Ilha Com Vista Para o Mar (aventura no Serviço Médico à Periferia)



  

                                           Ilha Graciosa, imagem de satélite, 10 Agosto 2018 (NASA, Zoom Earth). 


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Pedro  Serrano


ILHA COM VISTA PARA O MAR

  (Uma aventura no Serviço Médico à Periferia)








                              Nota: Os factos descritos nesta narrativa são reais, embora os nomes de algumas
                              personagens tenham sido alterados.



© pedro serrano, 2018.



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                                   Ao Rui, Libinha, Nizalda Barcelos, 
                                   Paulo Amorim e Virgílio Senra.

                                  À memória de Oriolando Correia da Silva (1938-2008) 
                                  e Gaspar Cordeiro/ ‘Gasparinho’ (1952-2011). 


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                                                                                                Sabíamos que eram belas as ilhas
                                                                            por aqui algures onde tateamos
                                                                            um pouco mais abaixo ou um pouco mais acima
                                                                            um espaço mínimo.

                                                                                                                              Yorgos Seferis (Romance, VIII)



1


Num dos pisos térreos da Faculdade de Medicina do Porto havia um salão, conhecido por abrigar entre as quatro paredes as matinés dançantes que, ao longo de alguns fins de semana do ano lectivo, animavam a cinzentude do Hospital Universitário de S. João. 
Aí, ao som de um conjunto, aspirantes a médicos e estudantes vindos de outras faculdades confrontavam, balançando, a sua timidez, e belas histórias de amor, sexo ou somente amizade deflagraram à conta do ambiente transitório de boîtedaquele salão frio.
Pois foi nesse mesmo salão que, um punhado de anos mais tarde – desfolhava-se o Outono de 1978 – se realizou a assembleia que decidiria quem ia para onde no contingente do Serviço Médico à Periferia do ano seguinte.
O Serviço Médico à Periferia foi um dos efeitos secundários do espírito revolucionário do 25 de Abril de 1974 e consistiu no envio maciço de médicos para o ventre esquecido do país. Esse era o lado mais idealista e publicitável do projecto, o outro seria admitir que a iniciativa desembaraçava, também, um Governo embrulhado em sucessivas fornadas de médicos que saíam das faculdades e a quem não era garantida continuidade profissional, uma vez que a especialização médica subsequente se achava paralisada pela desorganização que contaminava todas as instituições e sectores de actividade do país. Assim, graças a esta espécie de serviço cívico, sempre se ia prorrogando a dor de cabeça. 
Espraiado entre 1975 e 1982, o Serviço Médico à Periferia colocava, por doze meses e em todos os cantos do território onde houvesse uma mesa e uma cadeira, milhares de jovens médicos, ignorantes da realidade médica mas mais ainda da social, médicos que, humana e profissionalmente, beneficiaram da experiência e boas recordações guardaram dela. Algumas dessas lembranças incluem maridos, mulheres e filhos, arranjados durante o percalço, ou casas de férias no concelho onde estiveram colocados. Qual, por outro lado, terá sido a vantagem da iniciativa para a saúde da população é coisa que ficou por apurar de forma objectiva, mas é certo que gentes sem nenhuma espécie de acesso a cuidados de saúde viram, de súbito, alguma forma de assistência chegar às suas aldeias, providenciada por clínicos imberbes, dispostos a olhar, gratuitamente, para os seus males de corpo e alma. 
Atlântico Norte: arquipélago dos Açores.
Nesse Outono de 1978 de que falava, eu era um entre a cerca de três centenas que se encostavam pelos cantos daquele salão, pois as cadeiras disponíveis já se encontravam tomadas. O ambiente fervilhava de nervosismo e, dardejando olhares e resguardando a boca com a mão, algumas das senhoritas comentavam as histórias que circulavam. Muitos daqueles miúdos e miúdas – as nossas idades rondavam os 25 anos – nunca tinham deixado o Porto por mais do que um par de dias, outros sabiam o que era morar longe da casa paterna embora não tivessem ideia do que seria trabalhar fora do contexto hospitalar, onde sempre havia lugar para a protecção dos mais experientes. E aquela Periferia da designação oficial podia ser mesmo periférica: em distância, em condições de trabalho, em meios de apoio! Terras do Bouro, Macedo de Cavaleiros, Paredes de Coura, Torre de Moncorvo, meu Deus, quem poderia viver aí durante doze longos meses!? E não era só isso: havia ainda que ter em consideração o pesadelo das vagas, que era forçoso ir preencher, na Madeira e nos Açores, que eram tão longe como se fosse outro país e não permitiam sequer vir dormir a casa, pois tais eram as contas que fazia o grosso dos sorteáveis: tentar uma periferia que permitisse regressar todos os dias ao Porto ou, no mais sombrio dos cenários, ficar numa habitação secundária que a família possuía no campo ou numa praia ventosa do Norte. Havia ainda aqueles para quem se adicionava a preocupação em não estragar os arranjos já conseguidos na actividade médica privada, favores que se podiam desvanecer, ou ser ocupados por outros, em ausência tão prolongada. 
É óbvio que a Madeira ou, pior, os Açores não permitiam saída favorável a nenhuma destas ambições e as conversas desfiavam as façanhas dos colegas que se iam desfazer de pequenas fortunas ou oferecer automóveis novos para, em caso de azar no sorteio, trocarem a vaga com alguém que não se importasse tanto de ir penar em tais desterros. Olhados como heróis, eram também aqueles, raros, que perante uma colega grávida ou um recente matrimónio (celebrado durante a licenciatura) ofereciam, grátis, o sacrifício da troca por uma vaga mais inóspita.
Equilibrado no peitoril largo de uma janela, eu olhava tudo com o ar desdenhoso daquele que alcançou a liberdade por, à partida, ter escolhido o que ninguém quer: era um dos raríssimos candidatos voluntários aos Açores e o único do país à ilha Graciosa, a mais pequena do arquipélago se ignorássemos aquele nico chamado Corvo, administrativamente tão desprezível que nenhum médico estava previsto para aí. Aliás, a minha atitude em relação a toda aquela excitação de tal modo blasé que escolhera o meu futuro local por mapa, o mais próximo que conseguira aproximar-me do método do intrépido viajante que, perante um globo terrestre a girar, lança a faca de mato contra esse alvo, como modo de decidir onde será a próxima expedição. No meu caso, escolhera o destino pelo paladar estético do nome das ilhas do arquipélago e, por as Flores já estarem tomadas, optara pela Graciosa, pois que beleza imediata se poderia saborear no articular de sílabas como Pi-co ou Ter-cei-ra?
De acordo com o regulamento, a nossa partida para o território adjacente deveria processar-se a 2 de Janeiro, o começo do ano civil, mas a coisa atrasou-se tanto que entretive todo esse mês em libados jantares de despedida: “agora é que parece que é”, dizia erguendo uma taça que não seria a derradeira.
Finalmente, já Fevereiro batia à porta, eis que nos enfiaram – os que vindos do Norte, do Centro e do Sul confluíram em Lisboa – num avião militar sem assentos e tão barulhento que não nos ouvíamos uns aos outros. Ao todo, éramos ao redor de uma centena de desconhecidos para a colheita insular. Mas rapidamente estreitámos relações e nessa mesma noite, num hotel da marginal de Ponta Delgada, as celebrações alastraram de quarto em quarto e incluíram bebida, chouriços a assar em álcool sobre a mobília alheia, e uma colega cuja voz de soprano atroava os corredores interpretando árias de ópera. Na manhã seguinte, em prosa indignada, os jornais locais agitariam a habitual pasmaceira de S. Miguel com os sucessivos escândalos perpetrados pelos médicos do Continente. Os “cubanos” – como nos chamavam nesses anos ainda mornos da pós-revolução – tinham bebido demais nas boîtes, alguns foram mesmo vistos a esticar as pernas sobre os tampos de vidro das mesinhas baixas; e, à meia-luz, as clínicas continentais saracoteavam-se lascivamente nas pistas de dança, vestidas a condizer! 
Rapidamente, a Direcção Regional de Saúde apressou-se a despachar-nos para os respectivos destinos. Após um curto voo para a Terceira, onde permanecemos um dia ou dois à espera de transporte, eu e outro colega – dos quatro previstos para a Graciosa apenas dois se mostraram dispostos a ir – fomos enfiados num helicóptero da Força Aérea para um voo de libelinha de meia-hora por sobre o azul bravio do mar dos Açores.
Ilha Graciosa (Foto de satélite: Nasa, 2018).
Aterrámos entre as balizas de um pequeno campo de futebol em Santa Cruz, assim se chamava a capital da ilha. O perímetro do relvado estava pejado, não tardaria a compreendermos que sempre assim sucedia quando o helicóptero vinha, uma vez por semana se o tempo estivesse bom. Era a maior distracção da ilha e, nessa manhã do começo de Fevereiro, apimentada pela chegada dos novos médicos. À saída da carlinga fomos saudados de raspão pelos três colegas que íamos substituir e que, sofregamente, subiam a bordo. 
“Adeus”, disse um deles, “boa sorte”, e o tom com que o gritou por sobre o estrépito das pás do helicóptero, que não tinham parado de espadanar o ar, pareceu-me tão carregado de sarcasmo como a manhã o estava de salitre.
Entretanto aproximara-se um tipo que, muito formalmente, se apresentou como funcionário do Tribunal e nos informou haver uma autópsia, marcada e à nossa espera, para as duas da tarde desse mesmo dia. Olhei o céu, a corporizar a maldição que dirigi aos colegas que nos deixaram tal boas-vindas, mas o helicóptero já desaparecera no céu nublado. 
“Trouxeste o guia de perícias medico-legais?”, perguntou o Rui entre dentes.
Abanei a cabeça numa afirmativa condicionada. A esse e a outros livros médicos, enfiara-os eu no baú de madeira chapeada que, a essa hora, ainda devia estar a ganhar pó pelos armazéns do porto de Leixões, aguardando ser alfandegado. Talvez, se tudo nos fosse favorável, dali a um mês os livros nos chegassem às mãos.


2


A autópsia correu bem. Graças a Deus que na morte violenta a causa se revela, na generalidade, bastante evidente, mesmo antes que se descomponha o defunto. 
O cadáver esperava-nos, pontual, no acanhado anexo por trás do hospital que fazia de morgue. Pontual, também, foi o Sr. Medina, que já lá se encontrava com uma expressão de formalidade contrita semelhante àquela com que nos fora aguardar ao helicóptero. Como ele próprio explicou, é grande a dificuldade do Ministério da Justiça em recrutar magistrados que venham viver ou, até, cumprir uma missão de dois ou três anos à Graciosa. É isso que explica não existir na ilha nem juiz nem delegado do Ministério Público. Mas o Sr. Medina tem fé e rumores de que, talvez em breve, seja colocado alguém e que as carências mais gritantes sejam supridas; que os processos deixem de se acumular na sua mesa... Enquanto aguarda, fechado no seu mistério de confidencialidade, Sr. Medina vai desempenhando todos os papéis que a função exige: a de chefe da secretaria, a de quase autoridade judicial; a de escrivão; a de zelador das moradias geminadas que aguardam os magistrados, estando uma destinada ao Dr. Juiz e outra ao Dr. Delegado do Ministério Público.
Vamos concordando e olhando o morto, enquanto o vemos retirar, com método, os ferros de autópsia, propriedade do Tribunal, de uma maleta que trouxe com ele e onde está igualmente acondicionado o papel pautado e timbrado onde irá registar o que nos “aprouver ir ditando durante a necropsia”. 
No longínquo começo da manhã, uma Citroen Dyane transportara-nos, mais às nossas malas, desde o heliporto improvisado até ao local onde iremos morar. A casa dos médicos fica por cima da única farmácia da ilha e é suficiente desviarmo-nos por vinte centímetros na porta de entrada para nos encontrarmos no meio de estantes de vidro e caixas de medicamentos, frascos de xarope, embalagens de supositórios e ampolas bebíveis. Ao atravessarmos o umbral há quem tenha vindo espreitar à porta da farmácia: doentes pasmados, de receita em punho, e um tipo de bata branca que nos sorri com embevecida cumplicidade. Pousámos as malas e damos uma volta de reconhecimento pela casa, embora haja pouco a ver: dois quartos de estuque enxovalhado, uma sala acanhada com um sofá arrombado e uma janela dando para o largo fronteiro à farmácia e donde se avista um lago em forma de rim, bordejado por uma cáfila de uma espécie de grandes pinheiros de ramos horizontais e com algo de artificial, pois parecem ter sido espetados no tronco à martelada. São araucárias, como nos irá informar o Sr. Medina um dia destes, num futuro que ainda não bateu à porta. Para já faltava-nos ainda deitar os olhos à pequena cozinha, com ar de ter sido pouco usada. Aí, ao escancarar os armários, encontrámos na face interior da porta de fórmica de um deles uma inscrição nervosa, sarrabiscada a marcador preto: “BEM VINDOS À ILHA DA LOUCURA”. O recado deve ter sido deixado, para nos desmoralizar, pelos três gajos com que nos cruzámos à porta do helicóptero, ou será que eles, à sua própria chegada, um ano antes, já teriam herdado o desabafo dos colegas que os  antecederam?
Estávamos, cada um no quarto que escolhemos sem entusiasmo, a atirar alguns dos pertences para dentro das cómodas quando ouvimos a porta ranger ao fundo das escadas e uma voz gritar para cima. Espreitei: um tipo arruivado, de bata branca e muito curta, que lhe conferia aspecto de bibe, galgava as escadas com desembaraço, como se estivesse habituado a fazê-lo; ia-se apresentando: 
“Gaspar, auxiliar de farmácia. Tudo quanto precisem... Já assim era com o Dr. Francisco e o Dr. Alberto, a Dr.ª Geni...”
E o Gasparinho, como logo informou preferir ser tratado, demorou-se por ali e na sua fala um pouco pevidosa foi-nos pondo a par de que se dera lindamente com os médicos anteriores; que tocava trompete no conjunto da terra, e que na sexta-feira – como em todas as sextas e sábados – haveria baile na colectividade; e que já ouvira zunzuns de que tínhamos uma autópsia às duas da tarde... Depois, como se fosse o proprietário, lamentou a nossa casa e ela não ser tão boa como quanto mereceria a dignidade dos clínicos da ilha, mas que estava a ser ajustada entre a Secretaria Regional dos Assuntos Socais e o Tribunal a cedência de uma das casas dos magistrados, pois estavam vazias há anos e revestiam outra decência que não aquela estreiteza do andar por cima da farmácia. O Sr. Medina não nos teria já falado nisto?
Não, o Sr. Medina – após ter solicitado a nossa licença – despira o casaco e usara as costas da cadeira como cabide. Retirava agora uma resma de papel de uma maleta e, depois de o alisar batendo com ele no tampo da escrivaninha da morgue, informou que irá registando o quanto lhe formos ditando durante a necropsia.
Olhei o Rui e, sem pestanejar sequer, trocámos entendimento. Ambos tínhamos compreendido que a encenação era veste importante no destino a que acabáramos de chegar, mas ele foi mais rápido do que eu: estendendo-me o bisturi e assumindo o tom de um Groucho Marx, em diálogo com Harpo, comunicou, muito profissional:
“Queira proceder, colega...”
“Cabrão”, mal tive tempo de pensar enquanto revia mentalmente o pouco que retinha das aulas práticas de Medicina Legal. Para efeitos de autópsia, um ser humano cortava-se como um pacote e, no fim de tudo, costurava-se como um saco. Abria-se como um vulgar caixote de cartão, cujas badanas da tampa tivessem sido  justapostas com fita-gomada: metia-se o bisturi por baixo do osso do queixo e ia-se por ali abaixo até bater com a navalha no osso púbico, onde se dava o golpe por terminado. A variação consistia em que, ao contrário do caixote em que o percurso do golpe era rectilíneo, no caso dos seres humanos fazia-se o contorno do umbigo com o bisturi, tal qual o condutor que respeita ajuizadamente a circularidade a uma rotunda. 
Sentado à secretária, fitando-nos de sob os sobrolhos fixos da massa negra dos óculos, o senhor Medina vigiava-nos atentamente os movimentos em torno da mesa de autópsia, e esperava, de Bic em riste, o nosso recitativo.
“No que se refere ao hábito externo, trata-se de indivíduo do sexo masculino, de raça caucasiana e aparentando uma idade de aproximadamente...”, continuei por ali fora, dirigindo-me ao Rui cerimoniosamente e como se, todos os quatro, estivéssemos contidos na pesada moldura de um óleo do Rembrandt.


3


Encontrámos o Sr. Medina no Açucareiro e, a princípio, tomei o encontro como uma aparatosa coincidência, quase reagi com a face do espanto. Depois descobri que o café é o único da vila, da ilha!, e a surpresa feneceu. 
Do lado de lá de um dos dois lagos que lambem a porta de nossa casa fica o largo principal da vila, o Rossio. No centro, há um coreto – conhecido por açucareiro – e sob o chão deste, no miolo da estrutura que o suporta, uma sala rebaixada abriga o café da ilha. De modo que, sendo o único, o derradeiro, ali converge diariamente – de manhã, à tarde e à noite – a gente de Santa Cruz da Graciosa: os da farmácia, os do hospital, os da câmara e diversos pelouros municipais; os do correio, os da firma que anda a construir o porto; o Sr. Medina, este último representando com circunspecção os serviços judiciais e usando linguagem gestual para oficiar que nos deseja apalavrinhar por uns instantes.
Ora acontece que os Serviços Sociais do Ministério da Justiça pretendem contratar a atenção médica a que, por estatuto, os seus funcionários, familiares directos e colaterais, têm direito mas, dada a nossa condição de médicos policlínicos, torna-se impossível firmar um contrato e, então, após ouvir os seus superiores em Angra do Heroísmo...
Distraio-me do que diz o homem: a circunstância de ter sido o nosso fiel escriturário durante a autópsia reenvia-me, por uma associação de pensamento lateral, para uma aula prática de medicina legal ocorrida num soturno fim de tarde na Morgue do Porto, ali ao lado do jardim do Carregal. A atmosfera da pequena sala está carregada com os miasmas do formaldeído e, de um dos assentos dispostos em anfiteatro, uma mão toca-me o ombro e a voz do Zé Lino, que se tenta distrair na fila atrás da minha, segreda:
“Estás a começar a ficar careca, pá: já se topa uma clareirazinha no alto do cocuruto...”
Tento encaixar o choque sem alarde. Careca!? Tenho vinte e dois anos e, por escrutínio atento ao espelho, não tenho notado nada de tal... O certo é que, ao espelho, controlo sobretudo as entradas da testa... Mas dali, do seu posto de observação privilegiado das traseiras, o Zé Lino – colega com quem costumo estudar em casa de meus pais e para onde, sempre que pode e eles não estão, ele orienta as namoradas – detectou a falha, a erosão insidiosa. Humilhado, destroçado, tento resistir a não levar, em público, a mão à zona desmascarada.   
Enfim, tudo se passou em local apropriado para uma constatação sobre mortalidade e os efeitos da passagem do tempo, generalizo, de novo à ponta do balcão do café sob o coreto e de regresso à conversa do Sr. Medina, que nos pede, então, o obséquio de, entre nós e logo que possível, decidirmos qual dos dois será o médico dos serviços judiciais da comarca da ilha Graciosa. Derivado de não poder haver contrato, não poderá haver lugar a pagamento, somenos que ele espera a gente compreenda.
A gente, isto é: eu e o Rui, não compreende grande coisa mas, também, pouco nos interessa. Os funcionários e respectiva família do pessoal do tribunal serão dois ou três gatos pingados e, quando necessitarem, marcarão vez e irão à consulta como os outros.
“É isso, não é?”, perguntámos mais tarde nesse dia ao Nascimento, o chefe dos serviços administrativos do hospital que, embora estivesse também ao balcão do Açucareiro, lançando olhares de acesa curiosidade na nossa direcção, fingiu não saber ao que nos referíamos. Resumimos-lhe o encontro e a conversa.
O Nascimento, sem se querer comprometer com assuntos de outras entidades oficiais, acha que será mais ou menos isso, que eles estarão, sobretudo, interessados em manter o esquema de comparticipação de medicamentos e meios auxiliares de diagnóstico que, amiúde, são diferentes do regime geral...
“Vejam os doutores, por exemplo, os bancários: gozam de um sistema de protecção na doença muito mais atraente...”
Já desligamos outra vez, queremos é pôr-nos a andar, ver se conseguimos acabar de encafuar os nossos pertences nos armários e dar uma volta de reconhecimento pela ilha na Dyane, veículo que requisitámos para nosso uso. O Nascimento vai abanando a cabeça e dizendo que “já que se está com a mão na massa” lhe devemos indicar, com brevidade, qual de nós irá ser o responsável formal por alguns cargos que é forçoso distribuir: director clínico do hospital, delegado de saúde, director da consulta do dispensário do SLAT[1], director da consulta Materno-Infantil, membro da Comissão Administrativa do Hospital... Tudo isto,  dada a nossa condição de médicos policlínicos, será assegurado a nível interino e gracioso.
“Mais nada?”, inquirimos, já irritados, e perguntando se no meio de tudo isso nos iria sobrar tempo para ver e tratar doentes.
O Nascimento teve um riso nervoso, o confronto directo parece não ser o seu terreno favorito. Refugiou-se nas directrizes do Sr. Vasco Weber, chefe da Comissão Administrativa do Hospital Concelhio. Queremos saber quem é esse senhor e onde está, mas, pelo visto, faz outras coisas na vida e só passa por ali de vez em quando.
Estamos de saída, mas o Nascimento agitou ainda um pedacito de papel diante dos nossos olhos.
“Ah, já me ia esquecendo, telefonou para aí o Araújo, dos Correios... Quer falar com os senhores – suponho que será para que indiquem qual dos dois vai ser o médico deles – e convida-os para um copo, palavras suas, uma noite destas em casa dele.”    
“Ao menos um que é simpático a manobrar...”, comentei com o Rui a caminho de casa, um trajecto de cinco minutos a pé que deu para discorrermos sobre a multidão de gajos, serviços e entidades que se preparavam para girar em torno de nós dois.
“Pois... Já viste a quantidade de gente a quem o nosso trabalho vai justificar a existência? Que seria deles se, este ano, não tivessem vindo médicos para a ilha? Uma matilha de pulgas para um só cão!”
“Dois, se não te importas”, corrigi, “exijo ser chupado por metade dessas pulgas. E a ti, o que te apetece mais: director do hospital ou delegado de saúde?”
“Sei lá, talvez delegado de saúde. Não faço ideia em que consiste, mas é capaz de dar menos trabalho...”
E animámo-nos um pouco ao lusco-fusco, a combinar entre nós quem ficava com o quê. 


4


É sempre arriscado generalizar a partir de uma única observação. Entretido a dar nomes de cores às ilhas dos Açores (ao Faial chamou ‘ilha azul’ por causa das hortênsias), o escritor Raul Brandão resolveu cognominar a Graciosa de ‘ilha branca’. Ilha branca!? Quase escuto o brado de protesto de uma série de ilhas gregas a evolar-se, em coro, do azul-ferrete do Mediterrâneo. 
Acontece que o homem passou por aqui no final do Verão, quando o verde da paisagem se encontra crestado pela falta de água e as casas caiadas sobressaem da relativa aridez. Foi um erro de julgamento sazonal, tivesse o tipo andado hoje connosco e chamaria a isto a ‘ilha verde’.
É Domingo, eu e o Rui metemo-nos na Dyane para a tal volta de reconhecimento à ilha, mentalmente preparados para gastar a tarde inteira na excursão... Qual quê!; passado pouco mais de uma hora estávamos, de novo, a estacionar o carro à porta do hospital, para ir dar uma espreitada aos doentes internados. A ilha tem 10 km de comprimento por 6 de largura, e, se não formos geógrafos ou botânicos, percorre-se isto em meia-hora. E mesmo assim parámos no Carapacho por nos terem dito  haver lá um restaurante. Não há! Há um senhor a quem se pode encomendar uma caldeirada ou um cavaco estufado, mas tem de se marcar com antecedência para que ele arranje o peixe ou mande capturar essa espécie de lagosta jurássica, e abra e areje a sala onde iremos comer.
Rai’s parta, lá vamos nós ter de continuar a comer na D. Irene ou, se queremos comer melhor, aprender a cozinhar, uma solução demasiado radical para já. Rai’s parta também o romanticismo do Raul Brandão, que não deve ter gasto por aqui mais do que uma meia-hora deslumbrada. 
De facto, em fins de Fevereiro, a ilha é verde como um drop mentolado para onde se quer que se olhe. Para onde quer que se olhe vê-se o mar e nada mais, perto e longe, e entre ele e nós – especados ao lado da Dyane, de mãos enfiadas nos bolsos a arrostar com a ventania destes descampados – só se veem vacas; vacas e mais vacas, que nos olham de olhos meigos ou indiferentes, algumas delas quase encantadas por algo como nós lhes aligeirar o tédio dominical, outras escorrendo baba pelos cantos da boca como um alienado entre as tomas da medicação. Sobram ainda as que não levantam sequer a cabeçorra do solo, concentradas a retouçar o pedaço de verde ao seu alcance, confiantes no dia de amanhã e na eternidade do sustento. Até onde a vista descaída lhes alcança, a erva dos prados agita os caules verdes numa saudação amiga.   


5


Saída a cerca do hospital e virando à esquerda, anda-se um minuto e está-se lá. Se o quisesse, a D. Irene poderia vir à porta de casa gritar “o almoço está pronto” que a gente ouvia-a das consultas. Eu, pelo menos, ouviria, o meu gabinete tem janela para a rua; o do Rui, alinhado com o meu do outro lado do corredor, dá para a parte de trás do hospital.
Irene Correia da Silva, no estado civil de viúva, é quem, por acordo, renovável, com a comissão administrativa do hospital e na ausência de restaurantes e cantinas na ilha, cozinha para os médicos que, desde 1976, vem do lado de lá do mar fazer comissão. É uma senhora de baixa estatura, como a casa térrea onde habita e, quando batemos à porta, vem abrir, encaixada em chinelas de flanela, e mira-nos, algo ansiosa, de trás dos óculos sem aro. Na casa mora também uma filha, a Libinha, e o filho, o senhor Oriolando, que é solicitador e trabalha no registo civil; mas comemos sempre sós na pequena sala de jantar – penso que desencontram as horas das refeições para nos deixar em sossego ou, porventura, para que fiquem eles em paz. A D. Irene é uma santa senhora, mas uma péssima cozinheira, talvez seja isso que explica o ar ansioso com que nos franqueia a porta e o facto de não comermos todos juntos, pois evita assim o hipotético julgamento ao vivo dos seus hóspedes sobre a qualidade da comida que serve. Mas estes novos hóspedes são descarados e, chegados há pouco mais de um mês, já exprimem desagrado pela constância do menu e pela, alegada, fraca qualidade da confecção. Ingratos, os estupores não sabem cozinhar e, lá na terra deles, estavam habituados a comer melhor... 
Em casa da D. Irene a ementa é perene: filetes de peixe frito ou, em alternância, fatias de vitela estufada, afogadas num molho tipo Knorr e, como acompanhamento universal, arroz branco. Como prelúdio, mas só o engolimos ao jantar, há sempre o mesmíssimo caldo, passado, de cenoura e abóbora e, como sobremesa, queijo da ilha c/ compota, uma pasta de um alaranjado ainda mais vulcânico do que a cor da sopa. O melhor é a sobremesa, apesar de ser sempre a mesma; o pior é o arroz que, nos dias que correm, cumpriria para enrolar sushi: pegajoso, na clássica categoria ‘unidos venceremos’, pior ao jantar, pois, como sobra sistematicamente, a D. Irene aquece-o usando uma metodologia culinária que desconhecia: põe água a ferver num tacho e mergulha no cachão da ebulição, dentro de um coador de alumínio, o arroz anteriormente cozido. Já nos queixámos, quer do método de confecção quer do modelo de aquecimento; o Rui até já lhe demonstrou a excessiva coalescência dos grãos, catapultando até ao tecto da sala uma garfada. Revelou-se inútil: a senhora ficou-se especada, a olhar com desânimo os grumos colados no estuque, resvés ao lustre, mas foi tudo. Em desespero, num dos telefonemas que a minha mãe faz para aqui a saber de mim, pedi-lhe que explicasse como se faz arroz e, como a minha preguiça para o ir registando fosse grande, ela ofereceu-se para escrever sobre o assunto. E assim fez: uma carta, chegada umas duas semanas depois no correio trazido pelo helicóptero, continha uma descrição pormenorizada e literária de como fazer arroz, e em que a tonalidade que a cebola deveria atingir no estrugido era comparada à tez trigueira de algumas das heroínas do Jorge Amado – é o que dá ter uma mãe poetisa.
Apressei-me a transmitir à D. Irene os passos da receita – o tom de caramelo da  cebola refogada, a quantidade de água e a sua relação com a quantidade da gramínea – mas não adiantou: o arroz continuou a chegar-nos à mesa na intragabilidade do costume e o tecto da sala foi ganhando novas minúsculas estalactites.
“Mas não há, ao menos, outro peixe na ilha?”, perguntava eu, enjoado dos filetes de abrótea. “Não se pesca mais nada, com tanto mar aqui à volta?”
A D. Irene, parada à ombreira da porta, sacudia os caracolinhos da cabeça numa negativa desconsolada; afirmava que havia pouco quem pescasse e que os pescadores não consideravam os outros peixes que, às vezes, vinham dar à rede ou ao anzol como sendo peixe ‘discreto’, devolvendo-os ao mar. Barrando a minha fatia de queijo curado com a compota, fiquei a compreender que, por ali, ‘discreto’ queria dizer ‘apropriado’. 
“Temos mesmo de passar nós a cozinhar”, dizia ao Rui em desespero, “não aguento isto durante um ano!”
Ele encolhia os ombros e, na sua nova encarnação em delegado de saúde, subdelegava em mim a iniciativa de mudar o panorama. Fui tentar, usando a carta da minha mãe e um pacote de arroz, mas a chávena de produto que ela recomendara pareceu-me exígua para duas pessoas e acrescentei mais duas. A água evaporou-se num ápice e ficámos, pelas bordas, com um tacho de uma pasta encruada que, embora não tão engrumada ou anémica como a da D. Irene, era igualmente intragável. 
“Foda-se”, desabafou o Rui à segunda garfada, “esta merda não se consegue comer!”
Cabisbaixo, deitei as culpas ao fogão e garanti que tudo iria sair melhor quando nos mudássemos para a casa nova.


6


O hospital – viria a descobri-lo mais tarde, após ter trabalhado em vários – tem a dimensão e o padrão do que se chama ‘hospital concelhio’, uma estrutura pensada para servir populações de pequena dimensão numérica com os cuidados médicos considerados básicos.
Este, que nos calhou, tem dois andares e no de baixo situa-se a urgência, os gabinetes de consulta, a secretaria e, lá ao fundo, um pequeno bloco operatório pobremente apetrechado, onde sobressai o avantajado projector de quatro lâmpadas que há-de, um dia, assombrar de luz a mesa cirúrgica. Ao cimo das escadas ficam as enfermarias, uma para mulheres e outra para homens, no total somarão a quinzena de camas. Tomando pelo patamar em sentido contrário ao do internamento, numa parte recuada do segundo andar, resguardam-se as instalações das freiras, e vamos apercebendo de que nos aproximamos de outro mundo por detalhes como os acabamentos de marcenaria e pintura, pois escapam aqui ao cunho impessoal da instituição hospitalar clássica. O acesso é vedado ao público, até a nós, profissionais do mesmo ramo, e só terei a rara oportunidade de aí entrar meses depois, quando as Irmãs encomendarem uma missa privada em honra do meu aniversário natalício. Mas isso será só em Junho.
Ao dar-me conta de que o hospital era gerido por freiras – sejamos claros: o Nascimento não faz mais do que esvoaçar entre papéis – senti um baque: não gosto de freiras nem de ambientes freiráticos. Conheço-os bem, de perto, frequentei-os no Porto quando desenvolvi actividade cirúrgica com o meu pai, que é médico e trabalha, quase em exclusividade, em Ordens. Venha a nós o vosso reino e aqui está a factura, tomastes um comprimido mas pagais a caixa inteira; é esta a impressão geral que tenho do mundo em que se movem e onde convivem em tão grande à vontade com os cobradores de impostos e outros fariseus.
Mas a realidade encarrega-se de trocar as voltas às minhas generalizações e aprenderei a respeitar e a gostar destas freiras insulares, que não perdem tempo a ornamentar o discurso com pieguices, não investem no registo da hipocrisia, não reviram os olhos à procura do firmamento, e se adaptam com prodigiosa velocidade ao que tem pela frente, o que, nos últimos anos, consiste em médicos imberbes, pouco sabedores e quase nada treinados; às vezes arrogantes e sempre transitórios ao local onde vieram parar. Mas elas lidam bem com tudo isso e mantém, à tona dos constrangimentos, o horizonte da sua missão: tratar e cuidar dos doentes.
Há três freiras enfermeiras: uma é a Madre Superiora, uma mulher com a estatura, e talvez a idade, da D. Irene, mas tesa à proa do seu leme e capaz de conjugar um sorriso na face rubicunda, onde cintilam uns olhos azuis, atentos e inteligentes. Há, depois, a irmã Noémia, uma mulher mais nova e ainda afligida pelas hormonas, estremecimentos que, tem dias, se lhe escapam por entre as pregas engomadas do celibato. Resta a irmã Celeste, senhora de idade, ex-missionária na Índia, e vinda acabar os dias de servidão na pacatez da Graciosa. A irmã Celeste já enfrentou e viu tudo quanto havia a ver, é até capaz de recorrer a técnicas de guerrilha para alcançar os seus intentos fraternos. O meu consultório, no rés-do-chão, é contíguo às duas salas do serviço de urgência, com quem comunica por uma porta, porta que amiúde se escancara e deixa irromper no meu espaço um doente que, de calças arreadas, tenta escapar à ex-missionária, que o persegue de seringa em riste, como se de um novilho a bandarilhar se tratasse. O mundo é a preto e branco para a irmã Celeste e concede à vida terrena a justa medida de uma chamazita bruxuleante. Quando um doente nos morre, é a única que rejubila e nos consola com uma palmada da mão seca no abatido antebraço que atraiçoou Hipócrates e não conseguiu salvar mais este...
“Deixe lá, Dr.” diz, risonha e consolada: “é mais um que já vai a caminho do Céu”.
E ficamos na dúvida se não terá mesmo um fraquinho ingénuo por este tipo de desenlace.
Toda esta paleta de nuances faz muita confusão ao Viegas, também ele enfermeiro, mas em permanência a tentar demarcar-se da troica de colegas que comanda o hospital. O Viegas é militar, pertence aos quadros da Marinha portuguesa e está aqui numa missão terrestre que dura há imprecisos anos. É um tipo enorme, de ar atormentado, e poderia facilmente encaixar a madre superiora debaixo de um braço. Mas não, pode ser até que resmoneie contra ela, e as suas regras, protegido pelo gargalo de uma garrafa de cerveja, durante um baile no Clube, mas na sua presença é um cordeirinho pascal. Há uma outra enfermeira sem hábito, a Guadalupe, açoriana, mas essa mantém-se tranquilamente arredada do núcleo duro: gosta de ir almoçar a casa, onde tem família à espera; toma conta das consultas periódicas de grávidas e crianças, e é quem nos acompanha nas saídas semanais às localidades da Luz e da Praia, onde fazemos consulta nas respectivas Casas do Povo. Se as três freiras representam o hospital e um certo género de vida monástica, voltada para o interior, a Guadalupe representa para nós o exterior, as estradas sinuosas por entre muros soltos em pedra vulcânica e vistas de verde e mar; os solitários gabinetes de consulta das casas do povo, abertos para nos receber uma vez por semana. Ali me sentarei, esperando os doentes que pingam ou que, simplesmente, não aparecem, sob uma luz mortiça e esverdinhada, mal me atrevendo a fazer ranger a cadeira de napa preta em que me sento como uma visita, olhando com tédio os papéis timbrados que se amontoam na escrivaninha ou levantando-me para inspecionar o armário de porta e estantes de vidro onde foram empilhados medicamentos e artefactos que parecem ter sido desviados a um museu e me recordam as aulas obsoletas de Higiene e História da Medicina.
Espreito os tubos que chocalham pílulas esquecidas, já passadas do prazo de validade há tanto tempo que nem uma data se consegue recompor nos números impressos e apagados pela humidade. Chocalho uma ampola de Pantopon, uma solução injectável de ópio, e fico a observar a turvação que percorre o líquido e faz lembrar as borras numa garrafa de vinho do Porto de uma colheita antiga e caseira. Quem se atreveria a injectar aquilo num corpo humano?! Sinto uma vontade, longínqua e frouxa e parecida com um dever, de fazer uma limpeza, de deitar aquilo tudo ao lixo, mas a moleza invade-me e o encolher de ombros da Guadalupe, quando tento discutir o assunto com ela, também não me estimula grande coisa. Os doentes, esses, estão tão fora do tempo como a atmosfera do meu gabinete e raramente me atrevo a mandar despir alguém, tanta é a humidade encascada que preside e que, certamente, irá arrepiar, como uma salmoura, as carnes lívidas. As queixas e os pedidos dos clientes são aqueles a que me começo a habituar nestas paragens: hipertensões himalaianas, cismas, doentes que aparecem gesticulando as caixas cilíndricas de alumínio que outrora continham comprimidos de lítio. A quantidade de gente que está medicada com lítio nesta terra, o número de pessoas com distúrbios psiquiátricos pesados, é enorme... Quanto aos hipertensos, não terei – nem eu nem o Rui – grande sucesso na cruzada contra ela, nem na tentativa de reposição de valores normais: os doentes sentem-se mal com tensões normais! Estão habituados àquelas tensões alucinantes e queixam-se que os comprimidos amarelos e os brancos que lhes receitei os fazem sentir “esvaziados e sem força”. Deixaram mesmo de os tomar, ou só os tomam em dias alternados, pois foram rápidos a identificar a causa e o efeito. Não são medicação ‘discreta’ está bom de ver! 
Cá fora, a Guadalupe espera por mim sentada num muro e, ao lado dela e da mala térmica das vacinas, um velhote de mãos enfiadas entre os joelhos e pose contrita espera também.
“Será que podemos dar uma boleia ao Sr. Picanço, Dr.? Precisa de fazer penso no hospital...”
O Sr. Picanço é diabético e tem uma ferida no pé, derivada duma unha que encravou. Ajudámo-lo a entrar para o assento de trás da Dyane, pois é notório que não tem prática de entrar em automóveis. Há aqui gente – já detectei um em consulta – que não foi nunca sequer à vila, quanto mais pensar em sair da Graciosa! Se não fosse terem nascido numa ilha seriam daqueles que, aos sessenta anos, nunca viram o mar. Há quem, perante o meu espanto, encolha os ombros: a ilha não tem porto de mar nem conexão fluvial regular às outras; os helicópteros metem respeito, pousam uma vez por semana e são destinados a uma minoria seleccionada de gente e de razões; as próprias ligações dentro da ilha são difíceis: não há carreiras regulares de transportes públicos e quem quiser mover-se ou aluga um táxi, ou vai de burro, ou a pé. Então, cada um fica onde está, a sonhar com o azul do mar e a cerração ou a tentar escapar-se com o que tem à mão, o que para os ricos é maioritariamente o whisky da base das Lages e para os outros é o vinho de cheiro, isto é, aquilo que chamamos em Portugal vinho ‘americano’ ou ‘morangueiro’. O problema é que este vinho parece ter uma concentração elevada de metanol, substância tóxica que se faz pagar caro na factura das perturbações de visão e na rapidez da demência alcoólica que provoca.  




Às sextas e sábados há baile e, não se passando nada mais animado na terra, toda a gente cai lá, incluindo os médicos de serviço. Não é necessário sequer avisar no hospital para onde vamos, as Irmãs sabem-no de antemão e o Viegas – se estiver de apoio à urgência e impedido de ir – sabe-o igualmente. No dia seguinte perguntar-nos-á como correu e não deixará de mencionar um qualquer detalhe relacionado com a nossa presença no baile para mostrar que está ao corrente de quanto se passou. 
Às sextas, o baile é no Clube e ao Sábado na sede da Filarmónica Recreio dos Artistas onde, se a noite estiver boa, será no pátio, ao ar livre. Em ambos os casos, a banda que abrilhanta a dança é a mesma e conta com o Gasparinho da farmácia no trompete, um tipo tisnado e barbudo, que trabalha na oficina de automóveis, faz de cantor principal e toma conta do saxofone, e, para grata e grande revelação, a Dona Nizalda Barcelos ao teclado da organeta eléctrica! Suponho que a dimensão desta surpresa vem das coordenadas em que a minha mente a balizara: D. Nizalda pertence a uma das famílias mais aristocráticas da Graciosa, é extremosa mãe de filhas casadoiras e, mesmo no espectro musical, é quem dedilha o órgão e dirige o coro na Igreja Matriz de Santa Cruz. E se pode não receber às terças nos exactos moldes da Condessa de Gouvarinho, a porta da sua moradia de tectos em masseira e paredes apaineladas está generosamente aberta a uma certa categoria de visitantes.
O Rui e eu fomos merecedores dessa distinção e atravessámos o umbral pela mão da Libinha, filha da D. Irene, para um serão que, rapidamente e com naturalidade, se transformou em rotina: alinhar no prato os talheres do queijo da Ilha com compota e, na companhia animada da Libinha, descer a rua quase até ao Rossio – perto donde moram os Barcelos – bater a uma porta que prontamente se franqueia e deixar correr um pedaço da noite, encaixados num sofá a ver o Dancing Days, que passa aqui de modo diferido, uma dezena de episódios atrasado em relação ao seriado emitido no Continente. Este retardamento na emissão fica a dever-se à censura interna que o actual patrão dos Açores – o chefe do governo regional, Mota Amaral – estende sobre o seu arquipélago, mantendo-o adormecido e ao largo da agitação perniciosa do mundo, como fez o velho Salazar com tanto proveito ao longo de confortáveis décadas. Vamos tomando contacto com essa rede vigilante em cada dia, e ganhando consciência de que é premeditada nos apartes abafados do Oriolando, sombriamente camuflado numa oposição temerosa como se ainda estivéssemos nos dias da ditadura. Os telejornais nunca são os de Lisboa, as notícias são filtradas conforme as conveniências regionais e os bons costumes. Quanto ao Dancing Days, a perigosa telenovela brasileira, suponho só ser tolerada graças à pressão gerada pelo seu imenso sucesso no Continente, sucesso com tal repercussão pública que o nome de uma das personagens – Vera Lúcia – se tornará popular ao ponto de influenciar os nomes escolhidos para baptizar as novas recém-nascidas. Mas os olhos da censura são cinzentos e observam o mundo de uma seteira: a novela expõe a desagregação familiar, há uma mãe solteira a quem nenhum castigo esmaga e as actrizes atravessam os 173 episódios da saga muito decotadas para os padrões de clausura do Dr. Amaral. Deste modo, há cenas que desaparecem e, se isso interfere com um cristalino entendimento do enredo, tanto pior para quem se prende com detalhes. Mal queremos acreditar, julgávamos que cinco anos depois da revolução, de os cinemas democratizarem os tiques amanteigados do Brando no Último Tango em Paris, os excessos escatológicos da Grande Farra ou a rouquidão da Linda Lovelace em Garganta Funda, julgávamos que o país era já arejado e uno; mas não: ainda restam torrões enquistados pelo alheamento próprio dos caciques, o que explica que alguma desta gente se refira aos restantes conterrâneos como ‘os cubanos’, aqueles que, na sua visão, estariam a dar cabo do país, enquanto eles perseguem a pureza original da FNAT[2] e do Deus de Ourique. Para nós é desconfortável viver isso, potencia a sensação de isolamento que estar rodeado de mar induz: é como estar expatriado.
Mas em casa dos Barcelos nada disso se faz sentir, eles tentam viver a sua vida e é tudo: a Dona Nizalda recebe-nos com um sorriso acolhedor e o Sr. Francisco (ou deveria chamar-lhe D. Francisco?) pergunta se “vai um calicezinho”. O calicezinho é eufemismo para um copázio de whisky das Lajes, puro, um produto referido na ilha com os cuidados do material contrabandeado. Não que seja proibido ou ilegítimo, mas é transaccionado fora do circuito comercial, livre de impostos e a um preço estonteantemente barato e, para além do mais, alguém tem de ir lá (à base americana na Terceira) e arranjá-lo nas devidas quantidades; encafuá-lo nos helicópteros da Força Aérea portuguesa sem que tilinte em demasia. Todos na ilha falam do assunto numa socapa de iniciados, a epiderme arrepiada pelo clandestino. 
“Vai um calicezito, doutores?...” pergunta D. Francisco como se de senha se tratasse e vendo em nós um sólido pretexto – clínico e de hospitalidade – para que possa beber mais um copo a coberto da censura doméstica.
Após o cálice, o Sr. Barcelos tenta reter-nos um pouco junto dele, tem uma biblioteca cujas estantes albergam as séries completas dos livros Vampiro e da Colecção Argonauta e não lhe escapou o brilho nos meus olhos quando lhe pus a vista em cima, o desabafo de que a minha arca e, com ela, os meus livros, ainda não tinha chegado. E na vila que não há uma biblioteca ou uma livraria, o máximo que encontráramos fôra dois ou três livros do Jack London à venda numa papelaria quase drogaria, entre lápis Viarco e alguidares de plástico.
“Dr. pode levar daqui o que quiser, quando quiser; tenho todo o gosto...” oferece o Sr. Barcelos já aquecido ao sol da própria generosidade, praia sobre a qual a D. Nizalda acaba, porém, de lançar a sombra ao recordar-lhe que são horas da telenovela, que as pequenas já esperam na saleta e que nós, os médicos da terra, esperamos também e que, certamente, somente estamos a reter-nos por cortesia.
Entre os bibelots da saleta há um televisor sobre uma mesinha e, defronte, um sofá onde nos vamos acumulando; para quem já não cabe ficam os braços como assento, arrasta-se uma cadeira se preciso for. Como espectadores estamos nós; as pequenas – que inclui as filhas dos Barcelos, a Libinha e uma ou  outra amiga que poderá já lá estar ou ter chegado entretanto. Nem a D. Nizalda nem o Sr. Barcelos assistem, suponho que as razões se repartem entre o não se interessarem, o consideraram aquele tipo de entusiasmo um nada inconveniente para a sua idade, ou o quererem deixar a juventude à vontade. É claro que nós os dois, repimpadamente sentados no coração do sofá, no seio daquela gruta de intimidade criada pelas portadas cerradas e por luzes enfraquecidas, fazemos render o que já sabemos sobre o que irá acontecer no ecrã e elas ainda não, o que provoca um suspense nas raparigas que pode, no seu paroxismo, atrever-se até a uma palmada leve num dos nossos braços ou a uma interjeição de desabafo sobre a nossa desapiedada crueldade. Mas o máximo a que nos permitimos, em termos de esclarecimento, é um “vocês já vão ver”, um enunciar de charada em linguagem críptica que enfurece as damas. Compete-nos também insinuar algumas observações educadamente brejeiras perante certas cenas, o que provoca risinhos, uma resposta sibilina a condizer da Libinha – que é a mais velha e a de resposta mais pronta – e o olhar oblíquo, de quem se inicia por desfiladeiros submarinos, das mais novas. Para elas, aqueles serões em Santa Cruz são uma coisa totalmente nova e um aroma de êxtase habita as respirações suspiradas que emitem de cada vez que António Fagundes – na pele de Cacá, o galã distante – surge no ecrã. Tomando partido, discutimos preferências femininas com as nossas vizinhas de sofá, as quais, em disfarçada desvalorização da beleza adolescente de Vera Lúcia (encarnada pela actriz Lídia Brondi), preferem destacar os superiores atributos de personalidade, presença ou roupagem de outras actrizes.
E eis que agora, uma sexta à noite, tropeço na D. Nizalda, sentada ao órgão no Clube, destilando o acompanhamento das canções ao ritmo das quais os presentes dançam, e lá estão os médicos de serviço, e as filhas dela, e lá está a Libinha e lá está até, a um canto, o Sr. Oriolando – filho da D. Irene e irmão da Libinha – que nunca dança mas se fica a olhar, copo na mão, deixando tombar sobre tudo e sobre todos uma mirada de tímido sarcástico, como se olhasse um circo ao qual não pode escapar, prisioneiro na sua própria ilha.
O Clube tem duas salas e na primeira, ao cimo das escadas, fica o bar, um simples balcão de madeira enxameado de gente a pedir cervejas e outras bebidas, pois comida é coisa que não servem, talvez umas pevides. É nesta sala que se acumulam, em pé, visto não haver mesas ou cadeiras, os homens, a quem só é permitido passar à segunda sala quando uma nova música começa; até lá terão de se manter, ordeiros e compactos como sardinha em lata, a supor o que se passa além da linha invisível do vão em arco que separa as duas salas. Do outro lado do arco, aguardam as senhoras, isto é, os seres dançáveis mais todos os paus de cabeleira que sobram à dicotomia: mães, avós, tias, vizinhas; todas as mulheres da vila parecem ali estar, sentadas em bancos corridos ao longo de todas as paredes, esquadrinhando com pupilas inexpressivas todos os centímetros quadrados do soalho de tábuas à sua frente. Se pretender dar um pé de dança, só resta ao pobre candidato tentar colocar-se, o mais próximo que conseguir esfuracar, do vão entre as salas, acotovelando os que estão de um lado e do outro do seu corpo espremido, e tentar aguentar-se nessa tensão elástica até que soe o primeiro acorde de piano, de guitarra ou do órgão. Então, e só então, lhe é permitido lançar-se em frente numa disparada e correr para a menina da sua eleição, a qual, se estiver para aí virada ou ainda descomprometida, lhe dirigirá um levíssimo aceno de aceitação após ter lançado uma mirada às acompanhantes. 
Nestas circunstâncias, como sacudir sapatos apertados, é um tremendo alívio dançar com a Libinha após a tensão que foi andar às voltas com uma moça que fomos buscar ao banco, iludidos pelos acordes em tom menor que anunciam uma música lenta. Para começar, a rapariga não fala e responde por monossílabos ao que perguntamos, o que faz com que seja impossível concentrarmo-nos numa relação interpessoal e nos sobre todo o tempo do mundo para apreciar a paliçada de olhares que nos verrumam desde as paredes em volta. Todos os presentes sabem que somos os novos médicos, só isso já seria prazer suficiente para as desocupadas, mas, para além do mais, acontece que estamos a tentar apertar a filha de X, a sobrinha de Y, a irmã de Z, o que só acrescenta novos temperos ao interesse da vigilante ou da tricotadeira de intrigas. Mais tarde, aprenderei a desenvolver técnicas especiais de fuga e ocultação, uma das quais consiste em fazer rolar o par pela sala até longe do local onde a fui convidar à dança e a coberto do coro grego que a acompanha, mas mesmo essa manha pode não ser verdadeiramente eficaz: no lambril mais distante, do lado oposto da sala, estará sempre alguém que trocará informações, sem levar nada por isso, com o inimigo. Que alívio, então, que a música tenha terminado e que seja obrigado pela convenção a regressar à andro-metade do Clube, onde tentarei alcançar o bar e obter uma cerveja que irei beber, pelo gargalo, pois não nos dão copo, junto do Rui ou cá fora, ao fundo das escadas, onde o ar está carregado de humidade mas respirável. 
Retomada a coragem, voltarei a subir, pois a noite é uma criança e antes estar ali do que em casa à espera que me chamem ao hospital. Desta vez, se dançar, irei buscar a Libinha, pois a D. Irene nunca aparece no Clube e o Oriolando, para além de não ter vocação para chaperon, não aguenta um baile até ao fim, a um momento olhamos para o canto onde cismava e já desapareceu na noite. E, depois, a Libinha já é grande, mais coisa menos coisa deve orçar a nossa idade, talvez  mais; viveu os anos do liceu em Angra do Heroísmo, é divertida e emancipada q.b. Enquanto rodamos pela sala vai-me explicando quem é quem, incluindo, como um bónus, a descrição da complexa relação entre as donzelas disponíveis e a respectiva teia familiar, os tabus que é interdito pensar em transpor.
“Mas isso já não se usa, Libinha...”, digo, incrédulo.
“Meu caro” – ela dirige-se-nos com frequência usando esse vocativo, amistoso e irónico – “aqui é assim: vai ter de se habituar.”  
“Pfffff”, sopro como uma válvula de panela de pressão, provocando um breve turbilhonamento na franja do seu cabelo curto e liso.


8


Assemelhou-se a uma apoteose planeada. Na véspera, no Açucareiro, o Sr. Medina comunicara-nos que a mudança para a casa dos magistrados tinha merecido parecer favorável de Angra do Heroísmo e que agora faltava só contratar umas mulheres para uma limpeza geral, mandar ligar a água e a luz...; instalar o telefone, lembrámos nós. “Coisa para dois ou três dias”, diz ele recusando com gentileza a caixa de cigarrilhas Pérola que lhe estendo. E hoje, a meio da manhã, de director para director, telefona-me o Araújo dos Correios a informar que estão a caminho as nossas malas de porão: chegam, da parte da tarde, pelo barco que fundeia ao largo da Praia; será que quereremos ir vê-las chegar? Ele pode tratar do transporte até nós, mas pensou que talvez quiséssemos assistir ao desembarque. Precisaremos de boleia? Ele vai, noblesse oblige, receber correspondência e encomendas. Está claro que queremos, é uma novidade suficientemente nova para a deixarmos escapar, mas iremos lá ter pelos próprios meios, levamos a ambulância velha – a que faz o transporte dos mortos – para arrebanhar os baús.
A localidade da Praia fica no sudeste da ilha e possui a única praia de areia de toda a Graciosa, em todas as outras, chamadas de praia, o areal tem o tom da fuligem e é formado por seixos que roncam sob o corpo de cada vez que nos reposicionamos na toalha. O porto, recorrentemente destruído pelas fúrias do atlântico no inverno, está a ser reconstruído no recesso da costa, uma enseada mesmo assim demasiado exposta ao mar do norte, o que o torna bastante perigoso. Os navios, mesmo os de modesto calado, são obrigados a fundear ao largo, a umas sensatas centenas de metros, nem pensar em aproximar-se da doca, onde só conseguem atracar barcos a remos, escaleres ou alguma traineirazita manhosa. As mercadorias que, quando o tempo permite, chegam à Graciosa vindas da Terceira ou de S. Miguel, são descarregadas por um guincho para dentro de escaleres que encostam ao casco dos navios e, se algum improvável passageiro vai descer na ilha terá de deixar o navio por uma escada pendurada no costado, rezando aos céus ou a Neptuno para aterrar em segurança quando chegar ao nível da casca de noz que bambeia, lá em baixo, nas ondas. Nesse princípio de tarde, o mar está invernoso, bravo, e esfarrapa rajadas de espuma branca nos rochedos aguçados que cercam o porto como barbatanas de tubarão. Firmado na rampa do molhe, arrepio-me ao olhar aquele cenário, longe de imaginar que um dia, não tão longínquo assim, eu próprio não terei outro remédio senão um transbordo daqueles, olhando o mar da amurada daquele mesmo navio de onde agora vejo, ao longe, descer a carga; amaldiçoando o casco cor de ferrugem ao longo do qual terei de me aventurar, enredando as pernas na escada de corda, os pés a escorregar em travessas de madeira encharcadas.
“É aquilo?”, pergunta o Araújo espetando o dedo. Aceno com a cabeça, reconheço o padrão axadrezado da cobertura de chapa dos dois baús rectangulares que se empilham à popa do bote que acabou de lançar corda à estaca do cais. “Ok, vou tratar de os libertar com a capitania...”
Passaram três dias, são quatro da tarde, acabei de chegar a casa e olho com um exultante sentimento de satisfação a arca de madeira recoberta com desenhos geométricos vermelhos. Já a abri, mas está ainda praticamente cheia, e antecipo o que vou encontrar como se não soubesse o que eu próprio aí acondicionei, como se tudo tivesse sido arrumado por outrem e eu fosse um puto de cinco anos que esventra um ovo de Páscoa em busca das amêndoas! Retiro com cuidado o meu querido rádio-gravador-leitor de cassetes Aiwa. Aquele bicho custou uma fortuna uns dois anos atrás, mas tem valido a pena: é compacto e estéreo, resistente e fiel; o som é impecável e aguenta volumes altos sem distorcer. A falta que me tem feito estes dois meses! Viajou no centro do baú, embutido num ninho sólido forrado por vários tratados de medicina. Até que enfim vamos poder escabichar as dúvidas clínicas que nos consomem e que nos fazem encarar com apreensão cada telefonema para nos apresentarmos na urgência. O que será que está à espera desta vez? E se é um enfarte? E se é um ventre agudo? E se é um parto complicado? E se for uma fractura do baço? E se... Temos muita esperança na ajuda daqueles livros... Começo a alinhá-los, por altura, na estante da divisão a que já começámos a chamar por escritório.
Estamos na casa nova e foi sem saudade, sem sequer aquele olhar derradeiro, que deixámos o apartamento por cima da farmácia. Nunca nos sentimos ali como num lar, a sensação era em permanência a de poiso transitório; nunca para ali convidámos ninguém e as únicas visitas foram as do Gasparinho, ou de outro auxiliar da farmácia, que subiam as escadas com demasiado à vontade para o nosso gosto. Tudo isso acabou. Acabámos por ficar com a casa dos Juízes, pois a outra, geminada à nossa, talvez venha a ser ocupada em breve, diz a fé do Sr. Medina. Estão “em negociações” e há a hipótese de vir um procurador do Ministério Público fazer missão na Graciosa; o Sr. Medina teme que possa ser uma senhora, mas pede-nos reserva perante a informação. “De todo o modo”, continua ele, “vindo um Dr. Procurador, o lógico é que fique na casa que lhe compete...”
A casa que nos cederam é a mais do lado do hospital, estamos agora ainda mais perto do local de trabalho do que estávamos, devo gastar um minuto, a passo pausado, a percorrer a distância que separa a porta do hospital e a daqui de casa, que está escancarada – fazendo corrente com as janelas abertas lá de cima – a ver se se esbate o cheiro a mofo, o qual produz uma estranha combinação olfactiva misturado à cera com foram recentemente passados os tacos do chão das divisões e os degraus das escadas para o primeiro andar. No andar de baixo fica o escritório de um lado e a sala de estar e de jantar do outro; lá mais para a outra ponta está a cozinha. No andar de cima, há três quartos e uma grande casa de banho, quase luxuosa nos seus apontamentos de mármore com veios esverdeados. Para trás fica o terraço, vastíssimo, a pedir um clima de esplanada, com o seu chão de tijoleira e separado do terraço da casa contígua por um murete que facilmente se transpõe com um simples jogo de coxas e joelhos. Espreitando do terraço, nas traseiras, há um quintalzeco, um coradouro bravio que evidencia o abandono, uns arrumos e um galinheiro de rede enferrujada que permanecerá sem uso, com excepção das quarenta e oito horas que ali passará uma malograda galinha.  
Mas, no presente, estou ajoelhado sobre o tapete do escritório a dispor os livros médicos nas estantes, a empilhar as cassetes na mesinha, para depois as levar para cima, para o meu quarto, uma vez que já escolhemos quartos e o que sobrou ficou imediatamente a ser o quarto de hóspedes. A casa está mobilada, a maior parte do recheio pertence ao Tribunal e o resto são acrescentos do hospital, mais o que foi trazido do apartamento por cima da farmácia. A minha cama, por exemplo, é uma cama de hospital, daquelas feitas em tubo de ferro esmaltado e com cabeceira gradeada. Ligo o fio do Aiwa à tomada e estou a esquadrinhar a lombada das cassetes quando ouço chamar. Enfio a cabeça pela porta de vidro martelado para espreitar o vestíbulo, que é mesmo ali ao lado e é de onde vem o som que chama. Na ombreira está o Sr. Medina, sem se atrever a entrar, com uma pasta encaixada debaixo do braço e o olhar preocupado do senhorio: não é preciso muito para adivinhar que ficou desagradado ao encontrar a porta escancarada, a bela porta, alternante de madeira e vidro, que lembra uma tablete de chocolate, franqueada à iniciativa de quem pretender o acesso à casa dos Juízes, eventualmente gente não devidamente credenciada. 
“Oh, Sr. Medina, é o senhor!? Entre, entre, por favor...”, digo, tentando, na entoação da saudação, fazê-lo sentir-se especial e reduzindo-me, simultaneamente, ao papel do hóspede transitório e grato.
“O Sr. Dr. dá licença? Não sei se incomodo, mas como é mandatório procedermos ao inventário da moradia... É certo que poderá ser feito em outra ocasião, mas pensei que quanto mais cedo mais fácil será identificar o que já cá estava e é pertença do Tribunal... Antes que outros bens se lhe misturem...”
Mandei, pressurosamente, entrar o Sr. Medina, apontei-lhe um dos sofás de napa, desculpei-me por não poder oferecer-lhe nada que se pudesse beber ou tomar, mas estávamos ali “há menos de dois dias”, e foi esta a chazada metafórica que lhe servi mas a que ele pareceu não ver nem bule nem chávena.
Quase duas horas mais tarde, ao chegar do hospital, o Rui ainda encontrou o Sr. Medina sentado numa cadeira, os joelhos apertados a servir de suporte à pasta de oleado sobre a qual escrevia, a rever a lista dos bens inventariados. Tínhamos subido e descido escadas, entrado e saído de quartos, aberto e fechado portas de cómodas e armários, com o meu inquiridor a enunciar em voz audível o móvel ou o pertence sobre o qual firmava registo:
“Estante em madeira de criptoméria, com três prateleiras amovíveis e corpo inferior com duas portas...”
Por coincidência, a última divisão sujeita a inventário foi o escritório onde o Sr. Medina quase me apanhara, de joelhos sobre o tapete, a arrumar livros e cassetes, e foi aqui que, a páginas tantas, ele levantou a esferográfica e, fitando-me dos seus olhos tranquilos, invocou a minha ajuda:
“De que cor diria o Sr. Dr. que é este tapete?”
Olhei o tapete com olhos de ver; o problema da cor não me parecia obstáculo.
“Eu diria que cor de rato...”
O Sr. Medina pareceu espantado.
“Cor de rato? Desconhecia haver uma cor com esse nome...”
Encolhi os ombros, balancei levemente a cabeça como se a cor em causa fosse banal.
“Sim, é uma cor comum – pelo menos lá no Continente...”
“Muito bem, muito bem”, comprazeu-se o Sr. Medina, assumindo em voz alta: “Tapete de sala rectangular, cor de rato.”
Antes de sair, satisfeito com a colaboração prestada pelo médico com que o Tribunal acabara recentemente de estabelecer contrato de serviços clínicos a título gracioso, o Sr. Medina prometeu que, logo que o inventário fosse convenientemente revisto e passado à máquina, me enviaria o documento final para que eu o assinasse, tomando conhecimento.   


9


Não deixa de ser apropriado que, no mar, a velocidade, isto é: o cumprir da distância, se meça não em quilómetros mas sim em nós, uma escala de medida que não se percorre com a linearidade do quilómetro e terá de ser deslindada com a perseverança de quem, após os desfazer, recompõe um novelo apanhado por um gato. Estamos, aqui, a uns meros 45 km da Terceira, 49 de S. Jorge e sessenta e picos do Faial e do Pico. De carro, isto far-se-ia numa meia-hora, uma hora, vá lá; hora e meia se as estradas tivessem contracurvas. Por vezes consegue-se ver S. Jorge em dias claros, lá longe, um relevo acharutado ao rés do mar. Parece que há gente especialmente dotada que avista, de quando em vez, o Pico e, dizem que, em certa curva da estrada do Faial, se pode lobrigar o contorno da costa sul da Graciosa. Pessoalmente, nunca vi nada de nada a não ser o mar e esse pode ser cinza, branco, azul ou verde, tudo depende do céu e do vento.
Esta situação de só se ver mar, de se ouvir o mar em todo o lado, de a ilha ser plana como um prato e o horizonte se aguar constantemente, mexe connosco e é substancialmente agravada pela consciência de não podermos sair daqui quando nos apetece. Lá, na longínqua pátria, estivesse onde estivesse, por inóspito que fosse o lugarejo, enfiava-me num carro, num comboio ou numa camionete e ia onde se me desse ir, e a diferença que isso faz! Aqui, estamos todos presos, coarctados, pousados nesta lágrima de pedra no meio do mar, às voltas como formigas numa côdea semi-submersa. Nem o intervalo de silêncio entre uma onda e outra se apercebe, o fragor do mar é contínuo, como se não admitisse recuos e não desistisse de cobrir a ilha. Porto de mar não há e os barcos passam ao largo, são  traiçoeiros os baixios da ilha. Quanto ao helicóptero – Pumas da Força Aérea – está vedado ao público em geral, para ter o direito de o usar naturalmente é necessário estar a morrer e que o médico de serviço o ateste à Autoridade Marítima, a qual gere a lista de passageiros com mão de ferro e que, graças a esta prerrogativa, alcandorou ao trono um dos tipos mais irascíveis e poderosos da terra. O delegado marítimo, um simples cabo ou sargento em qualquer outro lugar, tem aqui o poder da escolha e da retaliação e pode, a bel prazer, riscar um vulgar mortal da lista de passageiros para a próxima libelinha. O helicóptero vem habitualmente uma vez por semana, às terças de manhã, isto partindo do princípio que o tempo está de feição, pois pode acontecer que não lhe seja autorizado sequer levantar da base na Terceira, ou enfrentar condições de vento e névoa que não lhe permitem pousar na Graciosa; chegaremos, no pino do inverno, a estar três semanas sem comunicações com o exterior, sem correio, sem substituição das garrafas de oxigénio da urgência. Quando pode voar e pousar, o Puma traz bens essenciais (dinheiro, correio, medicamentos) e algumas pessoas: dignitários, funcionários; doentes que regressam de internamentos e exames complementares de diagnóstico que tiveram de ir fazer a Angra do Heroísmo, a S. Miguel ou mesmo a Lisboa. Ao meter-se de novo ao caminho, pouco mais de dez minutos após ter chegado, leva consigo uma dezena de eleitos que, estando de boa saúde, olham com regozijo os infelizes que pasmam ou acenam na periferia do campo de futebol enquanto eles se afastam no éter.
“P’rá semana há mais”, rosna o delegado marítimo de forma a apaziguar quem não foi, a anunciar que, para a próxima, tudo passará igualmente por ele.
Como médicos da ilha apercebemo-nos bem da teia de favores e das maroscas da autoridade marítima, pois temos o poder de desencadear, em situação de emergência médica, uma evacuação, que é como se chama a uma vinda excepcional do helicóptero. Quando isto acontece e o delegado marítimo vem a tomar conhecimento, sente-se como o corno do provérbio, mas, entretanto, já nós acertámos com o hospital da Terceira e a Força Aérea a recepção e o transporte do caso urgente e a Sua Autoridade nada mais resta do que remexer à pressa na papelada e reordenar os jeitinhos alinhavados, pois mesmo em circunstância urgentes o helicóptero tem espaço para mais alguém além do doente e do seu angustiado familiar. 
Resta à ilha que fica, como consolação, excitar-se a espreitar a chegada e a partida do pássaro sagrado. Toda a actividade de Santa Cruz estremece e se extingue nessa hora. Geralmente pressente-se a aproximação do helicóptero, o barulho do motor e do rotor das pás ouvem-se uns minutos antes e então, uns a pé e outros de carro, tudo se apressa em êxodo para o campo de futebol: eis o Araújo que sai apressado dos Correios, atravessa a rua e salta para o assento traseiro da nossa Dyane fumegante, enquanto os doentes que aguardavam vez vêm à porta do hospital assistir eles próprios à visão diferida do acontecimento que se aproxima, chegando alguns a correr rua fora em direcção ao heliporto, pois se nós lá estamos eles poderão também gozar a cena sem o risco de perder a consulta. 
“Então, Sr. Araújo”, temos ainda tempo de perguntar ao nosso viajante, “mais uma viagem a buscar o correio?”
“Sim, sim”, responde ele, acrescentando, misterioso: “E pode ser que chegue também algum no estado líquido... Eu logo telefono, se tiver notícias.”
Quando chegámos à orla do relvado já lá está o Gasparinho da farmácia, de bata branca ao vento e o Sr. Medina, assertoado na sua gabardina de abas estralejantes, prestes a receber a correspondência oficial; e, pronto a avançar, de cabeça baixa, a proteger-se da guilhotina circular das hélices, o Sr. Francisco Barcelos – a quem prescrevemos Dramanine por nos ter confessado enjoar com as curvas do helicóptero – despede-se, nervoso, da esposa e das filhas, pois embora o negócio que o leva a Angra apenas lhe vá gastar um dia, só poderá regressar a casa daqui a uma semana, no próximo voo do Puma
Observamos quem chega, e se desce alguém de novo, nunca visto nas ruas da ilha ou no Açucareiro, e o Oriolando acena-nos do lado de lá do campo, encostado à trave de uma baliza. Desta vez, que a gente conheça, regressou o Pombo da consulta a que o mandámos ao SLAT[3] de Angra. O Pombo é o veterinário da ilha e está tuberculoso, tem uma caverna no pulmão direito que ombreia com a das Furnas. Não se trata ou trata-se de forma irregular, fuma como um cão, bebe de mais, e tivemos de o enviar, quase a ferros, avaliar a sua situação e tentar perceber o risco de contágio que envolve. O Rui, que é o delegado de saúde, ameaçou que o afastaria compulsivamente do trabalho e que o proibiríamos de aparecer em nossa casa se nada fizesse. O gajo tem trinta e muito poucos anos e é bom homem, apenas um tresloucado incapaz de gerir a vida e o seu mal. Veio aqui parar, do Continente, sem ter consciência para onde vinha e, embora já cá esteja há mais de um ano, acho que ainda não se apercebeu do que lhe provoca tanta instabilidade, pelo que reage numa girândola de direcções e confusões enquanto queima cigarros e engole copinhos de whisky, brandy e Angelica, um vinho licoroso de produção local com 17 graus de potência. Não sabemos a origem da tuberculose dele, se das vacas com quem lida no emprego ou se de outro mugidor de duas patas, pois a tuberculose abunda por aqui: o que temos a certeza é que o ter cuspido, após muitas tossidelas arrancadas às costelas, um escarro demonstrativo, estriado de sangue, para a floreira ao lado da nossa porta não é bom sinal, nem para ele nem para a saúde das nossas ervas daninhas!     
“Venho carregado de frascos e de drogas”, diz-nos numa voz roufenha, sentado no banco de trás da Dyane, “vou ter de engolir um cocktail delas durante oito meses, no mínimo! Depois, tenho de voltar lá...”
“Estás fodido, Pombo”, dizemos-lhes para o animar.     
    

10


Daqui a três meses faço vinte e seis anos, o que, a esta distância em que escrevo, me parece pouco, muito pouco; actualmente as pessoas com quem convivo referem-se a gente dessa idade como “miúdos”. Mas não era nessa categoria tão verde e desculpável que se sentia pertencer o personagem que, nesse Março de 1979, deambulava – corcovado para resistir ao vento – as ruas de Santa Cruz da Graciosa. 
Eu fôra para ali no decorrer de um processo que já me fermentava na cabeça e buscava algo como uma troca de pele e de personalidade, como fazem as serpentes para se renovar. Intenções. Com vinte e cinco anos e uma – cria eu – longa acumulação de desvarios e episódios amorosos, ganhava terreno em mim a vontade de mudar de vida, assentar, o que incluía seguir o meu caminho, o qual não sabia qual seria mas, ponto dado como adquirido, incluiria uma companhia feminina de longo prazo, se não eterna ao menos definitiva como a existência por vezes nos parece. Estava enjoado da vida sexy que levava, rai’s partisse o jugo da sensualidade, a sedução, e quem lá andasse. E aquela coisa da ilha até que tinha calhado bem, funcionaria como a linha traçada na poeira com um graveto: “isto é a fronteira; tu agora não podias passar daqui, nem saltar por cima”; no fundo, quanto mais solitário o desterro, melhor: levaria os livros que achava ter de ler e nunca lera, e lá estavam a saltar da minha arca furta-cores os sete volumes do À La Recherche du Temps Perdu, do Proust. Ter tempo para, finalmente, traduzir para português a versão do Tarot do Oswald Wirth – também viajara no baú, na companhia dos respectivos arcanos maiores. Estudar medicina (de que sabia estupidamente pouco); firmar uma troca de correspondência com pessoas seleccionadas (actividade que julgava tão apropriada a uma ilha como o eleger do rum para bebida oficial); manter-me solitariamente afastado como forma de ascese espiritual – eu não conheceria ninguém no lugar para onde iria, conservar-me-ia longínquo e evitaria flirts, namoros ou qualquer outra espécie de contacto dessa natureza. Este celibato observaria mais do que um objectivo, um deles acautelava a eventual veracidade das histórias que se ouviam sobre a disposição das fêmeas açorianas em lançar mão de todo o subterfúgio da sereia para escaparem ao destino insular. E eu, em paradoxo com a minha ânsia de isolamento, já me sentia tremer de horror ao imaginar-me, por toda a existência, encatrafiado numa ilha a empurrar carrinhos de bebé pelo empedrado vulcânico, a engolir as sopas de pão das festas do Senhor Santo Cristo! Com esse celibato autoimposto observaria também outro dos mandamentos que me traçara: a fidelidade a um ser concreto. Uns curtos dois meses antes de embarcar para os Açores eu estava certo de ter encontrado finalmente a tal companhia feminina duradoura; a tal que me levaria a outro patamar da existência e preenchia, na minha exigente checklist mental, os quadradinhos de verificação onde riscara uma cruz: bonita, inteligente, gostável, com pinta – termo que então se usava para com classe, e dona de uma ponta de irreverência a desabrochar. Chamava-se João, tinha vinte e dois anos, deslocava-se numa Vespa vermelha, usava chapéus moles Burberry, e estava a terminar o curso de enfermagem na escola do IPO de Lisboa, a espécie mais chic das escolas de enfermagem desses dias. Antes disso, cursara um ano em Medicina, mas tinha urgência em ser útil e achara os estudos médicos demasiado arrastados no tempo.
Tudo isto que agora a rememoração retrospectiva define em contornos tão nítidos, tal peças de puzzle que encaixam sem folga, não o era, ou não o parecia ser, na época em que as coisas sucediam, pois aos vinte a vida assemelha-se-nos mais uma fotografia do que um filme; uma imagem fixa onde, além das bordas do papel fotográfico, nada existe que se relacione connosco. Ou seja, e comparando-me a um potro candidato a puxar a carroça do primeiro emprego, eu relinchava e escoiceava naquele processo de me habilitar a seguir um caminho em que seria simultaneamente a besta de carga e o cocheiro. Seria aquele o melhor caminho? Seria aquele o único caminho? Seria aquele o meu caminho? Qualquer decisão que viesse a tomar me parecia rigidamente definitiva e capaz de vincular todo o meu destino por séculos de arrependimento. Mas, enfim, uma ideia confusa persistia na bruma, a vontade de a cumprir também, e a personagem que deambulava pelas ruas da ilha – inclinado contra o vento – estava, a contragosto e capaz de o negar sobre qualquer um dos livros sagrados, tão eriçada de intenções e de princípios como estão os ouriços-do-mar do Carapacho de espinhos. Longos são os desertos e muitos os oásis.
O Rui partilhava uma boa mão cheia dos meus propósitos, um deles acabadinho de ser chutado ao mar por ambos. Conhecíamos-nos há sete anos, desde os primórdios na Faculdade, e vivêramos os dois últimos nas mesmas casas, os nossos primeiros dias fora das respectivas casas paternas e no dealbar da vida profissional. E, apreciada a experiência e a aprendizagem, os dois concordáramos que era hora de cada um seguir o seu caminho, de nos aventurarmos em separado; de maneira que tendo ambos decidido ir para os Açores durante a Periferia, o faríamos em ilhas diversas: ele a norte, nas Flores, e eu na Graciosa. E estava tudo mais que claro e decidido nas nossas cabeças até a esse dia da escolha no salão da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em que soubemos que as Flores já fora escolhida por um grupinho de quatro colegas. Logo depois, a realidade desnudou uma nova aresta: para além de mim, mais ninguém queria ou se sujeitava a ir para a Graciosa e eu não poderia servir sozinho uma população de 7.500 habitantes! Estavam planeados quatro médicos para a ilha, no ano anterior tinham lá estado três e, mesmo assim, não fora fácil. Comigo em silêncio, o Rui suspirou e lá se chegou à frente para a escala na Graciosa. 
“É o destino”, aquilata ele sorvendo um pouco de whisky e ajeitando-se regaladamente no sofá das Barcelos, enquanto a TV aquece para mais um episódio do Dancing Days. Santo Deus, aquela Vera Lúcia: que tesãozinho!


11


Sem poder sair daqui, a não ser a nado, com o correio a chegar – com sorte – uma vez por semana, o nosso único meio de contacto com o exterior, o mundial, é o telefónico. Mas até o singelo gesto de pegar no auscultador, discar um número e ter na linha quem nos interessa, não funciona aqui!
A menos que queira aceder a um número local no interior da ilha, para ligar para qualquer outro lugar do universo devo fazê-lo através de uma operadora em Angra do Heroísmo, a capital da ilha Terceira. Do outro lado do fio, na central, surge uma senhora que já sabe quem sou e me conhece a voz antes de eu ter tempo de me identificar e que, ao soletrar-lhe o número que pretendo, é mesmo capaz de clarificar: “ah, é para casa dos paizinhos”. Acho isto chocante em termos de privacidade ou de liberdades e garantias – como se diz agora – mas é o que temos e ninguém consegue escapar ao processo. 
A minha mãe, por outro lado, acha tudo isto pitorescamente divertido e este atraso de vida recorda-lhe os ambientes sertanejos das terriolas descritas por Jorge Amado nos romances que têm inspirado tantas telenovelas de sinhás e coronéis, e que ela segue com paixão e encanto. Lá, no Continente, é uma hora mais tarde do que aqui, pelo que sucede ela ligar pensando que terá comigo uma troca de impressões pós-prandial, durante a qual poderá até perguntar o que jantei hoje; mas, sendo aqui uma hora mais cedo, enquanto a ela, na sua poltrona da sala de estar, em frente à lareira, chegam os sons longínquos e reconfortantes do arrumar da cozinha, por aqui acabei eu de bater a porta da casa dos magistrados para, melancolicamente, ir enfrentar o peixe frito da D. Irene. E foi isso mesmo que lhe disse a menina dos telefones da ilha Terceira, quando ela ligou e pediu para falar com a casa dos médicos da Graciosa:
“Ó minha senhora, eu ligo, se quiser, mas olhe que eles – a esta hora – não estão, foram jantar...”
A minha mãe acha isto extraordinário, a mim deprime-me! Em nossa casa o telefone está lá em baixo, na zona do escritório, mas tendo por base a nossa especificidade laboral e o cada um de nós estar de urgência dia-sim-dia-não, exigimos que o conectassem a um fio tão longo que possa serpentear pelas escadas e esgueirar-se sob a porta do meu quarto, ou do quarto do Rui, dependendo de quem está à chamada nessa noite. Hoje é o meu dia sim e aqui está ele ao meu lado na mesinha de cabeceira de hospital, que faz pendant com a minha cama, mas eu olho-o de cernelha, desconfiado; evitando usá-lo para conversas de índole privada, pois é como bichanar a um confessionário aberto para o refeitório do convento! Mas a noite é longa e o tédio imenso. O que estarão todos a fazer, pelo Porto, por Guimarães, em Cascais?
Lá fora, o vento geme e entrechoca as ripas de plástico dos estores. Pego num livro, mas farto-me ao fim de poucos minutos; ando com dificuldade em concentrar-me e a trama escapa-se-me de significado, pois outras ideias se interpõe, catapultadas ou não pelo que estou a ler. Dou uma golada no gargalo da pequena garrafa espalmada, de bolso, que já teve whisky mas para onde transvasei rum, velho e com uma atraente cor de caramelo e um travo a noz residual. Pouso o livro, vou mudar a cassete no Aiwa e acabo por levantar o auscultador e pedir uma ligação para Cascais, para casa da João, nome e parentesco que, desconfio, a operadora já terá interiorizado, uma vez que não acrescenta  comentário algum ao pedido de marcação de chamada. Desligo e bebo mais um gole, uma ligação com o Continente demora sempre alguns minutos. Mas esqueci-me do cabrão do fuso horário, de que os minutos escorrem, e quem atende é uma voz masculina à beira da indignação, que me obriga a dizer quem sou e com quem quero falar antes de responder que “isto não são horas de ligar para casa de ninguém”. Olho o relógio e são dez nos Açores, não me parece que seja assim uma hora tão desgraçadamente escandalosa.
“Ó chefe, não é consigo que quero falar”, deixo escapar, “passe-me lá a João”.
Ele não passa, claro, e desliga, mas o meu fugaz desabafo foi arquivado na mente do meu futuro sogro e será a primeira coisa que usará como ilustração de já nos conhecermos no dia em que, um ano mais tarde, lhe for apresentado. A minha desculpa circunstancial para o meu deslize insular, irá estribar-se fortemente na diferença horária, pois o homem é engenheiro electrotécnico e fez toda a sua formação na Suíça, é, por isso,  um devoto da ordem e da ciência relojoeira. 
O telefone serve-nos também para trocar informações com os companheiros de degredo, particularmente os que estão sedeados em Angra do Heroísmo e, como Angra é o centro do nosso mundo, obter através deles notícias do resto dos Açores. Na Terceira, ficaram mais de uma dezena de colegas, que asseguram a assistência médica em tudo quanto são postos de saúde e casas do povo da ilha e reforçam semanalmente as escalas dos serviços de urgência do Hospital Distrital, à míngua de médicos. A maior parte deles reside no Hotel Angra, um dos dois hotéis da cidade e quartel-general dos clínicos do Serviço Médico à Periferia. A Secretaria Regional dos Assuntos Sociais tem ali vários quartos tomados em permanência para estes colegas, os quais fazem todas as refeições no hotel e o usam como se fosse uma república. Como há sempre alguém a circular – por férias, ausência para tratar de algum assunto, etc. – é fácil poder usar, à borla e por um par de dias, um dos quartos quando alguém de uma das outras ilhas do grupo Central ou Ocidental se desloca à Terceira, ou passa pela Terceira a caminho do exterior. A gerência baixa os olhos a este borboletear de gente que entra e sai sem reserva, sem se registar e sem pagar conta, e vai fornecendo serviços de quarto e refeições sem se queixar – alguém lhes há-de pagar isto mais cedo ou mais tarde. Por esta altura dos anos 70, desde o regresso massivo de colonos das antigas províncias ultramarinas, os hotéis estão habituados a servir de poiso a este tipo de refugiados; por isso nós seremos encarados como mais uns do género: gente que tem de ser suportada, com a vantagem de sermos médicos, o que agrada à população. A pouco e pouco vamos sendo conhecidos e a tolerância instala-se, tornou-se lasso e menos explícito o desagrado com que fomos recebidos inicialmente. Em Angra, cidade pequena e muito provinciana, não mais ninguém se atreverá a tratar-nos como aconteceu na tarde do primeiro dia em que aqui chegámos: o Rui, o Paulo Amorim e eu – pousadas as malas no hotel – atravessámos a Praça Velha e entrámos num café para tomar um. Sentados a uma mesa, olhando repousadamente em volta, pedimos três cafés ao tipo que saiu detrás do balcão e nos veio atender em passada relutante.
“Não há café”, respondeu ele, pronto e em registo cortante.
Olhámo-lo, surpreendidos, e confirmámos aquilo que era evidente: em volta havia pessoas a tomar café, a levar chávenas à boca, a remexer com a colher a xícara acabada de pousar na mesa.
“Mas ainda agora serviu...”, disse um de nós apontando a evidência mais recente.
“A máquina avariou-se!”, respondeu o homem dando de ombros.
E aí sentimos na pele aquilo que já sentíramos ao chegar a S. Miguel, de que já nos tinham avisado: os Continentais não eram desejados nos Açores, eram globalmente encarados como comunistas ou semelhante, representantes do reviralho que dera dado cabo do país e impusera a desordem como cartilha nacional. Os Açores temiam o contágio e tencionavam resistir, assistia-se mesmo a um recrudescimento do prurido independentista, um ‘movimento de libertação’ que sonhava poder safar o arquipélago à custa da posição geoestratégica, da América e do aluguer das Lages. Saímos e fomos tomar café ao hotel, ao menos aí sabiam quem nós éramos e tinham de nos aturar.  


12


Este ano a Páscoa é alta – 15 de Abril – o que nos dá alguma margem para não fazermos assim tão fraca figura. É que vamos estrelar na missa do Sábado de Aleluia, cantando no coro da Igreja Matriz. Imagine-se só: os médicos vão trinar na, talvez, missa mais carismática do ano, quando as trevas da Paixão descerem sobre a Terra e sobre as ilhas rodeados de água por todos os lados. Anda tudo excitadíssimo com a novidade, desde as Irmãs ao padre Jorge, nós incluídos.
Quem teve a ideia inicial de nos empurrar para o coro foi uma das freiras, pode ter sido a irmã Noémia, já não sei. Penso que a coisa surgiu por eu ter falado em música e de como gostava de música e uma delas ter querido saber se tocava algum instrumento e eu dizer que sim, que em tempos arranhara a guitarra, integrara até o embrião de uma banda que ensaiava na Senhora da Hora... E, então, alguém fez escorregar a hipótese para o prado verdejante das possibilidades... O coro da Igreja Matriz, que estava tão depauperado, só mulheres a cantar, sem uma única voz masculina para além da do padre Jorge e esse, pobre alma, Deus lhe perdoasse, era tão pouco dotado do ponto de vista canoro...
E nós, sem sexo, sem cinema, sem restaurantes, sem cafés; a capacidade para nos encantarmos com passatempos passivos – como a leitura – tão diminuída pelo spleen insular, deixámo-nos cair até à tentação, para grande alegria da irmã Noémia e da madre Superiora, já que a irmã Celeste não canta nem deixa os seus aposentos nas horas vagas.
“O próximo ensaio é já depois de amanhã”, anuncia a irmã Noémia, levitando de antecipação... Se os Srs. Drs. quiserem vir aqui ter, ao hospital, podemos ir juntos, apresentamo-los ao Sr. Padre Jorge.” E, agora que seríamos correligionários, confessou com um risinho: “Antes do ensaio tomámos uma gotinha de vinho do Porto, é bom para aclarar a voz; se acaso desejarem fazer-nos companhia...”
“Ai é?”, perguntou um de nós, preocupado por não termos um tal ambientador em casa. “A irmã acha que rum ou whisky serviria?”
A madre Superiora abanou a touca: “Estou em crer que não, deve ser um licor: doce e não áspero para as cordas vocais. Dizem que o melhor é o vinho da vossa terra...”
O padre Jorge é um tipo novo, fiquei surpreendido, não estava à espera; não terá deixado o seminário assim há muito. Deve ser mais um daqueles que veio aqui parar sem ideia de onde ia ancorar. É um homem nervoso, inseguro, e embora tenha ficado muito contente com a nova aquisição, não sabe muito bem como lidar connosco. Nós não ajudamos grande coisa, pois desconhecemos os rituais envolvidos, quer em agrupamentos corais quer no comportamento a observar no seio de uma igreja. Quem acabou por salvar a situação foi a D. Nizalda que, surpresos, vimos chegar, atarefada e um nada em atraso, e dirigir-se para o banquinho do pequeno órgão eléctrico, vizinho do estrado que antecede o altar-mor.
“A senhora é a mulher dos sete ofícios...” cumprimentámos ao consciencializar que, para além de organista e de orientar a cantoria, é quem fornece o vinho do Porto que também ali existe, como remedeio para algum corista que o não tenha tomado em casa.
Para além das freiras, do padre Jorge, de nós e da D. Nizalda, integram o coro  mais uma meia-dúzia de senhoras, a maioria da categoria beata empedernida. Mas, sorridente, a nossa pianista vai informando ser plausível que, em próximos ensaios, apareçam mais candidatos, pois a notícia da nossa adesão despertou curiosidade e interesse “entre a juventude”. O padre Jorge aflige-se com a notícia, exalta-se um pouco, levanta e aproxima as mãos de unhas roídas ao nível do rosto e diz que não é a melhor altura para se estar a acrescentar o coro, mas que é, sim, o momento de o estabilizar para que tudo venha a sair como esperado na noite do Sábado Santo.
“Vá lá, padre Jorge”, admoesta-o maternalmente a D. Nizalda, “não seja tão pessimista!”
Mas ele é, pessimista e ansioso, uma combinação explosiva. Dali a umas semanas, num momento em que, após um ensaio, ficarmos os dois a sós na sacristia, enquanto abre e fecha os gavetões da cómoda onde se guardam os paramentos, ir-me-á confessar que tem receio de ter perdido a fé, de ter deixado de acreditar naquilo que faz, nem sequer está totalmente seguro quanto à existência de um céu para além das nuvens! Fico bloqueado pela notícia e sem saber o que lhe dizer, antes de mais por se estar a abrir comigo daquele modo, o que significa que deve estar desesperado e se apoia em mim por ser médico, por haver também em mim a obrigação em ouvir e manter segredo sobre os males do corpo e da psique que me são confiados. E se o pusesse a uma dieta de Lorenin, pelo menos até ao Domingo de Páscoa, não vá ele armar cagada? Simultaneamente, sinto-me  preocupado com o seu futuro profissional – um padre sem fé, prestes a desatinar, a entrar em pânico; o desfecho clássico do que acontece a muitos que vêm parar às ilhas.
Ainda nem três meses passaram desde a chegada do nosso contingente de médicos ao arquipélago e os relatos de ‘esgotamento nervoso’, que nos conta o Paulo Amorim – entre risadas abafadas no bocal do telefone –, acumulam-se.
“Estás a ver o Saraiva, aquele que veio connosco e foi parar a S. Jorge?”
Sei muito bem quem é o Saraiva, um inofensivo e calado personagem do nosso curso, mas não faço ideia dos detalhes da estadia dele em S. Jorge. O Paulo acha inadmissível a minha ignorância,  afinal ele está aqui ao lado, em S. Jorge, um nosso vizinho; fala como se o pudéssemos ver daqui cada vez que fossemos ao terraço das traseiras! 
“Pois olha, o divertimento dele era meter-se no carro do hospital – uma Dyane, penso eu – e fazer a ilha de uma ponta à outra, para a frente e para trás, horas seguidas; sempre a acelerar, embora aquilo não acelere nunca grande coisa, é uma chocolateira. Pois olha: espetou-se contra um muro ou contra uma vaca, ou capotou ou lá o que foi... O certo é que estava tão pirado que teve de ser evacuado, já não está cá! Vi-o quando passou aqui pelo hotel, a caminho do aeroporto, apanhadinho de todo; aquele já não vai a lado nenhum. Ou melhor: se calhar foi mais esperto do que nós e já está em casa, não tem de aturar mais isto nem comer ananás a todas as sobremesas!”
E o Paulo ri convulsivamente do lado de lá da linha, provocando-me também um ataque de riso e, por contágio diferido, um outro ao Rui que, chegado ao meu quarto, quer saber o que se passa e porque me estou a rir tanto, e eu não consigo pô-lo ao corrente pois sou acometido de paroxismos alvares durante as tentativas de explicação.
“Paulo, sua bichona incorrigível”, berra o Rui para o bocal, depois de me arrancar o telefone das mãos. “Explica lá isso desde o começo, quero saber do que me estou a rir!”
Mas o Paulo não consegue repegar o fio à meada, hilaremente fixado ao fragmento das rodelas de ananás a todas as sobremesas.
“Quem nos dera – ananás todos os dias”, grita-lhe o Rui, o máximo que tens aqui é queijo da ilha com compota!”
E a história do Saraiva fica por explicar, dissolve-se na risota da comparação das sobremesas na Terceira e na Graciosa.
Os ensaios prosseguem a bom ritmo, não falhamos um e, não tendo vinho do Porto em casa, recorremos ao do Açucareiro – que fica em caminho da igreja matriz – onde entramos a tomar um ou dois como preparação. Depois, já na igreja, raramente recusamos o cálice que nos é oferecido à chegada, de modo que o clima dos trabalhos – com a excepção, sempre crispada, do Padre Jorge – não podia ser mais amistoso e risonho. Foi-nos distribuído um agrafado de folhas com as letras das músicas que vão ser cantadas e é com surpresa que reconheço numa delas a melodia do “Blowin’ in the Wind”, do Bob Dylan, e até os versos em português se baseiam na resposta que sopra no vento da canção original, só que aqui a resposta vem dos Céus e a boa nova é a palavra do Senhor, etc. e tal. Aquilo dá-me ideias, sou arrastado pela tentação de introduzir alguns melhoramentos ao repertório e proponho ao padre Jorge que usemos uma canção recente do Chico Buarque, chamada “Cálice”[4]. O padre fica desconfiado, refugia-se na opinião da D. Nizalda, que não conhece a música. Canto o refrão, omitindo o resto da letra:

                 Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Mas eles não se sentem confortáveis com a novidade: o padre torce o nariz ao “vinho tinto de sangue” e, segundo se lembra, nenhum dos quatro evangelhos fala nisso de Cristo ter exigido ao Pai que o livrasse de beber o que tinha a beber para  salvar a Humanidade. A D. Nizalda, mais prática, tem receio que seja demasiado complicado para o coro acertar com a inserção na canção das diferentes entoações de “Pai” e de “cálice” que ela, esperta, acha ir soar aos ouvidos de todos como cale-se. Desisto e voltamos à aguada versão litúrgica do “Blowin’ in the Wind”.  


13 


Para além de nós, estreava-se uma alcatifa vermelha, oferecida por um graciosense, emigrante em New Jersey, destinada a cobrir o estrado baixo que antecede o altar-mor, atapetamento que estabeleceria um belo contraste com a talha dourada das imediações. 
Já no ensaio imediatamente anterior à missa de Aleluia a alcatifa ali estava, uma vez que a tarefa de a estender, alisar e afeiçoar aos rebordos do estrado, que vai revestir, revelou-se tarefa complexa e obrigou mesmo ao recurso dos serviços do estofador da vila. Nesse último ensaio, embora a noite estivesse chuviscosa, o padre Jorge esperava por nós à porta da igreja, com o mal disfarçado fito de nos recomendar que raspássemos bem as solas dos sapatos no capacho de cânhamo do vestíbulo e que, lá dentro, tivéssemos cuidado com o local onde pousávamos os guarda-chuvas, não fossem as ponteiras gotejantes manchar a alcatifa nova.
Espreito por cima do ombro, a nave está apinhada como um ovo de Páscoa. Não temos termo de comparação com o que se terá passado em noites homólogas de páscoas anteriores, mas habita-nos a vaidosa suspeita de que a afluência terá a ver connosco, o chamado síndrome new kid in town. Seja como for, o padre Jorge está sobre brasas e comporta-se como se esta fosse a noite do seu Juízo Final. Eu e o Rui chegámos uma meia-hora antes das portas se abrirem ao fieis e fomos dar com ele na sacristia a explicar ao Sr. Irineu, o acólito principal, em que momentos do culto deveria apagar as luzes da igreja e deixá-la às escuras, como no breu anterior ao Verbo, e qual seria a senha para que isso fosse desencadeado, relacionando-a com determinadas partes e palavras da pregação. O acólito, que anda nisto há mais tempo do que o padre, não parece impressionado com o planeamento da coreografia da escuridão e continua a atulhar o turíbulo de incenso, visto que, para ele, esse será o ponto máximo da cerimónia, dado já o evangelista anunciar: “E veio outro anjo e colocou-se junto do altar, segurando um turíbulo dourado e foram-lhe dados muitos incensos...”[5].
Ao ver-nos chegar, de casaco, calça de flanela e gravata, chocarreiros pelos vários cálices de Porto atestados para garante de uma boa afinação, o padre Jorge trasladou sobre nós as suas ansiedades. Oxalá o coro não se engane, oxalá tudo corra sem percalços; na assembleia – já foi espreitar lá de cima, da galeria, por entre a tubagem do órgão antigo – está o presidente da Câmara, está o emigrante que ofereceu a alcatifa; está o veterinário; está o dono da farmácia; está até o Oriolando, um ateu de referência; em suma, está a ilha em peso ou, pelo menos, quem conta.
O Rui palmatoa-lhe com bonomia o ombro da sotaina: ele que não se preocupe, tudo correrá bem, e acrescenta um “segundo os desejos do Senhor” que, quem não o conhecer, tomará por genuína solidariedade, confundido pelos modos extremamente circunspectos e cerimoniosos que o meu amigo é capaz de assumir quando pretende tanguear terceiros. O nosso pequeno grupo de intervenientes vai-se acumulando na sacristia e, entretanto, chegou a D. Nizalda Barcelos, que tira o casaco e o pendura, com à vontade de iniciada, num cabide, ao lado de opas e estolas. Estamos prontos, são horas, e de cabeça flectida penetramos na igreja a caminho do local do coro, que fica, quem vem da sacristia, do outro lado do altar-mor. Ao contrário das freiras e das beatas, e até da D. Nizalda, nós não sabemos, não temos à vontade para aquele esboço de genuflexão, acompanhado de um rápido sinal da cruz, que é devido ao passar-se no corredor central da nave, sob a zona de influência do sacrário, pelo que a tentativa de vénia do Rui fez periclitar, por um pé não recolhido a tempo, um jarrão com verdes. Mas não mais do que isso e eis-nos alinhados, quase dando as costas aos fieis, de feição a podermos observar a cada momento as indicações da D. Nizalda, sentada à organeta e abarcando-nos a nós e ao padre Jorge, que surge agora em direcção do altar, seguido do Irineu e de mais dois chavalos que, com as suas opas rendilhadas, parecem bases de bolos. Com espanto, dou-me conta que toda as estátuas e estatuetas dos nichos da igreja estão cobertas com uma espécie de carapuço roxo, o qual, como a cobertura de uma gaiola de pássaros, os santos completamente. Atenção, vai começar!
Tudo quanto podia correr mal naquela missa, correu pior. O coro desafinou e enganou-se a entrar, trocando uma música por outra, o que provocou, na nossa mentora organista, um encolher de ombros de quem foi apanhado numa maldade infantil e está supinamente divertido. Depois, apesar de industriado pelo padre Jorge e pelo Irineu, o jovem acólito de serviço aos interruptores confundiu-se várias vezes e as luzes mantiveram-se, resplandecentes, mesmo após o padre anunciar “e as trevas abateram-se sobre a Terra”, arruinando o efeito cénico de ficarmos apenas à luz, vacilante e mística, dos círios. Mas a gota de água, ou melhor dizendo, a gota de fel, chegou pela mão do Irineu que, porventura por o ter atafulhado em excesso, ao pendular o turíbulo com o intuito de potenciar o “subir do fumo dos incensos”[6] derramou algumas brasas sobre a alcatifa nova. Aí, o padre Jorge não resistiu e deixou apressadamente o altar para vir atacar a matéria ardente com desesperadas sapatadas extintoras, o que provocou a estranha miragem de estarmos a assistir a uma dança de sapateado e desencadeou uma risada alargada que não passou despercebida ao humilhado sacerdote. Dominado o incidente, o padre Jorge regressou ao seu posto atrás do missal e não se conteve a dar largas à sua frustração, desatando a descompor a assistência, censurando-a pelo não cumprimento das responsabilidades de cristãos, assumidas no baptismo, lamentando o seu afastamento da vida do templo, em suma, pela sua falta de fé.
Mais tarde, já em casa, na companhia do Pombo, a quem convidámos a vir passar uma temporada aqui enquanto atravessa a fase mais crítica do tratamento com tuberculostáticos, rimos até às lágrimas ao relembrar os saborosos detalhes da noite, pois o Pombo assistira a tudo de um banco das primeiras filas da nave, com uma boa perspectiva sobre “o palco”, como dizia. O Rui, afagando o copo de rum, achava que “contado, ninguém acreditaria” e eu, deixando a cama para ir mudar a cassete que chegara ao fim, achava que aquilo fazia lembrar as comédias italianas dos anos sessenta. O quarto de hóspedes é pegado ao meu e daqui vejo o Pombo, de pijama às riscas, deitado na cama, fazendo-nos chegar os comentários numa voz roufenha e esforçadamente esganiçada. O Rui, que está de serviço hoje à noite, conserva-se vestido e de gravata, e passeia-se entre o quarto dele e o meu, onde acaba por se sentar ao fundo da minha cama, de copo na mão. 
“Deita aqui mais um coche”, peço estendendo-lhe o meu, pois ele está também de serviço à garrafa de Bacardi Gold.  
“Afasta de mim esse cálice...”, nega-se ele musicalmente.


14


A sala é grande e bebe a jorros a luz forte que entra pelas janelas de sacada. A mesa é comprida e está ricamente posta. Eu sou um dos convidados de honra, de favor, pelo que me é impossível escapar à sopa nojenta com que me encheram o prato, até às bordas. De pequeno que detesto todas as variações gastronómicas que incluam pão demolhado! Açordas, torradas encharcadas no molho do polvo à Bordalesa; só tolero mesmo as rabanadas a boiar no seu caldo doce, enriquecido com canela e casca de limão. Detesto, também, hortelã na comida: na canja, nos assados, seja onde for... Abomino, igualmente, todas as vísceras de animal que não tenham a consistência firme da moela ou do coração, e sangue, como ingrediente ou tempero – de que o exemplo mais flagrante é a cabidela – nem pensar! Pois, imaginem agora: a mistela que, no meio de encomiásticos gorjeios, me deitaram, à revelia dos meus olhos indefesos, no prato fundo, tem, em abundância, de tudo isto: pão encharcado, fígado, hortelã, o conjunto a boiar num sangue nojento, de um vermelho cediço, abrilhantado por vacúolos de gordura. Chamam a isto Sopa do Espírito Santo e é uma das preciosidades locais do almoço do Domingo de Páscoa e, em extensão, dos domingos que se lhe seguem.
Invoco até mim as manhas que usava em criança quando era forçado a comer uma coisa de que não gostava: aferrar o nariz – como se me preparasse para  mergulhar nas ondas de um mar sem fundo –, suster o reflexo do vómito, e pensar noutra coisa. E aqui vai uma colherada, cheia, para acalentar o pensamento positivo de quanto mais cheias as colheres mais depressa esvazio o prato e me livro disto... O esófago retorce-se à passagem do caldo viscoso e de um farrapo de miolo de pão... Foda-se, para além de a sangue e a hortelã, isto sabe a canela, o choque plástico e gustativo é similar a ter engolido uma rabanada tombada em fluido menstrual! À minha volta, os olhares das senhoras fixam-me atentamente, ansiosas pelo veredicto, pois, a título cautelar, cometera a estupidez de confessar que seria a primeira vez a comer uma sopa destas... Repelindo um naco de fígado, vertiginosamente atraído para a concha do talher, encho uma segunda colher. Tento pensar noutra coisa...
As janelas, de sacada e com varandas curtas de mero enfeite, dão para os pauis da praça. A mesma praça para onde abriam as janelas da nossa casa, quando morávamos por cima da farmácia. Mas as nossas janelas da frente eram acanhadas e a perspectiva sobre os pauis prejudicada pelos troncos e ramos mais baixos das araucárias; era uma paisagem tristonha, mesmo nos dias ensolarados. Daqui a vista é desimpedida, veem-se os dois lagos, vê-se o largo arborizado do Rossio, o coreto, as cadeiras da minúscula esplanada do Açucareiro. Agrupados em diminutas esquadras, andam patos a vogar nas águas, tranquilos, uma gaivota passou lá no alto, invejosa, deslizando o reflexo na superfície do paul... Ao chegar à Graciosa julgava que estas piscinas eram ornamentais, embora houvesse algo de peculiar nas suas paredes grossas e abauladas. Depois vim a saber que eram cisternas, primordialmente construídas para aproveitamento da chuva, o tom decorativo, que acabara por se impor, era secundário. A Graciosa não tem água doce, não há nascentes, ribeiros ou riachos,  a ilha é chata como uma bolacha e as nuvens que passam no céu não têm onde se enredar, preferem vogar mais a sul e enamorar-se da agulha do Pico, onde ficam emaranhadas e cismam grandes névoas, despejam chuvadas. Aqui, o clima é louco, num mesmo dia pode chover, ventar, ficar nublado ou raiar um sol aberto: a ilha está totalmente à mercê do tempo que passa a caminho de outro sítio qualquer. Ao menos, nunca é muito frio, penso, reparando que a sopa foi amornando, torna-se ainda mais nauseante emborcá-la. Já ingeri grande parte do líquido, mastiguei os pedaços de alcatra, mas, acusativos farrapos de pão jazem entre os troncos de hortelã como alforrecas presas no sargaço... Vejo a dona da casa olhar na nossa direcção, expectante, uma criada, inclinada sobre a mesa, segreda-lhe algo... É um recado do hospital, telefonou a madre superiora, parece que chegou um doente muito urgente, requer-se o médico de serviço. Ora, o Rui esteve de serviço ontem, o médico de serviço sou eu e levanto-me de supetão, antes que ele, que, a meu lado, se vai refugiando em copos de verdelho, aproveite a oportunidade e se escape ao repasto!
O doente está ainda deitado na maca em que foi transportado, pousada no chão da urgência, não quiseram mexer-lhe antes que o médico chegasse. É um homem dos seus sessenta, pesado, e um fio grosso de vómito escorre-lhe da boca, cola-se-lhe à bochecha flácida, escorreu para o lençol que o cobre até aos ombros. É comida, ainda por digerir, se aquilo não é sopa do Espírito Santo anda lá perto... “Sentiu-se muito mal logo no fim do almoço, de repente, quando se levantou da mesa...”, informa alguém que o acompanhou. “114/175”, segreda-me a madre superiora. Percebeu o que aquilo era mal lhe pôs a vista em cima e deparou o ar ausente, confuso, do doente, um canto da boca descaído.
“Este senhor andava a tomar comprimidos para a tensão?”, pergunto enquanto lhe tomo o pulso. Andava, de dois tipos diferentes: uns brancos e uns amarelos, envernizados... Mas não com a regularidade receitada, percebo nas hesitações ao inquérito; sentia-se zonzo quando os tomava todos os dias... Às vezes tomava só metade do branco, partia-o pela ranhura.
Quando regressei ao almoço já as cores e a tremeluzência das sobremesas alegravam a toalha e os pratos dos convivas. A dona da casa, pressurosa, quer-me mandar aquecer qualquer coisa; garanto-lhe que “não, muito obrigado”, estará para mim perfeito fazer um curto-circuito directo à sobremesa.
“Nem um poucochinho de alcatra assada, com uma batatinha?”  
Durante a tarde fomos chamados mais duas vezes ao hospital, terminámos o dia com três AVC[7]! Todos com tensões altíssimas, descontroladas, os três aparentemente desencadeados pela farra gastronómica do almoço de Domingo de Páscoa. Ficaram internados, dois na enfermaria dos homens, a mulher no lado da parede que lhe compete. É a mais nova, tem apenas 56 anos e, se não recuperar, vai ficar bastante estropiada e dependente. Não há grande coisa a fazer com os AVC e nem pensar em evacuá-los, não fomos bem sucedidos numa experiência prévia. O helicóptero demorou a vir, por causa do nevoeiro, e os colegas, mais velhos e experientes, do Hospital de Angra telefonaram a descompor-nos: para que tínhamos mandado aquilo, que podiam eles fazer por lá que nós não pudéssemos por aqui, e quais as vantagens em desinquietar um doente confuso, que precisava de sossego e não de ser balançado sobre as águas como um recém-nascido no bico da cegonha?! De facto, talvez eles tivessem razão, mas nós, por aqui, não temos capacidade para fazer sequer uma análise rápida ao sangue e os livros médicos revelam-se de pouca utilidade prática... E ficamos muito atrapalhados quando sentimos a gravidade de uma situação clínica a pairar sobre nós como um augúrio de remorsos... Bem, mas isto de estar vivo e de se aguentar nas borrascas da doença também tem muito de sorte, a qual pode ser de distribuição instantânea ou de ter de se esperar para ver. Os nossos três doentinhos – como lhes chamam as freiras – ficaram todos a soro, bem entalados na roupa, quietinhos nas suas camas e atentamente vigiados pelos familiares que, durante a tarde, vêm, de táxi, visitá-los e se sentam nas cadeiras, dispostas em torno da cama, a pasmar para as gotas do sistema de soro. Eu, se não fosse um mero director interino, sem poderes reais de despesa e inovação, mandava até servir-lhes chá; não às cinco horas – para não interferir com o horário das visitas, que é das duas às quatro – mas lá pelas três e um quarto.   


15


O não haver uma cortina, o risco de esparrinhar o chão, poderiam ser invocados como factores explicativos, mas o certo é que o Rui adora enfiar-se em demorados banhos de imersão, onde, para além de se ensaboar e amolecer as extremidades, corta as unhas e barbeia-se!, o que, a mim, faz grande confusão pois não me atrevo a escanhoar a cara sem um espelho à frente dos olhos. Como fica imerso por solitárias eternidades, o gajo gosta de companhia e, se estou em casa, vou, por vezes, sentar-me no tampo da retrete a conversar. Sobre toda a sorte de assuntos, boas e extensas conversas ali mantivemos por entre o ecoar dos mármores, o embaciar dos meus óculos e o pingolejar das torneiras.       
Hoje é sexta-feira, há baile logo à noite e queremos aparecer no Clube como novos, apagar de nós as emanações e a recordação de tanta gente auscultada, percutida, apalpada, infectada e desinfectada; alguns deles poderão até surgir-nos mais logo transfigurados em concorrentes de dança ou a querer pagar-nos uma mini ao balcão. Estou sentado no digno tampo de madeira da sanita, da banheira chega-me o clic-clac do corta-unhas e aguardo que o Rui saia das abluções para me pôr eu de molho. O Pombo, coitado, como é apenas hóspede e tem ainda risco de contágio, fica para o fim e espera no quarto que saiamos e lhe deixemos os despojos do chão encharcado e do espelho nublado.
Enquanto isso, fazemos uma espécie de balanço da semana, comentando doentes e o grande número de AVC que nos inquietaram nos dias que se seguiram às festas pascais. Dos três que apareceram na tarde do Domingo de Páscoa, o mais grave pareceu-nos o da mulher, mas quem morreu foi um dos homens; ela, para lá está, no internamento, a recuperar melhor do que imaginávamos e só não lhe demos alta porque a família ainda não encaixou que vai ter de modificar a rotina para a ter de volta. Ao contrário do que sucede com a irmã Celeste, nós ficamos na merda de cada vez que nos morre um doente e assalta-nos a corrosiva dúvida de se teria sido possível ter manejado o caso de outro modo, se fizemos alguma coisa que não deveríamos ter feito e que, a ser evitada, ainda poderia levar a que o defunto andasse à tona da existência. De quando em quando, se o doente nos ficou mais próximo, comparecemos discretamente no velório ou na missa de sétimo dia, mas sempre possuídos pela sensação de não termos o direito de ali estar, de que haverá alguém na assistência – por mais polido e contido nas manifestações – que julgará ser acintoso termos aparecido, pois a razão para o fúnebre encontro radica, em última análise, em nós.  
Terá, porventura, sido num desses diálogos aquáticos que nos surgiu a ideia apaziguadora de um dia, talvez lá mais para o meio do ano por uma questão de acumulação de maior massa crítica, de uma tarde passarmos pelo Registo Civil a fazer uma visita ao Oriolando e de, como quem aproveita a visita, lhe pedir para nos deixar ver o livro de assento dos óbitos deste ano e, “já agora, ó Sr. Oriolando, poderíamos também dar uma espreitadela nos livros de 1979 e 1978?”. O fito é contar quantos doentes teremos matado desde que aqui chegámos (subtraindo ao total o morto que esperava para autópsia no dia em que pousámos no campo de futebol) e comparar esse número com os mortos do mesmo período de cada um dos dois anos anteriores. Temos fé que a estatística nos alivie. Ambos somos ainda muito ignorantes nesta ciência da análise e interpretação da mortalidade comparada, mas se viermos a descobrir que a gente falecida no tempo dos colegas que nos precederam foi semelhante à desaparecida nos nossos dias, estamos em crer que as nossas almas poderão circular pelas ruas de Santa Cruz mais leves. Ah, se assim for...
“Ainda por cima, eram o dobro de nós a fazer consulta...”, dizemos como se isso tivesse alguma coisa a ver.
Vivemos em permanente ansiedade e a noite é sempre pior, sobretudo para o que vai estar de urgência, que desperta enfrentando o dia como se o céu estivesse coberto de nuvens e se vê empurrado para um lugar solitário mal a luz do dia declina, uma trincheira em que o telefone tocará só para ele. Cada um de nós – confidentes em espelho – sabe tão bem como é solitário esse posto, que não é raro eu atravessar o negrume da noite em direcção à luz amarelada que brilha do lado de lá dos vidros da janela da Urgência e, passada meia hora, ver aparecer um Rui, desgrenhado e de olheiras cavadas, que me cospe ao ouvido ter tido uma “insónia do caralho” e, junto a mim, se debruça sobre a criancinha que arde de febre em cima da marquesa.
“Que é que achas que tem?”, inquire em voz calada. As crianças metem-lhe especial respeito, pois considera não ter grande à vontade para lidar com elas e, sobretudo, com as mães que, com os seus olhares pendurados e apartes  constantes, não nos deixam trabalhar em paz.
“Não faço a mínima... Para já tem uma febre impossível, temos de o arrefecer, não vá ter uma convulsão! Ajudas-me a segurá-lo? Tentei espreitar-lhe a garganta mas a mamã desatou aos soluços e não foi capaz de o prender como deve ser!”
Sonhamos com meningites, enfartes, corações arrítmicos, insuficiências renais, comas diabéticos; ventres agudos a necessitar cirurgia urgente e o helicóptero sem vir por causa da tempestade... Perante situações clínicas concretas – ou imaginadas no âmago da noite, na espera que o telefone toque – abro os livros e ponho-me a estudar febrilmente. Quando nos mudámos para aqui, estavam todos muito arrumadinhos, por altura da lombada, na estante de criptoméria do Sr. Medina, no escritório, mas, a pouco e pouco, foram subindo as escadas e invadiram os quartos. Tratados de Medicina Interna, handbooks de Pediatria e Obstetrícia, concebidos para caber no bolso de uma bata; manuais de Farmacologia e Terapêutica, vade-mécuns para interpretação de parâmetros laboratoriais. O problema, o grande problema, é que, e embora esteja lá tudo, todo o saber, não nos servem para grande coisa! E, mais, o defeito é mesmo esse: estar lá tudo! O não haver uma hierarquia do que é mais frequente, do que se pode esperar num ambiente genérico como o nosso, é o que lhes distorce a utilidade. Pela leitura desses livros pantagruélicos achamo-nos logo contaminados pela hipótese de que uma dor de cabeça poderá ser sintoma de um tumor na cabeça, quando o mais provável é a senhora que se nos queixa estar nesse estado na sequência de uma pega com o marido que, em vez de a defender, se pôs do lado da mãe dele, aquela cabra! Mas os livros que temos connosco, prezados como bíblias no Hospital Universitário que nos formou, são demasiado especializados, excessivamente médicos, se assim se pode dizer. Demoram-se tanto nas raridades (que só verei uma vez na vida, ou nem isso), como nas condições clínicas que representam 95 % do que geralmente bate à porta de uma consulta indiferenciada como a nossa, ali na ilha, onde somos embate de todos os acontecimentos que podem levar um ser humano a sentir-se esquisito. Porra! Depois, mesmo quando temos a certeza do diagnóstico, do mal da pessoa, e, confiantes, vamos procurar ao calhamaço o esteio técnico para como proceder a seguir, deparamos com recomendações como: “meça a pressão parcial de gases no sangue...”, “efectue punção lombar e mande analisar o liquor”, ou “proceda a radiografia de contraste, baritada...” E nós ali, onde o único gás à mão é o oxigénio e está dentro de uma bilha de metal, e em que o único Rx acessível serve para confirmar se um osso está partido, coisa que, aliás, já sabíamos pela irmã Noémia, que tem uma queda pelas fracturas e pela Ortopedia. Em termos de recurso ao Rx, especialmente, convém sermos parcimoniosos nos pedidos, pois as freiras, as únicas que estavam por perto quando ele foi instalado e aprenderam a mexer naquilo, detestam lidar com o obsoleto aparelho, do qual não se pode dizer mal, pois foi doado pela diáspora Açoriana. Estou em crer que a sua chapa mais importante foi a tirada no dia da inauguração, por entre discursos que louvaram o bem inestimável que é a Saúde, e a bênção do Sr. Bispo de Angra que, ainda hoje, é o melhor garante de segurança contra as radiações.  
Em todas as arengas oficiais, que ouvimos até chegarmos aqui, foi-nos prometido o apoio dos colegas mais velhos; qualquer coisa e era só ligar para Angra do Heroísmo, já que os médicos de serviço teriam o maior gosto em auxiliar e aconselhar os colegas mais jovens... No princípio era o verbo, depois restou-nos a operadora da central telefónica, que nos diz que o telefone toca e ninguém atende ou nos vai confidenciando que é sempre muito difícil chegar à fala com o Sr. Dr. que pretendemos.... Quando, por fim, chegámos à fala, o colega quase não dispõe de tempo para nos ouvir ou não nos pode aconselhar por não ter o doente à frente. Seria então melhor enviar a senhora a Angra, ao Hospital? Isso, nós é que sabemos, defende-se o tipo do lado de lá, mas o melhor seria, para já, tentarmos resolver o problema a nível local; sobretudo não voltássemos a mandar doentes sem avisar, sem contactar antes, como já tínhamos feito mais do que uma vez! É que, entre o hospital, a clínica e o consultório privado, eles têm muito com que se ocupar e não é só a nós, e à nossa ilha, que devem prestar apoio! Desalentado, fico-me a olhar o bocal negro e mudo do telefone, e a única certeza que me resta é a de que a próxima vez que tocar vai ser para mim, vai ser uma das Irmãs ou o Viegas a pedir desculpa por me maçar menos de uma hora após eu ter deixado o hospital, mas apareceu uma senhora, grávida de 37 semanas, cheia de dores, referindo perdas... Porra, e eu que detesto grávidas e as suas complicações a dobrar! No bloco operatório há um carrinho de metal polido, com várias prateleiras frias e ressonantes, em que esperam, em caixas a condizer, um par de fórceps e uma ventosa obstétrica que fariam as delícias da Inquisição Espanhola.  
Quando as portas a que bato não se abrem ou, sequer, alguém atende ao intercomunicador, viro-me para o meu pai, que chateio por telefone, ou a quem, nos casos menos agudos, escrevo longas cartas, que mais parecem histórias clínicas e que, Deus seja louvado, se interessa pela nossa aflição, procurando o parecer de colegas do Porto se não está à vontade na área do saber de que precisamos no momento, e que, no telefonema do próximo Domingo, perguntará novidades sobre o estado do Sr. Bettencourt ou a cólica da D. Crisália.
Em complemento, abuso também da João, a minha namorada, particularmente quando os casos são (ou tresandam a) doença maligna, pois se ela tem aulas  mesmo ao lado do Instituto Português de Oncologia... É um senhor que já devia ter sido encaminhado há meses, a cirurgia está atrasada, não valerá a pena fazer nada se não for já, e Angra não dá andamento à referenciação... Ela multiplica-se nos esforços e não só conseguiu consulta como desencantou uma pensão perto do IPO, para a mulher do senhor ficar em Lisboa. Irá mesmo buscá-los ao aeroporto da Portela, quando o casal, assustado e desorientado, deixar a sua ilha no meio do azul a caminho da capital que visitam pela primeira vez.


16


Hoje deram-me uma galinha, viva. No fim da consulta, a D. Crisália, aplicando duas palmadinhas ternas na minha mão que ficava mais próxima da cadeira de onde se levantava, confidenciou:
“Trouxe-lhe uma pequena lembrança, Dr. Pedro... Ficou à guarda da Rosa, ela depois entrega em sua casa...”
Fiquei intrigado com o mistério: o que poderia ser que tivesse que ser levado a minha casa e o que teria a Rosa a ver com tudo? A Rosa é uma das empregadas auxiliares, um daqueles casos de criança internada que a família se esquece de levantar e vai ficando, ficando; até que o tempo passou, ficou grande e agora pertence ao quadro de trabalhadores do Hospital. Quanto à D. Crisália, é uma das minhas doentes mais fieis e entusiastas: mora lá para uma das extremidades da vila, uma rua estreita com as casas alcandoradas sobre o mar. Quando me foi testar a primeira vez, apareceu com um saco de medicamentos que foi dispondo no tampo da secretária como se fossem peças de dominó. Percebi que ia ser demorado, empurrei o cinzeiro para perto de mim e acendi um Goldflame, que é o que ando a fumar agora, pois os dez pacotes de SG Filtro que vinham dentro da arca já se acabaram e tabaco continental é produto raro por aqui. Entretanto ia mirando as caixas que a D. Crisália alinhava e, de imediato, previ que dormia mal, que tinha gases e más digestões: cismática e entupida, um fardo comum. Mas, apesar de se tratar de um mal trivial, ficou comovida quando lhe adivinhei e particularizei a situação com cuidadosa atenção e me dispus a tentar uma solução alternativa para os seus padecimentos. Já percebi que os doentes de uma certa idade – esta senhora andará pelos seus cinquenta e picos – gostam de consumir medicamentos em formato líquido, pelam-se pelas injecções de beber que implicam limar o bico às ampolas com uma serrinha, ou de ficar a ver cair gotas em colheres de chá previamente atapetadas de açúcar. E foi precisamente isso que propus ao seu fígado pouco colaborante, sujeito a pontadas, interferindo com as digestões de fritos e provocando enfartamentos, gases e um intestino preguiçoso: por agora iria suspender o carvão activado e passar a contar gotas antes de cada refeição. Quanto à sua paralisia intestinal, prometi que havíamos de ver isso numa próxima visita, assim como o medicamento para dormir, que estava a perder efeito.
“Senão fica sem motivo para me vir visitar!”, adiantei, “para já vamos concentrar-nos no seu fígado...” E passei a explicar das gotas, quantas devia tomar por dia, a que horas, e do sabor a hortelã pimenta que deixavam na língua. Enquanto perorava iam-se-me digladiando na mente as considerações do livro de terapêutica, o qual atribuía valor meramente de placebo ao medicamento, e o que me dizia o meu pai no final de uma ronda de consultas, após ter pedido autorização ao cliente para que eu assistisse, avisando-o que brevemente eu seria também médico. Na Universidade havia também quem nos falasse nisso em palavras empolgadas, da arte e da ciência em Medicina; porém era diferente ver isso acontecer em cobaias verdadeiras, esse entrelaçar da técnica e da psicologia, em que a atenção ao que nos conta, confessa ou oculta o doente e a observação do modo como se comporta, são o pilar onde se enrosca a relação médico-doente.
Pois as gotas, e os posteriores conselhos dietéticos e de higiene do sono, deram bons resultados na D. Crisália, que passou a distinguir-me com um sorrisinho cúmplice quando, nas noites de Sexta ou Sábado, me adiantava no Clube ou na Filarmónica para requisitar a sua sobrinha Sãozinha para uma dança. Estou em crer que via tudo aquilo com esperançosa simpatia e é possível que a galinha fosse uma espécie de marco geodésico na sua geografia particular de contribuir para fixar um médico na ilha.
Terminadas as consultas fui à procura da Rosa que, com um sorriso embevecido, me arrastou pelo braço da bata até umas das portas traseiras do hospital. Lá fora, esgravatando a orla da erva rala onde se estendiam os lençóis a corar, uma galinha castanha tentava chegar mais longe com o bico do que o que lhe era permitido pelo cordel que a prendia, por uma pata, a uma estaca espetada no chão.
A meio da tarde, ao ouvir bater à porta, já me esquecera de tudo aquilo e a minha cara deve ter suscitado na Rosa a necessidade de uma explicação.
“Venho trazer a galinha”, apontou para o bicho que, tornozelos amarrados, trazia encaixado debaixo do braço como uma bola de futebol. “E também lhe trouxe isto, deve dar para uns dois dias...”, acrescentou estendendo-me um saco de plástico. Espreitei: dentro havia um ajuntamento algo caótico de cascas de batata, hastes de verdura e restos de pão.
“Onde quer que a ponha?”
Acordei da minha inspecção de resíduos e apontei com um indicador em arco:
“Venha comigo, há um galinheiro ali atrás...”
Com um desdém que transformou em conselho, a Rosa inspecionou a porta de rede, enferrujada e empenada, e o chão, coberto de urtigas e outras herbáceas daninhas. 
“Vai ter de lhe por ali uma malga com água... E, se fosse ao Dr., despachava a franga já nos próximos dias, está no ponto para ser cozinhada e quanto mais tempo esperar mais rija vai ficar. É para ser comida aqui, não é?”
Olhei-a do meu olhar mais transparente e assegurei-lhe que sim, que era para comer já e ali.
Fui despedi-la à cancela do portão e, antes de regressar ao interior, fui espreitar a galinha, em sossego. Mal se via no meio daquele mato, mas, com o pescoço oscilante em cada passo prudente que dava, andava já a inspecionar o novo cativeiro que, pelo menos, era menos traumatizante para os artelhos que o anterior. Assim, vista de perto, achei-a bonita na sua cor brilhante de um castanho quente, à qual casava bem o vermelho da crista diminuta e dos barbilhões. Fui à cozinha e enchi uma tijela com água, entornei metade da ração que a Rosa me deixara num prato de sopa e estava a puxar o estore da porta da cozinha, que dá directamente para a parte lateral da casa e do trajecto para o galinheiro, quando o Pombo entrou na cozinha e se dirigiu ao frigorífico para se servir de cerveja.
“Ouve lá”, perguntei, “sabes matar uma galinha, não sabes?”
O gajo segurou-se, quis saber porque fazia a pergunta e em que contexto.
“Contexto?! É que temos ali atrás uma puta duma galinha, que, depois de morta,  poderá dar um belo frango assado, para três ou mais convidados; e como és veterinário...”
“Eh pá, sim, mas sobretudo especializado em animais de grande porte: vacas, cavalos, porcos, às vezes. Aves, galináceos, cães e gatos, não é muito a minha cena...”
“E se for uma avestruz?”
Fiquei logo a perceber que, por ali, não ia a lado nenhum e pareceu-me mais recuada a imagem de um frango assado em cima da mesa da sala de jantar que, dois meses depois, continuava por inaugurar e se mantinha com o ar não habitado do resto da casa.
Subi as escadas e sentei-me a continuar, por mais umas linhas, a tradução do Tarot, constantemente perturbada pela falta de inspiração, pela necessidade de consulta do dicionário, e por interrupções de pessoas que me vinham trazer galinhas a casa. Ouvi tossicar e olhei em frente: a mesa que me serve de secretária é uma cómoda sobrepujada de espelhos articulados, aos quais se pode modificar o ângulo até nos multiplicar por três. O Pombo estava encostado à ombreira da porta e, ao ver os meus seis olhos expectantes, perguntou:
“Se aquela cena do frango assado for por diante, posso trazer uma amiga? Disseste que podia dar para quatro...”
Na manhã seguinte, antes de sair para a ida semanal à casa do povo da Luz, fui espreitar a galinha, a que o Rui já apusera a alcunha de Mimi, o que não me convinha, pois queria evitar, o mais possível, uma relação personalizada com alguém a quem urgia limpar o sebo, sendo eu o putativo carrasco. Já tinha comido tudo e virado a tigela, que estava vazia de água. Reabasteci e jurei a mim próprio que hoje mesmo, na volta, trataria do que tinha a tratar. 
Durante a viagem de regresso da Luz, apertei a Guadalupe com um interrogatório de tal modo cerrado sobre o modo de proceder com galinhas que ela se ofereceu para me matar a Mimi, depená-la e sacar-lhe as tripas. Agradeci, mas recusei, era uma tarefa que, como dono e tipo que quer aumentar as perspectivas  gastronómicas domésticas, me assistia. Mas não deixei de me sentir ainda mais acabrunhado, pois a minha preocupação com o futuro saltara imediatamente do acto de matar para o acto de cozinhar, e não me detivera nas etapas intermédias do depenar e do extirpar! Durante as consultas da tarde, já no hospital, enquanto ia ouvindo distraidamente as queixas dos doentes, fui tentando atiçar a memória e revisitar aqueles momentos, fugazmente lobrigados e logo desinvestidos, em que as empregadas de casa dos meus pais cortavam o pescoço a galinhas e perus, e depois, sentadas num caixote posto em pé, ao lado de um alguidar fumegante, lhe arrancavam, em sucessivos ‘plops’, o toucado, até o bicho estar tão obscenamente nu como um sobretudo que se abre à saída da escola primária.  
Voltei a amarrar os tornozelos da Mimi, que durante todo o processo me fuzilou com um olhar onde cintilava uma indignação estúpida, e levei-a para a zona dos degraus que davam acesso à porta da cozinha, onde já esperava o alguidar e a faca de mato que viera na arca; lá dentro, no fogão da cozinha, pusera água a ferver numa panela. Acabara por optar pelo facão após examinar as duas facas de cozinha que herdáramos da casa por cima da farmácia, as quais possuíam lamentáveis gumes e quase nulo poder de corte. Lâmina e gume não faltavam a esta, embora talvez o gume fosse um pouco espesso quando o comparava mentalmente com as facas, afiadas até ao sumiço do aço, usadas em minha casa, na casa da minha avó. Trouxera este facalhão comigo no mesmo espírito das garrafas de rum e da ilha deserta, era um faca exploratória, enfiada na sua bainha de couro cru, com cabo de osso e uma lâmina de quinze centímetros. Mais uma arma de chefe dos escuteiros do que de açougueiro ou cozinheira, mas, na teoria, parecera-me a melhor solução, não agora que, como a um puto em observação  pediátrica, tinha a Mimi presa entre os joelhos e lhe esticava o pescoço pelo pente da crista. Aquilo não tinha sentido e essa constatação de absurdo corroeu o ímpeto ao gesto decisivo, pelo que não consegui um golpe eficaz e dei comigo a serrilhar o pescoço da galinha em hesitantes gestos de vai e vem. Ela, por seu lado, debatia-se cada vez mais debilmente no meu colo e a sua respiração transformara-se num gemido asmático. Quando terminei, os degraus de mármore claro das escadas estavam vermelhos de sangue e havia uma nódoa líquida de fezes nos joelhos das minhas calças. Fui lá dentro buscar a água, que, solitária, fervia em cachão na panela, e transvasei-a para o alguidar, aproveitando para esfregar um pano de cozinha embebido nela no tecido cagado das jeans. Mimi, essa, jazia sobre o empedrado de mármore, de olhos vagos, desinteressada do presente e do futuro. Enfiei-a pelas patas dentro do alguidar e deixei-a ali uns minutos, enquanto fumava um pensativo Goldflame. Quando a retirei do molho, não passava de um gotejante peso-morto que libertava um enjoativo fedor a  merda e penas molhadas. Tentei arrancar algumas, mas aquele plop fácil de que me lembrava não se reproduzia ali, e libertar cada uma das penas da pele da galinha era como arrancar uma árvore pela raiz! Desisti ao fim de uma dúzia de tentativas e ao aperceber-me das muitas centenas de penas e penugens que revestem a carcaça de um galináceo. 
Livrei-me da água no quintal, enfiei Mimi no alguidar e cobri-o com o pano. Depois fui discretamente despejá-la no prado que existe em frente à nossa casa, do lado de lá da rua. Uma vaca ficou a acompanhar as manobras, sem deixar de retouçar a erva tenra, enquanto eu olhava em volta, em busca de testemunhas. Ninguém me viu. Corri para casa, subi as escadas e fui à janela do meu quarto, que dá directamente para o prado e para os quadris da vaca. Parecia que nada  acontecera ali e já nem tinha bem a certeza do maciço de ervas onde abandonara os despojos da galinha.   

  
17


Dizia o Sófocles: “Um só dia faz baixar ou erguer de novo tudo o que é humano.”[8] Eu que o diga, que ainda ontem, por esta hora, não sonhava, nem dos meus sonhos fazia parte, a pálida ideia de, menos de vinte e quatro horas depois, estar a entrar num quarto do Hotel Angra, na ilha Terceira. Os meus sonhos, os meus desejos, andam em permanência e por princípio agarrados ao local onde estou; imaginar, como via outros fazerem, ver-me fora da Graciosa, ter férias dali a não sei quantos meses e fazer contagem decrescente dos dias que faltavam, eram estratégias que evitava por me ser familiar a ressaca que sempre lhes vinha debitada. Iria de férias lá o para o Verão, lá para o meio da estadia por aqui, deixaria uns dias também para o Natal; talvez a João e a namorada do Rui nos viessem visitar no bom tempo, e era tudo. Nessa altura, dizem por aqui, a ilha engrinalda-se com os emigrantes que voltam da América e do Canadá, anima-se com a visita dos que moram na Terceira mas aqui têm casa, pois aqui nasceram. Até lá, havia que aguentar sem gemer, sem queixumes, tínhamos sido nós a escolher aquele destino.
Era o Rui que estava de urgência e a regra básica ditava que quem estava de urgência não saía do hospital, com excepção do almoço e do jantar em casa da D. Irene ou da ida ao Açucareiro, mas essa rotina dos médicos toda a gente estava a par, sem necessidade de aviso prévio. Assim, quando a GNR apareceu com o pedido de um médico, fui a escolha natural. Preferi levar a Dyane, queria estar livre de movimentos para o que desse e viesse, mas dei boleia ao guarda que me fora chamar e a quem fui sacando nabos da púcara pelo caminho. Havia um tipo maluco – “De que idade, mais ou menos?” Ele pareceu surpreso com a pergunta, “não fazia ideia, não o tinha ainda visto” –, maluco a sério, com história de internamentos anteriores no manicómio da Terceira; e com tendência para se tornar violento quando se passava acima do costume e, desta vez, quase limpara o sebo à pobre mãe com quem vivia, tinham sidos os vizinhos a telefonar para a GNR ao ouvir os gritos; já lá estava até um carro com dois soldados, mas achavam ser assunto para chamar o médico, pois havia a violência mas também a doença e tinham dúvidas sobre como lidar com a situação. 
A casa ficava na franja de uma povoação chamada Caminho de Manuel Gaspar, já por ali passara, sem reparar; pouco mais de quatro quilómetros da vila, mas com um resto de estrada estuporada até se chegar à sede do ‘incidente’, como diz o guarda. O tempo hoje está bonito, chegou Maio, e o mar murmura, espreguiçado e azul-profundo, grandes pássaros deixam-se vogar nas correntes de ar sem fito aparente, como se tivessem feito pausa para planar apenas. O jipe da GNR está estacionado encostado a uma esquina, a uma boa dezena de metros da casa em questão, as portas abrem-se e os guardas saem quando travo o Dyane à porta e fico à espera que venham ao meu encontro, um pouco intrigado. Se o doente é varrido e queria apertar o papo à mãe, o que estão estes tipos a fazer tão longe e sem nenhuma velha com eles, à protecção? Explicam que tentaram entrar em casa do “indivíduo”, mas que este é perigoso e preferiram esperar por mim; a mãe, essa, não quis deixar a proximidade do filho. Mas que raio estão estes gajos à espera? Que eu seja o escudo deles? Aquilo cheira-me mal, ainda antes de ter começado.
A mãe é um campo de rugas e está sentada num banco da cozinha, tem um lenço amarrado na cabeça e, mal percebe que devo ser o médico, dá de levantar as mãos, juntas como se eu fosse uma Nossa Senhora das Dores, e lamuria-se do pobre rico filho e da vida dela, ali, sem outro homem em casa que pudesse impor alguma discrição. Pergunto pelo rico filho e ela aponta uma mão desalentada em direcção a uma escada que nasce ao fundo, após se atravessar a cozinha. Um dos guardas quer subir comigo, mas peço que fiquem em baixo; se precisar chamo e eles então que subam, aos pares. A casa é tosca, despida, e as escadas para o andar de cima parecem mais os degraus desleixados e a pique de um celeiro do que escadas de uma habitação. Quando chego aos últimos degraus, vejo, em frente aos olhos, uma porta escancarada e ao fundo uma janela aberta que enquadra o azul-ferrete do céu e uma barra do azul-profundo do mar – é bonito como uma pintura. Entre a porta e a janela está uma cama de ferro, estreita, encostada à parede, e nela está sentado, como num banco de jardim público, um tipo enorme, vestido de preto, com calça e casaco como se estivesse pronto a sair para a missa. O chão em torno dele está pejado de piriscas calcadas, embora, no momento, não esteja a fumar nenhum cigarro; tem as mãos pousadas no colo, umas manápulas grossas e de unhas por cortar, tarjadas de sujidade. O homem não levanta os olhos sequer ao sentir aproximar-me, mas pressinto que sabe que estou ali e penetra-me com agudeza a intuição de que devo ter cuidado, não sei bem porquê. Não é só pelo tamanho do tipo, embora só isso já inspire muito respeito, é algo na pose expectante com que mantém as mãos espalmadas sobre as virilhas, na cabeçorra cabisbaixa, de cabelo liso, escuro, a escorrer sebo; no modo como os olhos baixos se movem cautelosamente sob as pálpebras semicerradas. Percebo agora o temor respeitoso da GNR, aquilo é como um touro bravo parado numa sala de estar, quem é que se chega para um primeiro embate? Bem, mas eu sou o médico e sou suposto ter competência naquele tipo de bloqueios, como se fosse um mágico ou um hipnotizador. Tento chegar à fala, mas ele não responde e quando me aproximei, para, talvez, me chegar a sentar numa ponta da cama, como faz o bom clínico chegado à cabeceira do doente, o gajo levantou a cabeçorra e olhou-me como se tivesse óculos e me fitasse por cima deles, daqui vejo a risca ao meio que aparta os cabelos negros, nítida e engordurada. Nada, nada que eu possa fazer, aquilo está para além de todo o entendimento. Prefiro, movendo-me lenta e previsivelmente tal se estivesse num museu, pôr-me a observar os medicamentos espalhados em cima do tampo de uma cómoda, a panóplia do costume de antipsicóticos e calmantes, uma salada com o poder de uma marretada de guindaste. Mas não os deve andar a tomar, algumas das embalagens (várias da mesma marca) estão ainda seladas, e outros frascos derramaram cápsulas pela cómoda e pelo chão. Diagnóstico desconhecido, perigosidade alta, intervenção a pôr em acção mais do que clara: tem de ser evacuado para a Terceira a alta velocidade, não há nada que a gente possa fazer para desarmadilhar aquilo em tempo útil! O tempo está até excelente, agora é só levá-lo até Santa Cruz e a GNR que trate disso.
Quando lhe transmito as minhas conclusões, o cabo consulta o relógio.
“É que já passa das três e meia e nunca se vai conseguir ter tudo pronto, da nossa parte, antes das quatro, quatro e meia. Depois é preciso activar os procedimentos com a Força Aérea e, a essa hora, o helicóptero já não vem, eles não gostam de fazer missões para aqui da parte da tarde, para mais em hora tão adiantada; a não ser em caso de vida ou de morte... O Sr. Dr. diria que é um caso desses?”
“Bem, para ele, não; mas para quem se lhe atravesse no caminho já não sei...”
Os gajos riram como se só estivessem à espera daquilo para desanuviar; um riso nervoso, em qualquer dos casos, pois ninguém duvidada que os próximos a ter de se atravessar no caminho seriam eles.
“De qualquer modo, meus senhores, aqui é que ele não pode continuar. Teremos, se for caso disso, de o manter em Santa Cruz até amanhã de manhã, mas é melhor começar a tratar disto desde já, não vos parece?”
Pareceu-lhes, a custo, e depois de olharem uns para os outros numa consulta muda: 
“A gente, quando chegar, vamos deixá-lo lá ao hospital; pois não há ilícito declarado que obrigue a que fique sob nossa custódia... Vamos ver o que diz o nosso comandante, mas é o que parece...”
Fui obrigado a achar que me parecia bem, mas aquela sensação, boa e refrigerante, de ter passado a batata quente fugiu de mim como as raras nuvens que, altas e dignas, patrulhavam o espaço e fugiam à ilha rumo ao sul. 


18


Quem não ficou muito agradada com o anúncio do visitante vespertino – a GNR teve algum trabalho em enfiá-lo no jipe, o que atrasou a chegada – foi a madre superiora, que o conhecia de visitas e dores de cabeça anteriores. Mas, como era de sua índole, não deixou de pôr, de imediato, a apoquentação a render e logo contactou o Viegas para que substituísse nessa noite a irmã Noémia, que era a enfermeira escalada para apoio à urgência. O Viegas tem mais de um metro e oitenta de altura e, embora seja um pacholas, o seu físico e ar de S. Cristóvão com o Menino aos ombros impressiona, para além de que sempre resistirá melhor a um sopro do que a irmã Noémia. Como medida suplementar, após ter vindo auscultar a minha sensibilidade de director clínico, a madre superiora decidiu que, logo após o jantar dos doentes, fecharia as enfermarias à chave, fazendo as Irmãs o mesmo na sua residência do andar de cima. Achei bem e muito avisado, não me iria ocorrer tal procedimento a não ser quando já tivéssemos um maluco a atemorizar doentes numa enfermaria ou a fazer esvoaçar freiras pelas janelas.  
O visitante parecia agora outra pessoa, e o ser passivo, embora expectante, que eu fora encontrar sentado no quarto, transmutara-se numa bisarma agitada que percorria sem cessar o espaço – um gabinete de consulta desocupado – onde, forrando de lençóis uma marquesa, lhe improvisáramos uma cama para a noite. A irmã Noémia trouxera um copo de leite morno, naquela de que o leite, para além de sustento, é também calmante, e o Viegas tentava abordar o homem pelo lado racional da argumentação e das regras de convívio entre seres humanos sensatos. Encostado à ombreira da porta, eu olhava a cena com apreensão, pois a insistência do Viegas e o tom do diálogo, a roçar o ofendido pelo outro não perceber que só queríamos o “teu bem”, estava visivelmente a energizar o doente. Mais no registo maternal, a irmã Noémia, flutuando em volta dele, empunhava entre o indicador e o polegar da mão esquerda uma alentada cápsula azul-napa-forro-de-cadeira, enquanto da outra lhe oferecia o tal copo de leite morno que já devia estar frio. Entalado entre os dois enfermeiros, entre as duas estratégias, o homem ia crescendo em claustrofobia e lançava olhares em volta, nomeadamente para a única abertura da sala sem janelas. Fiz um sinal discreto ao Viegas e saímos ambos até ao corredor, onde um dos guardas da GNR se acomodara num dos bancos de espera para o atendimento da Urgência. Compreensivo e solidário, o comandante da GNR destacara um dos seus soldados para ali passar a noite, auxiliando-nos no que se viesse a revelar necessário em termos de contenção ou segurança.
“Nós, assim, não vamos a lado nenhum, Viegas. Não é nem com comprimido nem com copos de leite que o vamos acalmar. Mas vamos ter de fazer qualquer coisa, duvido que ele se aguente até de manhã sem desvairar...”
“Pois, eu sei, mas o que é que você propõe? Ele precisa é de um injectável, mas quem lho dá?”
Percebia lindamente o ponto de vista dele: é competência do enfermeiro administrar as injecções, mas aquilo era um caso especial e tentar inoculá-lo um procedimento que poderia acabar em agressão, pois quem não reage com uma sapatada ao ser picado por uma abelha?
“Vamos andando e vamos vendo. Para já prepare aí uma seringa com duas ampolas de Largactil: 25 + 25 mg. Preferia Haldol, mas acho que não o temos injectável...”
“Já não há, não. Já se pediu para Angra, mas não veio... Ou até em gotas, disfarçava-se no leite...”, sonhava ele alternativas à injecção.
“Arranje isso. Depois vemos se o convencemos; se não for a bem, vai ter de ser a mal...”
“Porra”, disse o Viegas, inconformado: “E quem lha dá, a mal?”
“Logo se vê”, prometi, vago, “nem que seja usando o método radical da enfermeira Celeste...”
Ele riu, apesar de tudo. O método radical da enfermeira Celeste, que o usara como missionária em situações limite, consistia em usar a seringa e a agulha como uma bandarilha e espetá-la na primeira oportunidade, deixando de lado preciosismos técnicos e fazendo-o mesmo que fosse atravessando roupa.
“Olhe”, voltei, dando corpo à ideia, não se esqueça de apetrechar a seringa com uma agulha de calibre compatível...”
“Já tinha pensado nisso”, respondeu, “será bom que a agulha não parta...”
A irmã Noémia apareceu, fechando cuidadosamente a porta atrás de si.
“Então? Conseguiu?”
Ela abanou a cabeça tristemente: “Não há maneira de o convencer, parece que nem está ali! E deita-me uns olhos de cada vez que insisto!”
“Pois não, e cápsulas destas tem ele em casa, aos montes, por tomar... Até no chão as vi... Olhe irmã, são horas de jantar; vá para cima, que a gente aguenta-se por aqui.”
Ela lançou-nos um último olhar de admiração e carinho, quis saber se as diligências com a vinda do helicóptero estavam tomadas.
“Sim, sim”, informou o Viegas, “se nada falhar, estão aí amanhã, às oito. Vão tentar mandar um enfermeiro de lá, para ajudar e acompanhar o transporte...”
De madrugada, ouvi cair a chuva e encolhi-me, fez-me pensar que poderia estar tudo comprometido. Continuei na cama, a ouvi-la cair; era forte, mas não açoitava as vidraças, soava como uma chuva vertical, ajuizada. Dormira pessimamente, se é que dormira, nem bem disso estava certo. Tínhamos adiado a inoculação do doente até depois do jantar, na torpe esperança de que com o esparguete com alcatra e o copo de leite, que fora deixado em cima de uma mesinha móvel, ele se tentasse e engolisse os – agora dois – comprimidos. Quando voltámos de casa da D. Irene, eu, o Rui e o Viegas entrámos no gabinete com as tarefas toscamente distribuídas: o Rui e o Viegas entretê-lo-iam, de modo a criar um momento de rarefação de espaço e tolhimento de movimentos, instante que eu aproveitaria para enfiar a agulha e pressionar o êmbolo da seringa. Assim fizemos, com o doente a agitar-se mal percebeu a seringa, e o tal momento idealizado a resvalar, comigo a espetar a agulha através do tecido das calças na face externa da coxa do homem; o Rui a tentar evitar que ele usasse as mãos enquanto eu pressionava o êmbolo, e o Viegas a apanhar um safanão que o atirou contra a mesinha móvel onde estavam pousados os restos do jantar, fazendo-a tombar com grande estardalhaço e atemorizando o GNR que dormitava do lado de fora. 
Perto da uma da manhã telefonei de casa para o hospital. Atendeu o Viegas e dei comigo a falar com ele em voz muito baixa, como se tivesse medo que alguém nos ouvisse. E do lado de lá, contagiado, ele respondeu no mesmo tom de voz sumido. O doente continuava na mesma, isto é, fresco como uma alface; até parecia que lhe tínhamos dado água, na versão do Viegas.
“Já viu, Dr.? Uma dose que, a nós, nos ia pôr de patas ao ar!”
“Mas está tudo calmo?”, queria eu saber, pois, estando longe da vista, a minha preocupação entretinha-se com imagens de portas partidas, fugas no escuro da noite...
“Está, tudo sob controle, pode ir dormir sossegado. O gajo está lá fechado, não se ouve uma mosca, e eu estou aqui entretido na conversa com o nosso amigo da Guarda. Ao que parece, a ilha toda está a par, olhe que nem uma mosca apareceu até agora na Urgência...”
Mas, embora exaurido, sono era coisa que não me descia. Peguei num livro e pus-me a ler sobre agitação psíquica e métodos de tranquilização rápida; antipsicóticos de primeira e segunda geração, efeitos secundários... As descrições eram uniformemente esquemáticas e pareciam ter lugar no melhor dos mundos, um mundo em que os necessitados baixavam as calcinhas para levar a pica no tutu! O livro ficou por ali, aberto em cima da cama; apaguei a luz e tentei apagar-me. Como é que o gajo não havia de ter ficado agitado? Quando o arrancaram de casa e chegou ao hospital – por muito alienado que estivesse – devia ter apercebido o que lhe ia suceder a seguir, bastava ter memória e ser capaz de reter alguma aprendizagem: ia acontecer como já tinha acontecido, iam levá-lo dali no helicóptero, por sobre o mar; iria parar a uma casa onde nada era agradável ou livre, onde nem sequer tinha uma mãe para pregar uns sopapos.... 
A luz infiltrava-se pelos rebordos do caixilho e já não se ouvia cair a chuva. Olhei o despertador: sete menos dez. Levantei-me e puxei o estore: o céu estava azul, ainda um azul desmaiado, mas sem mácula. No prado em frente, a vaca do costume tinha levantado a cabeça e olhava na minha direcção. Parecia lavada pela chuva, como se tivesse acabado de sair de um chuveiro onde preparara o preto e branco da pelagem para enfrentar o novo dia.
Depois a manhã pôs-se em marcha, rapidamente. O helicóptero surgiu no céu mal davam as oito e, da ambulância em que o Nascimento os fora receber, desaguaram à porta do hospital dois latagões vestidos de branco, com camisas de manga curta e bíceps poderosos. Um deles, pendurava duma mão uma maca portátil e o outro uma trouxa clara que reconheci, mais ao perto, como sendo uma camisa de forças. Eram enfermeiros, recrutados ao saber-se a tipologia do doente a evacuar: nem a Saúde nem a Força Aérea queriam incidentes durante um voo sobre o mar! Fiquei a assistir, maravilhado, à facilidade e à leveza assertiva com que os dois tipos vestiram, como quem enfia uma camisa lavada a uma criança, o colete de forças ao nosso visitante, e a docilidade com que ele se deixou cair na maca, desdobrada no corredor da urgência. 
Acabei por servir de motorista à ambulância no regresso ao heliporto que, nessa manhã, não via tanta gente como de habitual, pois as circunstâncias não permitiam a viagem de mais ninguém. Durante o trajecto, descomprimindo da tensão de tantas horas, dei comigo a dirigir ininterruptas perguntas aos enfermeiros: o que iria acontecer ao doente quando chegasse à Terceira? Já o conheciam? Afinal o que tinha ele, qual era o seu diagnóstico psiquiátrico? O enfermeiro que seguia sentado a meu lado era do género mais calado e quem me respondia era o outro, que, inclinado sobre a janela de correr que separava a parte traseira dos assentos da frente, me informou que isso do diagnóstico poderia perguntar depois aos psiquiatras, mas o que podia dizer é que se tratava de “um menino perigoso”. E logo apresentou uma proposta surpreendente:
“Por que é que o Dr. não vem connosco? Já ficava a saber tudo isso...”
“Acha que sim, que seria possível?”, perguntei, atónito.
“Claro, é perfeitamente normal: acompanhar um doente complicado durante uma evacuação... Acontece com frequência.”
A ambulância era dotada de rádio, que permitia o contacto directo com o hospital. Liguei ao Rui e expus o assunto, afinal seria a alombar com a minha ausência. 
“Vai à vontade”, disse com simplicidade, “eu cá me arranjo”.
No Hotel Angra também encararam a minha chegada com naturalidade. Não, não estava nos quartos nenhum dos meus colegas, todos tinha saído para os respectivos locais de consulta. Sim, havia um quarto que estava, no momento, desocupado e eu poderia ficar nele, o colega que ali costumava morar estaria fora nas próximas dez noites. Deram-me a chave, subi de mãos a abanar, pois nem uma escova dos dentes trouxera! Quem se atreveria a atrasar uma evacuação por causa de adereços de higiene? Tinha deixado a Graciosa directamente da ambulância para o helicóptero; ao veículo, alguém o iria buscar ao campo de futebol, as chaves ficaram no porta-luvas.
O quarto dá para trás, para o florescente Jardim Municipal e uma tranquila luz, temperada de reflexos verdes e ambarinos, entra pela janela. No quarto de banho encontrei pasta, escova dos dentes, um pente com cabelos encravados; só iria ter de pedir emprestada uma lâmina de barbear. Estava sem saber quando regressaria à Graciosa. Arranquei os sapatos, despi-me, e enfiei-me na cama de solteiro, feita de fresco, apetitosa como uma noiva acabada de cortar. 
No hospital psiquiátrico acompanhara o doente à enfermaria de agudos que, a essa hora da manhã, estava surpreendentemente vazia. Os enfermeiros que tinham acoplado a maca a um sistema de transporte com rodízios já não eram os mesmos do helicóptero. Assisti ao modo cauteloso como passaram o doente para a cama e como, antes de começarem a despir-lhe a camisa de forças, lhe enfiaram os pés numas algemas de couro acopladas ao fundo da cama. Em seguida, retiraram-lhe um dos braços da contenção da camisa de forças e prenderam a respectiva mão numa outra algema que pendia ao nível da cabeceira. Finalmente, fizeram o mesmo com o outro braço e com a outra mão e, só então, relaxaram a atenção aos procedimentos. Foi, sobretudo, por esse ritual que percebi os riscos que corrêramos naquelas horas todas em que lidáramos com o doente na Graciosa e senti-me vulnerável como um aprendiz, como um jogador a quem foi concedida a sorte do principiante; foi nesse momento que o medo floriu em mim. Deitado na cama do hotel, pensamentos à solta, a minha visão interior era interceptada pelas imagens daquela meia-hora de helicóptero sobre o mar azul. O doente viajara deitado e manietado na maca, num espaço aberto criado pelo recolher dos bancos que há atrás da carlinga. Os enfermeiros, cansados por se terem levantado tão cedo, seguiam absortos, e eu, entaipado no meu assento, estava dentro do ângulo de visão do passageiro: toda a santa viagem o homem me fitou com o olhar que sobra ao animal enjaulado e tem consciência da presença do seu perseguidor; um olhar de ódio concentrado, que se exprime da impotência em direcção à eternidade. Horrível, pois embora tentasse entreter-me na beleza das imagens em movimento do exterior do Puma, o meu olhar voltava para reencontrar a mesma fixidez, uma vez que, na mente cativa, ele não tinha outro motivo de interesse. 
O colega a quem fui apresentar cumprimentos antes de deixar o hospital, era simpático, condescendente com o jovem maçarico que lhe aparecera e que parecia tão impressionado com a encomenda que entregara. 
“E agora, para onde é que você vai? Quer boleia lá para baixo? Vou sair dentro de uns dez minutos, posso levá-lo ao hotel...”
Durante a breve viagem, expus a minha preocupação em ter deixado a ilha, em restar lá apenas um colega a tomar conta de tudo; em só voltar a haver transporte dali a uma semana.
“Pois..., é a isso que se chama insularidade! Mas, se está tão apressado em regressar à Graciosa, pode ir tentar a sorte no porto. Não sei exactamente os dias, mas há uns barcos da marinha mercante que fazem rota entre as ilhas e talvez lhe possam dar uma boleia.”
Perguntei onde se podia saber disso, comprar bilhetes, e o tipo riu-se à fartazana. 
“Ó colega, aquilo não são barcos de passageiros, percebe? Levam mercadoria, mas pode ser que lhe deem uma boleia, sobretudo sabendo que você é médico e está em serviço. Pergunte no hotel ou dê uma volta pelo cais, vai ver que alguém lhe saberá dizer alguma coisa.”

     
19


Acordei, passava das seis, com a sensação de estar atrasado, para o quê não cheguei a saber. Deixei-me estar na cama a olhar em volta, a ouvir o rumor de vozes chegadas pela janela, que deixara entreaberta e a que uma corrente de ar muito mansa fazia ondear a cortina como se me chamasse a espreitar.
Lá em baixo, no jardim, desenrolava-se a actividade desconexa e frouxa que é a dos jardins públicos: um casal de namorados, num banco, com o ar  clandestino dos amorosos à solta; um velho que se afastava em direcção ao outro extremo do jardim; duas mulheres olhavam e comentavam os fogachos vermelhos de um metrosídero em flor. 
Senti fome e desatei a abrir e fechar gavetas, a ver se encontrava alguma coisa, por lá eventualmente deixada pelo tipo que ali morava, mas sem sorte. Fui tomar um duche, sabendo que, no final, teria de vestir a mesma roupa, não tinha outra; talvez pudesse, depois, pedir ao.... O telefone tocou, se calhar não era comigo mas fui atender ainda assim.
“Paulo! Estava a pensar em ti, meu, e se terias roupa que me pudesses emprestar... Como soubeste que estava aqui?”
“Ainda não deste conta que nesta terra não se passa nada que não se saiba de imediato?! Cheguei e disseram-me logo, na recepção. Olha, como é: queres jantar aqui ou preferes ir fora? Por mim, já estou um bocado cheio da comida, mas, ao menos, morfa-se de graça...”
E o Paulo ficou-se a rir convulsivamente do lado de lá do fio. 
“Quem janta mais?”
Ele suspirou.
“Quem janta mais, quem havia de ser? Os tristes do costume; agora estamos aqui eu, o Senra e o Schmutzer... O coiso está para o Continente, deves saber pois estás no quarto dele...”
“Sim, o coiso. Olha, será que me orientas uma t-shirt e uma camisola? Vim da Graciosa a correr, nem tive tempo de fazer mala...”
“Evacuar um maníaco, já ouvi dizer.”
 O Paulo voltou a ter um paroxismo risonho e eu, sentado na cama, enrolado num toalhão de banho, a sorrir também ao imaginar a fácies e os trejeitos que corresponderiam àquele gargalhar.
O Paulo Amorim é natural de Vila do Conde, onde mora com os padrinhos numa encantadora quintarola em cima do Ave que inclui uma azenha, mas conheci-o nos corredores da Faculdade de Medicina, em que se passeava rodeado pelas alunas mais vistosas do meu Curso, como se estivesse ali de passagem ou em revista às tropas. É um tipo trigueiro, com uma cabeleira negra, lanuda, que, no seu crescimento, lhe invade de tal maneira a fronte que é periodicamente obrigado a rapar um centímetro ou dois daquela praga a fim de não ficar sem testa e com as sobrancelhas, igualmente negras e abundantes, coladas ao crânio! O Paulo tem, como um ursinho de consolo, uns olhos de azeviche, sempre assombrados por uma estupefação que lhe empresta à expressão um ar estrelado, e havia quem pusesse a hipótese do revirado das suas pestanas não ser natural. Fosse como fosse, o homem não passava facilmente despercebido em lado algum, quer pelo modo como caminhava de pescoço esticado, o que lhe conferia uma altivez de ganso, fosse porque podia decidir-se ir jantar e atravessar a pacata sala do restaurante envergando calças brancas, muito justas, e botas de verniz negro, de cano pelo joelho. Sim, podia dizer-se que havia um leve problema de sintonização no Paulo, de que o próprio tinha despreocupada consciência e sobre o qual contaria episódios como se estivesse a falar de um tio-avô distraído.
“Já sabes o que me aconteceu a semana passada? A recepção telefonou a despertar, como tinha pedido; vesti-me, apanhei um táxi e fui para a Praia da Vitória fazer as consultas, como é costume. Eu tenho a chave lá do posto, abri a porta e sentei-me à espera dos doentes. Estranhei não ver ninguém, nem doentes nem funcionários da secretaria, mas, às vezes, chego primeiro que todos e não me ralei. Olha, ao fim de uma hora ali a secar, vim cá fora espreitar para descobrir que era Domingo! Já viste o desperdício?!”
E perante o olhar benevolamente condescendente do Virgílio Senra e os olhinhos vigilantes do Schmutzer, o Paulo torceu-se de riso na cadeira, fazendo tilintar a mesa onde estávamos os quatros sentados em volta dos nossos bifes com molho de pimenta e atraindo a atenção das outras mesas.
À sobremesa, ainda tomado por aquela sensação de férias que me assombrava, comi ananás e prometi a mim próprio que, enquanto estivesse nos Açores e o pudesse fazer, não escolheria outra coisa... Perante a indiferença dos outros, gabei o fruto: aquilo não se encontrava em mais lado algum, aquele sabor em que o doce não asfixiava – como no abacaxi – o perfume daquela rodela de um ouro desmaiado. 
“Lá na Graciosa vocês não comem disto todos os dias?”, perguntou o Schmutzer na sua voz nasalada e um tanto aflautada.
“Não, nada disto. Comemos queijo de S. Jorge com compota, até à náusea; não há mais nada para sobremesa, nem sequer fruta fresca. É tudo importado do Continente e as maçãs que chegam lá parecem o refugo que sobrou para um estábulo.”
Conhecia o Senra de vista da Faculdade, era do meu curso, mas como éramos trezentos e tal e não abancávamos na mesma turma nunca fôramos próximos nem nada nos atraíra um ao outro. Quanto ao Schmutzer, sabíamos um pouco mais dele, eu e o Rui conhecíamos-lhe até uma irmã, que namoriscara um primo do Rui; estivéramos o Verão de 75 todos juntos em Lagos, no Algarve. Mas, ali, ele parecia-me mudado, como se nos tratasse com uma cortesia distanciada, e o modo como participava na conversa afigurava-se pautado por um qualquer fito vigilante, dir-se-ia que estava a tirar notas mentais. Mais tarde na noite, quando apenas o Paulo e eu restámos por um canto do bar, a beberricar copinhos de absinto, falei-lhe na minha estranheza.
“É, o gajo está assim. Mal chegou, conseguiu ser eleito, ou escolhido, para delegado dos médicos da Periferia; passa a vida enfiado no estaminé do Director Regional... Diz que isto é um sítio de futuro – e aqui o Paulo teve uma nova sezão de riso – e que já “teve convites”; que vai tentar fazer aqui uma especialidade e ficar por cá, ser um senhor e ficar rico... mandar nesta merda toda – olha a grande coisa! Quem quereria mandar nisto?”
Encolhi os ombros com tédio, mudei de assunto:
“Já alguma vez tinhas bebido disto?”, perguntei levantando o cálice onde brilhava um líquido esverdeado, com uma cor que lembrava elixir dentífrico.
“Não”, confessou o Paulo, “é horrível... Parece anis escarchado, mas p’ra pior.”
Apesar disso, continuámos a beber pela noite dentro, pois a minha surpresa e curiosidade ao dar com a garrafa, inocentemente exposta nas prateleiras do bar, fora desmedida. Estava convencido que o absinto – a famosa bebida da fada verde – era proibido em Portugal, um país onde era tudo mais ou menos interdito, e afinal fora dar com uma garrafa, de produção nacional, num recatado hotel açoriano. Havia uma mística por trás da bebida, ligada ao século XIX e cantada por escritores e poetas como Poe, Rimbaud e Baudelaire, pincelada pelos impressionistas... O absinto, dizia-se, era uma espécie de droga destilada em estado líquido, provocava alucinações quando consumido cronicamente, mas o máximo que eu e o Paulo estávamos a conseguir era ficar supinamente nauseados e a incubar uma dor de cabeça que, no dia seguinte, nos bateria à testa sem dó. Entretanto, o Paulo, a quem as desgraças pareciam desencadear o riso, ia-me pondo a par dos pequenos dramas triviais que tinham acometido a nossa tribo de médicos periféricos. Já mais de uma dezena tinham sido devolvidos à procedência por se terem dado mal com o clima. 
“Apanhados pelo clima! Apanhadíssimos pelo clima, pelo anticiclone...”, resumia o Paulo, feliz, dando-me uma leve palmada no ombro. 
“Pois... A gente, lá na Graciosa, não sabe de nada do que se passa... Soubemos do Saraiva, em S. Jorge, mas foi até por ti!”
“Todas as semanas há uma bronca qualquer, o Porão da Nau anda desvairado, qualquer dia nem tem médicos que lhe acudam ou então andam todos a calmantes! Para nós até é bom, anda tão assustado que assina todas as contas que lhe chegam sem pestanejar. Quem julgas que vai pagar este absinto?”, continuava ele rodando o copo e olhando com gosto os reflexos verdes, como se fosse imune à peste insular que descrevia.
O “Porão da Nau”, a que se referia, era o nosso patrão administrativo mais imediato e o seu apelido real era Pereira da Nave, um continental com nome muito apropriado a um contexto tão marítimo, e a quem nós coláramos aquela alcunha, epíteto que se nos infiltrara de tal modo na pele que já acontecera a alguns de nós dirigirmo-nos-lhe, ao vivo, por Porão da Nau. Está claro que o Paulo, não abstraindo da delicadeza cerimonial, não se lhe dirigia de outro modo; estou até convencido que já lhe esquecera o verdadeiro nome.
“Pois, agora, a grande esperança do Porão da Nau é o seu pajem Schmutzer; já o envia por aí em missões aerotransportadas pelas ilhas, a fazer de penso-rápido nas crises...”
“Olha, eu é que precisava de um aerotransporte daqui para fora, mas parece que, pelo lado dos helicópteros, não me safo antes da próxima terça. Já ouviste falar das boleias em barcos?”
O Paulo já ouvira falar disso, mas não sabia pormenores, não era assunto que o interessasse. Nunca saíra da Terceira a não ser de avião: ou num dos grandes, para o Continente, ou numa das avionetas que faziam ligação a S. Miguel. 
“Às vezes vou, nos fins de semana, a Ponta Delgada... Aquilo também é um atraso de vida, mas, ao menos, não adormeço no mesmo pasmo!”
Antes de nos separamos, combinámos que, no dia seguinte, eu iria ao porto, apalpar terreno e que ele me faria companhia.
“Perdão...”, desculpou-se o Paulo, educadamente, já próximo da porta do meu quarto, quando uma emanação do absinto o fez arrotar sem aviso, “não estou familiarizado com os efeitos secundários desta mixórdia!”
“Deixa, pode ser que ainda sejas visitado pela fada verde durante a noite.”
“Deus te ouça...”, disse ele seguindo pelo corredor fora um pouco em zigzag. 


20


Dormi como uma pedra, mas acordei cedo, como sempre acontece quando me embebedo. Zunia-me a cabeça, mas pela janela entrava uma luz esperançosa e, sendo ainda hora do pequeno-almoço, resolvi levantar-me, ir dar uma volta pela cidade. Mas aquela luz toda revelou-se ilusória: apesar da claridade, chovia, uma chuva fraca mas persistente, que já pingava da folhagem desmedida dos fetos arbóreos e dos guarda-chuvas de quem se aventurava no jardim.
Dei lume a um cigarro, voltei a deitar-me e tentei conciliar o sono, mas interpôs-se a especulação sobre o que seria feito do maluco do Caminho de Manuel Gaspar. Por esta hora – tinham passado mais ou menos vinte e quatro horas – já o gajo devia estar arrefecido nos ímpetos à custa da martelada química dos neurolépticos, mais um dia ou dois e podiam retirar-lhe as algemas com o alívio de quem vira um bolo recém-saído do forno sobre o prato onde vai ser fatiado e comido; deixaria de ser perigoso e devolvê-lo-iam à ilha natal com um  certificado de garantia, válido por período indeterminado. Voltei a rever o seu olhar malsão, agarrado a mim durante toda a viagem de helicóptero, iria demorar até que essa memória ganhasse tonalidade neutra e deixasse de me incomodar.
Pelo almoço, fui tomar o pequeno-almoço num café da baixa de Angra. Um ventinho limpara as nuvens e um sol, tímido e já quente, lambia as pedras molhadas da calçada e devolvia o brilho aos edifícios. Angra é uma cidade muito bonita, cheia de cor e não tão a preto-e-branco como a capital dos Açores. A cidade acolhe e abraça o mar, ao invés de Ponta Delgada onde o mar passa rente e paralelo à cidade, mas esta não lhe admite intimidade e recantos. Entrei numa livraria e encontrei A Peste, do Camus. Já o tenho pelas estantes do Porto, mas fiquei tão agradado de o ver entre manuais escolares e almanaques que o comprei sem pensar. Depois entrei numa agência de viagens, talvez me soubessem informar os horários dos barcos mercantes entre as ilhas. Não sabiam, dedicavam-se somente a excursões e voos de avião; fiquei a perceber – embora de momento a informação não me interessasse – que havia mais aviões para Lisboa do que supunha. Para além dos voos domésticos da TAP, há os grandes bichos transatlânticos que, três vezes por semana, voam dos Estados Unidos e do Canadá, fazem uma breve escala técnica nas Lajes e, umas duas horas depois, pousam em Lisboa antes de continuar Europa adentro.
No porto disseram-me que chegaria durante a tarde um navio que, vindo de S. Miguel, fará a rota do grupo ocidental até às Flores. Partiria nesse mesmo dia, à noite, pelo menos era o costume. Quanto a uma eventual boleia, teria de falar com o comandante, o transporte não era coisa que estivesse protocolada ou sujeita à decisão de terceiros. Voltei ao hotel e, por entre o quarto e as salas de estar, aborreci-me até à hora do jantar, e quando o Paulo bateu à porta do quarto com uma camisa e uma jaqueta curta, axadrezada e com carapuço, agradeci e disse já não precisar pois decidira regressar, hoje mesmo, à Graciosa. Ele olhou-me, interdito, após o que aconselhou:
“Ao menos leva o casaco, olha que se está a levantar uma ventania... Depois devolves-me, quando voltares cá ou eu for lá visitar-vos. Vais de barco? Quem me dera...”
“Não sei se vou, vou tentar.”
Jantámos cedo, só os dois, e o Paulo acompanhou-me ao porto, fizemos o caminho em silêncio, mãos enterradas nos bolsos e cabeças viradas ao chão para enfrentar a força do vento que, no cais, revolvia a água contra as pedras, chocalhava os pequenos botes e borrifava quem andava por ali.
Ao contrário do que esperava, o capitão não era um tipo barbudo, enfarpelado numa farda branca, e não usava sequer boné. Como o resto da tripulação, era um tipo novo, informal, e todos pareciam andar por ali como se andassem noutro local qualquer, num ambiente geral um pouco caótico e nada planeado. O Paulo estava já a adorar tudo aquilo e, no início da entrevista, o capitão chegou a pensar que ele iria também. Em princípio não estavam a pensar fazer escala na Graciosa, mas podiam deixar-me ao largo, pela madrugada; seria uma questão de ligar para lá, pelo rádio, para que um escaler fosse tratar do transbordo. Senti-me um fardo.
“Não temos é onde o deitar, Dr., mas pode passar o tempo connosco na sala dos oficiais. Há para lá uns sofás...”
Pareceu-me maravilhoso, adorava a ideia de andar de barco uma noite inteira. Até à data, a viagem mais arrojada que fizera consistira em atravessar o Tejo de cacilheiro.
Já quase amanhecia quando vi aproximar-se ao longe a Graciosa, uma mancha escura com aspecto desabitado que foi ganhando nitidez de detalhes à medida que nos aproximávamos. O navio fundeou ao largo e a rampa do cais da Praia pareceu-me tão longínqua como o barco onde chegaram as nossas arcas me parecera então, ancorado no meio do mar. O capitão acompanhou-me à amurada, vigiando a escada de corda, com degraus de madeira, que estava a ser desenrolada no portaló. Espreitei, as mãos fortemente agarradas à balaustrada. Visto dali o casco parecia alto como um arranha-céus e a pobre escada um balancé esquecido num jardim de inverno, os últimos degraus a balançar suspensos sobre as águas que se atiravam ao ferro castanho com um apetite voraz. E ia eu amarar por ali fora, com toda a gente a acompanhar a descida – uns de cima, outros de baixo – e, quando chegasse ao último degrau, teria ainda de acertar no bote, a alternativa a cair ao mar ou ficar esmagado entre o escaler e o navio. Lamentei amargamente tudo quanto bebera durante a noite, o arrependimento abrangeu até o absinto da noite precedente... Tinha passado a totalidade das horas nocturnas a beber, que era o que mais se fazia na sala dos oficiais. Primeiro vinho, pois eles jantaram tarde e fizeram-me comer outra vez, e depois whisky, um produto tão popular e abundante na zona que bem poderia ser a bebida nacional dos Açores. Copinhos e mais copinhos, por entre uns quatro tipos que jogavam cartas e contavam histórias no meio de risadas, tendo-me, a certo ponto, parecido que ou já tinham esquecido a minha presença ou que me tinham absorvido de tal modo que me consideravam dos seus. Eu próprio me transformara em tal, e já levantava com familiaridade os cotovelos da toalha branca da mesa para, aos tropeços e amparando-me às paredes metálicas e aos abundantes corrimãos, ir dar mais uma mijadela no abafado urinol onde cheirava a nafta e asfalto. Ah, barcos era uma cena porreira, por mim passaria a vida naquilo; como será que se faria para ser médico de bordo? A meio da viagem, o mar encapelou-se e o meu entusiasmo toldou-se ao tentar olhar pelas vigias e tanto as encontrar ao nível do chão como ao nível do tecto. Estava um pouco enjoado, mas o que mais me impressionava era a volatilidade do que é caminhar sobre as águas. Os meus comparsas tinham-se dado conta do meu assarapantamento e brincavam mansamente com isso, aconselhando a que bebesse mais um copo e comesse mais qualquer coisa, pois o melhor amigo do enjoo era viajar sobre um estômago vazio. Trinquei, sem vontade, uma fatia de bolo de cenoura que me soube a iodo e a petróleo.
No convés, esperando que o escaler chegasse suficientemente perto para poder iniciar a descida, voltei a sentir-me um pouco melhor, pois o ventinho cortante das primeiras horas da manhã reanimara-me. Mesmo assim, gostava de não ter bebido tanto, não havia agora nada a fazer.
“Pode descer quando quiser, Dr.”, despediu-se o comandante, estendendo-me a mão. “Prazer, e quando precisar de boleia é só aparecer...”
Essa sugestão de futuro deu-me coragem para ir, mais escorregando do que descendo, avançando por ali abaixo, aferrado às cordas da escada como se já me estivesse a afogar e entaramelando os pés nas travessas de madeira, prontamente ensopadas pelo roçar no casco molhado e pela espuma das águas. Uma  eternidade mais tarde aterrei no escaler, onde a mão do homem de serviço ao  pequeno motor fora de água me estabilizou na posição de sentado. Agradecido, reconciliado, olhei para cima numa despedida, mas tudo quanto vi foi uma parede enferrujada afastando-se das minhas intenções.
Na rampa do cais, que consistia agora o centro das minhas atenções, apercebia dois vultos que subiam e desciam, e uma luz azul que piscava e que, ao aproximar-me, percebi ser o farol do tejadilho de uma ambulância. O Rui fora buscar-me e no trajecto de regresso a Santa Cruz, como se não tivessem passado somente dois dias sobre a manhã em que eu deixara a ilha, confidenciou estar cheio da Dyane e a resolução de passar a usar a ambulância nova como meio principal de transporte. 
“Como assim, somos nós que vamos buscar os doentes em mais de metade das situações...”
Era verdade. Quem habitualmente a guiava era o Nascimento, o Viegas ou, se estava para ali virado, o Sr. Weber, que acumulava com a presidência da comissão administrativa do hospital a de comandante dos bombeiros. Mas, a pouco e pouco, fartos de esperar na Urgência os doentes que, anunciados, não haviam meio de chegar, os clínicos foram tomando a iniciativa de os ir buscar a casa, numa espécie de serviço completo em termos de cuidados à população. Essa atitude, inspirada pela luta contra o tédio, lavrara um certo sucesso junto da opinião pública, pelo que passara a ser considerado merecido e habitual o facto de aparecermos no Açucareiro a bordo de uma ambulância com uma luz azul a rodar no tejadilho. Eram os médicos que vinham tomar o seu café.   


21


Ragazza (Felice Casorati).
Na terça seguinte, pelas onze, uma hora após o helicóptero no qual teria regressado a Santa Cruz se tivesse optado pelo transporte regular, ter partido recebi um telefonema do Sr. Araújo.
“Recebi uma encomenda especial da Terceira; querem dar um salto até aqui?”
Desliguei e dei lume a um Goldflame, a ganhar tempo. Conforme a perigosidade, costumava sentar os doentes ou a meu lado (baixa perigosidade, exemplo: D. Crisália) ou em frente a mim, a secretária a servir de zona neutra. Naquele momento tinha, do lado de lá da mesa, sentada a D. Hirondina, um caso difícil, uma dama de meia-idade completamente viciada em barbitúricos, dependência de que, coitada, nem se dava conta, a não ser durante as minhas tentativas de a fazer descolar do hábito. A Dona Hirondina padecia de insónia, insónia crónica, e a  geração de colegas que me antecedeu, segundo a verdade científica das décadas anteriores, receitara-lhe barbitúricos, um medicamento que, como vários outros, provoca dependência e tolerância, isto é, não só agarra insidiosamente a pessoa – que passa a não passar sem ele – como o tomador necessita de ir aumentando a dose para obter um efeito idêntico ao que obteve inicialmente. Ora acontece que uma dose excessiva de barbitúricos pode matar, veja-se o sucedido a Marylin Monroe ou Judy Garland, que se passaram para somewhere over the rainbow (9) graças a eles ou, falando de gente mais nova, Jimi Hendrix ou Brian Epstein, o carismático empresário dos Beatles, a quem sucedeu destino semelhante. Todas estes mortes se passaram entre 1962 e 1970, o que mostra que até o modo de morrer tem as suas modas e, no caso da D. Hirondina, fazia supor que ela tomaria aquilo há mais de dez anos. Pois eu andava a tentar fazer-lhe o desmame com novas substâncias que, embora igualmente um tanto viciantes, acarretavam um menor risco de lhe curar a insónia de vez, e de que eram exemplos o Somnium ou o Rohipnol. Mas sem grande sucesso, diga-se, pois ao fim de uma semana, ou menos do que duas, ela voltava a aparecer-me na consulta expondo nas mãos trémulas caixas vazias de Somnifen ou Luminal e ganindo de abstinência como um personagem de tragédia grega.
Estava num desses confrontos de impasse quando o telefone tocou e era o Araújo. 
“Dona Hirondina”, acabei por dizer, esmagando o resto do Goldflame no cinzeiro, “vou pedir-lhe que tire o seu chapéu e os seus sapatos e se deite ali na marquesa por um bocadinho. A irmã Noémia virá aqui ver como está a sua tensão e o seu pulso... Eu volto já.”
E vazei, atravessando o corredor, cheio de clientes àquela hora, para bater à porta do Rui e, em pose profissional, lhe comunicar que devíamos ir de imediato aos CTT, onde éramos solicitados por uma ocorrência. O Rui, grave, levantou-se e, sem despir a bata, enfiou o estetoscópio no bolso e seguiu-me em direcção à porta principal do hospital.
A sede da estação dos Correios é do outro lado da rua e chegar lá é, em tempo, equivalente a atravessar um salão grande, pelo que cedo nos achámos conduzidos pelo funcionário que atendia ao balcão até ao gabinete do responsável máximo. Logo que entrámos, o Araújo levantou-se do monte de papéis que consultava, dirigiu-se a uma estante metálica cheia de listas telefónicas, de onde extraiu um par de garrafas, uma das quais de meio-litro e com o formato de um cantil. Eram ambas Ballantine’s e a grande acondicionava 75 cl de um whisky envelhecido ao longo de dezassete anos!
“Esta fica para logo à noite, em minha casa, estão ambos convocados – é demasiado preciosa para ser deixada aqui!”, anunciou enchendo três pequenos copos do precioso líquido cor de chá gelado. E tal fôssemos os três mosqueteiros, cruzando floretes, entrechocámos os copos, emborcámo-los duma só vez e saímos de regresso às consultas temporariamente suspensas.
Depois do jantar, abdicando do habitual café no Açucareiro, pois era plausível que esse complemento nos aguardasse em casa dos Araújos, atravessámos o Rossio e penetrámos na parte distal da vila, onde o chefe da estação dos CTT habita com a família. Connosco arrastáramos a Libinha e uma das filhas dos Barcelos, que, lançando despedidas apressadas à Dona Nizalda e ao D. Francisco, abalaram na nossa companhia mal o genérico final do Dancing Days começou a deslizar no ecrã da TV.
Considerados hóspedes de cerimónia, éramos sempre recebidos na sala de estar, um compartimento fresco com varandas que deitavam para a rua e mobiliário de verga e bambu, após o dono da casa nos vir receber pessoalmente à porta, sistematicamente acompanhado dos grandes olhos da Leninha, a filha mais nova, que nos fitavam como se tivesse ali chegado a sétima maravilha do mundo e, apesar de sermos já figuras batidas na ilha, para quem mantínhamos incólume o estatuto de new kid in town. Esta Leninha, que eu supunha chamar-se Helena mas sem a coragem de o confirmar por pergunta, pois naquela latitude era possível que o encantador diminutivo escondesse uma “Elisandra” ou uma “Heliodora”, esta Leninha teria os seus onze ou doze anos e usava um cabelo curto que lhe realçava o tamanho dos grandes olhos escuros e um nadinha salientes, herdados do pai. Estava naquela precisa idade ou, melhor, vivia aqueles breves dias em que as expressões, movimentos e gestos se sucediam intercalados, ora revelando a infância ora deixando vislumbrar a grácil senhorinha que espreitava nela por todas as frinchas da curiosidade e da sedução. Ainda não tinha formas, coitadinha, ou sequer volumes apenas perceptíveis de perfil, mas já se experimentavam nela as feminis graças, visíveis particularmente quando, muito compenetrada e feliz por a terem deixado sair, caminhava pela álea saibrada do Rossio entre as outras raparigas da terra.
Para grande divertimento do pai, que o via claramente, a Leninha deixava-me sempre sem jeito, pois a sua preferência por mim era evidente como um terçolho e, sabendo que o principal interlocutor entre os médicos e as restantes pessoas presentes na sala, seria o pai, sentava-se-lhe nos joelhos, de modo a poder observar em primeira demão o que lhe diríamos, e como se, estando ali, pudesse desviar parte do discurso para ela.
“Sai daí, franganota”, dizia o Araújo, “olha que já pesas e, mesmo que fosses uma pena, dás-me cabo das pernas com esses ossos todos. Vê se fazes alguma coisa útil: vai buscar-me aquela embalagem que trouxe hoje...”
E a Leninha saltava-lhe do colo como um gafanhoto e atravessava a sala como um coelho, lançando-me um olhar lateral à saída e novos olhares oblíquos quando, mal chegada, depositava nas mãos do pai o Ballentine’s que era mais velho do que ela. 
Apercebendo-se de que aquele líquido era o centro da nossa presença e do  entusiasmo geral (até a mãe – embora não o bebesse – lhe soltava considerações falseteadas), a Leninha queria provar uma pinga, amuava um pouco por não lho permitirem e por lhe começarem a chamar a atenção para as horas, pois, em dias normais, já deveria estar a caminho da cama. Protestava, queria saber se hoje não iríamos sair, dar uma volta pelo centro, encetar um saco de pevides de abóbora no Açucareiro.
“Já viram esta?! Doutor”, requeria o Araújo para os meus lados, “tem de receitar um xarope qualquer a esta rapariga; fica a regular um pouco mal quando os senhores vêm de visita e até confunde os dias da semana...”
Exposta com esta crueza, a Leninha indignava-se, olhava na minha direcção como se eu pudesse contribuir com algo que solucionasse a questão ou a redimisse. Mas eu, confesso, não sabia como situar-me, bloqueado entre o registo com que se espera que um adulto trate uma criança e a consideração pela fragilidade delicada das metamorfoses da rapariguinha. Os meus modos acabavam por se lhe render e, num comportamento pautado por uma timidez que não me era associada, encarava em total seriedade as suas manifestações e discurso. E é óbvio que ela, como um broto de planta que adivinha cegamente de que lado vem a luz, se apercebia desse meu cuidado, o qual acabava em redobramento do fervor com que me presenteava. 
Como aquelas pessoas que estragam um ambiente, e nos fazem pensar duas vezes antes de nos dirigirmos aos desagradáveis locais onde é forçoso encontrá-las, aquela ponta de espargo produzia em mim um efeito semelhante, embora de uma polaridade oposta, doce e terna. Em extremidades opostas do espectro feminino, como guardiãs das portas daquele mundo que pretendia longínquo ao longo dos longos doze meses na ilha, a Leninha e a irmã Noémia eram as minhas assombrações, mas, enquanto o perigo representado pela freira, agora que o nosso entusiasmo com o coro da igreja Matriz esmorecera, se limitava aos escassos metros quadrados do perímetro de um círculo com epicentro na Urgência, a sílfide dos CTT esvoaçava por toda a ilha e, mal nos via aparecer, apressava-se na nossa direcção e não mais nos largava, dando voltas sobre si mesma e sobre o contexto, até conseguir colocar-se ao meu lado nos passeios, para cá e para lá, que dávamos em torno do Açucareiro, do Rossio e dos pauis. As outras, com quem costumávamos caminhar, pareciam não se dar conta destes malabarismos de posicionamento ou, se o davam, não lhe atribuíam importância ou talvez considerassem que eu, o visado, não lhe concederia valor de mercado ou, porventura, não desse até fé da existência de uma tal criançola, praticamente saída da mudança de dentes. 


22 


Agora que negativou, o Pombo parece outro. É certo que nunca foi propriamente o retrato do tuberculoso melancólico, abatido e reservado, mas mesmo a coberto da exuberância ruidosa, do não parar de se movimentar no espaço em que se encontra, como que distraidamente enjaulado, chocalhando as chaves no bolso e debitando palavras a ritmo acelerado na voz fanada pela inflamação crónica, mesmo a coberto desse temperamento quem estivesse atento aperceberia uma película fina de ansiedade, uma espécie de irritação por aquela desventura ter negócio com ele, com ele que abomina acertos a longo prazo. Hoje em dia, que já não escarra bacilos nas floreiras, que já não lhe olhamos de lado o prato que jaz no lava-louça por lavar, uma novel segurança tomou conta dele e habita-nos a  casa – de onde nunca mais saiu, a não ser para surtidas a S. Miguel – com largo à vontade, como se fosse um de nós e pagasse renda. Apareceu até com uma namorada, uma Marília que logo percebi ser a amiga que fazia convidada para jantar no dia em que eu tencionava fazer frango assado caso tivesse conseguido depenar a galinha Mimi.
Pois esta Marília tem também o seu quê de ave depenada, foi assim que a vi aparecer e a esbocei antes dessa imagem esmorecer no convívio que viríamos a entabular, uma vez que passou a morar na casa dos Magistrados, primeiro sob um, nunca declarado, concubinato com o Pombo e, mais tarde, após o Pombo abalar para outras façanhas em Santa Cruz, sozinha, pois, entretanto, o Rui e eu, também não declaradamente, tínhamos adoptado a ave. Adianto-me, no entanto. 
A Marília é uma professora primária friorenta dos arredores de Mirandela. É magra como um cão e, nesse particular, podia estar tão tísica como o namorado; tem malares salientes e bochechas convexas, dentes grandes de lebre e uns óculos de massa que lhe sobram na cara, como lhe parecem sobrar em permanência as saias na cintura ou as camisolas sobre os punhos estreitos. Para mulher, fala pouco – fala bastante menos do que o Pombo – embora esteja apta a debitar longas considerações quando, perguntada, fala das coisas e de si. Desde o dia em que nos apareceu até ao dia em que se instalou aqui, para tremenda agitação da sociedade local (uma mulher e três homens sob as mesmas telhas, nenhum deles casado com um dos outros), foi ganhando espaço na casa e em nós, quanto mais não fosse pela absoluta abstenção de peso que a caracteriza. Era fácil gostar-se dela, acontecia-nos assim a nós e a quem nos visitava, e só o Pombo se dedicava a tentar fricções com ela, o que, por uma ou outra rara vez, a faziam sair do seu estado habitual e, de uma maneira cansada e relutante, contrapor a sua têmpera transmontina aos latidos do derreado macho.
E a Marília foi ficando, sem ocupar gavetas nem provocar incidentes de tropeço em sapatos de salto alto, sem, sequer, ocupar o mais modesto cantinho do quarto de banho com cremes, escovas dos dentes ou hélices de cabelo no ralo da banheira. Essa, sim, era um suave fantasma melancólico, sempre grata por a deixarem estar, não se lamuriando nem da vida nem da ilha nem do Pombo, a não ser quando captava que clamávamos por divertimento e a incitávamos a isso.
Havia três vias principais para se ir parar à Graciosa e a Marília, um tanto como nós, fazia parte do terceiro contingente. Em primeiro, havia os que eram de lá e lá voltavam após breves anos de rodopio por Angra, Ponta Delgada, ou até Lisboa e Coimbra, e esses não contavam. Depois, havia que referir os que por lá penavam por castigo e esses militavam nas fileiras da polícia, das finanças ou de outros departamentos do Estado, uma espécie de última oportunidade antes de lhes ser mostrada a porta de saída do emprego que detinham no Continente. Era gente que se portara mal ou exibido comportamento censurável e, então, num processo nunca formalizado como tal, eram despachados para os Açores, por uma temporada ou para exílio definitivo, agora que as tradicionais estâncias de degredo se tinham finado com a independência das colónias. A bem dizer, era um clássico com séculos de prática e assim se fizera história e povoara arquipélagos e linhas costeiras. 
A nossa nova amiga, como ficámos a perceber da narrativa esfarrapada, não fôra parar à Graciosa por nenhum desses motivos. Acontecera-lhe mais por distracção, por não estar a pensar nisso. Acabara o Magistério num ano em que as colocações se arrastavam, depois viu afixadas hipóteses no Alentejo e no interior das Beiras, mas, para granito, frio e marasmo, já lhe bastava Trás-os-Montes, de modo que ouviu ‘Açores’ e achou que sempre poderia ser diferente, sabia-se lá, qualquer lado servia, no fundo. E viera aqui parar e por aqui andava há dois anos.
“Dois anos, Marília, foda-se! Como é que t’aguentas?!”
Ela encolhia os ombros – eu pensava num cabide e em pendurar o meu casaco de bombazina – especificava: 
“Dois, quase três...”
Voltava a encolher os ombros, repunha os óculos no cavalete do nariz, cruzava os tornozelos sob as saias pesadas enquanto reacomodava as espáduas contra o espaldar metálico dos pés da minha cama, que usávamos amiúde como sofá de conversa, pois as salas do andar de baixo eram tão frias de vida que nem as baratas se aventuravam a invadi-las. Aquele encolher de ombros abarcava o mudar dos quartos onde morava com uma constância de meses; o sustentar-se à custa de refeições improvisadas; o estar-se nas tintas para as exigências a que deveria corresponder para ser aceite e manter o status-quo que lhe estava destinado. Não queria saber, mas não tirava força ou alento desse comportamento um nadinha à margem, não era isso que a movia, nada parecia movê-la, aliás; ia estando, sempre um pouco desconfortável, friorenta e apreciando muito os raios de sol dos momentos bons, como o terão sido, porventura, aqueles seus dias em nossa casa. Apesar das partidas que lhe pregávamos, como a de encostar o Aiwa à parede do quarto para onde se escapulira com o Pombo, com o som no máximo e a passar, non stop, a cavalgada ventosa do “One of These Days”[10].  
Quando chegou o dia e deixámos a ilha sem olhar para trás, ela por lá continuou, desconheço quanto tempo mais, não sei, inclusive, se num provisório que possa ter-se calcinado em eternidade; nunca mais voltei a ouvir dela, nem ninguém que me falasse sobre ela. Nenhum de nós ficou com o contacto uns dos outros, mas isso era frequente: o “que será feito de?” é dúvida que não se coloca quando se tem vinte e cinco anos. 


23


Findo o jantar, realinhávamos o espaldar da cadeira com o tampo da mesa, o Oriolando surgiu à porta da sala de jantar e, naquela timidez irónica com que sempre se exprime, perguntou se lhe dávamos a honra de nos fazer companhia até ao Açucareiro. Aquilo era uma cena deveras inusitada, uma vez que o tipo veste sempre, se nós lá estamos, a pele do espectro na própria casa, sendo coisa rara cruzarmo-nos com ele por acaso, quanto mais vir procurar-nos. E o seu aparecimento no umbral foi tão concertado com o nosso momento de saída como se já aguardasse na sala ao lado, escutando e interpretando todos os ruídos. 
Mas é assim que ele é, um homem misterioso, dado a pontuados irónicos no discurso, frases enigmáticas, silêncios eloquentes, meios-sorrisos; e evasivo como o urso de peluche que se tenta pinçar num aquário de acrílico de feira popular. Saímos juntos, ele posicionou-se entre nós no passeio e como tinha algo a dizer-nos e o trajecto até ao coreto era breve, deixou logo escorregar o que queria transmitir; mensageiro de si próprio, como acentuou de início. O que contou era espantoso nos detalhes, embora a mensagem fosse clara e simples: que tivéssemos cuidado com o Lizuarte B. Louro, pois o tipo tinha-nos de ponta e, nos últimos tempos, andava a espiar por conta própria junto da nossa casa, tendo sido visto a espreitar, à noite, pela janela da sala de jantar, em cima de um banco de cozinha que transportava debaixo do braço! Ora acontece que o tal Lizuarte B. Louro é o presidente da Câmara local e ficámos de tal modo surpreendidos que a nossa primeira inclinação foi associar a confidência a uma caldeirada política, dado que Lizuarte é o chefe do PPD local e o Oriolando um incondicional do PS, partido que aqui, tal como no resto dos Açores, é encarado como a encarnação camuflada do comunismo internacional e se comporta como se estivesse na clandestinidade, dando substrato à teoria da sua perigosidade.
Entretanto chegáramos ao café, o que conveio de sobremaneira ao nosso mensageiro, que logo deslizou em direcção à mesa de homens que se compusera na esplanada, deixando-nos sem hipótese de lhe dirigir as questões que esclareceriam a nossa incredulidade. O presidente da câmara encavalitado num banco dentro do nosso quintal? A espreitar as nossas janelas? Mas porquê e para quê, santo Deus?! Engraçado como a notícia transformou, de imediato, a nossa perspectiva e, nessa noite, o tomar um café corriqueiro no Açucareiro encheu-se de olhares em volta, de ampliações de detalhes; de atenção paranoica aos possíveis meta-significados das palavras que nos eram dirigidas pelos presentes. Desta feita não parámos nos Barcelos para a telenovela e seguimos directamente para casa, juntando pontas, rebobinando pormenores até aí deixados no caixote do lixo dos acontecimentos fortuitos. Que factos poderíamos relacionar com o assunto? O tipo era um gajo execrável, mas isso há muitos, e o seu comportamento geral era o de quem pensa que tem infindo poder, ainda por cima legitimado pelo partido regente do arquipélago, território que, diga-se, lhe chega como universo e é tudo quanto consegue ver do mundo. Mas que teria ele contra nós, que mal lhe teríamos feito? Ah, e aí começou a ganhar contorno o que parecia nem contorno ter: nós não lhe ligávamos peva; não o cumprimentávamos com salamaleque especial, precedência ou reverência particular, e preferíamos gastar os minutos de conciliábulo social no café a trocar ditoches com o Araújo, galhardetes com o Oriolando ou o Gasparinho ou mesmo considerações sobre o clima com o Sr. Medina. E, depois, havia aqueles dois, não, três, episódios no hospital: uma vez o tipo mandara um amanuense da câmara ter connosco, portador de uma listagem de medicamentos sarrabiscada em papel de ofício autárquico – pretendia umas receitas à distância. Dissemos que não, que teria de ser o próprio a interessar-se por isso. Da outra vez, vezes, foram familiares próximos que insinuavam prioridade no atendimento clínico e, exibindo galões, tinham empurrado um nervoso Nascimento a encomendar o frete. Dissemos que não, claro, e a não ser que fosse caso insuspeitamente urgente, essas senhoras teriam de esperar a sua vez no banco do corredor, como os outros. Seria isso? Será que estas pingas de água se teriam acumulado no peito do senhor como uma honra ofendida, desfeiteada? E só então nos invadiu a certeza sobre a génese de um incidente a que, no momento da ocorrência, não conseguíramos garantir destinatário. Era à noite, já penetráramos sob as copas das árvores que guarnecem o Rossio, caminhávamos em direcção ao café, e ao passarmos pelo Sr. Lizuarte B.L., que conversava com outro cavalheiro, ouvimos dizer:
“Andam para aí umas aves raras que é preciso abater...”
Na altura ficámos incomodados pelo dito, é terrível ouvir coisa assim, pronunciada pelo responsável máximo da terra onde se é convidado especial: éramos, os dois, os únicos médicos da ilha, não éramos turistas, não cometêramos   crime algum ou desleixado as nossas funções de estarmos abertos vinte e quatro horas por dia a quem nos quisesse procurar por razões de saúde ou de doença. Mas como o homem era um matarruano, um daqueles trogloditas irascíveis, de rancor fácil e partidário da independência e da supremacia do Açor, embrulhámos o assunto; a pouco e pouco fomos empurrando aquilo para o “se calhar não era a nós que se referia”, talvez estivesse até a passar um socialista no seu radar. Estava, agora, visto que a frase se nos dirigia, que essa espionagem sobre pernas de madeira – as nossas janelas não tinham cortinas e eram sobre o alto – só podia significar que andaria a tentar coleccionar violações aos costumes para nos incriminar, para enriquecer a nossa ficha negra, particularmente agora que tínhamos uma mulher a morar, ou a permanecer durante a noite, em casa. 
Aquilo deixou-nos supinamente irritados e, antes de a domarmos e arrefecermos, dirigimos parte da irritação ao pobre Oriolando, não alcançando na nossa ingenuidade de forasteiros a coragem que a confissão revelava da parte de quem vivia ali todo o ano de todos os anos, e tinha, ele próprio, telhados de vidro, vidro de um fosco que, tornado transparente, traria dias amargos ao filho varão da nossa estalajadeira. 
Nessa noite, ao contrário do habitual, ficámo-nos a espairecer e a beber cervejas pelas cadeiras incómodas da sala de jantar, e aí acabaram por se nos juntar o Pombo e a Marília, a quem divulgámos a novidade. Mais tarde na noite, pareceu-nos ouvir um ruído vindo do quintal e, oportuno como o raio, o Rui atirou uma garrafa de cerveja contra o vidro da janela, o qual se estilhaçou em estardalhaço pirotécnico. Corremos lá fora, mas não havia ninguém, apenas a noite escura e, clareando os degraus, onde outrora serrara o pescoço da Mimi, as pontas aceradas da estrela de luz amarela que se vertia pela vidraça partida. Estava certo de que, onde quer que morasse, o Sr. Medina se agitaria no sono pelo prejuízo daquele bem não inventariado.


24


“Você tem aqui um abcesso e peras”, revelou o dentista após me ter feito dar mais do que um estremeção na cadeira para confirmar qual dos dentes suspeitos era o infectado. “Hoje não vou poder fazer nada nisto; vai ter de tomar um antibiótico e voltar cá, de hoje a oito, para arrancarmos isto como deve ser.”
“Hoje a oito?”, perguntei eu que já só raciocinava em termos de disponibilidades e horários de helicópteros. “Será que não se podia antecipar para segunda à tarde? É que, de outro modo, vou ter de ficar em Angra duas semanas por causa de um dente...”
O gajo ficou a olhar para mim e tive de lhe explicar um pouco o meu contexto na Graciosa: que só havia transporte uma vez por semana, que a viagem era às terças de manhã, geralmente antes das nove.
“Então”, disse ele passando as mãos brevemente por água e sentando-se a uma mesa atulhada com moldes de dentaduras, “venha por cá na segunda à tarde, por volta desta hora. Por essa altura isso já deve estar controlado e, mesmo que continue a tomar antibiótico por mais um dia ou dois além da extração até nem é mau... Você deixou chegar isto a um ponto...”
“Sabe que só me começou a doer agora – há dois dias, mais precisamente – e como não vi nada inchado, nem cara nem gengiva, não fiquei a pensar que fosse infecção...”, justifiquei-me.
“O inchaço só aparece quando a infecção já se está espalhando... Aí começa a doer menos, a parte nervosa fica menos comprimida. Este dente nunca lhe doeu? É que tem uma cárie enorme...”
Ele estava a desvendar, certeiro, a minha epopeia de desgraças dentais; achei bem pôr de lado as manhas do doente e ser sincero. Além do mais, sentia-me grato que me tivesse recebido sem marcação, por me ter aliviado com um diagnóstico e uma proposta de solução.
“Sim, já doeu, mais do que uma vez. Mas fui engolindo uns Optalidon e acabou por passar.”
“Pois..., a dor acaba por desaparecer, mas à custa da morte do nervo e, então, só resta arrancar – que é o caso. Vou receitar-lhe TAO, é o melhor para isto. Precisa que lhe passe algum analgésico? Acho que tenho para aí umas amostras de Saridon que lhe posso ceder...”
Declinei a oferta, agradeci muito e saí para a liberdade. 
TAO! Os dentistas têm uma fé nele não inferior à crença das mães no Halibut como remédio-santo para os rabos assados dos filhos. TAO é a abreviatura e designação comercial da Tri-Acetil-Olandeomicina, um mata-ratos indicado no tratamento de doenças como a sífilis, as infecções pulmonares graves por micoplasma, e nas febres provocadas por picadela de carraças. Mas, baseados na historieta de que o antibiótico tem boa eliminação pela saliva e, desse modo, alagaria os dentes de produto, tudo quanto é dentista passou a receitá-lo como se fosse um extintor para infecções dentárias. Para lhe fazer a vontade e comprovar a longevidade da minha gratidão, entrei numa farmácia, comprei uma caixa e apressei-me, sentado numa esplanada, a tomar uma cápsula, a que juntei um dos comprimidinhos brancos de Sosegon da placa que trazia no bolso. O dente recomeçara a latejar e o facto do dentista ter andado a escarafunchar e a dar-lhe pancadinhas despertara a dor que rondava, recôndita, no esquecimento temporário provocado pelo analgésico. Sabia que iria ficar nauseado como uma grávida no primeiro trimestre, mas era um modesto preço a pagar pela abençoada acalmia.
Uns vinte minutos mais tarde recostei-me na cadeira de ferro da esplanada como se esta tivesse ficado acolchoada. A dor fora-se, a tarde ia bonita e brilhante, estava longe de Santa Cruz e a sensação geral era a de que o mundo se recompusera e eu usufruía um longo feriado. Suspirei e pedi uma torrada com os cantos aparados, talvez ajudasse a dissipar o leve enjoo e as ondinhas de excitação que me pregueavam o estômago. O cabrão do empregado não entendeu aquele requinte dos ‘cantos aparados’ – cujo simples objectivo era evitar que as côdeas do pão me estremecessem a cremalheira – e, apesar de lhe ter explicado em que consistia a confecção, trouxe uma torrada completamente clássica, de bordos  intactos. Estava a descascá-la quando, perfeita como uma onda do Hokusai, se ergueu perante mim a ideia. Deixei-a espraiar-se no palato, estendi uma mão por sobre o apoio lateral da cadeira e, disfarçadamente, contei os dias dobrando sucessivamente os dedos sobre a palma da mão. Logo a seguir, senti a urgência e chamei o empregado, fazendo sinal de que pretendia a conta; irritei-me com o tempo que demorou a trazer-ma. Na agência de viagens, como da outra vez em que lhes fora perguntar dos barcos para a Graciosa, não sabiam de nada ou melhor, não desconheciam que havia avião nessa noite, por volta das duas da manhã, mas não sabiam se haveria lugares e, em qualquer caso, nunca poderiam vender-me bilhete.
“E então?”, perguntei com vontade de estrangular a pandorca sentada atrás da mesa.
“Então, o melhor é o senhor ir ao aeroporto e tratar lá, ao balcão. Pode ser que eles saibam e lhe vendam bilhete, se houver lugares...”
Tentei que fosse ela a resolver isso, uma vez que trabalhava no ramo e as Lages distava vinte quilómetros dali. Que não, dizia a gaja muito pausada, que não valia a pena; era informação que só se sabia um nadinha antes do avião pousar para escala, vindo de Boston, e só nessa altura é que se podiam emitir passagens.
“E com que antecedência acha que devo estar lá?”
Ela encolheu os ombros, questionou para o lado, a um tipo que arquivava papéis, uma opinião. Esse também não sabia, ficou um bocado a olhar-me, como se do meu aspecto geral resultasse o teor da resposta, e acabou por concluir que quanto mais cedo, melhor, era frequente haver lista de espera para esses lugares.
“O melhor é o senhor ir para lá quando puder...”, voltou ela.
Olhei o relógio, eram seis da tarde; resolvi experimentar a ironia suave.
“Acha que, ao menos, posso ir ali ao Hotel Angra buscar a mala e comer uma omeleta antes de abalar?”
“Ah, sem dúvida”, assegurou ela com conhecimento de causa, “o voo é só às duas e meia da manhã; falta muito tempo”.
Abalei para o hotel, tomado de urgência, tomado de uma grande esperança e disposto a estraçalhar quem se me atravessasse nela.
Jantei com o Paulo às sete e meia, mal o restaurante abriu, expliquei-lhe a mudança de planos: em vez de ficar por ali a vegetar uma semana tinha-me surgido, como um flash, a ideia de pedir boleia a um avião.
“Ponho-me em Lisboa em três horas, e sempre são cinco dias limpos que posso passar lá. Volto na segunda (há avião de manhã), à tarde vou à consulta e na terça arranco para a Graciosa como se nunca tivesse saído de lá...”
O Paulo, a que raramente as variações do mundo exterior sobressaltavam, sorvendo o consomé de cogumelos, olhava-me, espantado com o meu entusiasmo transbordante. 
“Sim, vai, já que te apetece tanto... Mas, olha, é preferível não ter pores a falar muito disso quando os outros chegarem. Podes crer que o nosso amigo delegado de turma vai logo enfiar a novidade no rabo dos chefes.” 
“Tens razão”, reconheci, “depois ajudas-me a sair daqui sem dar nas vistas?”
E o Paulo ajudou quanto pôde. Alardeando enfado, informou os colegas, entretanto chegados à mesa, que iríamos tomar o café fora, e saímos do hotel desencontrados, transportando ele o meu saco de viagem sob a gabardine de detective em que se enrolara para enfrentar a suave noite de fim de primavera. 
“E se eu fosse levar-te ao aeroporto? Como assim, o táxi fica pago e, mais cedo ou mais tarde, tem de regressar ali à praça...”
“Anda, o prazer é todo meu. Podemos tomar por lá qualquer coisa.”
Como assim, o chauffeur do táxi teve de esperar mais de uma hora, enquanto, no bar do aeroporto, o Paulo esvaziava copinhos de brandy-mel e eu, evitando o que era doce, empurrava golinhos de whisky sobre a gengiva doente.
“Bem, parece que não me querem deixar em paz...”, suspirou ele ao ver, pela terceira vez, o assarapantado motorista aparecer à porta do bar.
Passava das dez e meia quando se foi. Tinha diante de mim quatro horas de espera até ao embarque. Conseguira lugar, primeiro em fila de espera e depois chamaram-me para pagar, pois a reserva tornara-se efectiva. Gastei o dinheiro com dupla alegria, uma pela alegria da liberdade em me pôr a andar dali para fora e a outra por, finalmente, conseguir gastar algum dinheiro do muito que, agora, me aquecia os bolsos. O ordenado que ganhava nos Açores era – para os meus padrões – principesco; com as alcavalas da insularidade e outras porras relacionadas recebia quatro vezes mais do que o equivalente num posto no Continente. A isso, viria ainda juntar-se o dinheiro que o Porão da Nau e a sua Secretaria nos estavam a dever por estarmos de urgência dia-sim-dia-não, dado que a bitola prevista para um policlínico como eu era de apenas uma urgência de doze horas por semana e, para além da barbaridade de horas a mais, tudo teria de, segundo a lei, ser considerado trabalho extraordinário, com horas pagas a dobrar ou a triplicar conforme fosse noite ou fim-de-semana. Sentia-me retinir como a caixa registadora do Dark Side of the Moon[11]! Mas – dá Deus nozes a quem vai ficar sem dentes – oportunidade para o gastar era coisa que não surgia nem na Graciosa nem na Terceira, onde, no hotel, tudo estava incluído. Como esbanjar algum dinheiro se na minha ilha não havia um restaurante onde ir jantar, um cinema onde pedir um bilhete, uma livraria, uma discoteca, fosse o que fosse? Até no Açucareiro, a resposta mais comum quando tentava liquidar a despesa era um “já está pago”, seguida de um apontar de cabeça do empregado em direcção ao obsequiador e a nossa correspondente vénia de obsequiados. Só gastava em tabaco e, mesmo esse, era estupidamente barato.  
Com todos estes pensamentos me entretinha, esparramado e depois encolhido e depois esquinado, na cadeira que escolhera para ninho a um canto do hangar. À uma e meia da manhã a dor recomeçou a fazer negaças na consciência, ameaçando tomar conta do palco. Premi com o polegar a pele do maxilar mesmo por cima do queixal dorido, um gesto que se me tornara habitual nos últimos três dias, pois a pressão parecia, embora timidamente, tornar a dor menos acutilante por instantes. No entanto, esquadrinhando-me ao espelho da casa de banho do aeroporto, achava notar uma certa assimetria na face, talvez a bochecha direita estivesse mais inchada do que a outra, o que, segundo o dentista, era sinal de progresso. Será que o TAO já alcançara a sua missão de abrir brechas na fortificação bacteriana? Não, era ainda demasiado cedo... De qualquer modo, eram horas de tomar a segunda cápsula; para atravessar a estratosfera em sossego iria juntar-lhe outro Sosegon. 
Tudo começara na quase madrugada de Sábado para Domingo. Dormia finalmente, além da dificuldade em adormecer que caracteriza os meus sonos por aqui, quando, de adentro do território dos sonhos, como que surgiu uma massa negra, um horizonte carregado que avançou no escuro ainda sem formato e se pôs a empurrar até que acordei sem saber porquê. Depois, de entre tudo quanto no meu corpo podia sentir, começou a individualizar-se o maxilar inferior, no seu lado direito, e aí levei o polegar na escuridão. Momentos mais tarde já o queixo me doía como se tivesse sido perfurado e, ao levantar-me para ir ao espelho do quarto de banho tentar espreitar o mal, uma saliva brotava sobre a língua como se fosse um choro horizontal. Era uma dor de dentes, horrível, de um dos dentes de baixo, a meio da mandíbula, mas de qual deles? O meu indicador e o polegar, como se fossem uma pinça, tacteavam todo o percurso gengival mas nada encontravam por ali que indicasse um ponto nevrálgico, o que tornava tudo pior: o não saber de onde vem o mal parece interpor-se na possibilidade de o confinar e combater. Espiolhei a gaveta da mesinha de cabeceira: havia ali um pouco de tudo, desde Somnium, para dormir; Buscopan, para dores de barriga; Imodium, para uma potencial caganeira; Fenistil, para as comichões de uma alergia; Guronsan, para a ressaca; Bradoral, para dores de garganta e, ah, – era algo do género que procurava – Aspirina. Tomei uma, mas meia-hora passada estava na mesma, aquela dor não era menina que se deixasse embalar com aspirina!, já o sabia de episódios anteriores, mas, nos últimos tempos, os meus dentes até andavam calmos, fizera uma revisão antes de vir para os Açores, pois calculava não ir ter um dentista por perto com a facilidade e a confiança com que os frequentava no Porto. E por lá, na casa dos meus pais, havia sempre Optalidon ou Saridon, embora as amostras de Saridon, prodigalizadas pela propaganda médica, evidenciassem uma acentuada tendência para migrar até à casa ao lado, onde morava a minha tia Teresa, que, padecendo de dores crónicas de ouvidos, era uma devota do Saridon, entidade com quem mantinha uma ligação não menos íntima do que a que celebrara com o meu tio. O Saridon, com o seu sugestivo e piedoso nome, acorria a tudo, só não servia para limpar pratas e, mesmo aí, será que alguém já lembrara de experimentar? Em minha casa era diferente, o santo mais popular, a nossa senhora das dores mais celebrada, era o Optalidon. E, para dores de dentes, restava ainda a velha infusão de cabeças de papoila, de que havia sempre uma lata com algumas no armário da despensa. Uma espécie de chá, que não se engolia mas se deixava marinar na boca e depois se cuspia e contribuía para o entorpecimento dos queixos. O segredo farmacopeico da mezinha, aprendi ao estudar essas coisas na universidade, residia nos vestígios de ópio que sobravam nessas secas carcaças daquele tipo de papoila, que não era a pequena papoila que se via pontuar de vermelho os campos no mês de Maio, mas as grandes, as orientais, que se vendiam, a peso, na drogaria mais do que nas farmácias. Quanto ao Optalidon, um produto da farmacêutica suíça Sandoz, aprendi também nos livros de Farmacologia e Terapêutica, o seu segredo de bálsamo provinha, para além do analgésico e anti-inflamatório da praxe, do butalbital, um barbitúrico, ou seja, a mesmíssima substância que fazia a D. Hirondina dormir regalada ou gemer de ausência quando os comprimidos se acabavam! Por outro lado, o aparentemente inocente Saridon, levado, dentro da sua caixinha metálica achatada, até à palma da mão da minha tia pela reputada farmacêutica Roche, era ainda um produto mais requintado e continha um sedativo, cafeína e um composto intermédio formado durante o processo químico de síntese da heroína! Está claro que, hoje em dia, embora alguns destes medicamentos ainda existam com a antiga designação comercial – aproveitando o remanescente prestígio do nome e a sua popularidade –, todos os seus ingredientes tóxicos, perigosos ou viciantes foram retirados à composição que, monótona e uniformemente, se limita actualmente ao paracetamol e à cafeína, ou seja, tomá-los equivale a tomar um Ben-U-Ron com um café forte. Mas, há menos de quarenta anos atrás, a lógica destes medicamentos, de venda livre, era bastante menos apurada, pouco dirigida, e a sua génese um tanto baseada num pozinho disto, mais uma pitada daquilo; uma mistela que atingia globalmente quem os tomava, mais do que especificamente o órgão ou o mal que o necessitava. É curioso como, já perto do final do século XX, esta terapêutica às apalpadelas parece em continuidade com as mezinhas complexas da Idade Média: uma pitada de asa de morcego desidratada, uma colher de chá de raiz de mandrágora, um dedal de gosma de sapo; envolver a mistura com uma onça de cinza de corno de caracol, apanhado em noite de lua-nova.
Com tudo isto me entretinha eu, de olhos fechados, podendo bem passar por um viajante adormecido. Mas na minha mente, feericamente iluminada e activa como um parque de diversões, as associações processavam-se ininterruptamente, deambulando de stand em stand... No Domingo, quando a dor e a desilusão com a segunda aspirina tomada, me forçaram a levantar e a aparecer no hospital antes das oito, dei de caras com um desgrenhado e surpreso Viegas que não esperava ver-me por ali, pois não havia nenhum doente na urgência, as enfermarias estavam em paz, e, julgava ele pelo que constava na escala, era o Rui que estava à chamada.
“Tudo isso é verdade, Viegas, hoje o doente sou eu: estou com uma dor de dentes filha da puta! Acordou-me, veja você a potência!”
Dos dentes nunca ele padecera, mas já ouvira dizer que, pior, só dores de ouvidos. Já tivera, isso sim, uma cólica renal e, isso, não desejava ao pior inimigo. A única coisa que o aliviara fora Sosegon, em perfusão lenta. 
“Estive vinte e quatro horas a soro naquele quarto ao lado da enfermaria dos homens.”
Interessei-me pelo assunto.
“E temos aí disso? Não em ampolas, mas comprimidos?”
Ele achava que sim. Fomos passar revista à farmácia geral, onde, na prateleira dos analgésicos e junto aos outros medicamentos com acção no sistema nervoso, muito arrumadinhos e ordenados segundo os tópicos do Simposium Terapêutico  pela madre superiora, encontrámos as embalagens de pentazocina (o nome químico do Sosegon) contíguas às ampolas da morfina, vizinhas do Largactil, do Triptizol, do Valium, do Rohipnol.
“Vou levar uma placa, Viegas; depois passo uma receita e devolvo.”
“Leve uma caixa”, sugeriu ele, generoso, “escusa de sair de casa a meio da noite...”, e, por aí, apercebi-me que arrancara o desgraçado a um bom sono.
O Sosegon era, na realidade, um espanto: actuava rápido e sem cerimónias, empurrando a dor para um canto escuro, onde ficou a rosnar mas impotente, o que quase me permitiu esquecer o assunto. Deitei-me para tentar dormir o resto da manhã, mas não consegui dissipar uma euforia que me dispersava os pensamentos e acabei por me levantar, fazer a cama e arrumar o quarto; fui inaugurar o Açucareiro, sozinho, por volta das onze da manhã. A meio da tarde a dor regressou, vingativa e agreste, e percebi que não passaria por si, iria ter de fazer alguma coisa por isso, como ir a um dentista, por exemplo. O próximo helicóptero era na terça e, até lá, teria de me aguentar com analgésicos, o que, para já, parecia estar a funcionar. Por me ter levantado tão cedo, e da combustão que a própria dor provoca em nós, senti-me arrasado logo após o jantar, nem café fui tomar com o Rui e a Marília. Deitei-me, mas, embora sonolento, o sono não ganhava espessura e não conseguia dormir, vagueando por um estado em que a fronteira entre o sono, o sonho e a vigília era incerta... Fechara a porta do quarto, mas a frincha de luz junto ao chão parecia arrastar para dentro os ruídos da casa, amortecidos mas presentes, e ouvia as vozes das conversas como se as pessoas estivessem a falar mais baixo por minha causa. Aquilo era uma gargalhado do Rui, depois foi como se um prato fosse pousado numa mesa, e o Pombo casquinou alguma coisa que não percebi e me pareceu ficar sem resposta. Que estava eu ali a fazer, sem sono e muito quieto? E se me levantasse, fosse ter com eles? Aparecia, explicava que não conseguia dormir. Mas continuei deitado, dei as costas à frincha de luz sob a porta. E se lesse? O tempo pareceu passar, pois a língua de luz desapareceu e deixaram de se ouvir vozes; apenas um som me chegava por vezes, isolado, e que parecia vir do andar inferior. Depois dei comigo enredado em pensamentos e arremedos de problemas que pareciam entupir-me de especulações e logo a seguir, num patamar de frieza racional, tomei breve juízo de que tudo aquilo que pensava nem sequer existia como tal, como facto. Tinha estado entretido com o vento!
Na segunda-feira telefonei para a capitania, a marcar vez no helicóptero. A autoridade marítima resmungou para dentro por lhe estar a roubar um lugar, mas não podia fazer nada quanto a motivos médicos. À noite fiz uma mala pouco consistente, não sabia bem o que lhe meter, que quantidade, como estaria o tempo; que livro levar. Comprara aquele saco na base das Lajes, uma tarde em que o Rui e eu, nos dias em que chegáramos à Terceira e antes de ir para a Graciosa, fôramos espreitar a maravilha das maravilhas. Afinal, A Base, a parte onde os americanos nos deixavam entrar, não passava de um barracão grande com um balcão comprido onde se podiam pedir bebidas, pacotes de batatas fritas e tiras de milho frito e, ao lado, a famosa loja onde se exibia o whisky e outras mercadorias. Foi aí que comprei o saco de viagem, uma peça de lona brilhante e encerada, cor de mostarda, indestrutível, com um fecho-éclair que lhe cria uma bocarra onde cabe tudo o que quisermos, a trouxe-mouxe, sem divisões internas. Com o saco vem um saquinho, pequeno mas do mesmo material, ideal para arrumar as coisas de quarto de banho. Agora atiro-lhe para dentro a jaqueta com carapuço que o Paulo me emprestou da outra vez e – que engraçado – comprámos uma tarde no armazém americano da Trofa, onde se vendem restos que os americanos bem intencionados juntaram para oferecer aos pobrezinhos dos portugueses, como ajuda por se terem liberto de quarenta anos de ditadura e escuridão. Comprei lá maravilhosos bens em segunda mão, a preço de amigo; corríamos para a Trofa mal nos sopravam: “chegou um carregamento ao armazém americano”. Que livro? Influenciado pelo tamanho e leveza, decido-me por uma versão de bolso do Monte dos Vendavais, que comprei em Janeiro, justamente antes de vir para os Açores. 
Entretido a navegar em tudo isto, apercebo movimento nas cadeiras em frente e ao lado da minha. As pessoas estão a levantar-se, o altifalante anuncia que chegou e partirá já de seguida o voo proveniente de Boston com destino a Lisboa. Esfrego os olhos, recolho o saco de viagem cor de mostarda, que jaz entre as minhas pernas dormentes. A mulher que estava na cadeira em frente e se dirige para a fila que entretanto se formou, sorri-me e diz:
“Ainda conseguiu dormir qualquer coisinha, não é verdade?”
Digo que sim, que “passei pelas brasas”. Se ela fica feliz...    


25


Sob a camada lisa de nuvens que atapeta o céu até ao horizonte ainda deve ser noite, mas aqui esboça-se uma claridade cinzenta e lá longe, onde a vista alcança, surgiu uma linha vermelha de contorno esborratado que, se a terra fosse plana como antigamente, parece querer trepar do vazio. Persistente, aumenta a espessura e o esplendor e vai nutrindo o espaço em volta com amarelos, dourados e, agora, uma indicação de azul. O avião, muito ajuizado, mantém uma distância uniforme em relação ao leito de nuvens a seus pés e finge não se aperceber do que se passa lá longe, como se isso não lhe interessasse, ao contrário dos meus olhos, que se humedecem. 
No assento da coxia, a senhora que me deixou sentar à janela, dorme. É a mesma que, nas cadeiras duras das Lajes, me perguntava se eu tinha conseguido dormir e que, já dentro do avião, fez grande festa ao descobrir que íamos viajar lado a lado, oferecendo-me aquele que era, por direito de bilhete, o seu lugar, pois, dizia ela para me convencer, até preferia a coxia, uma vez que podia levantar-se e ir aos lavabos sem ter de incomodar.
À saída do aeroporto apanhei um táxi para Cascais e um condutor que me ia mirando pelo espelho, talvez desconfiado com um cliente tão novo a encomendar-lhe um frete tão caro. Peço-lhe para descer a Avenida e fazermos o trajecto pela marginal a partir do Cais do Sodré. Fica ainda mais desconfiado pela escolha do percurso mais longo, rosna um “o senhor é que sabe”. Está uma manhã serena e, pelo caminho, tudo se desenrola em azul: o céu, o rio, depois o mar que o continua. Em Cascais, mandei parar no largo da estação, não sei o nome da rua onde fica a Albergaria Valbom. Óbvio, concluo ao iniciar a descida do passeio e ao passar pela placa, é na Avenida Valbom, uma rua com um só sentido para automóveis e curta em demasia para merecer chamar-se avenida. A albergaria fica a meio, à esquerda quem desce, próxima dos escaparates de rua da livraria Galileu. Mantenho-me ainda na minha redoma de encanto e silêncio, não me apetece deixar que a conversa do recepcionista lhe abra rachas: o tipo lamenta, mas só me pode atribuir um quarto a partir das treze horas. São 9 e 35. 
“Mas o senhor tem quartos livres?”, ouço a minha voz produzir-se com algum esforço. Ele, com certeza que tem quartos livres, “mas a diária inicia-se a partir...”
“Então, vamos fazer o seguinte: considere que cheguei ainda ontem, e inclui essa noite na conta. Quer que lhe pague adiantado?”
Ele percebeu de imediato onde eu queria chegar, fez um telefonema interno em voz amortecida e vinte minutos depois estavam a – toc, toc – entregar-me uma bandeja com o pequeno-almoço no quarto. Tomo o meu TAO, o dente não me dói e passo a toma do Sosegon, preciso de dormir e já sei que com aquilo fico a levitar entre cá e lá, não é um verdadeiro descanso. O espelho do quarto de banho cobre quase metade da parede por cima do lavatório e é poderosamente iluminado por uma lâmpada comprida, de néon, enfiada numa caixa rectangular de plástico com picos prismáticos a imitar vidro translúcido. Sim, agora já se nota nitidamente o inchaço, não toma a bochecha mas há ali um papinho ao nível da mandíbula. A janela do quarto é de sacada, dá para uma modesta varanda que tem por vista desordenada as traseiras de outros prédios, uma nesga alaranjada de buganvília. Gosto assim, prefiro ver roupa a secar e uma mulher a fumar um cigarro debruçada sobre um saguão do que uma vista de mar. Esvazio o saco e arrumo tudo nas gavetas e prateleiras; estou a fazer horas para ligar à João, não queria fazê-lo antes das onze, pode estar ainda a dormir ou entretida com actividades da manhã. Daqui a casa dela devem ser uns dois quilómetros, só lá estive uma vez mas é um pouco fora, sobe-se uma avenida a partir do centro da vila até que aparecem ruas sossegadas, com moradias entre pinheiros mansos. Ela sabe que eu vinha, se conseguisse; liguei-lhe do Hotel Angra mal tive a ideia. Só não tinha mesmo a certeza se eu arranjara passagem, ou não, pois já era demasiado tarde quando mo confirmaram e o pai dela (padrasto) é um chato; se há episódio que o vire do avesso são telefonemas fora de horas, já tive uma cena dessas com ele.  
Quando liguei foi ela que atendeu e, mesmo antes de começar a falar comigo como deve ser, ouvi-a gritar:
“Mãe, podes desligar, é para mim...”
Digo-lhe que já cheguei, que estou em Cascais. Pergunta onde, por entre o espanto e o riso da surpresa.
“Na Albergaria Valbom...”
“Sim, claro, que estupidez! E, agora, que vai fazer? Dormir, calculo, deve estar estourado...”
A meio da tarde, umas convenientes seis horas mais tarde, ligam da recepção; anunciam que está lá em baixo uma senhora a perguntar por mim.
“Sim, obrigado. Pode mandar subir, por favor”; respondo na entoação do hóspede familiarizado com as regras da casa.
É que eu já tinha estado ali.


26


Em Portugal, no dealbar dos anos 70, não se passava nada; tudo isto era um atraso de vida. Por exemplo (ilustro musicalmente, de todas as musas foi a que mais me acabou por condicionar existência): entre 1970 e 1972, na segunda cidade do país, houve um concerto do Modern Jazz Quartet no cinema Trindade, e um concerto dos If no Coliseu – uma banda rock, britânica, de segunda linha, que lotou a sala. Para além disso, no Porto, perpetravam-se no Rivoli uns serões musicais periódicos onde, por sobre as emanações de cânfora dos casacos de peles de velhas senhoras, desafinavam, afinados na plangência, os violinos de uma orquestra clássica. 
Então, eis que, já perto do final de 1971, se ouve falar de um festival de jazz lá para o sul. Jazz? Festival?! Muita gente junta no mesmo lugar, sem ser em Fátima ou num estádio de futebol?! Seria possível?
“Onde, quando? Em Lisboa?”
Não, era em Cascais, o que para nós ia dar ao mesmo, e teria lugar já na semana seguinte. E os bilhetes, Santo Deus, como se arranjavam? Estariam à venda no Porto, em algum lado? Ninguém sabia, achava-se que não; o melhor seria ir perguntar numa discoteca, alguém teve a ideia de se indagar nas lojas de instrumentos musicais, podia ser que... 
Por esses dias tinha eu uns recentes dezanove anos e sair de casa por três dias (a duração do festival estendia-se por duas noites) era manobra que implicava satisfações e negociações e nisso – mais o tempo a correr, mais os bilhetes que ninguém conseguia e a própria incerteza sobre os dias do evento – nisto, o festival passou e perdemos o Miles Davis, o Thelonious Monk, o Ornette Coleman, o Dizzy Gillespie, o Art Blakey e o Sony Stitt. Uma catástrofe que, uma vez que as parcas notícias saídas nos jornais a seguir ao festival anunciavam uma segunda edição, tentei remediar logo, cedo, no ano seguinte. OK, a coisa tenderia a repetir-se no mês de Novembro, mas em que dias? E os bilhetes? Vender-se-iam, desta vez, também no Porto? Até tarde, pelo Outono dentro, nada se soube, mas, ah, nós imploráramos atalaia aos nossos conhecimentos na capital e, a custo, conseguimos os preciosos bilhetes para as noites de 11 e 12 de Novembro.
No dia 11, de manhã, com o automóvel atestado de gasolina, cobertores,  almofadas e toalhas de praia – eu, o meu primo Manel e o nosso amigo Juca – rumámos a sul como se fossemos para outro país. A viagem para Lisboa demorava umas seis horas e Cascais nem sabíamos onde era, devia haver placas a indicar em Lisboa. Quanto a dormida, iríamos fazê-lo no carro, pois o meu maravilhoso Fiat 128 vinha artilhado de fábrica com uma funcionalidade espectacular: os assentos da frente rebatiam sobre o banco de trás, metamorfoseando um autêntico sofá-cama. Para três pessoas, era um bocado apertado e o gajo que se deitasse no meio iria ter de lidar com o espaço vazio onde, inamovíveis, se eriçavam a manete de velocidades e o travão de mão. Mas isso eram detalhes de que só daríamos conta  quando a noite nos reconduzisse ao dormitório.
Chegámos a Cascais umas sete horas mais tarde, a tarde sombreava-se, embora a temperatura do ar fosse espantosamente amena quando comparada com a do Porto chuviscoso ainda dessa manhã. Depois de umas voltas exploratórias, acabámos por deixar o carro estacionado no interior do perímetro do mercado municipal, local protegido ao trânsito das ruas exteriores por um muro e árvores de grande porte, proporcionando ao estacionamento uma intimidade não inferior à de um quarto de pensão. Entardecia, o céu dissolvia-se em rosados, mas era ainda um tanto cedo para jantar – o concerto era só às nove e meia. Deambulámos pela vila como que embriagados, aquilo não se assemelhava ao Portugal que a gente conhecia: tudo muito ordenado, arrumado e limpo; as lojas pareciam mais modernas do que as de Cedofeita ou Santa Catarina, as pessoas tinham um ar bem tratado e demoravam-se por cafés e esplanadas como se todos estivessem de férias; as tabacarias penduravam no exterior mostradores com  jornais e livros de bolso estrangeiros; os restaurantes ostentavam nomes inspirados e as fachadas pareciam preparadas para cenário de um filme. Fascinados, em silêncio, muito juntos, um tanto ou quanto inibidos, andámos para trás e para a frente sobre aqueles passeios ordeiros, aquelas calçada lisa a preto e branco, com efeitos; apercebendo-nos de que a localidade não era muito grande: já tínhamos passado por aquela farmácia do lado de lá da rua, onde se começava uma rua que ia desembocar num terminal de comboios. Por aí, perto da estação, descobrimos uma tasquinha de bom aspecto, com pratos apetitosos anunciados a giz num quadro, e preços compatíveis. Ao café, perguntámos como ir dar ao Pavilhão de Desportos; era fácil, disse-nos o homem por trás do balcão: descíamos a rua, iríamos dar à baía e depois era só cortar à direita, a direito, para dentro, voltar a subir até chegar a um jardim e, dali, já veríamos o pavilhão.
“É longe?”, queria saber, com o coração palpitante e zonzo de tantas indicações.
“Não!”, disse o homem, “põem-se lá em dez minutos; vá lá, um quarto de hora”.
Demorámos mais, mas talvez a culpa fosse nossa, fomos abrandando o ritmo da passada à medida que sentíamos estar mais próximos, contidos por um certo receio de chegar e a certeza que íamos no caminho certo, pois começávamos a integrar-nos agora numa corrente de gente que parecia mover-se por um qualquer tropismo, que ia engrossando à medida que outras pessoas surgiam de ruas e ruelas que confluíam no nosso trajecto.
“Achas que o Brubeck vai tocar o ‘Take Five’?”, perguntava o Manel.
“Sei lá, não faço a mínima...”
“Era fixe...”, desejava ele.
Chegávamos. Era noite cerrada, azul-negro, e umas barreiras de metal protegiam a zona da entrada da turba que se pressionava para entrar. Lá dentro, era um banal recinto desportivo, com um ringue ao meio, bancadas de cimento de um lado e outro, e janelas envidraçadas lá no alto. O palco era um estrado nu, encostado a uma das bancadas, pelo que haveria gente que iria assistir às costas do que se passasse em cena! Essa bancada estava ainda assustadoramente despovoada e a outra, em frente, já perigosamente cheia.
“Ainda há lugares lá em cima...”, apontou o Juca, começando a trepar pelo espaço livre que sobrava à frente dos joelhos de quem se instalara nos degraus de cimento duro.
O Fiat esperava por nós, fiel e com uma película de orvalho a abrilhantar a chapa azul. Por cortinas, entalámos as toalhas de praia no rebordo superior do vidro das janelas; rebatemos os bancos e ajudámos o Manel – a quem, por ser o mais novo e o mais curto, tinha cabido ficar no meio – a encher os espaços vazios com almofadas, para que não se lhe espetasse o travão de mão pelo cu acima. Passando o gargalo de um cantil de bagaço entre nós, comentámos a noite, rimo-nos até às tantas e adormecemos, felizes por no dia seguinte haver mais.
De 1972 a 1978 falhei apenas o Festival de Cascais de 1976, pois nesses dias de Novembro deambulava por Katmandou, no Nepal, aguardando que o tipo que fizera a viagem comigo acabasse o tratamento da febre tifoide e tivesse alta do hospital. Cascais tornara-se um clássico nas nossas vidas. Entretanto, houvera uma revolução no país; acabara o curso de Medicina; as estadias em Cascais tinham-se sofisticado: enrolávamos charros antes e durante os concertos, já não dormíamos no Fiat. Numa dessas idas a jantar à tasquinha perto da estação, onde se continuava a comer bem e o pessoal se lembrava de nós de uns anos para os outros, déramos de caras com uma Residencial – eles, à moda antiga, chamavam-lhe albergaria – onde, às vezes, dormíamos quatro ou cinco num quarto para dois; um ano cheguei a experimentar dormir dentro da banheira, uma péssima ideia. O grupo de pessoas que migrava do Porto alargara-se e diversificara-se à medida das novas amizades, das novas namoradas e, em 1978, ano da 8.ª edição do Festival, a comitiva que saiu da cidade, numa caravana de três automóveis, incluía uma dúzia de peregrinos, quatro dos quais eram raparigas e, enquanto nós iríamos ficar, como de habitual, na Albergaria Valbom, elas beneficiariam de alojamento em casa de uma amiga das mães, ao que parecia natural do Porto, mas a viver naquela espécie de sul de França português há muitos anos.
Assim, mal pousámos os carros, uma delas entrou numa cabina telefónica para  anunciar a chegada e combinar a estadia em casa da tal senhora. O resto de nós manteve-se nas imediações, a desentorpecer as pernas das horas enfiados nos automóveis. A páginas tantas, a porta da cabine abriu-se e a Raquel, ainda de auscultador na mão, chamou-nos e quis saber a opinião dos rapazes:
“A Zé manda perguntar se vocês querem ir jantar lá casa...”
“Quem é a Zé? Ir jantar quem?”, tentou precisar um de nós.
“É a dona da casa. Todos, estão todos convidados...”, disse a Raquel com um sorriso.
Ali, no meio da rua e da tarde que já se afundara, senti-me estupefacto: eram quase sete da tarde, éramos uma dúzia deles; como podia alguém convidar assim, de repente, para um jantar, uma multidão destas?!
Alguém ainda levantou a questão de se teríamos tempo de ir jantar não sei onde e estar a horas no pavilhão. A Raquel, que ia trocando informações com o bocal do telefone, garantia que sim, que o recinto era perto da tal casa; que as malas delas já lá poderiam ficar, só vantagens.
Fui arrastado para o sim mais ou menos geral, mas, um resto de mim, agarrava-se à ideia de ser muito mais simples jantar por ali, ao meu ritmo, e não estar a comparecer num jantar estranho, a fazer cerimónia, a procurar frases polidas; a ter de investir esforços por uma transitória hora de convívio com desconhecidos. Era o género de empreendimento que me dava um certo galo, mas todas elas – os únicos de nós que conheciam quem nos convidara – garantiam que íamos gostar, que era gente muito simpática e hospitaleira e, ainda por cima, comentou uma delas, “o António não estava”; fosse quem fosse o tal António.
“Tá combinado”, anunciou a Raquel descendo da cabina telefónica, “a Nita vai ter connosco à porta da Albergaria daqui a vinte minutos; ainda há tempo para irem pousar as vossas tralhas...”
Quando desci do quarto, a tal Nita já chegara e conversava no círculozinho frenético formado pelas raparigas na soleira da porta da albergaria. Era uma morena escura, bonita, tostada por praia recente, um combinado de olhos escuros e cabelo negro e liso que lhe davam um certo sabor indiano. A sua missão imediata era meter-se num dos carros e servir-nos de guia até casa da mãe. No final do jantar, apanharia boleia connosco e levar-nos-ia até ao Dramático – como ela dizia – onde tinha um part-time a  dar uma mão no bar durante os concertos.
“Acabo por assistir a tudo, de graça!”, confidenciava, radiante com a pechincha. 


27


O jantar foi chucrute ou, descodificando, salsicha fresca estufada com couve branca, receita de confecção rápida e apta a satisfazer a fome fácil dos convivas que enxameavam em torno da mesa, procurando atestar o prato antes de se dispersarem pela grande sala, prato nos joelhos, por cadeiras e pontas de sofá. 
Para além da Nita e da dona da casa, pessoa amistosa e parecendo feliz por nos ter ali, havia também uma velha senhora de cabelo branco e pose reservada que não participava na refeição, como se já tivesse comido ou esperasse para o fazer quando a chusma desaparecesse, e um rapaz alto, sério, com um traçado de testa e queixo que lembravam o Marlon Brando, mas que, apesar disso, partilhava linhas de parecença com a irmã. Pela conversa e pelas observações polidas da  Raquel e Gabi, fui concluindo que o tal António era o dono da casa e se encontrava, de momento, na Suíça, onde ia amiúde por razões de trabalho. Mas o assunto logo se desviou para como tinham, no Porto, ficado os pais das irmãs Pais (Raquel e Cristina) e a Tita, mãe da Gabriela. Entretanto, alheio àqueles jogos florais, eu fôra espreitar a longa varanda de tijoleira que se estendia ao longo da fachada traseira da casa e para onde abriam as janelas de sacada das salas de jantar e de estar, unificando também exteriormente aquele espaço comum. Estava uma noite morna, o Gonçalo fumava um cigarro debruçado na balaustrada que deitava sobre o quintal e, sentado numa cadeira de plástico, o Heitor comia as suas couves com ruminante aplicação. Voltei para dentro pela porta de sacada que dava directamente para a metade que funcionava como sala de estar e sentei-me ali, num sofá, a folhear uma Casa & Decoração pousada sobre uma pequena arca de madeira que servia como mesa de apoio. Devíamos começar a pensar em nos pôr a andar, afligia-me olhando o relógio e constatando que já eram oito e meia; de outro modo íamos arranjar lugares de merda. Bem que podia ter ficado a comer na vila, na tasquinha da estação... Por um ruído, a atenção desviou-se da revista: uma porta abrira-se à direita e entrou na sala uma rapariga que olhou em volta, desconfiada, como se ver aquele maralhal não fosse o que mais lhe apetecesse. As suas linhas permitiam aperceber que era aparentada com os outros dois filhos da casa, embora fosse menos tisnada do que a Nita, os olhos fossem mais claros e os cabelos castanhos se ondulassem discretamente para dentro na base do pescoço e se empertigassem em onda sobre uma metade da testa. 
“João, anda jantar, filha. Tens aí pratos no rechaud...”
Ela rosnou qualquer coisa e, à medida que ia saudando de beijinho, foi-nos sendo apresentada por palavras maternas, que a iam louvavelmente desculpando pelo atraso, mas estava a estagiar no Instituto Português de Oncologia como parte do seu curso de enfermagem. A visada ia-se servindo, calada, sem dar, sequer, troco aos incentivos carinhosos da avó, que vigiava a quantidade de comida que ela pusera no prato e só agora parecia aliviada do receio de que toda aquela matilha esgotasse as couves antes da neta chegar! 
A mãe ia pondo a recém-chegada a par das mais recentes novidades, pois, ao fim de uma breve hora, encontrara já teias de parentesco ou proximidade na maior parte de nós, inclusive a feliz descoberta de ter sido companheira de carteira da minha tia Teresa no Colégio Luso-Francês, no Porto.
Sentada ao lado da avó, a aparecida nada reagiu às felizes coincidências, mantendo a expressão fechada e parecendo entre o preocupada e o ansioso por se pôr a andar, em flagrante contraste com a hospitalidade explícita e sorridente do resto da família. Admito que, ao fundo, sentado no meu sofá, achei graça àquela antipatia pouco convincente, à falta de à vontade que quase a tornava uma estranha na própria casa, e, à saída, despedi-me dela com especial sublinhado, calculando que isso a irritaria e que não iria ter a responsabilidade de a voltar a ver tão cedo.
Enganei-me, pois num dos intervalos dessa noite no Festival de Jazz, ao ir com o Gonçalo ao recesso, por baixo de uma das bancadas, onde funcionava o bar, demos com as duas irmãs atrás do balcão, afanadas e sorridentes, a aviar cervejas e sanduiches embrulhadas em película transparente.   
Regressámos ao Porto, acabrunhados na viagem por aquele silêncio que sempre sobrenada os dias cheios e, na semana seguinte, perguntei, distante quanto soube, à Cristina Pais se, por um acaso, não teria, que me pudesse dar, a morada daquela senhora encantadora que nos recebera em Cascais. Ela demorou um pouquinho, tinha ido procurar, à gaveta da mesinha do telefone, o livro de endereços da mãe.
“Tens aí onde se escreva? Aponta: rua Cesário Verde, 117...”
E para Cascais enderecei um agradecimento que invocava Pessoa – discípulo confesso de Cesário Verde – e o modo gentil e generoso como a dona da casa abrira a porta a totais desconhecidos. 
Nem um mês passara sobre o agradecimento e eis-me, de novo, a pedir ajuda à mais velha das irmãs Pais. 
“Cristina, por acaso não tens aí o telefone da João no Porto? Queria telefonar-lhe, a convidá-la para jantar um dia destes...”
Ela tinha e deu-mo, simpática mas relutante nas bordas. Anos volvidos, soube que, no mesmo dia, telefonara à visada a dar conta do que fizera e avisando-a para ter cuidado, pois que eu não era assim tão recomendável ou flor que se cheirasse. Pobre e bem intencionada Cristina, que ficou com esse embaraço atravessado, sobretudo quando dali resultou, em pouco mais de um ano, casamento. Se nos conhecesse bem a ambos, melhor do que nós nos conhecíamos a nós próprios, teria sabido que é justamente isso – contrariar o contacto – o que não deve ser feito quando se quer evitar que dois jovens seres se aproximem. 
A João e uma amiga chamada Rita – uma loura, de voz rouca, que provocou estragos na turba masculina que eu frequentava na época – visitavam a cidade por umas curtas duas semanas, para um estágio geminado no IPO do Porto. Estavam luxuosamente acampadas num apartamento que o padrasto da João possuía na Foz, outrora alugado, mas, nesses dias do final de 1978, desocupado e onde os aquecedores a óleo, há tanto por usar, libertavam para o ar um atraente perfume a pó evaporado. Fiz o tal telefonema e, para desespero da minha mãe que nunca sabia por onde eu podia andar ou se viria dormir a casa, mudei-me praticamente para a Foz. 
Foi também por essa época que se iniciaram as celebrações da minha despedida, pois ia servir um ano nos Açores, na Graciosa, uma ilha que, a não ser algum tio-avô fanático da geografia, ninguém sabia que existia, quanto mais onde se situava. E a lista de convidados para esses jantares viu-se inesperadamente engrossada por uma nova presença, uma novidade com cadeira perto do homenageado, o qual, em pé e em pleno brinde, era visitado pelo pensamento sombrio de não ser a melhor hora para se pôr a andar dali para fora, uns dois mil quilómetros a oeste. Era quase um absurdo, mas a que não havia volta a dar e o melhor era vivê-lo sem gemer, como advogavam, entre outros, o Píndaro e o Camus.    


28


A João tinha uma Vespa vermelha, foi nela que nos transportámos por Cascais e arredores durante essa semana. Era sempre ela quem guiava, eu não queria nem ouvir falar em experimentar e gostava daquela posição na ponta traseira do assento, de olhar a partir dali o que ia surgindo ou aquilo por onde íamos passando ou deixando para trás; de sentir a carícia involuntária das mechas do cabelo dela que me cocegavam a face quando, para ouvir algum comentário, me inclinava para a frente, as mãos enlaçando-lhe a cintura.
Ela não estava de férias ou convalescente de um abcesso dentário, pelo que eu passava razoáveis pedaços do dia sozinho, esperando que terminasse o trabalho e voltasse de Lisboa ou que arranjasse um novo álibi para se baldar de casa. Mas também dessa espera gostava, do pequeno-almoço nalgum café da baixa de Cascais, do deambular por entre os escaparates da Galileu, a única livraria onde alguma vez vira cerâmica à venda, belos azulejos decorados com rãs tridimensionais e terrinas em forma de peixe, assinadas pelo Bordalo Pinheiro – se não tivesse os Açores pelo meio teria comprado algumas. No impasse, acabei por adquirir uma edição do Eça de Queiroz Entre os Seus, um livro de correspondência entre o escritor e a, primeiro, noiva e, mais tarde,  mulher, o todo comentado por uma filha, coisa que se dispensaria pois pouco mais fazia que acrescentar qualificações superlativas ao que interessava. Aquela compra reavivou-me a vontade de ir a Sintra, além de que estava a uma modesta vintena de quilómetros... Como todos, eu dera Eça no liceu, éramos obrigado a ler pedaços da A Cidade e as Serras, detestava aquilo e as minhas memórias do escritor faziam parte de um aglomerado baço onde se entrelaçavam com o Camões, o Frei Luís de Sousa e o Alexandre Herculano, entre outros igualmente chatos. Mas, por uma tarde do ano de 1978, bati à porta do Carlos Araújo, cuja casa frequentava com regularidade, para ser informado de que não estava, mas iria chegar. Fiz menção de ir embora, voltar mais tarde, mas a Mira, mulher dele, convenceu-me a entrar. Ela própria estava cheia de pressa, ia sair, mas eu podia esperar na sala de trás, o Carlos chegaria a qualquer instante. Entrei e fiquei por um sofá dessa sala, impregnando-me, à medida que os minutos passavam, do silêncio e do tédio que reinavam na casa vazia. Já se passara uma meia-hora quando comecei a olhar em volta em desespero, à procura de algo que me entretivesse. Não havia nada naquela divisão, nem jornais, nem revistas ou álbuns de fotografias, nem sequer uma aparelhagem de música, e não me sentia à vontade para ir coscuvilhar em outras. Foi a necessidade que, num porta-revistas contíguo ao braço do sofá, me levou a mergulhar num monte de novelos de lã, agulhas e um pedaço de camisola nos seus primórdios e, sob essa bagunça, descobrir a lombada grossa de um livro.
“Os Maias – Cenas da Vida Romântica”, li na capa. Já era castigo!
Quando, uma hora depois, o Carlos chegou, foi quase com irritação que o saudei e suportei os comentários entusiasmados à minha presença, um dedo a servir de marcador ao naco razoável de páginas lidas. Já saltara para o interior da trama do romance e só pensava em continuar a segui-la.
“Emprestas-me esta merda?” 
Ele pareceu espantado.
“Leva! Está para aí há séculos, nem sei de quem é... Talvez da Mira, do liceu.”
Nos meses seguintes li tudo quanto havia a ler de romances, novelas e contos do Eça e, quando se aproximaram os dias de rumar aos Açores, já andava a chafurdar nas prosas bárbaras, nas folhas soltas, na biografia do João Gaspar Simões. Mas aquelas cartas íntimas nunca vira e, sentado na esplanada em socalco do pequeno café de uma calçada estreita que subia do lado da baía, saboreava, carta a carta, a correspondência e um cigarro Brazão, a marca açoriana que andava agora a fumar e provocava olhares intrigados dos cascalenses. E voltou-me, em redobrado, a vontade de Sintra, que só conhecia verdadeiramente das descrições do escritor.   
A João achou boa a ideia, a hipótese de ficarmos lá de um dia para o outro enrugou-lhe a testa. A melhor altura para a excursão, pois estaria livre do trabalho, seria o fim de semana, mas aí o controlo em casa seria mais apertado, o padrasto, estando por perto, podia ser especialmente severo em relação ao paradeiro das raparigas. Não que ela se queixasse ou dispusesse esses obstáculos sobre a mesa, mas eu conseguia aperceber nos seus “vou ver” o caminho pedregoso para a liberdade. Ainda antes de ontem, por conta desses apertos, vivêramos uma cena com um entrefecho curioso. Ficáramos de jantar juntos, num daqueles restaurantezinhos encantadores das ruelas que iam dar à Lota, e eu fazia horas na albergaria para a confirmação telefónica da hora a que se me juntaria. Já tarde, contrariada, ligou a informar que não conseguiria jantar comigo, nem sequer sair depois do jantar; nessa noite não ia dar. Jantei sozinho, com uma vela e caracóis de manteiga dispostos numa mesa só para mim; dei uma volta arrastada pelas ruas, detive-me na montra de uma boutique a olhar um roupão de feltro, de um amarelo de saibro, que me andava a tentar há dias – era caro, mas possuía o atributo perverso de me surgir na lembrança e lamentar não o ter ainda comprado sempre que estava longe da vitrina. Voltei ao quarto, li quatro ou cinco cartas, apreciei aquela despedida “sempre teu do coração” que Eça, por vezes, usava e, embora nem fossem onze, apaguei a luz, pois pensei sentir o sono. Nada, falso rebate, apenas a ilusão do tédio a pesar nas pálpebras. Não tive dúvida de que ia passar por uma insónia, uma daquelas azedas e duras de roer. Engoli então um Somnium e entreguei-me à indulgência do bendito esquecimento. Mas o telefone tocou e, naquele sobressalto condicionado pelo hábito do estar de urgência, atendi. Mas quem poderia ser, ninguém sabia que estava aqui! Que me quereriam da recepção a uma hora daquelas? A chamada era do exterior e ouvi a voz da João, contente e triunfante, a comunicar que, afinal, ia conseguir sair, estaria à porta da albergaria dali a dez minutos, o mais tardar; de lambreta, à noite e sem trânsito, era um tirinho até mim.
Ora acontece que, está descrito, é deste modo que aquele tipo de substâncias é usado recreativamente: os hipnóticos da família química da metaqualona (como o Somnium, o Quaalude ou o Mandrax), quando são tomados e se resiste ao sono inicial, provocam peculiares efeitos: um bem-estar lânguido e, posteriormente, uma absoluta falta de memória do que se passou enquanto se esteve sob o efeito. No meu caso, nunca mais me lembrei que tinha tomado o comprimido e o assunto só me preocupou um pouco enquanto descia no elevador para um serão que, afinal, não tinha terminado ali. Estava uma noite maravilhosamente tépida e, voando abraçado à cintura da Vespa, olhava enfeitiçado o cume branco das pequenas ondas que, ronronando, subiam da praia em direcção ao paredão da marginal. Íamos ao Estoril, passar um pedaço no bar do Hotel Estoril Sol, onde havia sempre música ao vivo. Recordo a chegada, a travessia sob a pala tipo Niemeyer que cobre a entrada principal, a sala panorâmica e um tipo a tocar piano para os hóspedes. Depois parece que pedi uma cuba-livre ou um gin-tonic...; o resto contou-me a João, mais tarde, já em Sintra, divertida. Eu não me lembrava de absolutamente nada! Nem de me levantar do nosso cantinho para ir pedir ao pianista que tocasse um determinado standard – embora esse gesto fosse compatível com a minha maneira de ser –, e muito menos de ter passado uns bons momentos cantando, apoiado ao piano, para quem estava presente no salão.
Bem, pior tinha acontecido ao Leonard Cohen, comparava eu, sentado à mesa da esplanada do Hotel Central, o compositor canadiano, conhecido por Capitão Mandrake nos anos 70, uma piscadela de olho ao Mandrax, de que era cliente. No Festival da Ilha de Wight, acordado às duas da manhã para cantar para 600.000 pessoas, fizera-o pouco após ter tomado uma coisa daquelas no camarim, precisava dormir e julgava só ter de se expor ao público muitas horas mais tarde. 
“Eu, ao menos, só cantei para uma meia-dúzia...”, concluía olhando, no outro lado da rua, no palácio, as imensas chaminés cónicas, que se viam de todo o lado, tão desmedido era o seu tamanho. O Eça falava daquilo!
Fizéramos a viagem até Sintra num átimo. Ainda agora estávamos a sair de Cascais, a passar pelo supermercado Pão de Açúcar e a virar pela avenida acima, num cálido começo de tarde, e não muito depois já o tempo se tornava fresco como numa adega e rolávamos sob um arvoredo que cobria o asfalto, um toldo verde e tremeluzente que não mais nos largou até que pousámos a Vespa, para um merecido repouso, no largo do Hotel Central. A minha ideia era deambular por ali, sem pressa nem fito, aquilo não era assim tão grande que a qualquer momento não fossemos tropeçar na Lawrence (onde Carlos da Maia procurara a loura dona de uma cadelinha chamada Niniche) ou no Nunes, onde o Cruges encontrara o Eusebiozinho com as duas putas espanholas e se acabara por esquecer das queijadas... Será que a confeitaria onde agora provava uma daquelas nozes caramelizadas tão fantásticas, e onde também vendiam travesseiros e queijadas, já existiria no tempo dos Maias? Poderia ter sido ali, a uma daquelas mesas, que nascera a referência usada pelo Eça?
Após explorarmos o centro da vila começámos a subir em direcção à serra, por entre vivendas antigas e ajardinadas, que pareciam adormecidas sob aquela luz esverdeada e loura que rompia por entre a ramaria. Já acima do nível de vila, onde a densidade das casas rareava e fora substituída por muros e portões de quintas, demos com uma tabuleta que indicavaQuinta dos Lobos e informava tratar-se de um “bed and breakfast”. Por entre as grades do portão, apreciámos a moradia, enquadrada por arbustos e flores, uma casa antiga e com as janelas bebendo a luz da tarde. O dito local pareceu-nos a perfeita âncora para o sem rumo que perseguíamos nesses dias. Era gerido por um casal estrangeiro, tinha apenas três ou quatro quartos e o que acabou por ser o nosso continha mobília antiga e prateleiras com livros, como se ali habitasse alguém que nos cedera o quarto para a noite. Quanto ao pequeno-almoço, explicou a senhora ao mostrar-nos a cozinha, podia ser tomado ali a qualquer hora, a torradeira estava em cima de uma cómoda e no frigorífico havia fiambre, compotas e sumos enlatados. Aliás, podíamos servir-nos do que quiséssemos a qualquer hora. Eles deixavam de estar por ali a partir das oito da noite e nós ficaríamos na posse das chaves do portão e da casa. Queríamos nós perguntar mais alguma coisa?  
Voltámos à Quinta dos Lobos uma e outra vez ao longo daquele ano e de cada vez que consegui vir da Graciosa até ao Continente lá íamos, como que em romagem, uma romagem que abrangia Sintra, a Várzea, Colares, o caminho arborizado para Cascais e as viagens na lambreta.     


29


Vinha sozinho do Açucareiro quando me apercebi daquilo, ali mesmo, à frente dos meus olhos. Um polícia percorria uns metros de passeio, não longe da entrada do recinto do hospital, parava, voltava para trás, refazia o mesmo trajecto, todo o percurso envolvido numa intensa agitação. Abrandei o passo, para observar melhor. Eu conhecia aquele tipo, aliás quem não conhecia toda a gente em Santa Cruz da Graciosa ao fim de seis meses? Aquele, especificamente, era um continental como eu e estava na ilha numa daquelas situações, sempre turvamente caracterizadas, de missão por bronca armada noutro local qualquer, isto é: penava ali por castigo. Havia disso por todos os Açores e, para calhar a Graciosa a alguém, o delito ou a escorregadela deviam ser especialmente gravosos aos olhos da etiqueta e dos regulamentos da Função Pública.
Mas aquele, naquele momento, estava num estado de ansiedade mais do que evidente, perdera o rumo, o fio à meada, e caminhava, para a frente e para trás, sem fito, como uma mosca volteando entre duas vidraças. E estava armado: cassetete à cinta e pistolão no coldre. 
Alinhei o meu trajecto pelo seu rumo e, ao cruzarmo-nos, parei e cumprimentei,  interessei-me em saber se estava tudo bem, pois achava-lhe – disse – uma certa preocupação na expressão. Ele estava morto por transfundir o nervosismo que o tomava, admitiu logo que se achava alterado, que “não se sentia bem nele”. 
“Ah”, comentei com naturalidade, “isso poderá ser tensão alta... Há quanto tempo é que o Sr. Guarda não mede a tensão?”
Ele não a media há muito, como é óbvio; um homem a rondar os quarenta anos não se preocupa com essas coisas, a não ser que seja hipocondríaco e esses são, na generalidade, uns meros seres com a ansiedade à flor da pele. Este tipo parecia-me para além disso em termos de rotulagem psíquica.
“Então venha aí comigo... Vamos ver como ela está e, se estiver muito alta, damos-lhe uma ajuda para a baixar; é perigoso para si, para o seu o coração, andar com ela muito acima do que deve ser.”
Deixou-se levar pelo braço como um menino pequeno; mas, como um menino pequeno, eu pressentia, que, a qualquer momento, podia desistir da iniciativa e desaparecer rua fora, outra vez, armado e à deriva pela vila. E o olhar dele, que evitava cuidadosamente encarar de frente para não lhe estimular a sensação de acossamento, não enganava: desvairado, pupilas dilatadas, do tipo de quem está em pânico perante a totalidade da existência. Sentado em frente a ele, dentro do gabinete, enquanto lhe colocava a braçadeira no antebraço suado, observava de perto o couro grosso do coldre, os sulcos estriados da coronha da pistola. Do cassetete já ele se desfizera, espontaneamente, pois interferia com a posição de sentado. Sentia-me tentado a propor que desapertasse e tirasse o cinturão – “o Sr. Guarda não se quer pôr mais à vontade?” – mas acabei por achar melhor não o fazer, o homem podia desconfiar do meu receio em querer despojar um polícia dos seus ossos do ofício. 
A tensão arterial estava normal da Silva, apenas a máxima nos 135, como seria de esperar num corpo tão agitado, mas, enquanto lhe tomava o pulso pegajoso, à procura do ritmo da pulsação, ia antecipadamente torcendo o nariz e afirmando que a tensão estava uma desgraça, que não admirava que não se sentisse bem, pois uma tensão descontrolada é coisa que pode subir à cabeça...
Neste encadeamento chamei pela irmã Noémia e, em voz claramente entendível, pedi-lhe para preparar um determinado endovenoso, pois “aqui o Sr. Guarda está com uma tensão muitíssimo alta”. Ela limitou-se a acenar, como se lhe estivesse a pedir a receita mais natural e apropriada do mundo: tratar uma tensão alta com um poderoso medicamento para dormir e segundo uma via de administração de efeito imediato. E assim se fez e o nosso amigo sofredor adormeceu mesmo antes de a seringa – a freira injectava a droga lentamente na veia, como eu pedira – estar vazia. Em seguida, desafivelei o cinturão, fechei-o com a pistola num cacifo e fiz transportar o homem para o internamento. Enquanto a irmã Noémia lhe canalizava uma veia, telefonei para a Terceira, procurei pelo colega psiquiatra que me dera tão bons palpites sobre boleias em barcos e pedi conselho. Aconselhou que começasse, de imediato, tratamento sistémico, de maneira a acalmar o doente rapidamente e enquanto este se encontrasse num estado de relativo torpor. Logo que possível, que o enviasse a Angra, onde o estabilizariam de um modo mais permanente. Concordava comigo em que o doente não devia voltar tão cedo ao serviço ou a poder usar armas.
A meio da tarde regressei a casa, estafado. O polícia ainda dormia o sono dos justos e na sua veia pingava um soro refrescante e terapêutico. E pensar que há pouco mais de duas semanas andava eu por Sintra! Como o regresso e o voltar à rotina da Graciosa tinham já consumido as reservas de encanto que trouxera comigo! Em Angra, no dia em que cheguei de Lisboa, o dentista arrancara-me o dente e dera dois pontos largos de aproximação na gengiva, uma sutura de pontas generosas de molde a que pudesse tratar de os tirar eu mesmo, ao espelho, quando a cicatriz estivesse bem fechada – de outro modo teria de voltar a Angra e lá recomeçaria a saga de só ter transporte uma semana depois. Estive tentado, confesso... Apanharia de novo um avião nas Lajes e depois um táxi para Cascais ou para Sintra, directo para a Quinta dos Lobos, agora já sabia onde queria ficar, pediria pelo mesmo quarto com estantes onde o sol e a música de fundo dos pássaros entrava pela janela aberta e me ia lamber à cama, na qual, sem força para me levantar, jazia, abençoado, encharcado de luz, momentaneamente esquecido de onde viera e onde teria de regressar; ausente da ideia de comunicar à família que veraneava em terras continentais, e onde o meu interesse mais intenso, logo que a vontade me regressasse ao corpo lasso, seria o de me enrolar num toalhão e descer à cozinha dormente, a procurar um Compal de laranja no frigorífico, ouvir o clic da lingueta e despejar nas goelas o recheio da pequena lata. Era feito com laranjas amargas, não era um sumo completamente natural, mas era bem conseguido. Inspirado nele, comprara na vila um espremedor de citrinos, de plástico vermelho, anunciei à João que seria a primeira compra para uma futura casa. Ela olhara-me, desconfiada e apreensiva. Tinha planos para o futuro, talvez sair do país e ir trabalhar na Califórnia, e aparecia-lhe um quase desconhecido, ele próprio oscilante nas intenções, ora próximo ora distante, a falar de lares e espremedores. Futura casa, futura, sem saber quando nem onde; por ora nem força me assistia para me arrancar ao colchão. Lá fora, a tarde caía, o quarto ensombrecia devagar, teríamos de nos levantar para descer e ir comer à vila, espreitar restaurantes e fugir quando, de dentro, mostrassem interesse por nós; antes ir procurar outro, até que a ameaça de ser tarde e não haver onde comer nos decidisse. 
Durante os últimos dias, aflito pelo eminente regresso ao exílio como um habitante de bidonville, comprei cassetes da Amália Rodrigues, do Marceneiro, dum disco novo do Carlos do Carmo chamado Dez Fados Vividos. Fado! Onde eu chegara! Estava um autêntico emigra, emigrado num rochedo do meu próprio país, e a ideia de ter de voltar era como quem me arrancava um dente.  


30


No dia dos meus anos, no fim de Junho, as freiras organizaram uma festa, uma comemoração à qual, eu, que detesto festas de aniversário, não me consegui furtar e pela qual deambulei com estranheza. 
Ao fim da tarde, depois das consultas, voltámos ao hospital para uma missa que teve lugar no gineceu das Irmãs, no piso superior do hospital, onde fui autorizado a entrar pela primeira vez nesse dia. Era outro mundo, ninguém diria que aquilo existia ao lado das enfermarias e de um contexto de tossidelas e arrastadeiras: tudo muito claro, arrumado, limpo e austero, mas uma austeridade gerida com detalhada premeditação, pontuada por toques femininos como os naperons rendados onde pousava o pires de um vaso de begónia ou o pedestal de uma estatueta da Virgem. Havia até uma diminuta capela com dois ou três bancos corridos, como na igreja, e um corrimão de madeira com torneados a separar o espaço dos crentes daquele onde o padre Jorge oficiava em minha honra. E às sete e meia, sem transição, um jantarinho de canja e frango estufado e um doce especial à sobremesa, acompanhado por brindes em minha honra e suportados por calicezinhos de Angelica e vinho do Porto, e uma madre superiora, sorridente como uma lua-cheia, desculpando-se por a minha prenda não ter chegado a tempo de Roma. As Irmãs – era essa a surpresa – tinham, em meu proveito e em meu nome, encomendado uma bênção especial a Sua Santidade o papa João Paulo II, mas a pesada burocracia do Vaticano atrasara a chegada do diploma, um pergaminho decorado com iluminuras e texto em letra gótica, o qual só aportaria à Graciosa em Novembro. Toda a gente aclamou a feliz iniciativa e, no friso do pessoal de enfermagem presente, o contentamento rosado da irmã Noémia contrastava com o ar enjoado do Viegas, sempre avesso às delicodelícias conventuais.
Impressionado com tudo isto estava o Virgílio Senra, caído na ilha há dois dias, e que, mornamente brincalhão, resumiu o espanto no caminho de regresso a casa.
“Eh, pá, os pinguins têm-te em apreço! Sim, senhor...”
O Rui foi de férias, umas férias improvisadas para arejar do súbito spleen que se abateu sobre ele, uma vontade de partir talvez catalisada pela minha viagem recente ao Continente e as descrições animadas que fiz da estadia. Após aturadas e, por vezes, encrespadas negociações com o Porão da Nau, propusemos que alguém o viesse substituir durante a ausência. Do lado de lá da linha, o Porão achava que, por duas semanas, não valeria a pena e do lado de cá, indignados, nós dizíamos que então viesse ele fazer as consultas, aguentar uma urgência de vinte e quatro em vinte e quatro horas, martelávamos o estafado argumento de que estavam previstos quatro médicos para a ilha e que apenas dois estavam a aguentar aquilo, sem se queixar. E o Porão da Nau, que se ia habituando ao nosso mau feitio, lá enviou à pressa um atordoado Virgílio Senra, não de todo desagradado com a mudança de ilha e a variação ao regime de hóspede do Hotel Angra.


  31

A namorada do Rui chamava-se Clarinha e devia andar pelos dezoito anos. Eu e ele tínhamos-lhe posto a primeira vista em cima na mesma manhã, na gloriosa vila de Fafe, onde ambos fôramos colocados a fazer o estágio de Saúde Pública de um treino básico após a licenciatura, com a duração de dois anos, designado Internato de Policlínica, treino que, como o nome indica, consistia em aprender a fazer um pouco de tudo, uma vez ser genericamente aceite que não se aprendia nada de prático na Faculdade e que um médico recém-licenciado era tão capaz de lidar com um doente que lhe aparecesse como um revisor de contas ou um pedreiro. Passados quarenta anos é reconfortante constatar que nada parece ter mudado nas capacidades com que os actuais médicos deixam a universidade. 
Esse estágio de Saúde Pública, de que falava, prolongava-se por oito meses e, antecedendo o seu começo, nós os dois tínhamos optado pelo Hospital de Guimarães como local para os dois longos anos de aprendizagem do Internato de Policlínica. A escolha de Guimarães não fôra arbitrária, mas, pelo contrário, baseada em critérios sólidos. No ano anterior, 1976, deambulando pelo Agosto da Póvoa de Varzim, tropeçáramos num delicioso cardume de raparigas de Guimarães que por ali veraneavam com as famílias, pois a Póvoa fazia as vezes de estância balnear de algumas cidades do interior adjacentes, como Braga ou Guimarães. Esse tropeço levara-nos a decidir por Guimarães mas, distraídos, não nos tínhamos apercebido de que, no decurso desses dois anos, era forçoso fazer um estágio parcelar, desenvolvido num Centro de Saúde, fora do hospital – o tal estágio de Saúde Pública – e quando acordámos para a realidade já todos os centros de saúde das cercanias da cidade estavam escolhidos, restando o de Fafe, o mais longínquo e com pior fama deles, e a cerca de 20 km de Guimarães, uma brutalidade segundo as estradas da época. Fafe?! Fafe era já nos contrafortes de Trás-os-Montes, um fim de mundo!
Culpa nossa, mas, após o impacto inicial – era um gelado mês de Janeiro quando nos mudámos para lá – a nossa estadia em Fafe revelou-se um dos períodos ditosos da nossa vida e a existência por lá pautou-se por suaves obrigações que incluíam longas pausas no D. Fafe, um café com dois pisos do centro da vila, o de cima concebido como uma espécie de mezanino onde se costumavam acoitar as alunas do liceu a emborcar cafés e a fumar a coberto de quem passava. E um fim de manhã, numa dessas mesas recuadas, sentava-se a Clarinha e umas amigas, segredando e dando risadinhas que nós, dois dos três médicos recém-chegados, resolvemos perturbar arremessando para a mesa delas, tal se fossem serpentinas ou confettis, algumas das caixinhas de amostras de medicamentos com que os delegados de propaganda médica costumavam inundar os clínicos nesses dias. Essa singela interferência cobrou o seu preço que, no caso do meu amigo, se traduziu em vinte e tal anos de casamento e um Vasquinho homenageando a memória do avô paterno. Mas isso foi bastante depois, que, nesses dias de Verão na Graciosa, quem apareceu, na companhia da João, foi uma Clarinha ainda teen e solteira, uma loura de olhos castanhos, linda, e fazendo lembrar a Jessica Lange do King Kong[12]. O facto de terem surgido juntas surpreendeu-nos, pois uma residia em Fafe e outra em Cascais, e não havia registo de que se conhecessem previamente, tendo-se associado exclusivamente para a viagem. 
Era o pino do Verão e Santa Cruz da Graciosa parecia outra, não tão outra como nos tinha acenado o entusiasmo patriótico dos naturais, mas, mesmo assim, um pouco mais animada do que o marasmo costumeiro. Ensimesmado, quase amuado, olhava com desdém a transformação, onde a mudança mais vincada se processara nos habitantes que, todas as manhãs, saíam agora à rua afivelados na  máscara de quem se crê olhado e tem a sua oportunidade cénica. Abotoado na bata curta, o Gasparinho, muito famoso e considerado entre os emigrantes canadenses e americanos, esvoaçava pela vila fazendo-se imprescindível, entregando embalagens aqui e ali, aconselhando quanto às diarreias estivais e às picadas de peixe-aranha. No Rossio, assertoado no seu orgulho de correligionário e bufando o fumo pela ponta acesa do charuto, o Oriolando apresentava-me, solene, o Jaime Gama, vice-presidente do grupo parlamentar do Partido Socialista, que eu não sabia açoriano nem supunha tão baixo. Enquanto ouvia, impaciente, os seus apartes sobre o Estado da Saúde na região, ia catrapiscando o Rui que, uns metros ao largo, apanhado à saída do Açucareiro, conversava com o Dr. Gregório e senhoras, um pequeno magote que cumpria o passeio higiénico após o jantar, enquanto a João e a Clarinha, divertidas, observavam tudo de um banco de jardim ao mesmo tempo que eram observadas por uma romaria de moças que passavam alinhadas e onde, entre outras, deslizava a Isabelinha, a Sãozinha e a Leninha.
O Dr. Gregório era filho do Dr. Gregório, um cavalheiro velhote que fora, durante décadas, o único médico da ilha e junto de quem, nas primeiras semanas, procurámos socorro para situações médicas mais complicadas. O velho Dr. Gregório, que nos recebera cortesmente na sua casinha térrea em Santa Cruz, aconselhou-nos com simpatia mas deixando transparecer a distância de quem quer agora ser deixado em paz, não parecendo interessado em manter um olhar clínico activo sobre as nossas aflições ou o que se passava na ilha. Quase no final da visita, em meia dúzia de frases secas e destiladas na experiência, resumiu-nos o retrato mórbido local, aquilo de que nós mesmos nos íamos apercebendo: havia fartura de hipertensão, alcoolismo, distúrbios da saúde mental; tuberculose..., esta última ligada ou agravada pelo próprio alcoolismo e pela miséria social. Quanto ao Dr. Gregório filho, seguira os passos do pai na profissão, mas pusera-se a andar dali para fora e era agora uma personalidade importante no meio médico da Terceira, só regressando à casa paterna no tempo quente, para uns dias de férias e umas consultas programadas da sua especialidade nas instalações do hospital. Antes de o encontrarmos, em carne e osso, nesses passeios nocturnos já o conhecíamos telefonicamente dos desesperados apelos que dirigíamos aos colegas de Angra do Heroísmo e, dessa perspectiva, era um dos colegas mais acessíveis, pacientes e entendedor das nossas dificuldades. Talvez por ser daqui e conhecer o panorama, talvez por se lembrar da vida anterior do pai, talvez por temperamento; quem sabe? 
Mas também as nossas companhias tiveram o seu quinhão de sucesso nesses dias de férias em Santa Cruz da Graciosa: duas jovens mulheres bonitas – uma loura serena e uma morena decidida – habitavam a casa dos Magistrados, atravessando a vila com um desprendimento que suscitava espanto nas locais, trajando roupa e padrões que causavam inveja, dispondo do Açucareiro e das sombras do Rossio sem pagar tributo, encarrapitando-se no bordo dos pauis como se ninguém tivesse tido a ideia anteriormente... Eram então aquelas as figuras que povoavam a vida que os nossos médicos levavam do lado de lá do mar? Tudo isso parecia um pouco desconcertante, um nada humilhante e, simultaneamente, obscenamente cativante para quem ali vivia e era, mais ou menos, da idade das duas estrangeiras. Até as freiras se sentiram encantadas ao, finalmente, serem-lhes apresentadas e ao saber que aquela morena com reflexos verdes no olhar atento – rapidamente promovida a minha noiva para que pudesse ser mais legitimante louvada – era enfermeira como elas, e tinham, finalmente, o ensejo de apreciar a pessoa de quem eu lhes falara e se prestara a orientar em Lisboa alguns Graciosenses enviados a tratamento.  
Quem também chegara na remessa fora o Paulo Amorim, especialista na companhia social de senhoras, atributo que já o víramos praticar com à vontade e sucesso nos corredores da Faculdade. Na sua viagem até nós, e sabe-se lá porquê, a João e a Clarinha tinham ido parar a S. Miguel, em vez da Terceira, e a Ponta Delgada, em vez de Angra do Heroísmo! Tornava-se necessário fazer a troca de ilha, pois era da Terceira que se tinha acesso à Graciosa! E o Paulo foi buscá-las a S. Miguel, tornou-se cicerone delas na Terceira, veio garantir que chegavam incólumes ao destino final. Com mérito e sem fazer uma única consulta enquanto cá esteve, insinuações de trabalho a que fugia como o diabo da cruz, engrandeceu o rancho de passeantes pelas alamedas da vila, engrossou os excursionistas ao Carapacho e à escadaria em caracol da Furna do Enxofre; era o conviva mais esfusiante à mesa da D. Irene, que andava transtornada com toda aquela agitação de gente, horários e menus e que, secretamente, se deve ter sentido muito aliviada quando todos se foram umas duas semanas mais tarde. 
Tal como eu, secretamente aliviado também. Aqueles dias foram-me penosos e senti-me como um bicho empurrado para fora da concha, que se deixa expor à violência do sol sem correr a abrigar-se. Sem me dar conta, a vida na ilha, aqueles meses de exílio, transformaram-me e incapacitaram em mim a funcionalidade de me relacionar com terceiros. Chegar a casa e encontrar gente, ver combinadas iniciativas da qual era naturalmente suposto fazer parte e em que não me apetecia participar, não ter privacidade alguma a não ser quando fechava a porta do quarto de banho... Não saber o que dizer e o meu discurso parecer-me sistematicamente pesado e artificial... O que era aquilo tudo e o que era feito de mim? Não me reconhecia, desintegrava-me, todo eu era um montão de desgosto e desagrado comigo próprio. 
Uma manhã, elas foram-se e eu, como o resto da vila, fui dizer adeus ao helicóptero, acenar e voltar para casa, pensando que recuperara de volta o meu quarto, que a casa, de novo sem ninguém, me traria de volta a antiga pele. Não foi o que aconteceu. Nada resultou. 


32


Pouco tempo passou até eu ir, finalmente, de férias, mas uns dias antes da partida recebemos um curioso convite, sobretudo vindo de quem, pelo visto, sentia a ânsia de nos abater. O Sr. Lizuarte B. Louro, solicitava, por escrito, a nossa comparência nos Paços do Concelho no dia tantos de tal, em virtude da visita à ilha de Sua Excelência o Dr. João Bosco Mota Amaral, presidente do Governo Regional dos Açores. Lá está: o Rui era o delegado de saúde, eu o director do hospital e não havia assim tantas individualidades na Graciosa que pudessem ser arrebanhadas para compor um ramalhete decente, dois já faziam mossa. Vestimos as nossas roupinhas de cantar no coro e, expectantes, subimos as escadas da câmara até um salão um nada sombrio, apesar das muitas janelas, duas das quais eram de sacada e se encontravam abertas para a varanda e para os mastros de bandeira que apontavam obliquamente a praça. 
Foi daí, da luz do sol onde procurara abrigo do ambiente escuro e bolorento do salão, que vi a visita chegar, seguida de um presidente em modo de desvelo para com a insigne presença. Mota Amaral, deputado da Nação em Lisboa, regressado aos Açores em 1975, membro da Opus Dei e eminência parda da Frente de Libertação dos Açores, de quem se dizia ser o autor do programa ideológico... Actualmente em lume brando, a FLA, como era conhecida, sonhara, durante os tempos que se seguiram ao Verão Quente de 75, libertar o arquipélago do jugo do Continente, num processo de independência que poderia vir a incluir iniciativas musculadas, se fosse o caso. Os Açores, nesse futuro radioso, viveriam, como um senhorio a quem saiu a sorte grande, da renda do aluguer da base das Lajes e da exploração das potencialidade geotérmicas e sulfurosas da região, isto é: o senhorio tornava-se também mefistofélico. O problema foi que os americanos, mesmo assanhados como estavam com a hipótese de uma deriva comunista em Portugal, acharam o projecto demasiado inverosímil e não deram apoio ao devaneio.
Ao vivo, o homem era igualmente sinistro e senti o fantasma de Murnau pairar no salão, pois a aparência do político tinha algo de irreal, parecendo, em simultâneo, uma amálgama do menino que cresceu demasiado depressa com o eclesiástico romano, à Fellini, e um vampiro do celuloide, parecenças a que as orelhas, alongadas e despegadas do crânio, e a cabeça de feitio triangular conferiam maior verosimilhança. Ao perto, o contacto interpessoal não desfazia a infelicidade da aparência: falava num sussurro e, ao apertar-lhe a ponta dos dedos, fiquei-me na guarda de o ver arreganhar os beiços e mostrar os caninos. Após os cumprimentos, falou uns minutos à escassa plateia, um discurso gelado, incidente na tónica de manter os Açores em paz e onde se entrelinhavam apartes ao desregramento que ainda não acalmara o suficiente no resto do país... E Lizuarte B. Louro, o nosso autarca com nome de papagaio, torcia-se de prazer ante a finura das alfinetadas, acenava gravemente a sua concordância à estratégia de manter, o mais possível, o arquipélago fechado aos embates do exterior. 
Esteve pouco tempo, sua eminência, e num gesto de mão, pálido e bem educado, recusou o beberete que esperava. Tinha pressa, e foi com enfado mal disfarçado que se dignou ouvir a minha preocupação sobre a quantidade de tuberculose que grassava na ilha e que, na visão de um médico de passagem, muito beneficiaria de um interesse que gerasse um movimento sanitário mais amplo e consistente[13]. Resolveu o assunto de uma penada, garantindo-me com um esgar que lhe animou a expressão, que quando o problema fosse ainda mais expressivo mais fácil se tornaria pensar numa solução global para ele. E logo deslizou dali para fora, deixando o salão tão morto de vida como estava antes dele chegar e enquanto lá esteve.  


33


Em Lisboa apanhei táxi para Cascais e desta vez resolvi registar-me no hotel Nau, igualmente central e a dois passos da estação, mas com um nome que me agradou, agora que o meu mundo regular era predominantemente marítimo. Do outro lado da rua havia um cafezinho atraente, com mesas de bancos altos e uma diminuta esplanada que vendia umas sanduiches de ovo e alface deliciosas, talhadas em triângulo e acondicionadas em papel celofane transparente. Nunca tal vira.
Fiquei-me uns dias por ali. Passeávamos na Vespa vermelha até ao Guincho e, se a praia estava demasiado ventosa, vegetávamos num dos tabiques com vista para o mar do bar-restaurante-hotel Muchaxo, uma construção encarrapitada nos rochedos fronteiros à praia, edificada num rústico pseudo-mexicano e albergando pormenores algo surreais, como um pátio interior onde havia aves marinhas, de asas cortadas para que não escapassem ao cenário. Um dia, à noite, já tarde, a João levou-me à casa da rua Cesário Verde, onde estivemos na sala a conversar em voz baixa para não incomodar nem chamar a atenção de quem já dormia no andar de cima. Pareceu-me outra, talvez mais meditativa, aquela sala onde, uns oito meses antes, entrara para uma ruidosa sessão de chucrute.
Depois voltámos a Sintra, a revisitar o mesmo quarto com mobiliário antigo e livros pelas paredes, aos passeios desencontrados pela serra e pela vila, sempre na esperança de encontrar o Alencar numa vereda de luz flutuante. Na Quinta dos Lobos não havia um serviço de recepção permanente, eram os próprios hóspedes que abriam quer o frigorífico quer o portão exterior ou a porta que dava acesso à moradia. Uma noite, em que regressámos particularmente tarde, franqueámos o portão com todas as precauções e, para não correr o risco de incomodar alguém, percorremos calados e em passo leve o caminho até à entrada. Estávamos a poucos metros da porta quando sentimos, mais do que ouvimos, um movimento ao nosso redor e nos vimos cercados pelos dois elegantes e assustadores dobermanes que, nas palavras calmantes dos donos, estavam sempre acorrentados no canil durante a noite e jamais na situação de se aproximar dos hóspedes sem supervisão. Bem, nessa noite não estavam e, por um minuto, estivemos ali, transidos e congelados, até que a voz do dono nos veio salvar dos terríficos vigilantes que, na perfeição, cumpriam o seu papel. 
A pouco e pouco, sobretudo no idílio de Sintra, o meu coração foi sossegando e a ilha foi recuando na minha mente, aliviando os meus dias, mas, como tudo tem um reverso, também incubando a ideia penosa de que, mais semana menos semana, logo que as férias terminassem, teria de voltar. Mas entretanto...
De Sintra, regressámos a Cascais e daí apanhei um táxi directo ao Porto, para ir a casa – ou antes, à casa dos meus pais – onde não punha os pés desde Janeiro. Já não sabia bem como designar aquela casa – reflectia, pesaroso, no assento de trás do táxi enquanto o ar da tarde quentíssima invadia o interior – e oscilava entre “a casa dos meus pais”, quando a referia a terceiros, ou “a minha casa”, sempre que a pensava para mim mesmo ou para os que sempre me tinham visto por lá. Mas o certo é que já não morava ali há dois anos e depois dela morara em duas casas em Guimarães e numa terceira em Fafe. 
E por falar em Fafe tinha de ver se sacava uma tarde para  revisitar a D. Maria e o Sr. Marques, o casal em casa de quem acampara durante os oito meses em que por lá estivera com o Rui e o Zé Pedro Moreira da Silva, meus colegas de estágio durante o Internato de Policlínica. Agora não tinha automóvel (vendera o Fiat 128 antes de abalar para os Açores), mas podia cravar alguém para ir comigo, ou apanhar um táxi. Em Guimarães, por outro lado, havia sempre quem me desse dormida, começando pela D. Antonina e o Sr. Ribeiro, donos do restaurante As Trinas, casal que nos adoptara ao fim de tanto termos almoçado e jantado no seu restaurante, uma adopção tão completa que o Rui guardava, em casa deles, pijama em permanência e, os dois, dispúnhamos de quartos de dormir à disposição, bem como grátis e incontáveis petiscos regados a Pasmados tinto e whisky Dimple.
E regressava, precisamente, desta peregrinação ao Minho, as ilhas cada vez mais esfumadas no horizonte da consciência, quando, um dia, o Rui telefonou. Estava em casa dos meus pais, a ver passar os dias antes de regressar ao sul, e vem a minha mãe, em toda a naturalidade, e diz que ele está ao telefone. Ora se para ela era trivial, para mim era-o bastante menos; nós não costumávamos telefonar-nos em circunstâncias destas, existia uma espécie de pacto não explícito de descansarmos um do outro, de não chatearmos o outro enquanto desopilava e vogava por outras paragens e, desta vez, esse era o meu caso.   
A voz soou-me estranhamente próxima, limpa do eco e ruídos de fio telegráfico das ligações entre o Continente e as ilhas, e rapidamente fiquei a saber que o Rui estava em Lisboa, de facto chegara na véspera. Um ponto de interrogação estrebuchava na minha mente: mas como era possível? Eu viera de férias e, por quase vinte dias, ele ficaria como únicomédico da Graciosa... Como era possível que me estivesse a falar da casa da Paula e do António, uns amigos que moravam nos arredores de Lisboa?
A razão era a mais bizarra. Uns dias antes, Lizuarte B. Louro, o próprio, recorrera a consulta médica e, coerente com o seu jeito de quinteiro, entrara pelo consultório do Rui dentro sem mais aquelas, ultrapassando tudo e todos e impondo a presença na consulta que decorria. Queria uma consulta, já, ele mesmo estabelecia o nível de urgência. Bem, o Rui pode ser um gajo com um feitio péssimo: pô-lo dali para fora, enviando-o a marcar vez e esperar, como os outros que lotavam os bancos de espera. Foi nesse contexto, perante toda a gente, em pleno corredor, que o homem, possesso, o ameaçou fisicamente e fez promessas sinistras. O Rui não esteve com meias medidas: pôs-se a andar da Graciosa, passou pela Terceira a relatar o sucedido, fazendo notar que não regressaria à ilha enquanto não tivesse garantida a sua integridade física e, finalmente, apanhou um avião para Lisboa. Como seria de esperar, a notícia caiu como uma bomba, o Porão da Nau entrou em opistótono, a Secretaria Regional do Assuntos Sociais informara Lisboa do incidente e agora alguém do Ministério da Saúde, ligado à tutela do Serviço Médico à Periferia, queria falar com o meu amigo e colega. Será que eu poderia ir com ele? Sempre ajudaria a explicar os antecedentes.
“Claro. Quando é que tens de ir lá?”
“Fiquei de telefonar a um gajo da Direcção-Geral de Saúde, a marcar...”
“Isso é onde?”
“Em Lisboa, numa alameda qualquer...”
Tomei um táxi para a capital e, viagem abaixo, fui sentindo, como um sopro no coração que ainda agora não existia e agora já lá mora, que talvez as minhas férias estivessem por um fio.


34


Não sei o porquê mas, na minha tenra idade, imaginava uma Direcção-Geral como um local aceso de actividade, borbulhante na produção de decisões que não podiam tardar; onde trabalhariam, após cuidadosa selecção, técnicos de excelência, como hoje se costuma dizer para categorizar pessoas e serviços como se fossem presunto de região demarcada.
A Direcção-Geral de Saúde, onde, nessa tarde, entrava a primeira das muitas vezes que lá entraria nas décadas seguintes, não poderia parecer mais distinta daquilo que imaginava... A nossa entrevista, com um subdirector-geral, era num dos pisos superiores do edifício e, para lá chegar, fomos trepando uma escada estreita, que se contorcia por ali acima, apertada entre a parede e o poço de um elevador como o acesso a um campanário. O silêncio era geral e uma modorra de siesta reinava, apenas perturbada pelo enrolar e desenrolar dos cabos do ascensor. Em cada um dos pisos, na antessala dos gabinetes, havia uma mesinha por trás da qual estacionava uma senhora de bata que levantava os olhos ao ver-nos passar, mas sem deixar de esventrar meticulosamente, com uma faca de papel, os cadernos de um Diário da República ou de lambuzar selos em envelopes. Uma delas, levantou-se quando tentávamos transpor o umbral da sua secção, quis saber ao que íamos – eram contínuas, humildes guardiãs do templo.
“Vimos à procura do Dr. Leonel Barreira, está à nossa espera.”
O Dr. Leonel Barreira era um senhor de meia-idade, muito polido e sereno como um Buda. Mandou que entrássemos para uma sala e convidou-nos a sentar a uma bela mesa redonda, de madeira envernizada e marchetada com frisos dourados, enquanto se dirigia a uma secretária e remexia um monte de papéis. Em seguida, voltou à nossa companhia com uma capa de cartolina que continha apenas dois magros papéis dactilografados.
“Ora, então, os colegas, sem bem compreendi, foram deslocados para a ilha... Graciosa... no âmbito do Internato de Policlínica...”, disse como quem quer introduzir um começo de história.
“Serviço Médico à Periferia...”, corrigiu um de nós, “e não deslocados, escolhemos nós mesmo o destino. Aliás, fomos os únicos voluntários do país para a ilha...”
Ele levantou a cabeça do papel, que lia à socapa para se por a par do assunto, e olhou-nos, um pouco admirado, pareceu-me.
Depois, vendo que o homem estava a leste do paraíso e compreendendo que a batata quente lhe caíra em cima à queima-roupa, resumimos-lhe a história: o sermos apenas dois onde estavam previstos quatro, a falta de enquadramento e apoio por parte dos médicos mais velhos do hospital de referência – a 50 km de distância e com o mar pelo meio, o isolamento profissional e, o apóstrofo da questão, a cena com o presidente da câmara. Ele ouvia-nos com atenção e, apesar de se manter impávido, não conseguia deixar de manifestar espanto, traduzido, sobretudo, no modo como pedia para confirmarmos certos passos da história.
“Dizem então que esse senhor vigiava a vossa casa? Pessoalmente?”
“Bem, a gente nunca o viu em cima do banco; é o que corria...”
Outra coisa que o intrigava era o que “esse senhor” poderia ter contra nós, uma vez que, segundo parecia, fazíamos o nosso trabalho e nem sequer dependíamos hierarquicamente dele.
“Aliás, o colega, informou olhando o Rui, como delegado de saúde depende hierarquicamente desta casa...”
Não fazíamos ideia, julgávamos até que dependíamos apenas do Porão da Nau e de nós mesmos, pois era isso a que estávamos habituados. Explicámos aquele que era o nosso entendimento da questão: os calores mal-arrefecidos da independência dos Açores, o eles acharem que éramos todos representantes do comunismo internacional – particularmente do Caribenho, tendo em consideração o epíteto de ‘cubano’. O homem suspirou, fechou a cartolina do processo e passou uma mão, que flutuou a centímetros da capa, como se dali não se conseguisse espremer mais nada.  
“Imaginando que isto se resolve, o colega regressaria à ilha e ao seu trabalho?”
“Desde que me consigam garantir, com um mínimo de segurança, que não levo um tiro nas rótulas ou que me limpam o sebo...”, clausulou o Rui as suas condições.
“E quanto ao colega?”, perguntou ele virado na minha direcção.
“Eu?! Eu estou de férias, Sr. Dr., férias autorizadas; quando acabarem regresso ao trabalho...”
Embora não o tenha pronunciado, o Dr. Barreira pareceu aliviado com as respostas; disse apenas:
“Pois... É que uma ilha sem médicos, isto é: de repente sem médicos... 
Cá fora estava uma tarde quente e indiferente. O Rui quis saber o meu balanço.
“O que achaste?”
Encolhi os ombros, não tinha bem a certeza do que achava.
“O gajo pareceu-me decente, acho que estava a leste de tudo, mas que ficou a perceber a cena; vamos ver...”
O Rui despediu-se, avisou que ia para cima, para o Porto ou Guimarães, esperar no que davam as coisas. De uma coisa tinha a certeza: não ia voltar sem garantias. E perguntou:
“E tu, para onde vais?”
“Por agora vou para Cascais, já terminei a peregrinação lá por cima. Depois, não sei – ainda tenho uma semana por cá, mas não sei...”
E como um táxi descesse a alameda, fiz-lhe sinal e mandei bater para Cascais.


35


Agora que o Verão se aproxima do fim, a ilha está menos verde e, vista de cima, tem certo ar crestado, o que talvez explique a razão pela qual Raul Brandão lhe chamou ‘ilha branca’, o gajo deve ter passado por aqui nesta época do ano. 
Nada como o realmente: na Secretaria Regional ficaram tão impressionados com a  minha antecipação da vinda que me fizeram viajar até à Graciosa num Puma só para meu uso; fiz a viagem no cockpit, a trocar larachas com o piloto e o copiloto, também eles contentes por um volteio sobre o mar sem grande responsabilidade. 
Quando cheguei a Angra fui ter ao hotel e, como ninguém me esperava, a minha aparição foi um estouro. Só o Schmutzer pareceu ficar perturbado, como se lhe tivessem trocado as voltas, e pôs-se, ao jantar, com considerações sobre a gravidade da situação, as consequências que poderiam advir para o Rui do ‘abandono’, o regulamento não sei de quê...
“Cala-te, caralho”, ladrei-lhe, corroborado pelo Paulo e por um Senra sorridente, “deixa-me comer a merda do ananás em paz...”
“Vais ver, vais ver; na Direcção Regional dizem que...”
Mas a Direcção Regional, e o seu mais digno representante em carne e osso, o Porão da Nau, estava feliz com o meu regresso temporão e a perspectiva de, no dia seguinte, ter outra vez médico em Santa Cruz da Graciosa deleitava-o. Por isso arranjou o helicóptero como quem tira um monco do nariz e me prometeu mundos e fundos, inclusive que, em questão de dias, teria um colega a ajudar na Graciosa..., até que o problema se resolvesse.
“Estamos a trabalhar nisso, Serrano...”, disse quase comovido.
Aproveitei para relembrar que ainda não nos tinham pago um tusto da infinitude de horas extraordinárias que nos deviam por estarmos de urgência dia sim, dia não.
“Estamos a trabalhar nisso, Serrano...”, repetiu, quase convencido de que falava verdade.
E aqui vou, apetrechado de asas, quase a lamber o sal do mar, as apreensões sobre a chegada momentaneamente suspensas na atmosfera. 
No Continente acabei por me despedir à pressa de toda a gente, fui à porta de uma imensa enfermaria para um último adeus a uma João trajada de enfermeira e sumi-me entre o público do aeroporto de Lisboa, brevidade de que não desgostei, acho que me veste bem sair à francesa de um local ou de uma situação: quando olham, ou dão por isso, já fui, nem sequer me despedi segundo as fórmulas das despedidas. É uma estética e uma filosofia, digamos. Na véspera da partida fomos jantar a casa da Isabel Silva Lino, uma amiga da João que mora em Carnaxide e é casada com um piloto da TAP. Têm uma filhinha chamada Joana, parecem mesmo uma família, um modelo a seguir, e a pequena sala de estar deles, onde ficamos a dormir para que eu estivesse mais perto do aeroporto, não tem porta, está separada do resto da casa por uma cortina de toquinhos de bambu, o que produz um balsâmico farfalho a espanta-espíritos cada vez que passamos através dela. Na tarde do último dia comprei um LP do George Benson com uma capa muito estival e, surpresa, em que o guitarrista de jazz canta em duas das músicas e, Deus meu, com que voz e com que estilo! Uma das canções chama-se “This Masquerade”[14] e, se bem entendo a letra, fala de dúvida, de relações amorosas em que nunca é dito o que devia ser dito, de ambiguidade, incerteza e, a mim, calha-me como uma luva, pelo que deixei o disco à guarda da João enquanto volto à ilha, nem sequer temos gira-discos por lá. Na outra vez que por aqui estive deixei-lhe uma cassete com o espírito de uma velha canção francesa do Charles Trenet, mas na versão menos derradeira do Nat King Cole[15], que glosa as mesmas incertezas e finais dúbios das relações sentimentais – estou aqui ou não, estou dentro ou fora, será isto para durar? – mas, em qualquer dos casos, não me queiras mal que não é isso que eu te quero, e, se isto não der, recordarei estes dias com ternura. Primeiro há um prólogo, quase recitado:

Goodbye, no use leading with our chins
This is where our story ends
Never lovers, ever friends.
Goodbye, let our hearts call it a day
But before you walk away
I sincerely want to say:

E entra a canção propriamente cantada:

I wish you bluebirds in the spring
To give your heart a song to sing
And then a kiss, but more than this
I wish you love.
And in July a lemonade
To cool you in some leafy glade
I wish you health
But more than wealth
I wish you love.
My breaking heart and I agree
That you and I could never be
So with my best, my very best, I set you free.
I wish you shelter from the storm
A cozy fire to keep you warm
But most of all, when snowflakes fall
I wish you love.
Uma das muitas vantagens das canções é que são plásticas e servem vários fins e diferentes circunstâncias e, em Janeiro, antes de embarcar para os Açores e para uma ausência tão desmesurada, deixei, em jeito de despedida musicada, um bilhete no quarto da minha irmã mais nova, que tem catorze anos, para que fosse ao meu quarto vazio escutar a 4.ª música do lado A do álbum pousado no prato do gira-discos, este “I Wish You Love”, cantado por Mr. Cole num show ao vivo no hotel The Sands, em Las Vegas[16]. Era tudo quanto lhe desejava para o futuro próximo e o distante: pássaros azuis, amor, limonadas no Verão e uma lareira no Inverno e, quanto a este aspecto, bastava que descesse as escadas da casa onde ainda morava com os meus pais, havia lá sempre uma a carburar nos meses frios. Pobrezinha: a nossa irmã mais velha já casara e tinha a sua própria casa e, com a minha saída, ela ia ficar ali, sozinha, percebendo cedo o que é um quarto vazio e o som distante das vozes.


36


O Rui acabaria por voltar só quase dois meses mais tarde e, como seria de esperar, as promessas trapalhonas do Porão da Nau de arranjar outro médico para me ajudar demoraram um mês a concretizar-se, um longo, paranoico e desértico mês até que o Virgílio Senra apareceu. Foi o meu grande estágio de solidão e, passados quarenta anos, ainda reconheço o sabor e o som daquele silêncio. 
As únicas pessoas que saudaram a minha volta com explícita alegria foram as Irmãs, no hospital, e alguns doentes; os restantes ou não reagiram, como a nossa atormentada anfitriã, D. Irene, que veio à porta como se eu 
lá tivesse jantado na véspera, ou fizeram-no pela socapa, como o Oriolando, perante o qual eu e o Rui  ressurgíamos na roupagem de heróis da resistência. Quanto ao Araújo, soltou as boas gargalhadas do costume quando voltei a aparecer em casa dele e o Sr. Medina, tal o conde Steinbroken nos Maias, teve tendência a considerar, descomprometidamente, o episódio da nossa desconsideração pelo poder local como ‘excessivamente grave’.
Retomei o trabalho, agora a dobrar, e durante a maior parte das horas diurnas andava tão trôpego de consultas, visitas à enfermaria, resolução de burocracias adiadas, que nem tempo me sobrava para pensar que existia. Isso só acontecia quando, ao fim da tarde, chegava a casa. Aí o silêncio caía-me em cima, a casa passara a ter divisões a mais, quase não me atrevia a entrar em algumas delas; onde estava a Marília, agora que seria bom que estivesse por perto? Nem o Pombo se via pela ilha!
Na manhã da chegada, ao descer do Puma, fui directo à casa dos Magistrados e abri a porta com precaução, não sabia o que esperar. Depois do que sucedera, era plausível ter acontecido uma rusga vingadora, uma invasão, uma selvajaria sobre os nossos pertences, sei lá. Mas estava tudo intacto, as camas feitas, alguma louça lavada na banca da cozinha e um odor a pó requentado pairava no ar. Só a senhora da limpeza ali teria entrado e, nos restantes dias, sem testemunhas, o calor do Verão tivera vagar para cozer a poeira. Fui visitar as freiras, jantar, entrei no Açucareiro, hesitante. Durante uma semana, ou assim, senti medo durante a noite. Fechava a porta da entrada com todas as voltas da chave, baixava os estores do andar de baixo, trancava o meu quarto por dentro; escalpelizava os ruídos que chegavam do exterior, a tentar perceber qual deles poderia ser prelúdio para um ataque, um ajuste de contas sobre o médico que restava; o facalhão com que assassinara a Mimi debaixo da almofada, enfiado na bainha para não danificar a fronha do hospital. Encharquei-me em remédios para dormir, mas dormia mal na mesma, atravessava o sono entre pesadelos confusos, julgava estar num local não sitiado por água, acordava para um alívio ressacado. Por vezes, não muito, o telefone retinia no escuro, o coração saltava-me no peito de susto, na antecipação de notícias aterradoras. Mas não, era uma das freiras ou o Viegas, pedindo sempre muita desculpa por estar a maçar, mas precisavam de mim, é que dera entrada... Pobres Irmãs, que passaram a ter o cuidado de andar em bicos de pés pela minha precária existência. Evitavam incomodar-me e, elas próprias, despachavam, como tinham feito anos a fio, a maior parte das urgências, e até aquelas para as quais não tinham alternativa senão chamar-me eram cuidadosamente triadas previamente; ao chegar ao hospital encontrava o doente com a temperatura tomada, a tensão avaliada, uma veia canalizada, às vezes um soro a correr; uma hipoglicemia já estava a caminho de controlada e o enfermo a recobrar na enfermaria. Quando terminava, voltava a casa, pelo negrume, vigiando os taludes da berma da estrada, as sombras; sopesava um canivete no bolso como se fosse um amuleto. No hospital apercebiam-se dessa tensão, ninguém acreditava que alguém me fizesse mal, mas temiam pelo meu temor, a madre superiora sugeriu que poderia ter por lá uma cama sempre feita, onde ficaria em noites agitadas de serviço. Não aceitei a simpatia, preferia manter uma divisória que separasse o trabalho da vida privada, apesar da minha vida privada ser uma valente cagada, e, para ser franco, pesava na opção algum receio de, num momento mais destemperado, poder receber a visita nocturna da irmã Noémia, que sempre tivera um fraquinho por mim, e que, coração de mulher, se desfazia agora em desvelos comigo, enternecida pelo meu desamparo e extasiada pela minha coragem solitária... Isso refulgia no modo como me recebia à porta do hospital, como me olhava o tempo em que eu deambulava pela urgência, a barba já despontada pelo orvalho nocturno; como vinha confirmar a ampola de Buscopan, que eu prescrevera a uma cólica, vidro que pousava na minha mão como um passarinho palpitante, perguntando:
“É mesmo isto que o Dr. Pedro quer que dê?”
E eu, seco e breve:
“É, irmã...” (que outra porra mais poderia ser!), enquanto ela retirava mansamente a ampola da minha palma, num imperceptível contacto sacro-profano.
Gandulo que se julgava familiarizado no trato com mulheres, sentia-me muito pouco à vontade com aqueles borboleteios; nunca fizera parte das minhas tentações ou fantasias um restolho que envolvesse hábitos, entrefolhos, toucas engomadas e pecados capitais! 
E tal como o pessoal de enfermagem do hospital me poupava solicitações, também os próprios doentes pareciam imbuídos desse espírito, que, no caso deles, não se traduzia em me pouparem e aparecerem menos a solicitar consultas, mas sim na mais benévola tolerância ante o comportamento idiossincrático que fui desenvolvendo ao longo daquele mês solitário em que trabalhava de mais, bebia de mais, comia de menos, tomava comprimidos a mais e dormia tão esfarrapadamente que não recuperava do cansaço. As olheiras cavaram-se-me e o bigode descaiu-me, avitaminado. Passei a andar, em permanência, de óculos escuros e tornei-me um tudo nada excêntrico... Uma tarde, após examinar trinta  doentes, senti o alívio de ver sair a porta do gabinete a última ficha, e pus-me a fumar um áspero Além-Mar, marca de que andava a fumar agora. Estava a esborratar a pirisca no cinzeiro e preparava-me para sair quando me pareceu ouvir vozes abafadas no corredor. Ora eu já acabara todas as consultas marcadas para o dia e as urgências que chegassem eram, se surgissem durante a minha permanências nas instalações, anunciadas por telefone pela secretaria. Espreitei pela fechadura da porta do gabinete, buraco que enquadrava os bancos de espera do corredor. E vi, alapados e com ar de quem espera médico, umas quatro ou cinco almas. Ora eu já acabara as consultas marcadas para o dia e as urgências que chegassem... Em silêncio, despi a bata e abri cuidadosamente a janela,  abençoadamente deitando para a fachada do hospital e para a liberdade. E como o consultório ficasse no rés-do-chão, saltei com facilidade do parapeito para o exterior. Mas, pouca sorte, na soleira da porta de entrada do hospital esperavam mais duas ou três alminhas que, não querendo esperar na obscuridade do corredor, gozavam ali a fresca da tarde. Ao verem-me, no desfecho do salto, desataram a falar alto, a dizer:
“Ele está aqui, ele está aqui; vai a fugir...”
O que era inteiramente o que estava a acontecer. Mal aterrei no solo, desembestei em direcção a casa, distante uma trintena de metros do hospital. Enquanto corria e tirava a chave do bolso, ia olhando para trás e vendo os doentes correr atrás de mim e, agora já a meter tremulamente a chave na ranhura, considerando-os como o bando de zombies que, numa fita de terror, persegue o herói para lhe chupar os miolos. Se eu, ao menos, conseguisse abrir a porta antes que me tocassem... Consegui, subi as escadas duas a duas, escancarei a janela do meu quarto, que dá para a frente da casa, e desatei a ralhar em altos brados com aquela gente, que me olhava muito séria, destratando-os por não me deixarem em paz.
“Voltem amanhã, vejam se têm respeito....”
Cordatos, eles lá foram, sem levar a mal. Sabiam da minha história triste e voltariam no dia seguinte para me examinar melhor.  
Aos fins de semana eis-me caído nos bailes e, como o tempo ia famoso, preferia os da Filarmónica, ao ar livre, onde me podia sentar numa mesa só minha, a beber as minhas cervejas, os meus conhaques, consolado, sem grande separação de sexos como no Clube, e observando a banda de perto. Lá estava o Gasparinho, perdigotando no trompete, acompanhado pelo Gonçalves, malandro, moreno e barbudo como um cigano, agora longe do jugo da oficina de automóveis e balanceando capciosamente a boca bojuda do saxofone-tenor na minha direcção se acontecia desfilar uma jeitosa à frente do canto onde tocavam. E a D. Nizalda, com um sorriso mais amplo do que na igreja, dedilhando os seus acordes seculares, sentada à mesmíssima organeta que usava na Igreja Matriz. 
Era interessante: agora, que estava sozinho na Graciosa, raramente alguém se  sentava à minha mesa. Quer dizer, podia acontecer, mas não permaneciam muito tempo, nem que os convidasse para um copo. Agradeciam, partiam, por vezes o meu consumo ficava pago. Como se me quisessem deixar com os meus botões, ou seria por receio de represálias, medo que contassem ao Lizuarte Louro.? Mas esse nunca aparecia nos bailaricos, não era visto, e nas poucas vezes que lhe passara perto evitara olhar-me. 
À terceira ou quarta cerveja, a paliçada de paus de cabeleira ganhava contornos difusos e achava-me com lata suficiente para ir convidar uma chavala ao seio do matriarcado. Sucedia poder começar com a Libinha e trocar larachas e provocações durante a dança, a que ela respondia de pronto, o queixo de baixinha levantado de afirmação e desafio e o olhar coruscante – um gesto muito seu, fazendo-me rir, fazendo-nos rir; mas, mais tarde, quando a nostalgia alcoólica me beijava as mangas, o chamamento da Sãozinha, sentada ao lado da tia, tornava-se poderoso e, guardas baixadas como uns suspensórios, lá estava a convidá-la, bolero após bolero, tornando o sorriso da D. Crisália autónomo como o do gato de Cheshire. Num desses enlaces, perguntei-lhe ao ouvido – de outro modo não se ouvia o que dizíamos – se já alguma vez fôra à Senhora do Monte.
“Monte da Senhora da Ajuda? Claro que fui”, disse ela, “toda a gente que é de cá já lá foi...”
“É um sítio muito especial...”, respondi tentando enxaguar a banalidade com que  se referia ao local.
E como ela considerasse o assunto encerrado e eu pressentisse a música no estertor, atirei:
“Não quer ir lá visitar aquilo comigo, no Domingo?”
“Se puder...”, respondeu com simplicidade.
“Passo no Açucareiro depois do almoço e, se a vir, podemos então ir...”
A música acabou, deixei de ter pretexto para estar junto dela e fui-me da Recreativa. Já era Domingo, precisava de me recompor para o eventual passeio.


37


O monte da Senhora da Ajuda é sobranceiro à vila e tem cento e poucos metros de altura, elevação que, nesta ilha plana, é já muito. Há vários caminhos que vão confluir no acesso à subida e, perto da nossa casa, há um atalho para lá, não longe do prado para que dá a janela do meu quarto e em cujos torrões se vai dissolvendo a forqueta da sorte da Mimi.
Da janela via os seus flancos arborizados e, distante, o cume, onde alvejavam umas construções que, mais tarde, soube serem três ermidas: uma deu o nome ao Monte, as outras são dedicadas a santos – S. Salvador e S. João – e parece que estão ali há uns séculos, alguém me disse quantos mas não liguei.
Já lá fôra com o Rui, após chegarmos aqui, e uma segunda vez quando cá estiveram a João e a Clarinha, pois o sítio é magnífico para uma vista panorâmica sobre a vila e o oceano e, virando costas ao mar mais imediato, para um olhar sobre o interior da ilha. Depois, já após o meu regresso antecipado, sozinho e tentado pelo apelo que me dirigia da janela do quarto, dei de ir lá quase todos os fins de semana, uma forma dilatada de estar só. É raro, muito raro, encontrar  alguém e as ermidas estão sempre cerradas. Uma ocasião, numa destas últimas semanas, saí de lá a correr, disparado monte abaixo, só travei quando o caminho desembocou numa das ruas da vila e alguém se podia pôr a pasmar para o estranho comportamento do único médico da ilha. Foi que senti o monte vivo, e a sua presença começou a adquirir dimensão, como um balão que encheu e nos vai afastando as mãos, ganhou espessura e vida própria, e como que desatou a comunicar comigo, fazendo disparar o coração e o ritmo da respiração. A qualquer momento, achei eu, poderia explodir e os meus pedaços perderem-se na terra, no mar, pelo ar. Parecia romântico, mas meteu-me medo e, antes que alguém invisível desatasse a falar comigo, pus-me a andar dali para fora. Isso foi da última vez, mas, antes, em todas as visitas que fizera ao monte sozinho, a primeira das quais desligadamente despreocupada e quase na pele do turista acidental, algo se acrescentava a cada subida, uma circunspeção qualquer, uma reconcentração vinda sei lá donde, talvez do ruído do vento na copa das árvores, da visão do movimento dos ramos, incessante e sem se revelar; do sol a reverberar na cal das ermidas, dos bancos vazios parecendo esperar alguém. E o mar, o mar, o mar. Longe, em baixo, parada e como sem habitantes, a vila não ajudava nada à minha tranquilidade; a nossa casa, a casa onde eu morava, mas que bem podia não morar lá ninguém, aparecia como se nunca tivesse perdido o estatuto de fechada, fora de uso para pesar do Sr. Medina. 
Insidiosamente, aquilo foi mexendo comigo e de cada tarde que me preparava para voltar era atraído por essa repetição, sentia uma apreensão crescente já ao início da subida, tal se algo ou alguém segredasse: um dia, um dia vais ter aqui uma revelação e sabes que a maior parte das revelações podem ser terríveis... Bem, isso quase acontecera na última tarde, a vez em que desci o monte na brida, mas quanto ao que consistiu a revelação ou o susto, acho-me incapaz de o precisar, é bem possível não ter sido nada, nada mais do que eu próprio perante mim próprio, sem ajuste, sem referência... 
Suponho ser por isso que me veio, de repente, no baile, aquela ideia de convidar a Sãozinha a ir comigo, cordeiro mais inocente não ia encontrar.
Acordei, tomei banho, passei pelo hospital a saber novidades dos doentes internados (tenho lá cinco neste momento, ninguém gosta muito de estar preso com um tempo tão bom). Fui almoçar à D. Irene, que, agora que como sozinho, fica à porta da sala, a olhar para mim, sem dizer nada. Café e meio-whisky na esplanada do Açucareiro, a ver quem passava, nada de inspirador. Fui buscar um saco de pevides para fazer horas, mas nem sinal da Sãozinha. Então vi-a, aparecida não sei por onde, atravessara a praça e entrava na rua que vai dar ao hospital, passava a montra da papelaria-drogaria. Levantei-me, fui andando devagar, alcancei-a no passeio uns metros à frente, fomos caminhando lado a lado, como quem não quer a coisa e, milagrosamente, ninguém nos interceptou até que virámos para dentro, direcção do monte. Quase não trocámos palavra até chegar ao cume, ao terreiro onde estão as ermidas, que formam assim como que um cenário irreal, quem passa pela cabeça de alguém construir três igrejas no topo de um ovo em pé?! Parecia uma espécie de Portugal dos Pequeninos, a qualquer momento ela podia desatar a fugir por entre aquelas paredes, tipo cabra-cega, evaporar-se. Mas não, sentou-se no longo banco de pedra, cujas costas são a parede oblíqua da ermida que parece um pequeno castelo, e pôs-se a sorrir-me, é a coisa que sabe fazer melhor. Eu não sabia bem o que fazer, isto é, sabia bem o que gostaria de fazer, mas não sabia se seria uma boa ideia, seria como cravar o primeiro cigarro após se estar um ano sem fumar. Mas a Sãozinha tinha essa qualidade de atrair sem fazer nada por isso, era bonita, o sorriso acolhedor parecia endereçar várias promessas meigas... Nada que eu (ou o Rui e, provavelmente, variados outros camelos na ilha) já não tivesse concluído dos breves momentos de proximidade nos bailes ou de a encontrar com a tia pelas ruelas da vila. Mas, agora, estava ali à minha frente, mais carne do que osso, e levantara-se, movera-se até à extremidade do terreiro, apoiara as mãos na balaustrada do miradouro, dizia:
“Já viu daqui?”
Juntei-me a ela, deixei flutuar no ar a intenção de contar o que me acontecera a última vez que ali estivera – a quase revelação, o vento a golpear-me as orelhas, as vozes a chiar-me aos ouvidos – mas a presença dela sobrepunha-se, preenchia. Lá longe, o mar chegava-me magnífico, de um azul quase comovedor, gostaria de o comparar aos olhos dela, mas esses eram mais para o verde e o que havia ali de verde que se lhes comparasse? Ah, talvez abraçá-la um pouco, de trás ou mesmo de cernelha, passar-lhe os braços em torno da cintura e pousar o queixo no seu ombro, espreitar o azul por essa nesga. Isso seria consolador como  ser um copo alto e alguém a enchê-lo de limonada acabada de fazer, o gelo a tilintar. Não fiz nada de nada, postei-me ao seu lado, encostado mas não colado, no limite do flirt. Ela sem temer os meus avanços – eu sem os tentar – mas a sorrir em permanência, a ansiar pressentir a possibilidade de haver avanços, mantendo a vibrar em mim a corda do desejo em avançar. Lá em baixo, tudo parecia sereno, perfeito, a vila um destino em que um viajante que passasse no mar desejaria aportar, talvez ficar.
“Devíamos ir...”, disse ela olhando o relógio, “prometi à minha tia...”
“Vamos”, anuí de imediato, tomando-lhe delicadamente o cotovelo e orientando-nos para os degraus que desciam do Monte da Senhora da Ajuda.   


38


Pelo menos duas vezes por semana telefonava ao Porão da Nau, a saber em que helicóptero chegaria o meu reforço, a exigir o apoio de um segundo médico. Tantas vezes, que o gajo, por falta de resposta satisfatória, procurava escapulir-se-me, mandava a secretária infectar-me com desculpas: ou estava numa reunião com o senhor Secretário e não podia ser interrompido, ou tinha ido a um encontro de dirigentes de saúde da Macaronésia e só voltava para a semana; ou ainda não tinha chegado, ou já tinha saído. Depois, e aí concluía que o Porão recebera os meus recado, telefonava o Schmutzer com falinhas mansas, falando nas dificuldades em pessoal, muita gente de férias, pedidos de paciência, etc., retórica que eu sumia com um:
“Olha, e já que estás tão sensibilizado para o problema, porque não vens tu?”
Este argumento definitivo era também retórica pura da minha parte, pois  preferia estar sozinho com toda a carga de trabalho do que aturá-lo, e só pensar em o ver morar na casa dos Magistrados me dava voltas ao duodeno! Pelo seu lado, idem aspas, nem ele desejava afastar-se dos seus tachinhos ao lume nem morria pela minha companhia... Continuei, sem ajuda, a tratar de mim e a tomar medidas concretas, e uma foi a de acabar com as deslocações semanais às casas do Povo, dado que, para além do tempo queimado e dos poucos doentes que apareciam nessas consultas campais, faziam com que me afastasse da urgência e do internamento, o que não era assisado numa situação de médico único. Assim, escalei a Guadalupe para ir lá vacinar a criançada e observar uma ou outra grávida em consulta de rotina.
Eu próprio, nas solitárias voltas pela ilha em ambulância, era, ocasionalmente, interceptado por alguém, atraído pelo lanternim azul que rodava no tejadilho e tendo uma pergunta para fazer ou para comunicar que tinha um parente em casa a necessitar de cuidados. Resultado dessa troca de impressões, acabava a fazer um domicílio ou transportava alguém na ambulância até ao hospital. A maior parte não eram, felizmente, situações graves mas, como era já tarde e não havia transporte de regresso à aldeia do enfermo, arranjava-se uma cama na enfermaria, a pessoa jantava e passava lá sossegada a noite, domínio dos pensamentos inquietos. Menos eu, que continuava a não conseguir adormecer, sem ou com comprimidos, os quais apenas me traziam numa espécie de suspensão, como se fosse um ser sem peso aquele que interrompia as consultas às onze da manhã, atravessava a vila e ia gozar de uma pausa ao Açucareiro, sentado à sombra dos tijolos da esplanada a beber um café e meio-whisky, pois por ali não havia bolos de arroz, pastéis de nata ou bolas de Berlim. Com certa frequência, nesta pausa matinal, um cliente dos que esperava consulta seguia-me até ao Rossio e ficava-se, sentado num banco ou encostado a uma araucária, a vigiar o que eu fazia e esperando que regressasse ao trabalho. Em mais do que uma manhã, de tão solitário, me tentou a ideia de chamar o voyeur para partilhar um café, um calicezito de qualquer merda, mas isso podia criar enganadoras presunções de preferência, intimidades que poderiam prejudicar, mais tarde, o decorrer do intercâmbio clínico, etc., pelo que nunca levei a coisa à prática.
Conhecia agora os doentes como as minhas mãos, de tanto os ver e rever, e não apenas os doentes, começava igualmente a aperceber-me das teias de relações familiares entre eles e das curiosas repercussões que projectavam nas próprias queixas! Herdara também os doentes do Rui e ia tendo a minha visão de algumas das histórias que me contara nas nossas sabatinas médicas de trazer por casa. Para mim, um dos casos mais perturbadores era o de uma senhora, dos seus cinquenta e picos, com quem era complicadíssimo estabelecer uma conversa minimamente prática e que, enquanto não estava sentada à minha frente – rígida como se aspergida com laca – passava os dias empoleirada na bifurcação do tronco de uma árvore que tinha no quintal, balançando-se num balancé fixo. Perante este tipo de situações, e eram muitas como nos avisara o velho Dr. Gregório, sentia-me completamente impotente e via recuar perante mim a sensação reconfortante de ter solucionado um caso, um problema, gratificação tão presente nos actos cirúrgicos em que ajudava o meu pai e em que o doente agora tem um problema agudo, que lhe ameaçava até a vida, e horas depois ei-lo na enfermaria ou no quarto, ainda branco mas já sorridente e do lado de cá da existência. Tudo aquilo me abalava, me depenicava a autoestima e, embora continuasse a desfolhá-los, a procurar no índice, os volumosos livros médicos para pouco, muito pouco, me serviam. Essa descrença contaminou a leitura, mesmo a de obras de ficção, que deixaram de me entreter, distrair ou consolar, e os enigmas policiais pareciam-me rebuscados, os mundos imaginados dos livros de ficção científica do Sr. Barcelos  demasiado artificiais. Deixei de ler, enchi-me da tradução do Tarot e negligenciei o caderno onde, laboriosamente, a ia transcrevendo e já contava com setenta páginas. Restava a música, mas, mesmo essa, sobrevivia pelo automático que era meter uma cassete na ranhura e carregar no play do gravador. Já não podia ouvir o Bob Marley nem os Dire Straits e o que ainda me ia fazendo certa companhia eram os sons de exílio da Amália Rodrigues e do Carlos do Carmo, e uma cassete com a IV Sinfonia do Mahler pela Chicago Symphony Orchestra, dirigida por Georg Solti e com Kiri Te Kanawa como ave canora principal. Deus, como as cordas, os metais e aquelas vozes soavam numa casa vazia!


39


Ainda tenho por aqui uma fotografia em que emerge, ao fundo, entre os rochedos e, no verso, escrevi “Carapacho, Outubro 1979”, o que atesta que, nesse mês, já ela integrava com naturalidade as nossas incursões excursionistas pelas partes amáveis da ilha. É, pois, plausível que tenha chegado no fenecer de Setembro ou mesmo no princípio de Outubro, uma vez que, na ilha, a intimidade entre expatriados se estabelecia rapidamente.
Recordo, isso sim, uma hora de jantar em que, ao entrarmos na sala de pasto da D. Irene, deparámos com quatro lugares postos na mesa, o que era raro suceder. Ali, jantávamos e almoçávamos só dois e mesmo quando insistíamos com a Libinha que nos fizesse companhia – a proximidade era grande, ela era companheira assídua dos nossos serões – a moça negava-se a comer connosco, limitando-se a sentar-se à mesa na borda de uma das cadeiras, como se fosse  visita em casa dela. E a D. Irene, sem pronunciar palavra, não aprovava essa mistura, percebíamo-lo no silêncio cortante com que punha e tirava pratos ou trazia travessas, ou no bater de portas de um Oriolando que saía mais cedo para escapar a um súbito extremar da tensão doméstica.    
Assim, os pratos extra só podiam destinar-se a alguém de fora, alguém que teria chegado sorrateiramente num barco, pois nesse dia não houvera helicóptero, nem de carreira nem de emergência. Logo, não seria um alguém suficientemente notável, presumíamos enquanto nos sentávamos aos lugares do costume e aguardávamos o aparecimento da nossa estalajadeira para lhe espremer novidades. Entretanto, chegaram pancadas tímidas da porta da rua, vozes abafadas, e eis que entram dois estrangeiros na sala, uma mulher primeiro e, atrás dela, um tipo hesitante, encabulado. O Oriolando, como homem da casa, atrevera-se à sala para as apresentações e, espreitando nas suas costas, a D. Irene vigiava se seria já o momento de fazer entrar novamente a terrina de sopa de vagens enlatadas.
“A Sr.ª Dr.ª Delegada do Procurador da República... O Dr. Pedro, o Dr. Senra... Ah, e o marido da Dr.ª..., peço desculpa...”
Divertidos com a novidade e o imbróglio, levantámo-nos, solenes, das cadeiras, um de nós ainda com o guardanapo enfiado no colarinho, e fomos cumprimentar, aproveitámos para sacudir a mão do Oriolando num gozo de encenação a que ele não correspondeu nem se furtou.
A Dr.ª Delegada era uma bela morena de cabelos negros; mais ou menos da nossa idade, talvez um pouco mais, mas não teria ainda batido nos trinta. O mesmo se passava com o marido, um tipo de ar preocupado que se manteve toda a refeição praticamente calado, enquanto ela, à medida que deslizava para as vestes oficiais, ia informando, entusiasmada, ter concorrido aos Açores por as condições serem extremamente vantajosas para alguém em início de carreira, como ela.
“Venho por dois anos, o que equivale a quatro anos dos de lá. Mas se fizer, aqui, uma segunda comissão de dois anos, isso equivalerá a oito anos lá, o que,  automaticamente, me fará progredir para outro patamar e ter direito a uma colocação na...”
Mantivemo-nos calados, o Senra e eu, um silêncio pouco habitual em nós quando nos brandiam disparates em frente aos olhos, mudez provavelmente temperada na compaixão que nos despertava o acabrunhamento do marido, que não partilhava, por palavra ou expressão, do entusiasmo da esposa. 
“Coitada”, pensava eu, talvez pensasse o Virgílio, “não faz a puta da mais pálida ideia do que é amargar cada dia nestas paragens...”
É que já víramos muita coisa naqueles meses, fosse por autoanálise, observação de quem chegava ou, até, no confessionário das consultas, onde aparecia sempre um ou outro expatriado a queixar-se da vida. Havia todas as variações possíveis: aquele que nunca imaginou previamente onde iria parar; o que pensa que uma ilha é o mesmo que um continente; o que chega entusiasmado e se vai deixando definhar, devagarinho; aquele que entra em pânico antes de decorridos quinze dias (uma barreira temporal significante) e se vai embora a correr, ainda que ponha em causa todas as vantagens e os contratos assinados, ou, talvez fosse o perfil mais próximo do nosso, o que vai andando, oscilando entre os polos extremos da disposição, com recaídas frequentes.
Mas, enfim, ela acabara de chegar, prenhe de lirismos e intenções e, na sua verdura, confundia a colónia penitenciária com uma colónia balnear... Quando lhe aparecesse lá por casa o Sr. Medina, a que, aliás, iria ter de aturar o zelo burocrático vinte e quatro horas por dia, de pasta e fita métrica a fazer o inventário dos tapetes e das estantes... Ou talvez não, talvez o Sr. Medina se deixasse apanhar nas curvas de algum fascínio insuspeito e se lhe rendesse como um arrependido... Quem saberia predizê-lo a partir da colher aguada que ela ia metendo à boca enquanto continuava a desfiar vantagens?
Quanto ao marido, tinha vindo apenas por companhia, para a ajudar a adaptar-se aos primeiros dias; ficaria até ao próximo helicóptero; esperava que nós, como vizinhos, como gente que já estava ali há mais tempo, a pudéssemos auxiliar na adaptação. “Claro, no que pudermos ser úteis...”, oferecíamos sem brilho, já jantados e à espera da primeira aberta para nos pormos a andar dali para fora. 
Teve algo de desolado aquele primeiro jantar da Luísa na Graciosa, igualmente me pareceram tristonhos os ruídos abafados, as luzes amortecidas que chegavam da casa contígua, agora habitada. 
“Eh, pá, o que se passa aqui ao lado?; perguntou o Pombo ao aparecer de visita nessa noite. Ele é luzes por todo o lado...”
“Chegou a Delegada do Procurador...”, informámos, cada um mais lacónico do que o outro.
“É boa?”, quis saber.
Era, mas nenhum de nós achou que ele merecesse resposta.
Na terça-feira, mais acabrunhado do que na noite em que o conhecêramos, o marido da Luísa subiu o estribo do Puma, a fralda da gabardina a adejar ao vento com maior vivacidade do que ele, que mal se atrevia a acenar um adeus à mulher, encandeado pela pequena multidão que se apinhava nas bordas do campo de futebol para ver partir o heli.
Quando, na primeira semana de Fevereiro do ano seguinte, deixámos a ilha definitivamente, a delegada do procurador foi despedir-se ao barco, lágrimas nos olhos e o desejo intenso de que chegasse a vez dela de se pôr andar... Angustiada pela nossa partida, mas também esperançada pelo presságio que era ver alguém chegar ao fim de uma comissão e ir-se, de vez. A ideia, louca, de uma segunda comissão de dois anos na ilha era morta e enterrada e, apesar de estar apenas há quatro meses na Graciosa, já contava os dias para o regresso, já exibia todos os tiques dos cativos.
“Obrigado por tudo...”, dizia abraçando-me e invocando as semanas, os dias, as horas em que eu, mais desvairado do que ela, a admoestava e simultaneamente, em modo vade retro, resistia às suas aproximações geradas na solidão e no tédio, comportando-me não como o objecto afortunado de um encantador assédio, mas sim como o eremita da casa ao lado.
“Luísa, não entres nessa! É uma loucura, tu, no fundo, não queres isso... E podes dar cabo do teu casamento, que ainda agora começou... Pensa bem, todos os nossos actos acabam por...”
E continuava a ralhar-lhe, o mais ternamente que era capaz, defendendo-a de si própria, afastando-a, tentando ilustrar-lhe a inutilidade que seria qualquer investimento em mim, um eu que mal reconhecia, pois não era minha característica habitual resistir a tão tentadora cantada, vinda de tão atraente pessoa. E, tal o bom pai, repreendia-a, sentado na borda da cama dela, entrelaçando uma mão na sua para atenuar a aspereza do ralhete, ou esboçando uma carícia fugidia nos fofos cabelos cor de breu. Grata e um nadinha mais reconciliada, ela abraçava-me na hora de voltar à minha metade da Casa dos Magistrados, polvilhava-me o esternoclidomastoideo de lágrimas e ranho, e eu saltava o muro do terraço, regressava ao meu solitário quarto sentindo-me como se terá sentido o camelo que acabou de atravessar o cu da agulha.
Por esses dias, saía de um longo período em que vivera absolutamente sozinho naquela casa: o Rui abandonara a ilha na sequência do incidente com o presidente da câmara, o Virgílio Senra acabara de chegar e a Marília andava perdida por Mirandela. Assim, o saber que bastava bater na parede ou cruzar o murete do terraço para ter companhia era uma tentação diária, mas, ao mesmo tempo, apercebia o negro das cáries que se ocultavam sob o tédio e a solidão... E sentava-me à secretaria a olhar o caderno onde ia alinhavando a tradução do Tarot, a qual não saía do sítio, tal como a leitura do Proust de onde ainda não conseguira passar além da descrição dos espinheiros do lado de Guermantes, no Volume I. Ouvia fado e escrevia cartas para todo o lado, algumas de teor bem estranho. Tentei até iniciar um diário num caderno de merceeiro, de capa dura e etiquetada com um rectângulo tarjado a vermelho onde escrevi: “A Santa Cruz”. Foi tudo quanto aí registei.   
É óbvio que tudo isto, com a nova vizinha, não acabou bem e o mundo tem horror ao vazio. Atento como um abutre, o Pombo, o nosso Casanova de serviço, rondava e acabou por preencher aquela necessidade que esvoaçava contra os vidros na casa dos Magistrados. De facto, visto de fora, pouco passara sobre a chegada da autoridade judicial quando Santa Cruz da Graciosa, escandalizada, se deu conta e propagandeou aos quatros ventos o escaldante romance entre a delegada e o veterinário. Durou pouco, claro, esse idílio; durou nada nem nada foi, mas enquanto durou arrastou consigo detalhes sórdidos e embaraços à hora do jantar em casa da D. Irene, risinhos nos Barcelos, apartes na farmácia; um novo argumento para os que pregavam que do Continente somente chegavam poucas-vergonhas ou ideais perigosos. 


40


O Rui voltou em Novembro, já o tempo atmosférico regressara ao embrulho do costume: vento forte, brumas impenetráveis e rajadas de chuva que faziam os helicópteros hesitar e permanecer agarrados ao asfalto das Lajes; mar bravio, que trazia os pescadores entediados. Era em temporadas destas que podíamos estar duas  semanas sem correio, sem renovação de stocks de rum, whisky, soros e oxigénio; nenhuma cara nova pelas ruas. Sair, dar uma volta pela ilha, para arejar, era empreendimento votado ao insucesso e o que se via das janelas chorosas da Dyane era tão deprimente que mais valia ficar em casa: pedra escura, mar de chumbo, céus revoltos com nuvens em debandada, chicotadas de chuva fustigadas por ventania agreste. Onde estavam os dias dourados, o azul dominante, a Senhora do Monte e as ermidas acolhedoras?
Nas consultas também notávamos a diferença e os corredores voltaram a encher-se de tosse e da melopeia de motor de arranque dos escarros, as camas povoaram-se com as pneumonias e a exacerbação das bronquites dos aficionados de Gold FlameBrazão Fama. Havia também as bronquites dos amantes de Marlboro ou Chesterfield, mas esses faziam tudo por ser observados em Angra ou Ponta Delgada, onde os especialistas lhe receitavam o mesmo que nós mas se podiam queixar do preço da consulta. 
Agora, com o Outono adiantado, os homens que queriam ser auscultados tinham uma razão objectiva para isso e não apenas por capricho de Verão, pela tentação  em sentir o deslizar do estetoscópio ou o percutir dos dedos dos médicos de serviço num corpo excitado pelo calor e por gostos censuráveis. Nós, é claro, ficávamos lixados, ludibriados pelo tempo gasto, pela história clínica inerme que sempre debitavam, comentávamos entre nós, entre o escandalizado e o divertido:
“Hoje apareceu-me um cabrão que não tinha nada de nada, não queria nada a não ser que o auscultasse... Quando lhe mandei despir a camisa ficou nervoso como uma virgem, parecia que fazia um strip ao tirá-la!”
“A sério? Também já me aconteceu... Como era o gajo? Era um tipo magrinho, de cabelo...”
“Não, era gorducho, a ficar careca...”
Nada nos recordava de jamais os ter visto, mas, dias depois, eis que os cruzávamos numa rua da vila, reconhecíamo-los atrás do balcão de uma loja ou repartição; quem diria? 
“Viste a aliança?”
Aqueles, presos, sem outro remédio, ficavam-se pela ilha, pela pobre variação de ir ao médico local, os que podiam aliviavam-se em outras paragens, onde dariam mais asas à imaginação e menos nas vistas; era o que se dizia. Era o que se dizia, mas sempre em aparte abafado, na aparência tudo corria na mais maravilhosa polidez social, cada um no seu lugar a desempenhar o papel que lhe era esperado por tradição, família ou posição. Talvez à noite as coisas se tornassem um tanto mais pardas e os vultos deslizassem mais fluidos ao longo dos muros ou no segredo das quatro paredes. 
Bem, mas o Rui voltou e, como ele ia voltar, o Virgílio Senra apanhou um Puma de volta à Terceira na terça-feira, dois dias antes dele chegar. E na quinta, com o pretexto de que o tempo piorara, ninguém se esforçou por arranjar helicóptero ao Rui, teve de vir no barco que fazia a rota do grupo das ilhas ocidentais.
Fui esperá-lo ao porto, se assim se pode dizer de um cais de atracação que ficava no meio das ondas. O batelão com a carga já voltara ao cais, o escaler partira e um cisco longínquo iniciava uma descida lenta pela escada pendurada no portaló. Ao meu lado, sentia a Marília tensa; acho que, tal como eu, se apercebia da expectativa, da quantidade anormal de gente que, para uma tarde chuvosa de Novembro, nos rodeava. Era assim, não havia mais o que fazer, o atendimento nas repartições públicas já encerrara e sempre era o médico ameaçado que regressava à casa emprestada, um filho quase prodigioso. Ele, pisou terra calmo, cumprimentando-nos com gravidade, o olhar atento por sobre os nossos ombros. Sem dúvida que algum daqueles que deambulava por ali iria levar novas aos paços do concelho, não mais do que isso. O Rui obtivera garantia de que tudo decorreria sem incidentes no tempo que nos restava.
Assim foi. Ainda em Novembro, tive um desgosto, enterrou-se-me na consciência como uma farpa. Calhara-me atender na urgência uma rapariga com alarmantes sinais de dispneia e uma auscultação desgraçada. Enquanto escutava o que lhe ia pelo tórax, perscrutava, pela vidraça da janela, o tempo lá fora. Não seria possível encomendar helicóptero para tão cedo, nem hoje (umas cinco da tarde) nem amanhã... A mãe ia recomendando à miúda que se portasse bem, que não se mexesse tanto. A filha teria catorze ou quinze anos, mas a sua idade mental era de infantário e os traços da fácies denunciavam um cromossoma a mais no par 21, o que, para mim, era uma porra dum contratempo: naqueles tempos, muito mais do que agora, a esperança de vida dos mongoloides era curta e, com frequência, eram os problemas respiratórios que os levavam, questão de anatomia do crânio e das vias respiratórias, que entupiam facilmente. A febre nem era assim tão alta, não que, ali, nela, tivesse demasiada importância... Chamei o Rui, para que a visse, opinasse sobre se eu estava a ver bem, se o meu alarme seria fundado. Internei-a no quarto entre as duas enfermarias, para que a mãe pudesse ficar junto e a  agitação da doente não contagiasse as outras internadas. Andei por perto o tempo todo, ia a casa, mas a apreensão fazia-me voltar ao hospital. Era difícil mantê-la com oxigénio, aquela tripinha de plástico, enfiada no nariz abaulado, incomodava-a, arrancava-a; o braço canalizado estava amarrado a uma tala de madeira para que não acontecesse o mesmo ao soro de onde pingava o antibiótico. Durante a noite afundou-se e, manhã cedo, perante os meus olhos e uma adrenalina que não serviu de nada, vi-a partir para o lado de lá com uma tremenda sensação de inutilidade... Inútil eu, inútil ela, inútil tudo aquilo, uma inutilidade pegada. A irmã Celeste, captando o meu abatimento, reafirmou a sua convicção existencial de que tudo era pelo melhor:
“Não se rale, Dr. Pedro, a esta hora já está a caminho do Céu...”
Talvez. Eu, sentindo-me livre, fui-me, caminho do Açucareiro, tomar o pequeno-almoço e um whisky com o café.
Famous Grouse!”, disse o Rui quando se me juntou, reconhecendo a bebida pelo gole que tomou emprestado ao meu cálice, “estás a beber dessa merda!?”
“Não há outro... O helicóptero não tem vindo...”  


41


Nos primeiros dias de Dezembro, ao, finalmente, encaixar a amplitude da pulsação dos médicos da Periferia que ainda restavam pelos Açores, o Porão da Nau inquietou-se, viu-se compelido a aliviar os cordões à bolsa onde escondia os segredos do ofício.
Um pouco por todas as ilhas, a malta começara a soprar o pó às malas de porão, recalculavam-se e recombinavam-se os dias de férias restantes, para que os mais afortunados pudessem ir passar o Natal a casa e já não regressassem. Oficialmente, o Serviço Médico à Periferia iniciava-se a 1 de Janeiro e terminava a 31 de Dezembro: no dia 2 de Janeiro do ano seguinte todos devíamos estar a apresentar-nos no hospital de origem. No caso dos Açores, é certo, a nossa fornada fora enviada para o arquipélago apenas em Fevereiro, mas a responsabilidade pelo atraso era da organização, pois o rebanho estava pronto a partir desde o Ano Novo de 1979.
Claro que foi com esse pretexto legal que eles nos vieram – o de só completarmos os doze meses de missão a 31 de Janeiro de 1980 – mas, de facto, tivemos de aguentar mais um mês porque nada estava preparado no Continente para envio de uma nova remessa de médicos para os Açores e para a Madeira. Negligência deles, sacrifício nosso. O costume!
A raiva colectiva soergueu-se como uma onda e, como antídoto, o Porão da Nau atirou-lhe para cima com o argumento normativo de só se poder deixar um posto em caso de substituição efectiva; com o juramento de Hipócrates e mais todas os quebra-mares burocráticos de que se foi lembrando. Valeu-lhe a nossa dispersão geográfica, a falta de coesão profissional, a inexperiência; o nosso representante, que defendia mais os patrões do que os representados.
Abandonados à nossa sorte, dei comigo a combinar com o Rui como iríamos fazer, e ele, como passara dois meses seguidos fora da ilha e não estando demasiado interessado em ir a casa nas Festas, não se incomodou ante a perspectiva de ficar a alombar, sozinho, o Natal e a passagem de Ano: eu regressaria a 5 de Janeiro. Eram, precisamente, os dias de férias que me sobravam e o melhor seria queimá-los, pois ninguém me assegurava que, mais tarde, no Continente, os fossem considerar válidos. Dá-lo por garantido, seria como mudar para outro país e invocar direito alienígenas.
Parti de Santa Cruz a 22 e deambulei por uma consoada que, embora tenha posto na mesa bacalhau e peru, não foi carne nem peixe; estive por ali em jeito de corpo presente. Não posso dizer que tivesse saudades da Graciosa ou preferisse lá estar, mas acabei a telefonar para saber como ia tudo, a operadora da Terceira contente com a variação de estar a falar comigo a partir do Porto e a desejar-me boas festas, extensíveis à “mãezinha e ao paizinho”. Em Santa Cruz ia tudo rolando, os Barcelos tinham-no convidado para jantar nos dois dias de Natal; o doente da motosserra continuava internado mas “já faz jus à espécie”, como dizia o Rui para informar que já apertava o polegar contra o dedo mínimo. Fiquei muito animado com a notícia, mal entrei na sala contei ao meu pai, que ia remexendo as achas da lareira com a tenaz, enquanto ouvia novidades sobre um caso que já conhecia. 
Umas duas semanas antes, aparecera-nos um desgraçado na Urgência, aos uivos e com o lençol que o cobria na maca alagado em sangue vivo. Aos arrancos, contou que andava a desbastar uma árvore e a motosserra resvalara sobre a mão que segurava o ramo até quase decepar o polegar da mão esquerda. A zona de esfacelo era uma cagada de sangue empastado e sangue ainda a babar; o ferimento expusera a articulação entre a primeira e a segunda falange e o nacarado dos tendões. Uma merda! Uma merda acima das nossas capacidades técnicas formais, aquilo era assunto para cirurgiões diplomados e não para estagiários como nós. Mas o tempo não desdenhava Dezembro, as brumas cobriam tudo e um vento danado, em vez de as levar, parecia compor uma estola branca em torno da ilha, tornando o mar lívido. “Helicóptero, fodias-te!”, era como costumávamos resumir situações similares. E, então, relembrando os ensinamentos do meu pai e do Dr. Raul Figueiredo, chefe de serviço de cirurgia em Guimarães, nossos mestres em tudo quanto sabíamos praticar na precisa arte dos barbeiros, resolvemos agir: é que os tendões quando seccionados, e à medida que as horas passam, tendem a retrair e depois não se conseguem justapor e costurar, e, sem tendões, uma mão fica como uma marioneta sem fios, isto é: parada, sem préstimo para todo o sempre. Por outro lado, se aguardássemos passivamente o bom tempo e o transporte aéreo, a mão poderia gangrenar e, quando o doente chegasse ao hospital da Terceira, só restaria amputá-la... Pesado tudo isto, para grande alegria das Irmãs, o bloco operatório foi arrancado à sua tristeza fria de abandono. As luzes sobre a mesa operatória acenderam-se, os ferros cirúrgicos tilintaram nos tabuleiros e a irmã Noémia arrastou para dentro da sala um aquecedor a óleo, a quebrar a atmosfera de barco naufragado que ali reinava. Por lá estivemos – o Rui, eu e o enxame das freiras – umas boas duas horas, a laquear vasos que teimavam em sangrar, a limpar esquírolas de osso e farrapos lacerados de pele, a reconstituir, com o credo na boca, os topos avessos dos tendões. O doente gemia, lamentava-se, tentava espreitar o que lhe fazíamos; um de nós injectava um pouco mais da anestesia, que íamos infiltrando por planos à medida que avançávamos carne dentro; brincávamos com a sua ansiedade e com a nossa:
“Não fale, amigo, senão a anestesia sai-lhe pela boca...”
Analgésicos, antibiótico, um soro reforçado para ajudar a recompor o sangue perdido. Quando chegámos a casa estávamos exaustos, tresandávamos ao fedor a preservativo das luvas de borracha; eu parecia um Quasímodo, as costas num feixe por estar tanto tempo dobrado. Pensámos telefonar aos colegas de Angra, a contar o sucedido, a pedir instruções e sugestões para o pós-operatório, mas acabei por ligar antes ao meu pai, que, ao contrário do que iria suceder com Angra, quis conhecer os pormenores do incidente e ouviu religiosamente a descrição dos procedimentos cirúrgicos. No seu ver experiente, tínhamos feito tudo quanto podia ser feito e, se as coisas corressem mal no futuro próximo, o pior que poderia acontecer era o homem perder o dedo, mas isso sucederia em qualquer lado, na Graciosa ou em Angra do Heroísmo. Por isso, as notícias do Rui sobre o doente da motosserra me causaram tanta satisfação e as levei, tão entusiasmado, à beira da lareira.
“Esse teu amigo é um ponto...”, ria-se o meu pai do modo darwiniano como o Rui referira o retomar da capacidade de oposição polegar-mindinho, “mas é isso mesmo. A mão pode não ficar muito bonita – acho que não vai ficar – mas, aqui, o importante é que funcione!” 
A noite de passagem de ano foi uma merda, é sempre, abusei mais do que a conta e no dia seguinte, estava com uma tremenda ressaca. Por volta das quatro e meia da tarde, levantara-me há pouco, a rádio deu a notícia: terramoto nos Açores, violentíssimo: 7,2 na escala de Richter; diziam que Angra do Heroísmo ficara praticamente destruída, os mortos, numa primeira contagem, eram acima de cinquenta e os desalojados aos milhares... São Jorge e a Graciosa também tinham sido afectados; o epicentro fora no fundo do mar, uma linha submarina algures entre a Terceira e a Graciosa.
Tentei ligar para Santa Cruz: ninguém atendeu. Não consegui, sequer, falar com alguém na Terceira, fosse no hotel ou nos números da Direcção Regional de Saúde. Telefonei ao Paulo Amorim, que estava no Continente como eu: não sabia de nada, nem sequer do terramoto! Ficámos de nos contactar, o primeiro que tivesse notícias. À noite, já tarde, ele ligou de volta: alguém lhe telefonara, estavam a arrebanhar tudo quanto podiam no Continente, a organizar equipas e transportes. Decidimos ir por conta própria e pelos nossos meios. A minha mãe gemeu de aflição com a resolução; aquilo, por lá, a abanar como um dente de leite. No dia seguinte o Paulo e eu partimos para Lisboa e a 3 de Janeiro, uma quinta-feira, muito cedo pela manhã, o avião da TAP sobrevoou a Terceira. Ia no lugar à janela e o mais parecido que vira com aquilo eram fotografias de Londres, ou de Berlim, após os bombardeamentos, amigos ou inimigos, da II Guerra Mundial. 


42


Ilha Terceira, 1980.
Apesar do caos anunciado nos noticiários, havia táxis no aeroporto. O nosso motorista era do género calado e fez a viagem entre as Lajes e Angra em silêncio. Ou talvez não fosse esse o seu género e o que acontecera o tivesse emudecido. Alinhei pelo diapasão enquanto ia olhando, incrédulo, as ruas e ruas de casas destruídas, sem telhados, paredes esboroadas, traves-mestras caídas ou penduradas como se fossem palitos. Tudo deserto. Onde estavam as pessoas? Tinha passado ali um exército e, alertadas, as gentes anteciparam-se e fugiram, ocorreu-me ao cruzarmos dois jipes americanos... O ar, outrora tão límpido e marítimo, estava espesso, amarelado, devia ainda haver muita poeira suspensa no ar, que ainda não tinha tido tempo de assentar e conspurcar o verde vivo dos campos com as cores do deserto.
A meu lado, o Paulo reagia desajustadamente aos estímulos visuais e, cutucando com frequência o meu cotovelo, apontava uma ruína especialmente vistosa, como um poste eléctrico meio tombado com os fios ainda pendurados, e dizia:
“Já viste aquilo?”, após o que se torcia de riso, um riso contido, de mão na boca, mas suficientemente estridente e disparatado para o chauffeur começar a espiar-nos pelo retrovisor. E assim fomos até ao Hotel Angra, entre risadas e silêncios, e era tudo tão absurdo que me senti supérfluo quando, ao pagar, confessei ao homem:
“Desculpe o meu colega. Quando fica nervoso, dá-lhe para rir...”
Angra do Heroísmo (ilha Terceira), 1880
Na Direcção Regional, tropeçámos num Porão da Nau enlouquecido de iniciativa; foi inútil ficarmos à espera nas cadeiras em frente à sua secretária, como nos tinha ordenado com um “sentem-se, venho já...”
Não vinha. Entrava, sentava-se, puxava uns meios-óculos para o nariz e logo se levantava com um papel, saía; ouvíamo-lo atender um telefone na sala ao lado, gritar com uma secretária. Numa das passagens pelo gabinete, como se tivesse acabado de fabricar a notícia, informou:
“Serrano, está tudo combinado. Amanhã, o almirante Silva Horta vai fazer um reconhecimento às ilhas do grupo central, deixa-o na Graciosa. Vá ter às Lajes, de manhã, cedo...”
“A que horas, mais ou menos?”, quis saber, estranhando, ao mesmo tempo, que um almirante se fizesse ao mar por uma base aérea.
Ele encolheu os ombros. Tinha mais o que fazer. 
Ao contrário do que podia supor, a boleia foi em helicóptero e não numa fragata ou num contratorpedeiro e o almirante não apareceu vestido em brancos e dourados, como o homem dos gelados. O almirante Silva Horta[17] era um afável cavalheiro de fato e gravata, dos seus cinquenta e muitos e ar britânico. Desempenhava o cargo de Ministro da República para os Açores – uma espécie de governador civil de luxo – e o seu maior interesse naquele giro por sobre as ilhas era verificar o que se passara em S. Jorge onde, constava, uma ponta da ilha teria rachado e caído ao mar, populações inteiras isoladas que urgia evacuar. Em caminho pousariam na Graciosa para me despejar. 
Assim se passou e sobrevoámos primeiro S. Jorge, onde, de facto, uma das extremidades da ilha abatera e caíra à água. Com o tempo, o que não ficasse sepultado no mar transformar-se-ia numa nova fajã: tornar-se-ia verde e fértil, os homens construiriam naquele novo território que passara de vertical a horizontal. Ainda se notavam as monstruosas fissuras e a rocha parecia viva, como se ainda  sangrasse pela brecha. No interior do helicóptero comentava-se que pedaços inteiros de floresta tinham mergulhado no mar, a pique, e que uma lâmina de água se elevara até quase atingir o topo duma arriba. Seis pessoas morreram e três estavam desaparecidas, mas ninguém contava revê-las, pois, à hora do abalo, andavam muito perto da zona da fractura.
Almirante Silva Horta.
Na Graciosa, pelo contrário, não morrera ninguém, havia algumas casas  destruídas  e o aumento de urgências no hospital ficara a dever-se ao pânico e à descompensação de situações psiquiátricas. Nas enfermarias, preventivamente, as camas tinham sido afastadas das paredes alguns palmos, o que conferia um estranho ar ao local, como se os leitos fossem jangadas a vogar num soalho encerado.
Até deixarmos definitivamente a ilha, quase um mês mais tarde, a terra tremeu diariamente. A maior parte das vezes não nos dávamos sequer conta, outras estávamos a jantar e o lustre da D. Irene fazia tilintar sobre as nossas cabeças o vidro dos penduricalhos prismáticos. Outras ocasiões, era o boneco de porcelana sobre a TV dos Barcelos que tremia, suspendíamos a atenção ao telejornal em diferido e olhávamos uns para os outros por uns segundos, não muitos. 
No dia seguinte, remexendo o seu café cheio no Açucareiro, o Sr. Medina perguntava-me pela réplica, se sentira a da véspera.
“Qual delas, Sr. Medina?”, inquiria-o, irónico.
“A das 20:35”, dizia ele muito sério, fazendo-me pensar ser bem possível que mantivesse uma anotação sistematizada dos abalos em papel pautado do Tribunal e que seria, por isso, algo arriscado retorquir com um:
“Essa, confesso que não, só a que passou às 21 e 23...”   




43


Ilha Graciosa.
O barco está ancorado ao largo, os baús seguem já mar fora no batelão, empinados para que o resto da carga a embarcar caiba; faço ideia como as coisas que arrumei, tão pressurosa e logicamente, devem ir lá dentro! Graças a Deus decidi levar o Aiwa na bagagem de mão, pois assustaram-me as informações sobre o futuro levantamento dos baús em Leixões. Quando chegarem, sabe-se lá quando, terão de ser desalfandegadas como se estivessem a chegar da Venezuela ou de Beirute e o Aiwa, japonês e comprado no Porto, iria, certamente, ser tomado por contrabando americano! Vamos ter de contratar um despachante, pagar não sei quantas taxas, como se estivéssemos a importar um bem do estrangeiro e os Açores não fossem território nacional. Por tudo o que vi este ano, de ambos os lados do oceano, quase duvido que o seja.
Lá longe, um guincho puxa uma rede de carga até ao convés, os baús não são mais do que caixas de fósforos suspensas no vácuo. O escaler regressa à enseada para nos buscar. A Luísa e a Marília vieram despedir-se. Comecei a enfiar coisas na arca há uma semana, como modo de selar e tornar sem retorno a última discussão que tivemos com o Porão da Nau. Janeiro a desaparecer do calendário e ele a insinuar que poderíamos ter de ficar mais algum tempo, entrar por Fevereiro dentro, tornar indefinido o regresso. 
“No dia 1 de Fevereiro, o mais tardar, saímos daqui. Se não tiver ninguém para nos substituir, pior, o problema é do senhor...”
A isso acrescentámos a lembrança das urgências ainda não pagas, ameaçámos que iríamos passar por lá a buscar o dinheiro, que não sairíamos dos Açores sem ele, e mais outras exaltações de que nos lembrámos no momento. Como paga, nada de helicóptero para o regresso: se queríamos ir embora, então que enjoássemos o mar de Inverno, que amarinhássemos por escadas de corda bamba. 
À força de “Ei!” chamam-nos do escaler, urgem-nos a que nos apressemos, o mar está bravio, a tarde avança. A Marília e a Luísa abraçam-nos, estão comovidas por ver os companheiros de exílio partir, o coração pequeno por ficarem. Pela metade do trajecto até ao barco ainda acenam do cais, depois tornam-se ciscos quase indistintos, iguais aos outros que deambulam em terra. 
Do convés fico por um tempo a ver a ilha afastar-se, primeiro parece aumentar de tamanho à medida que se alarga o seu contorno, em seguida vai recuando, recuando, até se tornar um rochedo como outro qualquer, nem parece haver  sinais de vida por ali. Sinto o frio e vou para dentro. 


Epílogo


Nunca mais voltei aos Açores, nem ideia de lá voltar tão cedo enriquecia as minhas intenções. Mas o tempo rodou e, na segunda metade dos anos 80, quis o acaso que integrasse uma Comissão, dependente de serviços centrais do Ministério da Saúde, com atribuições na formação e especialização de médicos. E decidiu o presidente desse grupo que, anualmente, uma das reuniões de trabalho da Comissão tivesse ordinariamente lugar nas regiões autónomas: seria um modo pratico de acompanhar in loco o que ali se passava. 
Nos Açores reuníamos alternadamente em S. Miguel, na Terceira ou no Faial, este último o destino secretamente preferido da maioria, pois aquele conjunto de três ilhas à vista umas das outras – Faial, Pico, S. Jorge – animava o mar e diluía a sensação de isolamento, mesmo para quem, como nós, estava de passagem. 
O esquema da visita de trabalho obedecia, sem rigidez, a um modelo prático: íamos chegando na quinta à tarde, na sexta era o dia da prolongada reunião e, no Sábado, vestíamos a pele do turista e dávamos uma volta pela ilha antes de regressar ao Continente no dia seguinte, de manhã ou à tarde conforme os voos. Nessas excursões de Sábado, era-nos geralmente posta à disposição uma carrinha e um colega local acompanhava-nos no passeio, durante o qual ia identificando e explicando os locais por onde passávamos. Às vezes, ganhando certa cor de cronicidade com o decorrer dos anos, de um dos bancos da camioneta surgia uma pergunta que se me destinava:
“Não foste tu que estiveste aqui na Periferia?”
“Sim”, respondia, monocórdico, “mas não foi aqui, foi na Graciosa...”
Já mais recentemente, numa dessas viagens insulares da Comissão ao Faial (Comissão que evoluíra e se chamava agora Conselho), demos, no Sábado, uma volta pela ilha e, porque já fôramos repetidas vezes visitar o vulcão dos Capelinhos e o museu adjacente, levaram-nos a esmiuçar as vistas da costa norte da ilha. Era um dia de Verão – talvez Junho ou Julho –, uma fina poalha, feita de evaporação, pairava no ar e eu seguia amodorrado no meu assento, olhando a paisagem sem a ver, sonolento e a pensar como seria bom parar para um café. 
Às tantas, senti a carrinha abrandar à berma da estrada e, estremunhado, inquiri ao outro lado da coxia:
“O que é, porque paramos?”
O meu interlocutor encolheu os ombros, acrescentou: “Algum miradouro, alguma ermida com azulejos...”
Maquinalmente, fomos deixando o veículo e, quando desci os degraus, havia já gente de mão em pala na testa ou a assestar a máquina fotográfica. Encabeçando um amontoado de três ou quatro almas, a colega do Faial avançara até à ponta da arriba e, esticando o braço, informava:
“Conseguem ver, ali, ao fundo? É a Graciosa... Hoje estamos com sorte, pois nem sempre se vê.”
Olhei, franzi os olhos, quase desafiei o horizonte, mas o máximo que consegui individualizar, quase imaginar, lá longe, no limite do azul, foi uma linha brilhante   que tanto podia ser terra como um reflexo de luz boiando à tona do oceano.

  
Fevereiro/Outubro 2018

 Notas:

(1 )SLAT – Serviço de Luta Antituberculosa.
[2] FNAT – Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho, que viria, após o 25 de Abril de 1974, a ser substituída pelo INATEL.
[3] Serviço de Luta Antituberculosa.
[4] “Cálice”, de Gilberto Gil e Chico Buarque, 1978.
[5] Livro do Apocalipse 8:3.
[6] Livro do Apocalipse 8:4.
[7] AVC – Acidente vascular cerebral.
[8] Sófocles, Ájax (vv. 130-131).

 (9) Da canção “Over the Rainbow”, de Arlen-Harburg, um dos temas musicais do filme O Feiticeiro de Oz, realizado por Victor Fleming em 1940 e cuja protagonista principal é Judy Garland. 

(10) Do álbum Meddle, Pink Floyd, 1971.
[11] Álbum dos Pink Floyd (canção “Money”), 1973. 
[12] Nova versão, realizada em 1976 por John Guillermin, do filme original realizado em 1933 por Merian Cooperand e Ernest Schoedsack.
[13] Em 1982, os casos novos de tuberculose diagnosticados foram de 71,5 por cem mil habitantes no Continente e de 202,1 nos Açores, isto é, foram detectados quase o triplo de casos na região autónoma (dados do Instituto Nacional de Estatística). Compare-se, por exemplo, este panorama com os valores da mesma taxa, em 1980, nos Estados Unidos da América: 12,3 casos de tuberculose por cem mil habitantes, ou seja, aproximadamente um número 6 vezes inferior ao do Continente e 18 vezes inferior ao dos Açores. 
[14] Breezin’, 1976. “This Masquerade”, de Leon Russell, excerto: “Are we really happy with/This lonely game we play/Looking for the right words to say/Searching but not finding/Understanding  anyway/We're lost in this masquerade./Both afraid to say we're just too far away/From being close together from the start/We tried to talk it over/But the words got in the way/We're lost inside this lonely game we play./Thoughts of leaving disappear/Each time I see your eyes/And no matter how hard I try/To understand the reason/Why we carry on this way/And we're lost in this masquerade.” 
[15] “Que Reste-t-il de nos amours?” (“I Wish You Love” na versão inglesa), música e poema de Charles Trenet, letra inglesa de Lee Wilson.
[16] Nat King Cole – At The Sands, 1960.
[17] Henrique Afonso Silva Horta (1920/2012), almirante da Marinha. Governador de Cabo Verde na fase de transição para a independência, e Ministro da República para a Região Autónoma dos Açores, 1978-1981. 


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