28 março 2018

QUANDO AS ROSAS FALAM


     Queixo-me às rosas
     Mas que bobagem
     As rosas não falam
     Simplesmente as rosas exalam

        “As Rosas Não Falam”, Cartola.

Ao que parece, a Dr.ª Rosa Zorrinho, uma senhora dona de um nome ricamente relinchante, teve finalmente uma ideia.
Actualmente Secretária de estado da Saúde e de quem, profissionalmente, o que de mais vincado se lhe conhece é a velocidade com que se dispõe substituir dirigentes afastados por escândalo ou trapaça, esta senhora apresentou-se há meses na tomada de posse – na embaraçosa demissão de Manuel Delgado, a quem sucedia – em esfusiante disposição, escancarando sorrisos e erguendo braços em dinâmicos gestos de surpresa (“oh, então também tu por aqui?”), preâmbulo ao distribuir de abraços e beijinhos por quem estava no Palácio de Belém, parecendo não se aperceber da circunspecção fria da cerimónia e usando da mesmíssima soltura que exibiria nas festas de Natal das Administrações Regionais de Saúde por onde passou.
Desde aí nada mais veio a lume sobre a nova alta dirigente, até que hoje (27 de Março, dia histórico) os jornais nos dão conta de uma ideia para a Saúde de Rosa Zorrinho: a Sr.ª Secretária de Estado propõe-se contribuir para a felicidade de médicos, enfermeiros e outros profissionais do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Ela mesmo explica de onde lhe proveio a iluminação:
“Recentemente, Portugal fez parte do grupo fundador de países que subscreveu a Declaração Conjunta da Coligação Global para a Felicidade”, pelo que ela quer também contribuir “de forma clara para este desígnio”. E qual será a tal forma clara, perguntar-se-á o leitor, profissional de saúde ou mero utente do SNS? Os mais imediatistas e materialistas ficarão, porventura, a magicar em medidas que melhorem os rapados ordenados de médicos e enfermeiros – e os fazem voar para outras paragens; talvez na abertura rápida de concursos para preenchimento dos rarefeitos mapas de pessoal dos estabelecimentos de saúde; num enquadramento em carreira que preveja o modo de progredir na profissão; no pagamento, cronicamente atrasado, de horas devidas por trabalho já efectuado. Outros, focando-se mais a montante, mas ainda assim demasiado apegados ao mundo material, talvez associem as divulgadas “depressões” e “burnouts” dos profissionais de saúde ao ambiente de guerrilha ou às condições de terceiro mundo em que muitos deles trabalham e sob as quais fazem o que podem: hospitais sem recursos para  tomar simples medidas de manutenção ou contratar pessoal; ausência de dinheiro e de autorização para pagar a fornecedores, para comprar bens de primeira necessidade; à pressão ética e humana para atender e tratar, que, de quando em quando, obriga médicos à gincana ilegal de sugerir a familiares de doentes que vão à farmácia mais próxima comprar – do próprio bolso – um medicamento que se acabou no hospital; talvez que esse estafamento e desânimo tenha até sido influenciado pelas alterações aos procedimentos médicos, ao forçar do calendário da janela de tempo para um tratamento adequado, prorrogados por falta de meios, avaria de equipamento ou equipas claudicantes.
Que disparate, o de quem assim raciocina! Que derrotismo! A felicidade está além do que os olhos veem, sobrevoa o comezinho e, aliás, é desiderato tão simples de alcançar que será suficiente um modesto grupo de trabalho para que, em nada mais do que um par de meses, seja legítimo pintar todo o SNS cor-de-Rosa! Será este o grande contributo de Rosa, por isso será lembrada e inscreverá o seu nome na história do SNS. Até lá, que os profissionais não se deixem tomar pelo desespero ou pelo burnout: em breve terão à disposição maravilhosos folhetos ilustrados, recheados de medidas e orientações, onde aprenderão a conciliar a vida profissional com a pessoal; através dos quais passarão a beneficiar de espectaculares promoções de estilos de vida saudáveis! Ainda em plena primavera passarão a sentir-se mais felizes e a fazer parte integrante de um SNSgold.
E se aos profissionais espera este mundo maravilhoso, talvez não seja demasiado atrevimento perguntar o que, na nova realidade da Coligação Global para a Felicidade, poderão ambicionar aqueles que, segundo a carta de missão do SNS, são os seus destinatários, isto é: os doentes ou, na sua versão mais alargada, os utentes. Estou em crer que esses mal-agradecidos, essa amálgama de gente sem visão, se contentaria até com estados de alma menos serotonina-em-alta; é mesmo expectável que se, em vez da felicidade, lhes oferecessem consultas a horas e no dia marcado; diagnósticos atempados; tratamentos e operações compatíveis com a espera razoável para o mal que tem... e – se não fosse pedir muito – uma cama numa enfermaria em vez de uma maca num corredor; um modo humano de ser ouvido por quem se debruça sobre ele, uma explicação do que está ali a fazer e de para onde irá a seguir.... Estou em crer que se contentariam, que se consolariam.
Ingratos!Ficam-se pelo consolo quando podiam ambicionar a felicidade!

27 março 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 10. Sorte e Destino

Daqui a três meses faço 26 anos, o que, a esta distância em que escrevo, me parece pouco, muito pouco; actualmente as pessoas com quem convivo referem-se a gente dessa idade como “miúdos”. Mas não era nessa categoria tão verde e desculpável que se sentia pertencer o personagem que, nesse Março de 1979, deambulava – corcovado para resistir ao vento – as ruas de Santa Cruz da Graciosa.
Eu fôra para ali no decorrer de um processo que já me fermentava na cabeça e buscava algo como uma troca de pele e de personalidade, como fazem as serpentes para se renovar. Intenções. Com vinte e cinco anos e uma – cria eu – longa acumulação de desvarios e episódios amorosos, ganhava terreno em mim a vontade de mudar de vida, assentar, o que incluía seguir o meu caminho, o qual não sabia qual seria mas, ponto dado como adquirido, incluiria uma companhia feminina de longo prazo, se não eterna ao menos definitiva como a existência por vezes nos parece. Estava enjoado da vida sexy que levava, rai’s partisse o jugo da sensualidade, a sedução, e quem lá andasse. E aquela coisa da ilha até que tinha calhado bem, funcionaria como a linha traçada na poeira com um graveto: “isto é a fronteira; tu agora não podias passar daqui, nem saltar por cima”; no fundo, quanto mais solitário o desterro, melhor: levaria os livros que achava ter de ler e nunca lera, e lá estavam a saltar da minha arca furta-cores os sete volumes do À La Recherche du Temps Perdu, do Proust. Ter tempo para, finalmente, traduzir para português a versão do Tarot do Oswald Wirth – também viajara no baú, na companhia dos respectivos arcanos maiores. Estudar medicina (de que sabia estupidamente pouco); firmar uma troca de correspondência com pessoas seleccionadas (actividade que julgava tão apropriada a uma ilha como o eleger do rum para bebida oficial); manter-me solitariamente afastado como forma de ascese espiritual – eu não conheceria ninguém no lugar para onde iria, conservar-me-ia longínquo e evitaria flirts, namoros ou qualquer outra espécie de contacto dessa natureza. Este celibato observaria mais do que um objectivo, um deles acautelava a eventual veracidade das histórias que se ouviam sobre a disposição das fêmeas açorianas em lançar mão de todos os subterfúgios da sereia para escaparem ao destino insular. E eu, em paradoxo com a minha ânsia de isolamento, já me sentia tremer de horror ao imaginar-me, por toda a existência, encatrafiado numa ilha a empurrar carrinhos de bebé pelo empedrado vulcânico, a engolir as sopas de pão das festas do Senhor Santo Cristo! Com esse celibato autoimposto observaria também outro dos mandamentos que me traçara: a fidelidade a um ser concreto. Uns curtos dois meses antes de embarcar para os Açores eu estava certo de ter encontrado finalmente a tal companhia feminina duradoura; a tal que me levaria a outro patamar da existência e preenchia, na minha exigente checklist mental, os quadradinhos de verificação onde riscara uma cruz: bonita, inteligente, gostável, com pinta – termo que então se usava para com classe, e dona de uma ponta de irreverência a desabrochar. Chamava-se João, tinha vinte e dois anos, deslocava-se numa Vespa vermelha, usava chapéus moles Burberry, e estava a terminar o curso de enfermagem na escola do IPO de Lisboa, a espécie mais chic das escolas de enfermagem desses dias. Antes disso cursara um ano em Medicina, mas tinha urgência em ser útil e achara os estudos médicos demasiado arrastados no tempo.
Tudo isto que agora a rememoração retrospectiva define em contornos tão nítidos, tal peças de puzzle que encaixam sem folga, não o era, ou não o parecia ser, na época em que as coisas sucediam, pois aos vinte a vida parece-nos mais uma fotografia do que um filme; uma imagem fixa onde, para além das bordas do papel fotográfico, nada existe que se relacione connosco. Ou seja, e comparando-me a um potro candidato a puxar a carroça do primeiro emprego, eu relinchava e escoiceava naquele processo de me habilitar a seguir um caminho em que seria a besta de carga e o cocheiro. Seria aquele o melhor caminho? Seria aquele o único caminho? Seria aquele o meu caminho? Qualquer decisão que viesse a tomar me parecia rigidamente definitiva e capaz de vincular todo o meu destino por séculos de arrependimento. Mas, enfim, uma ideia confusa persistia na bruma, a vontade de a cumprir também, e a personagem que deambulava pelas ruas da ilha – inclinado contra o vento – estava, a contragosto e capaz de o negar sobre qualquer um dos livros sagrados, tão eriçada de intenções e de princípios como os ouriços-do-mar do Carapacho de espinhos. Longos são os desertos e muitos os oásis.
O Rui partilhava uma boa mão cheia dos meus propósitos, um deles acabadinho de ser chutado ao mar por ambos. Conhecíamos-nos há sete anos, desde os primórdios na Faculdade, e vivêramos os dois últimos nas mesmas casas, os nossos primeiros dias fora das respectivas casas paternas e no dealbar da vida profissional. E, apreciada a experiência e a aprendizagem, os dois concordáramos que era hora de cada um seguir o seu caminho, de nos aventurarmos em separado; de maneira que tendo ambos decidido ir para os Açores durante a Periferia, o faríamos em ilhas diversas: ele a norte, nas Flores, e eu na Graciosa. E estava tudo mais que claro e decidido nas nossas cabeças até a esse dia da escolha no salão da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em que soubemos que as Flores já fora escolhida por um grupinho de quatro colegas. Logo depois, a realidade desnudou uma nova aresta: para além de mim, mais ninguém queria ou se sujeitava a ir para a Graciosa e eu não poderia servir sozinho uma população de 7.000 habitantes! Estavam planeados quatro médicos para a ilha, no ano anterior tinham lá estado três e, mesmo assim, não fora fácil. Comigo em silêncio, o Rui suspirou e lá se chegou à frente para a escala na Graciosa.
“É o destino”, aquilata ele sorvendo um pouco de whisky e ajeitando-se regaladamente no sofá das Barcelos, enquanto a TV aquece para mais um episódio do Dancing Days. Santo Deus, aquela Vera Lúcia – que tesãozinho!
© Imagens (de cima para baixo): 1) Quatro arcanos maiores do Tarot de Oswald Wirth, 1966; 2) Fotografia: Escola Técnica de Enfermeiras (IPO de Lisboa), Junho 1979, fotógrafo desconhecido.

25 março 2018

SACO ROTO (rescaldo dos incêndios)

Estava-se a ver, se tivermos em conta o que a casa gasta e os antecedentes, isto é, as reacções prévias, proferidas e bolsadas durante os dois incêndios, primeiro o de Pedrogão e depois os de Outubro. “Não tenho nada a ver com isso, a culpa é deles”, sendo este eles primeiro as vítimas e, em seguida, quando as reacções nacionais de indignação lhes surpreenderam os barómetros eleitorais, os outros, aqueles em quem podem mandar, naquela escala descendente de grito e ameaça que só pára no mexilhão. Era bom de prever.
E como, graças a Deus, já se tinham livrado da chorona dos abraços e do  respectivo ajudante, puderam mandar o animal de águas profundas, a suprema enguia, a lampreia catedrática, enfrentar as câmaras da TV, agora que alguém se tinha de chegar à frente após a divulgação pública do relatório sobre os incêndios de Outubro da Comissão Independente.
Pobre Clara de Sousa, que foi quem, na SIC, aguentou o primeiro embate! No começo da entrevista fez o que lhe competia, perguntou, com assertividade, estribando-se nos resultados vindos a lume. Mas a enguia velha de serviço é perita – e isso integra o rol das suas habilitações – em não responder ao que se lhe pergunta, só conhece a pega de cernelha, e ora nos vinha com as condições meteorológicas de excepção (tipo: a culpa é dos céus mas a sua corte é inimputável) ou com o “a maior parte do que está no relatório já foi incorporado nas medidas do executivo”. Então e responsabilidades? Não há, diz ele nunca o dizendo. E o que podia ter sido feito e não foi? Não podia ter sido feito mais nada, aquilo foi uma piro-coisa excepcional. E o que tenciona o Governo fazer, tendo por base o que o relatório aponta e recomenda? Nada, diz ele sem o dizer, já está tudo incorporado.... E pronto, a enguia fez a sua dança, a boca circular cuidadosamente cerrada para que não se lhe espete o anzol, danificando a ventosa. E Clara desistiu, zonza de tanta elipse, estafada de tentar agarrar o vácuo e incapaz de igualar o fôlego destes animais de águas profundas, habituados a soltar cortinas de fumo e a enterrar-se no lodo só com os olhinhos de fora, a vigiar de que lado virá a próxima tempestade. Teve ainda tempo, o tal ser invertebrado, para deixar a nota engraçadinha de que o executivo é tão atento à equidade que até a quota dos géneros tem sido cumprida nos nomes de código justamente escolhidos para os furações: a seguir à Gisela virá o Hugo.
Com o grande exemplo público de um dos nossos mais hábeis governantes estava aberta a porta para se poder continuar a negar os resultados do relatório e a bicha constitui-se de imediato: lá veio o Mexia da EDP, a enguia eléctrica; lá veio o Costa, a enguia Vamos-Lá-Ver; lá reeditaram mesmo o Jorge Gomes, a enguia fumada; e tivemos de voltar a gramar os trejeitos mal sintonizados de Constança – a enguia cabisbaixa – na Assembleia da República.
Cabrita sapador.
Estava a levantar-me do sofá, a ir procurar algum bálsamo para a azia, quando apareceu na tela João Guerreiro, o responsável da Comissão Independente. No final da entrevista suspirei de consolo por parecer restar ainda alguém interessado em dizer o que é de dizer; de responder com frontalidade, serenidade e sensatez ao que lhe é perguntado, e com utilidade para quem ouve e quer ser informado. Vai valer-lhe de pouco, pobre senhor: já todos o amaldiçoam pelo trabalho isento e cuidado que produziu; já todos se indignam e apontam falhas; já todos se inscrevem para ir limpar pinhais e matas pelo país fora, os grandes timoneiros do país a exemplificar ao povo como, com umas piruetas e a faculdade de engolir e digerir seja o que for, qualquer um pode virar uma autêntica cabra sapador

24 março 2018

SERVIÇO MÉDICO À PERIFERIA: 9. Olhai as aves do céu

Não deixa de ser apropriado que, no mar, a velocidade, isto é, o cumprir da distância, se meça não em quilómetros mas sim em nós, uma escala de medida que não se percorre com a linearidade do quilómetro e terá de ser deslindada com a perseverança de quem, após os desfazer, recompõe um novelo apanhado por um gato. Estamos, aqui, a uns meros 45 km da Terceira, 49 de S. Jorge e sessenta e picos do Faial e do Pico. De carro, isto far-se-ia numa meia-hora, uma hora, vá lá; hora e meia se as estradas tivessem contracurvas. Por vezes consegue-se ver S. Jorge em dias claros, lá longe, um cisco acharutado ao rés do mar. Parece que há gente especialmente dotada que avista, de quando em vez, o Pico e, dizem que, em certa curva da estrada do Faial, se pode lobrigar o contorno da costa sul da Graciosa. Pessoalmente, nunca vi nada de nada a não ser o mar e esse pode ser cinza, branco, azul ou verde, tudo depende do céu e do vento.
Esta situação de só se ver mar, de se ouvir o mar em todo o lado, de a ilha ser plana como um prato e o horizonte se aguar constantemente, mexe connosco e é substancialmente agravada pela consciência de não podermos sair daqui quando nos apetece. Lá, na longínqua pátria, estivesse onde estivesse, por inóspito que fosse o lugarejo, enfiava-me num carro, num comboio ou numa camionete e ia onde se me desse ir, e a diferença que isso faz! Aqui, estamos todos presos, coarctados,  pousados nesta lágrima de pedra no meio do mar, às voltas como formigas numa côdea semissubmersa. Porto de mar não há e os barcos passam ao largo, são  traiçoeiros os baixios da ilha. Quanto ao helicóptero – Pumas da Força Aérea – está vedado ao público em geral, para o usar naturalmente é necessário estar a morrer e que o médico de serviço o ateste à Autoridade Marítima, que gere a lista de passageiros com mão de ferro e que, graças a este poder, alcandorou ao trono um dos tipos mais irascíveis e poderosos da terra. O delegado marítimo, um simples cabo ou sargento em qualquer outro lugar, tem aqui o poder da escolha e da retaliação e pode, a bel prazer, riscar um vulgar mortal da lista de passageiros para a próxima libelinha. O helicóptero vem habitualmente uma vez por semana, às terças de manhã, isto partindo do princípio que o tempo está de feição, pois pode acontecer que não lhe seja autorizado sequer levantar da base de Angra, ou enfrentar condições de vento e névoa que não lhe permitem pousar na Graciosa; chegaremos, no pino do inverno, a estar três semanas sem comunicações com o exterior, sem correio, sem substituição das garrafas de oxigénio da urgência. Quando pode voar e pousar, o Puma traz bens essenciais (dinheiro, correio, medicamentos) e algumas pessoas: dignitários, funcionários; doentes que regressam de internamentos e exames complementares de diagnóstico que foram fazer a Angra, a S. Miguel ou mesmo a Lisboa. Ao fazer-se de novo ao caminho, pouco mais de dez minutos após ter chegado, leva consigo uma dezena de eleitos que, estando de boa saúde, olham com regozijo os infelizes que pasmam ou acenam na periferia do campo de futebol enquanto eles se afastam no éter.
“Prá semana há mais”, rosna o delegado marítimo de forma a apaziguar quem não foi e a anunciar que, para a próxima tudo passará igualmente por ele.
Como médicos da ilha apercebemo-nos bem da teia de favores e das maroscas da autoridade marítima, pois temos o poder de desencadear, em situação de emergência médica, uma evacuação, que é como se chama a uma vinda excepcional do helicóptero. Quando isto acontece e o delegado marítimo vem a tomar conhecimento, sente-se como o corno do provérbio, mas, entretanto já nós acertámos com o hospital da Terceira e a Força Aérea a recepção e o transporte do caso urgente e a Sua Autoridade nada mais resta do que remexer à pressa na papelada e reordenar os jeitinhos alinhavados, pois mesmo em circunstância urgentes o helicóptero tem espaço para mais alguém além do doente e do seu angustiado familiar.
Resta, como prémio de consolação, à ilha que fica excitar-se como um voyeur a espreitar a chegada do pássaro sagrado. Toda a actividade de Santa Cruz estremece e se extingue nessa hora. Geralmente pressente-se a aproximação do helicóptero, o barulho do motor e do rotor das pás ouvem-se uns minutos antes e então, uns a pé e outros de carro, tudo se apressa em êxodo para o campo de futebol: eis o Araújo que sai apressado dos Correios, atravessa a rua e salta para o assento traseiro da nossa Dyane fumegante, enquanto os doentes que aguardavam vez vêm à porta do hospital assistir eles próprios à visão diferida do acontecimento que se aproxima, chegando alguns a correr mesmo rua fora em direcção ao heliporto, pois se nós lá estamos eles poderão também gozar a cena sem o risco de perder a consulta.
“Então, Sr. Araújo”, temos ainda tempo de perguntar ao nosso viajante, “mais uma viagem a buscar o correio?”
“Sim, sim”, responde ele, acrescentando, misterioso: “E pode ser que chegue também algum no estado líquido... Eu logo telefono, se tiver notícias.”
Quando chegámos à orla do relvado já lá está o Gasparinho da farmácia, de bata branca ao vento e o Sr. Medina, assertoado na sua gabardina de abas estralejantes, prestes a receber a correspondência oficial; e, pronto a avançar, de cabeça baixa, a proteger-se da guilhotina circular das hélices, o Sr. Francisco Barcelos, que nos confessou enjoar com as curvas do helicóptero e a quem prescrevemos Dramanine para o efeito, despede-se, nervoso, da esposa e das filhas, pois embora o negócio que o leva a Angra apenas lhe vá gastar um dia, só poderá regressar a casa daqui a uma semana, no próximo voo do Puma.
Observamos quem chega, e se desce alguém de novo, ainda nunca visto nas ruas da ilha ou no Açucareiro e o Oriolando acena-nos do lado de lá do campo, encostado à trave de uma baliza. Desta vez, que a gente conheça, regressou o Pombo da consulta a que o mandámos ao SLAT(1) de Angra. O Pombo é o veterinário da ilha e está tuberculoso, tem uma caverna no pulmão direito que ombreia com a das Furnas. Não se trata ou trata-se de forma irregular, fuma como um cão, bebe de mais, e tivemos de o enviar, quase à força, avaliar a sua situação e tentar perceber o risco de contágio que envolve. O Rui, que é o delegado de saúde, ameaçou que o afastaria compulsivamente do trabalho e que o proibiríamos de aparecer em nossa casa se nada fizesse. O gajo tem trinta e muito pouco anos e é bom homem, apenas um tresloucado incapaz de gerir a vida e o seu mal. Veio aqui parar, do continente, sem ter consciência para onde vinha e, embora já cá esteja há mais de um ano, acho que ainda não se apercebeu do que lhe provoca tanta instabilidade, pelo que reage numa girândola de direcções e confusões enquanto queima cigarros e engole copinhos de whisky, brandy e Angelica, um vinho licoroso de produção local com 17 graus de potência. Não sabemos a origem da tuberculose dele, se das vacas com quem lida no emprego ou se de outro mugidor de duas patas, pois a tuberculose abunda por aqui: o que temos a certeza é que o ter cuspido, após muitas fungadelas e umas tossidelas arrancadas às costelas, um escarro demonstrativo, estriado de sangue, para a floreira ao lado da nossa porta não é bom sinal, nem para ele nem para a saúde das nossas ervas daninhas!     
“Venho carregado de frascos e de drogas”, diz-nos numa voz roufenha, sentado no banco de trás da Dyane, “vou ter de engolir um cocktail delas durante oito meses, no mínimo! Depois, tenho de voltar lá...”
“Estás fodido, Pombo”, dizemos-lhes para o animar.    

1 - Serviço de Luta Antituberculosa.