16 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 40. Novembro

Ilha da Graciosa, Açores.
O Rui voltou em Novembro, já o tempo atmosférico regressara ao embrulho do costume: vento forte, brumas impenetráveis e rajadas de chuva que faziam os helicópteros hesitar e permanecer agarrados ao asfalto das Lajes; mar bravio, pescadores entediados. Era em temporadas destas que podíamos estar duas  semanas sem correio, sem renovação de stocks de rum, whisky, soros e oxigénio; nenhuma cara nova pelas ruas da vila. Sair de casa, dar uma volta pela ilha para arejar, para desopilar, era empreendimento votado ao insucesso e o que se via das janelas chorosas da Dyane era tão deprimente que mais valia ficar em casa: pedra escura, mar de chumbo, céus revoltos com nuvens em debandada, chicotadas de chuva fustigadas por ventania agreste. Onde estavam os dias dourados, o azul dominante, a Senhora do Monte e as ermidas acolhedoras? Gone with the wind, como diz o outro. Nas consultas também notávamos a diferença e os corredores voltaram a encher-se de tosse e da melopeia de motor de arranque dos escarros, as camas povoaram-se com as pneumonias e a exacerbação das bronquites dos aficionados de Gold Flame, Brazão e Fama. Havia também as bronquites dos amantes de Marlboro ou Chesterfield, mas esses faziam tudo por ser observados em Angra ou Ponta Delgada, onde os especialistas lhe receitavam o mesmo que nós mas se podiam queixar do preço da consulta.
Agora, que o Outono ia adiantado, os homens que queriam ser auscultados tinham uma razão objectiva para isso e não apenas por capricho de Verão, pela tentação  em sentir o deslizar do estetoscópio ou o percutir dos dedos dos médicos de serviço num corpo excitado pelo calor e por gostos censuráveis. Nós, é claro, ficávamos lixados, ludibriados pelo tempo gasto, pela história clínica inerme que sempre debitavam, comentávamos entre nós, entre o escandalizado e o divertido:
“Hoje apareceu-me um cabrão que não tinha nada de nada, não queria nada a não ser que o auscultasse... Quando lhe mandei despir a camisa ficou nervoso como uma virgem, parecia que fazia um strip ao tirá-la!”
“A sério? Também já me aconteceu... Como era o gajo? Era um tipo magrinho, de cabelo...”
“Não, era gorducho, a ficar careca...”
Não nos recordava de jamais os ter visto, mas, dias depois, eis que os cruzávamos numa rua da vila, reconhecíamo-los atrás do balcão de uma loja ou repartição; quem diria?
“Viste a aliança?”
Aqueles, presos, sem outro remédio, ficavam-se pela ilha, pela pobre excitação de ir ao médico local, outros aliviavam-se em outras paragens, onde dariam menos nas vistas; era o que se dizia. Era o que se dizia, mas sempre em aparte abafado, na aparência tudo corria na mais maravilhosa polidez social, cada um no seu lugar a desempenhar o papel que lhe era esperado por tradição, família ou posição. Talvez à noite as coisas se tornassem um tanto mais pardas e os vultos deslizassem mais fluidos ao longo das paredes ou no segredo das quatro paredes.
Bem, mas o Rui voltou e, como ele ia voltar, o Virgílio Senra apanhou um Puma de volta à Terceira na terça-feira, dois dias antes dele chegar. E na quinta, com o pretexto de que o tempo piorara, ninguém se esforçou por arranjar helicóptero ao Rui, teve de vir no barco que fazia a rota do grupo das ilhas ocidentais.
Ilha da Graciosa, Açores.
Fui esperá-lo ao porto, se assim se pode dizer de um cais de atracação que ficava no meio das ondas. O escaler partira e um cisco longínquo descia lentamente pela escada pendurada no portaló. Ao meu lado, sentia a Marília tensa; acho que, tal como eu, se apercebia da expectativa, da quantidade anormal de gente que, para uma tarde chuvosa de Novembro, nos rodeava. Era assim, não havia mais o que fazer, o atendimento nas repartições públicas já encerrara e sempre era o médico ameaçado que regressava à casa emprestada, um filho quase prodigioso. Ele, pisou terra calmo, cumprimentando-nos com gravidade, o olhar atento por sobre os nossos ombros. Sem dúvida que algum daqueles que deambulava por ali iria levar novas aos paços do concelho, não mais do que isso; o Rui obtivera garantia de que tudo decorreria sem incidentes no tempo que nos restava.
Assim foi. Ainda em Novembro, tive um desgosto, enterrou-se-me na consciência como uma farpa. Calhara-me atender na urgência uma rapariga com alarmantes sinais de dispneia e uma auscultação desgraçada. Enquanto escutava o que lhe ia pelo tórax, perscrutava o tempo lá fora pela vidraça da janela. Não seria possível encomendar helicóptero para tão cedo, nem hoje (umas cinco da tarde) nem amanhã... A mãe ia recomendando à miúda que se portasse bem, que não se mexesse tanto. A filha teria catorze ou quinze anos, mas a sua idade mental era muito inferior e os traços da fácies denunciavam um cromossoma a mais no par 21, o que, para mim, era uma porra dum contratempo: naqueles tempos, muito mais do que agora, a esperança de vida dos mongoloides era curta e, muitas das vezes, eram os problemas respiratórios que os levavam, questão de anatomia do crânio e das vias respiratórias, que entupiam facilmente. A febre nem era assim tão alta, não que, ali, nela, tivesse demasiada importância... Chamei o Rui, para que a visse, opinasse sobre se eu estava a ver bem, se o meu alarme seria real. Internei-a no quarto entre as duas enfermarias, para que a mãe pudesse ficar junto dela e a  agitação da doente não contagiasse as outras internadas. Andei por perto o tempo todo, ia a casa, mas a apreensão fazia-me voltar ao hospital. Era difícil mantê-la com oxigénio, aquela tripinha de plástico, enfiada no nariz abaulado, incomodava-a, arrancava-a; o braço canalizado estava amarrado a uma tala de madeira para que não acontecesse o mesmo ao soro de onde pingava o antibiótico. Durante a noite afundou-se e, manhã cedo, perante os meus olhos e uma adrenalina que não serviu de nada, vi-a partir para o lado de lá com uma tremenda sensação de inutilidade... Inútil eu, inútil ela, inútil tudo aquilo, uma inutilidade pegada. A irmã Celeste, captando o meu abatimento, reafirmou a sua convicção existencial de que tudo aquilo era pelo melhor:
“Não se rale, Dr. Pedro, a esta hora já está a caminho do Céu...”
Talvez. Eu, sentindo-me livre, fui-me, caminho do Açucareiro, tomar o pequeno-almoço e um meio whisky com o café.
“Famous Grouse!”, disse o Rui quando se me juntou, reconhecendo a bebida pelo gole que tomou emprestado ao meu cálice, “estás a beber dessa merda!?” 
“Não há outro... O helicóptero não tem vindo...” 



© Fotografia ao lado: Graciosa, Novembro de 1979, fotógrafo desconhecido.