25 setembro 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 44. Epílogo

Nunca mais voltei aos Açores, nem ideia de lá voltar tão cedo enriquecia as minhas intenções. Mas o tempo rodou e, na segunda metade dos anos 80, quis o acaso que integrasse uma Comissão, dependente de serviços centrais do Ministério da Saúde, com atribuições na formação e especialização de médicos. E decidiu o presidente desse grupo que, anualmente, uma das reuniões de trabalho da Comissão tivesse ordinariamente lugar nas regiões autónomas; seria um modo de acompanhar in loco o que ali se passava.
Nos Açores reuníamos alternadamente em S. Miguel, na Terceira ou no Faial, este último o destino secretamente preferido da maioria, pois aquele conjunto de três ilhas à vista umas das outras – Faial, Pico, S. Jorge – animava o mar e diluía a sensação de isolamento; o aglomerado era, por si só, um mini-arquipélago de brinquedo.
O esquema da visita de trabalho obedecia, sem rigidez, a um modelo prático: íamos chegando ao destino na quinta à tarde, na sexta era o dia da prolongada reunião e, no Sábado, vestíamos a pele do turista e dávamos uma volta pela ilha antes de regressar ao Continente no dia seguinte, de manhã ou à tarde conforme os voos. Nessas excursões de Sábado era-nos geralmente posta à disposição uma carrinha e um colega local acompanhava-nos no passeio, durante o qual ia identificando e explicando os locais onde passávamos. Por vezes, ganhando certa cor de cronicidade com o decorrer dos anos, de um dos bancos da camioneta surgia uma pergunta que se me destinava:
“Não foste tu que estiveste aqui na Periferia?”
“Sim”, respondia, monocórdico, “mas não foi aqui, foi na Graciosa...”
Já mais recentemente, numa dessas viagens insulares da Comissão ao Faial (Comissão que evoluíra e se chamava agora Conselho), demos, no Sábado, uma volta pela ilha e, porque já fôramos incontáveis vezes visitar o vulcão dos Capelinhos e o museu adjacente, levaram-nos a esmiuçar as vistas da costa norte da ilha. Era um dia de Verão – talvez Junho ou Julho –, uma fina poalha, feita de evaporação, pairava no ar e eu seguia amodorrado no meu assento, olhando a paisagem sem a ver, sonolento e a pensar como seria bom parar para um café.
Às tantas, senti a carrinha abrandar à berma da estrada e, estremunhado, inquiri ao outro lado da coxia:
“O que é, porque paramos?”
O meu interlocutor encolheu os ombros, acrescentou: “Algum miradouro, alguma ermida com azulejos ou talha dourada...”
Maquinalmente, fomos deixando o veículo e, quando desci os degraus, havia já gente de mão em pala na testa ou a assestar a máquina fotográfica. Encabeçando um amontoado de três ou quatro almas, a colega do Faial avançara até à ponta da arriba e, esticando o braço, informava:
“Conseguem ver, ali ao fundo? É a Graciosa... Hoje estamos com sorte, pois nem sempre se vê.”

Olhei, franzi os olhos, quase desafiei o horizonte, mas o máximo que consegui individualizar, quase imaginar, lá longe, no limite do azul, foi uma linha brilhante   que tanto podia ser terra como um reflexo de luz boiando à tona do oceano.
  FIM

© Fotografias, cima para baixo: 1. Praia da Vitória, Terceira, 1995, fotografia de José Marques Neves; (2) Graciosa, fotografia de Líbia Correia da Silva.