17 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 41. Primatas agitados

Porão da Nau.
Nos primeiros dias de Dezembro, ao, finalmente, encaixar a amplitude da pulsação dos médicos da Periferia que ainda restavam nos Açores, o Porão da Nau sentiu-se nervoso, viu-se compelido a aliviar os cordões à bolsa onde escondia os segredos do ofício.
Um pouco por todas as ilhas, a malta começara a soprar o pó às malas de porão, recalculavam-se e recombinavam-se os dias de férias restantes, para que os mais afortunados pudessem ir passar o Natal a casa e já não regressassem. Oficialmente, o Serviço Médico à Periferia iniciava-se a 1 de Janeiro e terminava a 31 de Dezembro, no dia 2 de Janeiro do ano seguinte todos devíamos estar a apresentar-nos no hospital de origem. No caso dos Açores, é certo, a nossa fornada fora enviada para o arquipélago apenas em Fevereiro, mas a responsabilidade pelo atraso era da organização, pois o rebanho estava pronto a partir desde o Ano Novo de 1979.
Claro que foi com esse pretexto legal que eles nos vieram – o de só completarmos os doze meses de missão a 31 de Janeiro de 1980 – mas, de facto, tivemos de aguentar mais um mês porque nada estava preparado no Continente para envio de uma nova remessa de médicos para os Açores e Madeira. Negligência deles, sacrifício nosso. O costume!
A raiva colectiva soergueu-se como uma onda e, como antídoto, o Porão da Nau atirou-lhe para cima com o argumento normativo de só se poder deixar um posto em caso de substituição efectiva; com o juramento de Hipócrates e mais todas as porras de que se foi lembrando. Valeu-lhe a nossa dispersão geográfica, a falta de coesão profissional, a inexperiência; o nosso representante, que defendia mais os patrões do que os representados.
Abandonados à nossa sorte, dei comigo a combinar com o Rui como iríamos fazer e ele, como passara dois meses seguidos fora da ilha e não estando demasiado interessado em ir a casa nas Festas, não se importou de ficar a alombar, sozinho, o Natal e a passagem de Ano: eu regressaria a 5 de Janeiro. Eram, precisamente, os dias de férias que me sobravam e o melhor seria queimá-los, pois ninguém me garantia que, mais tarde, no Continente, os fossem considerar válidos. Fazê-lo, seria como mudar para outro país e invocar direito alienígenas.
Parti de Santa Cruz a 22 e deambulei por uma consoada que, embora tenha posto na mesa bacalhau e peru, não foi carne nem peixe; estive por ali em jeito de corpo presente. Não posso dizer que tivesse saudades da Graciosa ou preferisse lá estar, mas acabei a telefonar para saber como ia tudo, a operadora da Terceira contente com a variação de estar a falar comigo a partir do Porto e a desejar-me boas festas, extensíveis à “mãezinha e ao paizinho”. Em Santa Cruz ia tudo rolando, os Barcelos tinham-no convidado para jantar nos dois dias de Natal; o doente da motosserra continuava internado mas “já faz jus à espécie”, como dizia o Rui para informar que já mexia o polegar contra o dedo mínimo. Fiquei muito animado com a notícia, mal entrei na sala contei ao meu pai, que ia remexendo as achas da lareira com a tenaz enquanto ouvia novidades sobre um caso que já conhecia.
Umas duas semanas antes, aparecera-nos um desgraçado na urgência, aos uivos e com o lençol que o cobria na maca alagado em sangue vivo. Aos arrancos, contou que andava a desbastar uma árvore e a motosserra resvalara sobre a mão que segurava o ramo até quase lhe decepar o polegar da mão esquerda. A zona de esfacelo era uma cagada de sangue empastado e sangue a babar; o ferimento expusera a articulação entre a primeira e a segunda falange e o nacarado dos tendões. Uma merda! Uma merda acima das nossas capacidades técnicas formais, aquilo era assunto para cirurgiões diplomados e não para estagiários como nós. Mas o tempo não desdenhava Dezembro, as brumas cobriam tudo e um vento danado, em vez de as levar, parecia arrastar mais e compor uma estola branca em torno da ilha, tornando o mar lívido e traiçoeiro. “Helicóptero, fodias-te!”, como costumávamos resumir situações similares. E, então, relembrando os ensinamentos do meu pai e do Dr. Raul Figueiredo, nossos mestres em tudo quanto sabíamos praticar na precisa arte dos barbeiros, resolvemos agir: é que os tendões quando seccionados, e à medida que as horas passam, tendem a retrair e depois não se conseguem justapor e costurar, e, sem tendões, uma mão fica como uma marioneta sem fios, isto é: parada, sem préstimo para todo o sempre. Por outro lado, se aguardássemos passivamente o bom tempo e o transporte aéreo, a mão poderia gangrenar e, quando o doente chegasse ao hospital da Terceira, só restaria amputá-la... Pesado tudo isto, para grande alegria das irmãs, o bloco operatório foi arrancado à sua tristeza fria de abandono. As luzes sobre a mesa operatória acenderam-se, os ferros cirúrgicos tilintaram nos tabuleiros e a irmã Noémia arrastou para dentro da sala um aquecedor a óleo, para quebrar a atmosfera de barco naufragado que ali reinava. Por ali estivemos – o Rui, eu e o enxame das freiras – umas boas duas horas, a laquear vasos que teimavam em sangrar, a limpar esquírolas de osso e farrapos lacerados de pele, a reconstituir, com o credo na boca, os topos avessos dos tendões. O doente gemia, lamentava-se, tentava espreitar o que lhe fazíamos; um de nós injectava um pouco mais da anestesia local, que íamos infiltrando por planos à medida que avançávamos carne dentro; brincávamos com a sua ansiedade e com a nossa:
“Não fale, amigo, senão a anestesia sai-lhe pela boca...”
Analgésicos, antibiótico, um soro reforçado para ajudar a recompor o sangue perdido. Quando chegámos a casa estávamos exaustos, tresandávamos ao fedor a preservativo das luvas de borracha; eu parecia um Quasímodo, as costas num feixe de estar tanto tempo dobrado. Pensámos telefonar aos colegas de Angra, a contar o sucedido, a pedir instruções e sugestões para o pós-operatório, mas acabei por ligar antes ao meu pai, que, ao contrário do que iria suceder com Angra, quis conhecer todos os pormenores do incidente e ouviu religiosamente a descrição dos procedimentos cirúrgicos. No seu ver experiente, tínhamos feito tudo quanto podia ser feito e, se as coisas corressem mal no futuro próximo, o pior que poderia acontecer era o homem perder o dedo, mas isso sucederia em qualquer lado, na Graciosa ou em Angra do Heroísmo. Por isso, as notícias do Rui sobre o doente da motosserra me causaram tanta satisfação e as levei, tão entusiasmado, à beira da lareira.
“Esse teu amigo é um ponto...”, ria-se o meu pai do modo darwiniano como o Rui referira o retomar da capacidade de oposição polegar-mindinho, “mas é isso mesmo. A mão pode não ficar muito bonita – acho que não vai ficar – mas, aqui, o importante é que funcione!”
A noite de passagem de ano foi uma merda, é sempre, abusei mais do que a conta e no dia seguinte, estava com uma tremenda ressaca. Por volta das quatro e meia da tarde, levantara-me há pouco, a rádio deu a notícia: terramoto nos Açores, violentíssimo, 7,2 na escala de Richter; diziam que Angra do Heroísmo ficara praticamente destruída, os mortos eram mais de cinquenta e os desalojados aos milhares... São Jorge e a Graciosa também tinham sido afectados; o epicentro fora no fundo do mar, numa linha submarina algures entre a Terceira e a Graciosa.
Açores, sismo de Janeiro 1980: localização da linha de rotura.

Tentei ligar para Santa Cruz: ninguém atendeu. Não consegui, sequer, falar com alguém na Terceira, fosse no hotel ou nos números da Direcção Regional de Saúde. Telefonei ao Paulo Amorim, que estava no Continente como eu: não sabia de nada, nem sequer do terramoto! Ficámos de nos contactar, o primeiro que tivesse notícias. À noite, já tarde, ele ligou de volta: alguém lhe telefonara, estavam a arrebanhar tudo quanto podiam no Continente, a organizar equipas e transportes. Decidimos ir por conta própria e pelos nossos meios. A minha mãe gemeu de aflição por eu partir e aquilo, lá, a abanar como um dente de leite. No dia seguinte o Paulo e eu partimos para Lisboa e a 3 de Janeiro, uma quinta-feira, muito cedo pela manhã, o avião da TAP sobrevoou a Terceira. Ia no lugar à janela e o mais parecido que vira com aquilo eram as fotografias de Londres, ou de Berlim, após os bombardeamentos, amigos ou inimigos, da II Guerra Mundial.