19 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 42. O passeio do almirante

Ilha Terceira, Janeiro de 1980.
Apesar do caos anunciado nos noticiários, havia táxis no aeroporto. O nosso motorista era um tipo do género calado e fez a viagem entre as Lajes e Angra em silêncio. Ou talvez não fosse esse o seu género e o que acontecera o tivesse emudecido. Alinhei pelo diapasão enquanto ia olhando, incrédulo, as ruas e ruas de casas destruídas, sem telhados, de paredes esboroadas, traves-mestras caídas ou penduradas como se fossem palitos. Tudo deserto. Onde estavam as pessoas? Tinha passado ali um exército e, alertadas, as gentes anteciparam-se e fugiram, ocorreu-me ao cruzarmo-nos com dois jipes americanos... O ar, outrora tão límpido e marítimo, estava espesso, amarelado, devia ainda haver muita poeira suspensa no ar, que ainda não tinha tido tempo de assentar e conspurcar o verde vivo dos campos com as cores do deserto.
A meu lado, o Paulo reagia desajustadamente aos estímulos visuais e, cutucando com frequência o meu cotovelo, apontava uma ruína especialmente vistosa, como um poste eléctrico meio tombado com os fios ainda pendurados, e dizia:
“Já viste aquilo?”, após o que se torcia de riso, um riso contido, de mão na boca, mas suficientemente estridente e disparatado para o chauffeur começar a espiar-nos pelo retrovisor. E assim fomos até ao Hotel Angra, entre risadas e silêncios, e era tudo tão absurdo que me senti supérfluo quando, ao pagar, confessei ao homem:
“Desculpe o meu colega. Quando fica nervoso, dá-lhe para rir...”
Na Direcção Regional, tropeçámos num Porão da Nau enlouquecido de iniciativa; foi inútil ficarmos à espera nas cadeiras em frente à sua secretária, como nos tinha mandado com um “sentem-se, venho já...”
Não vinha. Entrava, sentava-se, puxava uns meios-óculos para o nariz e logo se levantava com um papel, saía; ouvíamo-lo atender um telefone na sala ao lado, gritar com uma secretária. Numa das passagens pelo gabinete, como se tivesse acabado de fabricar a notícia, informou:
“Serrano, está tudo combinado. Amanhã, o almirante Silva Horta vai fazer um reconhecimento às ilhas do grupo central, deixa-o na Graciosa. Vá ter às Lajes, de manhã, cedo...”
“A que horas, mais ou menos?”, quis saber, estranhando, ao mesmo tempo, que um almirante se fizesse ao mar por uma base aérea.
Ele encolheu os ombros. Tinha mais o que fazer.
Ao contrário do que podia supor, a boleia foi em helicóptero e não numa fragata ou num contratorpedeiro e o almirante não apareceu vestido em brancos e dourados, como o homem dos gelados. O almirante Silva Horta[1] era um afável senhor de fato e gravata, dos seus cinquenta e muitos e ar britânico. Desempenhava o cargo de Ministro da República para os Açores – uma espécie de governador civil de luxo – e o seu maior interesse naquele giro por sobre as ilhas era verificar o que se passara em S. Jorge onde, constava, uma ponta da ilha teria rachado e caído ao mar, populações inteiras isoladas que urgia evacuar. Em caminho pousariam na Graciosa para me despejar.
Almirante Silva Horta.
Assim se passou e sobrevoámos primeiro S. Jorge, onde, de facto, uma das extremidades da ilha abatera e caíra à água. Com o tempo, o que não ficasse sepultado no mar transformar-se-ia numa nova fajã: tornar-se-ia verde e fértil, construir-se-ia naquele novo território que passara de vertical a horizontal. Ainda se notavam as monstruosas fissuras e a rocha parecia viva, como se ainda estivesse a sangrar pela zona da brecha. No interior do helicóptero comentava-se que pedaços inteiros de floresta tinham mergulhado no mar, a pique, e que uma lâmina de água se elevara até quase atingir o topo duma arriba. Seis pessoas morreram e três estavam desaparecidas, mas ninguém contava revê-las, pois, à hora do abalo, andavam muito perto da zona da fractura.
Na Graciosa, pelo contrário, não morrera ninguém, havia algumas casas  destruídas  e o aumento de urgências no hospital ficara a dever-se ao pânico e à descompensação de situações psiquiátricas. Nas enfermarias, preventivamente, as camas tinham sido afastadas das paredes alguns palmos, o que conferia um estranho ar ao local, como se os leitos fossem jangadas a vogar num soalho encerado.
Até deixarmos a ilha, quase um mês mais tarde, a terra tremeu diariamente. A maior parte das vezes não nos dávamos sequer conta, outras estávamos a jantar e o lustre da D. Irene fazia tilintar sobre as nossas cabeças o vidro dos penduricalhos prismáticos. Outras ocasiões, era o boneco de porcelana sobre a TV dos Barcelos que tremia, suspendíamos a atenção à telenovela e olhávamos uns para os outros por uns segundos, não muitos.
No dia seguinte, remexendo o seu café cheio no Açucareiro, o Sr. Medina perguntava-me pela réplica, se sentira a da véspera.
“Qual delas, Sr. Medina?”, inquiria-o, irónico.
Angra do Heroísmo, Ilha Terceira, Janeiro 1980.
“A das 20:35”, dizia ele muito sério, fazendo-me pensar ser bem possível que mantivesse uma anotação sistematizada dos abalos no papel pautado do Tribunal e que seria, por isso, algo arriscado retorquir-lhe com um:
“Essa, confesso que não, só a que passou às 21 e 22...”







(1) Henrique Afonso Silva Horta (1920/2012), almirante da Marinha. Governador de Cabo Verde na fase de transição para a independência, e Ministro da República para a Região Autónoma dos Açores, 1978-1981.