23 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 43. O barco está ancorado ao largo

Ilha Graciosa.
O barco está ancorado ao largo, os baús seguem já mar fora no escaler, empinados para que o resto da carga a embarcar caiba; faço ideia como as coisas que arrumei, tão pressurosa e logicamente, devem ir lá dentro! Graças a Deus decidi levar o Aiwa na bagagem de mão, pois assustaram-me as informações sobre o futuro levantamento dos baús em Leixões. Quando chegarem, sabe-se lá quando, terão de ser desalfandegadas como se estivessem a chegar da Venezuela ou de Beirute e o Aiwa, japonês e comprado no Porto, iria, certamente, ser tomado como contrabando americano! Vamos ter de contratar um despachante, pagar não sei quantas taxas, como se estivéssemos a importar um bem do estrangeiro e os Açores não fossem território nacional. Por tudo o que vi este ano de ambos os lados do oceano, quase duvido que o seja.
Lá longe, um guincho puxa uma rede de carga até ao convés, os baús não são mais do que caixas de fósforos suspensas no vácuo. O escaler regressa à enseada para nos buscar. A Luísa e a Marília vieram despedir-se. Comecei a enfiar coisas na arca há uma semana, como modo de selar e tornar sem retorno a última discussão que tivemos com o Porão da Nau. Janeiro a desaparecer do calendário e ele a insinuar que poderíamos ter de ficar mais algum tempo, entrar por Fevereiro dentro, tornar indefinido o regresso.
“No dia 1 de Fevereiro, o mais tardar, saímos daqui. Se não tiver ninguém para nos substituir, pior, o problema é do senhor...”
A isso acrescentámos a lembrança das urgências ainda não pagas, ameaçámos que iríamos passar por lá a buscar o dinheiro, que não sairíamos dos Açores sem ele, e mais outras exaltações de que nos lembrámos no momento. Como paga, nada de helicóptero para o regresso: se queríamos ir embora, então que enjoássemos o mar de Inverno, que amarinhássemos por escadas de corda bamba.
Ilha Graciosa.
À força de “Ei!” chamam-nos do escaler, urgem-nos a que nos apressemos, o mar está bravio, a tarde avança. A Marília e a Luísa abraçam-nos, estão comovidas por ver os companheiros de exílio partir, o coração pequeno por ficarem. Pela metade do trajecto até ao barco ainda acenam do porto, depois tornam-se ciscos quase indistintos, iguais aos outros que deambulam em terra.

Do convés fico por um tempo a ver a ilha afastar-se, primeiro parece aumentar de tamanho à medida que se alarga o seu contorno, em seguida vai recuando, recuando, até se tornar um rochedo como outro qualquer, nem parece haver  sinais de vida por ali. Sinto o frio e vou para dentro.