sequência do incidente com o presidente da câmara, o Virgílio Senra acabara de chegar e a Marília andava perdida por Mirandela. Assim, o saber que bastava bater na parede ou cruzar o murete do terraço para ter companhia era uma tentação diária, mas apercebia o negro das cáries que se ocultavam sob o tédio e a solidão... E sentava-me à secretaria a olhar o caderno onde ia alinhavando a tradução do Tarot, a qual não saía do sítio, tal como a leitura do Proust de onde ainda não conseguira passar além da descrição dos espinheiros do lado de Guermantes, no Volume I. Ouvia fado e escrevia cartas para todo o lado, algumas de teor bem estranho. Tentei até iniciar um diário num caderno de merceeiro, de capa dura e etiquetada com um rectângulo de linhas vermelhas onde escrevi, e foi tudo quanto aí registei: “A Santa Cruz”.  

É óbvio que tudo isto não acabou bem e o mundo tem horror ao vazio. Atento como um abutre, o Pombo, o nosso Casanova de serviço, rondava e acabou por preencher aquela necessidade que esvoaçava contra os vidros na casa dos Magistrados. Pouco passara sobre a chegada da nova autoridade judicial quando Santa Cruz da Graciosa, escandalizada, se deu conta e propagandeou aos quatros ventos o escaldante romance entre a delegada e o veterinário. Durou pouco, claro, esse idílio, durou nada nem nada foi, mas enquanto durou arrastou consigo detalhes sórdidos e embaraços à hora do jantar em casa da D. Irene, risinhos nos Barcelos, apartes na farmácia; um novo argumento para os que pregavam que do Continente somente chegavam poucas-vergonhas ou ideais perigosos.